domingo, 14 de fevereiro de 2016

FAÇA JÁ SUA GRANDE APOSTA

Calculando tudo pro grande bolão do Oscar da Lolinha

A foto acima, pra quem não reconheceu ou ainda não viu o filme, é de A Grande Aposta, um dos oito indicados a melhor filme de 2016.
Esse eu vi e gostei mais ou menos. Os atores estão todos ótimos (e praticamente todos são homens e brancos), parece ser contra o sistema, mas, pra falar a verdade, não dá pra entender muito bem o que se passa. De qualquer jeito, tem um bom ritmo. Talvez vendo Capitalismo, uma História de Amor, divertido documentário do Michael Moore (inteiro aqui, dublado), dê pra entender melhor.
Gente, daqui a duas semanas tem a cerimônia do Oscar. Participe do meu tradicional bolão para se animar um pouco. Pra entrar no bolão grátis, é só fazer suas apostas aqui.
Pra participar do bolão pago, tem que depositar R$ 20 na minha conta no Banco do Brasil, agência 3653-6, cc 32853-7, ou Santander, agência 3508, cc 010772760ou pagar R$ 22,20 no PayPal, mandar um email pra mim (lolaescreva@gmail.com) e pro Júlio César (jcaoalves@gmail.com), com cópia do comprovante, e fazer as apostas aqui
Aproveite que eu não estou com a menor intuição de que vencerei de novo este ano!

sábado, 13 de fevereiro de 2016

GUEST POST: SUGESTÕES DE ANIMES, PARTE 1

Laura é uma estudante de 17 anos, feminista desde criança, e que quer ser policial militar. 
Ela me enviou um email perguntando minha opinião sobre um universo que desconheço totalmente: o dos animes (me sinto pré-histórica em ter que escrever o que, quando todos meus alunxs sabem: animação japonesa). Pedi pra que ela me mandasse um guest post sobre o tema, e ela enviou um texto tão longo (mas muito interessante!) que vou publicá-lo em três partes. Esta é a primeira.

Quando eu te mandei um e-mail perguntando se você conhecia algo sobre animes, você respondeu que não e sugeriu que eu enviasse um guest post falando sobre o assunto e sobre meus animes favoritos, já que havia muitas pessoas que também não conheciam.
Eu acredito que muitos deixam de assistir animes apenas por preconceito. Não digo isso com a intenção de ofender ninguém. Só quero dizer que estamos acostumados com o padrão americano de televisão, e estranhamos algo diferente.
Eu vou falar sobre meus animes favoritos. São apenas sugestões, vocês podem gostar de algum outro que não esteja aqui. Observei, em comentários de outros posts, que há várias leitorxs do blog que assistem animes. Espero contar com a opinião de vocês também.
- Naruto e Naruto Shippuden: vou começar falando de um dos animes mais famosos. Naruto é um anime que fez parte da minha infância, e não podia deixar de estar aqui. Afinal, foi por causa dele que me interessei por animes. O anime mostra a história de Uzumaki Naruto, um garoto órfão que vive na Vila da Folha (Konoha). Quando ele era um bebê, uma raposa demônio, Kurama, quase destruiu a vila, matando muitos habitantes. 
O herói que impediu Kurama era o Hokage da época (Hokage é o título dado ao líder da vila). Para parar a raposa, o Hokage a selou (aprisionou) dentro do corpo de Naruto. O protagonista cresceu sem conhecer os pais, e sem saber que Kurama estava aprisionada dentro de si. Como ainda havia muito ódio e rancor pelas mortes causadas por Kurama, os outros habitantes da vila desprezavam Naruto, sem que o garoto soubesse o porquê. 
Naruto sempre se esforçou para chamar a atenção, e acabou desenvolvendo o sonho de se tornar um grande Hokage e ser reconhecido. O anime é sobre ninjas, e há várias outras histórias que se cruzam com a de Naruto, personagens com histórias tão ou mais marcantes que a do próprio protagonista. 
Como alguém que acompanha a história há anos, ao voltar para os primeiros episódios recentemente, pude perceber que, no começo, o estilo do anime era bem mais infantil, e vai amadurecendo aos poucos, junto com o próprio Naruto. É um dos meus animes favoritos, mas tem, na minha opinião, dois principais defeitos. 
Um deles é que alguns personagens não foram muito bem explorados, ou não tiveram seu potencial aproveitado. Vários, como Gaara, Neji, Tsunade e Itachi, tiveram histórias e sentimentos muito bem construídos, mas outros... Simplesmente não fizeram diferença na história. E alguns, como Anko, passaram a impressão de que seriam ótimos personagens quando apareceram pela primeira vez, mas depois parece que o escritor (Masashi Kishimoto) simplesmente os esqueceu. 
Outra coisa que me incomoda bastante (eu sei que eu deveria convencer vocês a assistir, mas acho importante também alertá-los sobre os defeitos) é que é possível perceber certo machismo. Digo, as personagens femininas são guerreiras também, e não donzelas indefesas, ou, como disse a personagem Tenten: "No campo de batalha, não importa se você é homem ou mulher". 
Temos mulheres com personalidades fortes como Temari e Tsunade. Mas eu diria que o principal problema está nos números: mulheres são sempre minoria nessa história. Só há uma mulher no grupo de vilões (Akatsuki). Só uma mulher no time principal. De todos os sete Hokages, apenas Tsunade era mulher. E por aí vai. Mas vale mencionar que as mulheres de Naruto não estão lá só de enfeite, e não são exageradamente sexy. 
Eu gostaria de falar mais sobre Sakura, a protagonista feminina da história. No começo, ela era muito irritante, de verdade. Era inútil nas lutas e parecia pensar apenas em romance, o tempo todo. Resumindo, mesmo sendo teoricamente uma ninja, ela se aproximava da donzela indefesa. Mas a evolução dela ao longo do anime foi impressionante. Em algum momento, a própria Sakura percebeu que era assim, e que não queria ser assim. 
Ela procurou a lendária guerreira Tsunade e pediu para se tornar uma discípula. Além de ter virado uma guerreira forte com o treinamento de Tsunade, ela também amadureceu bastante em personalidade. 
Finalizando, eu gostaria de falar que o anime se foca bastante em laços e emoções humanas. Naruto Shippuden é a continuação do Naruto clássico, e mostra os personagens já mais velhos, depois do Naruto ter passado dois anos fora da vila, treinando. Só aviso, para quem quiser assistir, que é um anime bem longo.
- Fairy Tail: também está entre os mais conhecidos, e entre os mais longos. Confesso que não assisti todos os episódios. Ainda. Mas pretendo assistir. Fairy Tail, assim como Naruto e vários outros animes, se passa em um mundo fictício inventado pelo autor. Nesse mundo, a magia é algo comum. Também é comum a existência de guildas, que reúnem magos. Fairy Tail é uma dessas guildas, a guilda da qual os protagonistas fazem parte. 
Fairy Tail tem personagens muito cativantes. E as mulheres são tão fortes, cativantes e importantes para a história quanto os homens. O exemplo mais conhecido é Erza Scarlet, que faz parte do grupo principal do anime, e logo se mostra a mais forte do grupo. É uma jovem forte, feroz, corajosa, e também gentil e protetora com seus amigos. E com uma história fascinante, que eu não vou contar (descubram assistindo o anime). 
A outra garota do grupo é Lucy, uma jovem nascida em uma família rica, mas também a filha rebelde que preferiu sair de casa e se juntar a Fairy Tail a ser a herdeira perfeita. Ela pode não chamar tanta atenção quanto Erza, mas também tem um espírito forte e decidido. 
Temos outras personagens interessantes como Juvia, Cana e Mirajane. Mirajane, principalmente, vai surpreender bastante em certa altura do anime (a não ser que você cometa o erro de ficar procurando sobre isso na internet, um ninho de spoilers). A única coisa que me incomoda é que todas as garotas são lindas e têm um corpo perfeito.
- Madoka Magica: saindo dos animes longos, vamos para um que tem apenas 12 episódios. Parece ser um anime fofinho e infantil, pelo traço do desenho, mas não é bem verdade. Vamos começar falando que o anime se foca em quatro garotas que são as heroínas do anime: Madoka, a protagonista, Homura, minha favorita, Sayako, Mami e Kyoko. 
Cada uma possui sua própria personalidade. Homura e Kyoko, especialmente, possuem passados muito interessantes. Deixo claro que é um anime destinado ao público feminino, focando-se na perspectiva das personagens femininas, e são elas quem têm maior participação. 
Mesmo saindo do aspecto das lutas, na própria família de Madoka, a mãe dela é muito mais presente na história do que o pai (não estou dizendo que tem algo errado com o pai, ou que ele é um pai ausente, só que ele não aparece muito). Gostaria de ressaltar também que, ainda na família de Madoka, os papéis vistos como tradicionais foram invertidos: a mãe de Madoka é uma profissional bem sucedida e seu pai é quem cuida da casa. O anime aborda temas como sacrifício, esperança e desespero.
- Angel Beats é um anime também bem curtinho. Foi um dos primeiros que vi, por recomendações de amigas. Dá para assistir em um único final de semana, o que foi o que eu fiz. O anime se passa em uma espécie de mundo dos mortos, e tem início quando o protagonista, Otonashi, acorda lá sem nenhum memória além do próprio nome. Tem várias cenas engraçadas e personagens carismáticos. 
O único problema é que alguns personagens não tiveram seus passados revelados, mas as histórias retratadas são fascinantes. Bem, como eu disse, o anime é curtinho, então acho que cortar o passado de alguns foi um sacrifício necessário. É um anime bem bonito e com um final tocante, na minha opinião.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

EMAILS CHEIOS DE RAIVA SÓ TE TRAZEM MAIS RAIVA

É o que diz uma pesquisa: descarregar a raiva nos faz mal e, ao invés de aliviar, faz com que sintamos mais raiva (isso deve valer para os trolls que deixam comentários enfurecidos por aqui). 
A querida Elis traduziu este artigo de Elizabeth Bernstein publicado no Wall Street Journal.

Uma noite, depois de uma conversa frustrante com seu chefe, Jason Bauman enviou um email a um colega. 
Ele escreveu que seu supervisor nunca o elogiava, apenas criticava, e disse que achava isso frustrante. Ele continuou o desabafo em mais algumas centenas de palavras. Bauman, que era gerente de uma loja de telefones celulares na época, reclamou que seu chefe era ruim no que fazia. Disse que o homem tinha inveja porque ganhava menos do que seus funcionários. Ele insistiu que o chefe não tinha o direito de, como disse, lhe "dificultar as coisas".
"Eu me senti muito bem enquanto escrevia o email e ao clicar em enviar", disse Bauman, que tem 30 anos e mora em Souderton, Pensilvânia.
Não por muito tempo. Bauman diz que se arrependeu do email pouco depois de tê-lo enviado. "Eu fiquei me concentrando no problema por muito mais tempo do que deveria, remoendo as coisas a noite inteira", diz ele. Ele se sentiu pior no dia seguinte, quando ficou sabendo que o colega havia encaminhado o email ao chefe.
Pesquisas evidenciam há décadas: descarregar a raiva nos faz mal.
E ainda assim o fazemos -- agora mais do que nunca, graças à praticidade da internet.
Pode ser muito difícil resistir à tentação de descarregar a raiva por email, mensagens de texto ou bate-papo, ou em mídias sociais como Facebook ou Twitter. É rápido: podemos compartilhar nossa frustração com um amigo, ou com o mundo, quase imediatamente: É prático: podemos desabafar estando em qualquer lugar, basta ter um telefone. E nos sentimos seguros: estamos atrás de uma tela.
Em estudos, as pessoas relatam que se sentem melhor depois de desabafar. Mas os pesquisadores descobriram que, na verdade, elas se sentem mais irritadas e agressivas. Pessoas que descarregam a raiva anonimamente podem se tornar ainda mais enraivecidas.
“Só porque algo lhe faz sentir melhor, não significa que é saudável", diz Brad Bushman, professor de comunicação e psicologia na Universidade Estadual de Ohio, em Columbus.
Um desabafo ruim pode voltar para prejudicar você. Você pode alienar amigos ou familiares, ou ser tachado de reclamão ou como alguém que tem problemas para controlar a raiva. E como o que acontece na internet permanece na internet -- para sempre --, você pode causar danos duradouros à sua reputação.
O desabafo tem uma história antiga. Aristóteles acreditava na catarse -- um expurgo de emoções. Mais recentemente, Sigmund Freud falou sobre o modelo hidráulico, afirmando que se alguém segurar a raiva sem liberá-la, ela se acumulará e chegará a níveis perigosos, como o vapor que se acumula em uma panela de pressão se não for liberado. O doutor Bushman afirma que a maioria das pessoas ainda acreditam que isso é verdade, embora não haja pesquisas científicas que suportem a ideia.
Todos nós descarregávamos a raiva antes da internet, é claro. Mas não era tudo tão imediato. Precisávamos pegar o telefone e ligar para alguém, ou esperar que nosso cônjuge voltasse do trabalho. Isso nos dava tempo de esfriar a cabeça e quem sabe até tomar um drink para relaxar. E desabafar pessoalmente, ou mesmo pelo telefone, nos permitia receber feedback imediatamente e perceber quando estávamos extrapolando.
O doutor Bushman conduziu diversos estudos que mostram que descarregar a raiva ou a frustração não é benéfico. Em um estudo publicado no Personality and Social Psychology Bulletin em 2002, ele pediu que 600 alunos universitários escrevessem uma redação sobre o aborto. Ele uniu cada aluno a um “parceiro” -- na verdade, um pesquisador --, que afirmava ter uma opinião contrária e que avaliava a redação do aluno negativamente em termos de organização, estilo de escrita e originalidade.
Depois, o dr. Bushman dividiu os alunos em três grupos: o grupo da “ruminação”, que foi instruído a bater em um saco de pancadas enquanto pensava na pessoa que avaliou sua redação. O grupo da “distração”, que deveria bater no saco de pancadas enquanto pensava em melhorar sua capacidade física. E o grupo de controle, que não fazia nada. Por fim, cada aluno informava seu humor, escolhendo dentre adjetivos relacionados à raiva, como "maldoso", "hostil" e "irritado", e adjetivos mais positivos, como "calmo",  "feliz" e "relaxado".
O estudo descobriu que os alunos do grupo da ruminação foram os mais enraivecidos e agressivos, enquanto os do grupo controle, que não fizeram nada para desabafar, foram os menos enraivecidos e agressivos.
Descarregar a raiva na internet é particularmente arriscado, dizem os especialistas. Nós achamos que é algo privado porque podemos fazer de um lugar protegido, como quando estamos na cama, de pijama. Temos nossos telefones conosco o tempo todo, então frequentemente desabafamos na internet antes de termos a chance de nos acalmar. Um desabafo feito pela internet está a um clique de ser compartilhado. E compartilhado. E compartilhado.
Normalmente, parecemos mais raivosos por escrito. E quando escrevemos algo, podemos reler várias vezes, e remoer. Com os desabafos online, você não recebe feedback imediato do seu ouvinte, então talvez não saiba quando parar. “Você não vê os olhos virando com impaciência", afirma o doutor Bushman.
Eu sei bem como é. No último Natal, presa no terminal da JetBlue no aeroporto esperando um voo atrasado, comecei a ficar cada vez mais irritada com a música de Natal escolhida pela empresa: Alvin e os Esquilos.
Eu tuitei para a JetBlue e exigi que parassem com os gritinhos dos Esquilos. Eles disseram que os clientes escolheram a música. Respondi: "Acho difícil acreditar." Eles me tuitaram um coração. Eu levei mais cinco tuítes para me sentir ridícula por reclamar publicamente de pequenos roedores cantando. Desliguei meu telefone.
Se desabafar só nos deixa mais nervosos e maldosos, o que devemos fazer então? O doutor Bushman recomenda lidar com os componentes psicológicos e cognitivos de nossa raiva.
Para acalmar o corpo, devemos adiar a resposta, contando até 10 ou, como dizem que Thomas Jefferson sugeriu, 100. Ele também recomenda tentar relaxar respirando fundo ou ouvindo música calmante.
Desligue o computador ou o telefone até que sua raiva tenha cedido. Você pode até considerar bloquear o número de telefone de uma pessoa temporariamente, para não ficar tentado a enviar mensagens ou emails.
Para se tranquilizar, o doutor Bushman sugere distrações como ler um livro não violento, fazer palavras cruzadas, fazer uma caminhada.
Faça algo que é incompatível com raiva ou agressão: beije a pessoa amada, ajude alguém que precisa, acaricie um bichinho.
Tente se distanciar do incidente que irritou você. Observe a situação como alguém que está fora dela.
Coma algo saudável. “As pessoas ficam rabugentas quando estão com fome,” diz o dr. Bushman.
Bauman afirma que aprendeu a lição sobre descarregar a raiva online quando seu colega compartilhou o email com o chefe: “Foi muito fácil para ele clicar em encaminhar”, diz. Agora, quando quer falar sobre algo frustrante, Bauman escolhe um de seus vários amigos próximos e desabafa pessoalmente. Ele deixou a empresa de telefonia pouco depois do incidente do email, embora não tenha havido ramificações dele, e agora trabalha como escritor e editor em uma firma de marketing pela internet.
Ele também escreve cartas para pessoas que o irritaram, mas as salva em uma pasta no computador em vez de enviar.
“Ajuda a processar o que quer que esteja me frustrando", diz. “Às vezes, só precisamos dar uma arejada.”

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

POR QUE REAÇAS QUEREM QUE REFUGIADOS ISLÂMICOS ATAQUEM MULHERES

Extrema direita na Alemanha associa refugiados a estupradores

Em 2007, no meu "ano americano", fui a um debate numa universidade em Detroit para ouvir um respeitado diretor negro, John Singleton.
O evento, organizado por uma espécie de fraternidade de rapazes negros, foi uma total decepção. O discurso deles era segregacionista e misógino. O pior foi a fala de um senhor negro muçulmano. Usando turbante, ele disse que Alá era o único deus, que as mulheres não sabiam educar seus filhos, que faltava a presença paterna nas famílias, que o certo é bater nos filhos para que eles entendam o que é errado, que nada é mais errado do que ser gay, e que é terrível que o governo tenha banido as orações nas escolas. 
Tirando a parte de Alá, eu já tinha ouvido esse discurso antes, várias vezes -- é o mesmo que prega a direita cristã. No final, eu, perplexa, fui ao microfone perguntar: "Baseado na sua fala, eu queria saber: qual a diferença entre os muçulmanos negros e os fundamentalistas cristãos brancos?" O cara, revoltado, gritou "Nenhuma!", e falou que eu era uma idiota por não entender que mulheres eram inferiores aos homens.
Esta é uma organização islâmica tanto
quanto esta é uma organização cristã
Mas, segundo os fundamentalistas cristãos que se dedicam a atacar ativistas, eu e todas as feministas amamos muçulmanos e fazemos alianças com eles. Ué, quem tem crenças em comum com eles não sou eu. São os reaças! O anti-feminismo ferrenho (sempre ligado à misoginia), pra começar, é comum a fundamentalistas de todas as religiões. 
Homens têm muito mais chance de
serem vítimas de estupro do que
presos por acusação falsa de estupro
Em geral, homens reacionários não ligam a mínima pra mulheres. É só ver como eles veem qualquer denúncia de estupro. Pra eles, é tudo mentira, e basicamente todas as denúncias de estupro são falsas (um dado oficial aqui do blog: nunca, em mais de 200 posts sobre estupro, houve algum texto que não tenha recebido vários comentários de "você inventou isso" ou "mimimi de feminista"). Paradoxalmente, reaça só dá bola pra notícias de estupro se ele puder usá-las pra atacar feministas. 
Mulheres protestam contra sexismo
e racismo na Alemanha
Os ataques são do tipo "Você não vai ler uma linha das feministas sobre isso" ou "Cadê a (insira o nome da feminista que vc quiser agredir) que não fala deste caso?" Eu ouço isso toda semana. Se eu não escrevo sobre um tuíte de um babaca que desejou o estupro de uma jornalista, é porque a jornalista é de direita e o cara é de esquerda (não é). 
Se eu não escrevo sobre menores que estupraram meninas, é porque eu sou contra a redução da maioridade penal. 
Se eu não escrevo sobre os ataques de refugiados a mulheres no reveillon, na Alemanha, é porque eu adoro muçulmanos. 
Detalhe: eu escrevi sobre todos esses casos.
Só não escrevi o que os reaças querem ler porque, né, eu não sou reacionária e graças às deusas não penso como eles. Meu posicionamento continua sendo o mesmo: creio que os países ricos têm uma dívida histórica com nações que exploraram e continuam explorando e, por isso, devem receber refugiados. 
Os refugiados devem respeitar as leis do seu novo país (que, na realidade, parecem ser a lei também nos seus países de origem: a mutilação genital é proibida em grande parte da África, mas praticada por tradição cultural. Mais difícil de mudar que as leis, é a cultura. Tenho a impressão que homens se juntarem em grupos e saírem agarrando mulheres na rua também seja proibido por lei nos países islâmicos). Qualquer um que estupre alguém deve ser punido. Meio básico, isso.
Imagem divulgada por reaças
americanos após Trump
vencer em New Hampshire
Eu não sou tão ingênua a ponto de não saber por que reaças estão falando tanto das "alemãs estupradas por muçulmanos". Não é por eles se importarem com as mulheres. Isso é ponto pacífico. É porque sua agenda é de demonização dos muçulmanos (que, pra reaça, é tudo criminoso e terrorista) e contra a imigração. É até irônico, eu sei, ver reaça brasileiro ser xenofóbico e aplaudir Trump por querer mandar todos os mexicanos de volta ao México ou compactuar com a direita da Europa, que é de fechar os portões pra "gentalha do terceiro mundo". Mas reaça brasileiro sofre desse mal de se achar único, diferente, um floquinho de neve -- assim: nenhum brasileiro presta, menos eu. Países ricos devem proibir a entrada de todos os pés-rapados, mas permitir a minha. 
Atacar feministas: popular deste 1850
Essas notícias são ótimas porque reaças podem aproveitá-las para atacar todos seus desafetos: muçulmanos, esquerdistas, marxismo cultural, foro de SP, e, óbvio, feministas. Um reaça escreveu que, se hoje as mulheres europeias estão com medo de saírem às ruas à noite, a culpa é do... feminismo. Sério!
Mas estava faltando alguma coisa pra explicar essa obsessão reaça. Ao ver este vídeo, entendi melhor por que os conservadores batem tanto na tecla "feministas adoram muçulmanos, vamos acabar com esses dois 'movimentos', ueba!" (ou algo como "as feministas acabaram com a civilização, e agora vem os muçulmanos sambar em cima das ruínas").
A matéria começa meio que ridicularizando um grupo de holandeses que marchou usando saias para lembrar que "abuso sexual não é um assunto de mulheres". Ou seja, para mostrar sua solidariedade às mulheres que foram atacadas em alguns lugares da Europa (principalmente em Colônia) por grupos organizados de refugiados, e para explicar o óbvio: que acabar com a violência contra as mulheres não deve ser uma pauta exclusivamente feminista, e sim de toda a sociedade.
A seguir, a repórter entrevistou a jornalista dinamarquesa Iben Thranholm, que parece ser uma reaça de carteirinha. A moça fala besteira atrás de besteira. Diz, basicamente, que o problema dos ataques às mulheres é que os homens europeus estão "afeminados", viraram mulheres, e os refugiados de países islâmicos não respeitam mulheres (quem respeita mulher é gente que acha que "ser afeminado" é demérito). 
Com a falta do poder masculino na sociedade, diz a jornalista, não há respeito (te fez lembrar o negro muçulmano de Detroit ao culpar o fim das famílias à ausência paterna?). Ela acha que falta uma mão firme aos políticos, que são como mães, muito acolhedores. E ela também credita isso ao feminismo. Ela pede uma "revolução masculina" para que a sociedade volte "às antigas virtudes masculinas de proteger as mulheres, as crianças e sua cultura". Tipo os vikings, né?
Muçulmanos não respeitam as mulheres, diz jornalista. Quem realmente respeita as mulheres é quem as vê como fracas, incapazes, e necessitadas de um homem

Este é o apelo de todos esses links que reaças amam compartilhar (adolescente alemã dizendo que Angela Merkel, ao aceitar refugiados, arruinou a Alemanha; russos que bateram em imigrantes que tentaram apalpar "suas" mulheres; petição "convidando" a atriz Emma Watson a ficar num campo de refugiados islâmicos etc): os homens de bem precisam voltar a proteger as mulheres direitas!
Por exemplo. Parece que um grupo feminista na Suécia pediu para que os homens não as protejam dos islâmicos (não encontrei nenhum link confiável, só a extrema direita falando nisso). Como os reaças interpretam isso? Ah, obviamente, feministas querem ser estupradas! 
Olha só, é mais ou menos assim: no Walking Dead tem pessoas que não querem viver na vila do "Governador", que seguramente as protegeria (sem falar que lá tem água quente). O que isso quer dizer? Que as pessoas que recusam viver sob as asas de um sujeito e seus capangas que têm poder demais e podem ser psicopatas e matá-las quando quiser no fundo querem virar ração de zumbi! Certo? 
Porque não existe outra opção! São só duas: ou você aceita ser protegida por homens ocidentais, ou você será estuprada por homens orientais. Porque, como sabemos, homens ocidentais não estupram, pra começo de conversa!
Um reaça cristão chegou a dizer num vídeo que as feministas estão com inveja das mulheres femininas (porque essa é a oposição que os conservadores imaginam: feministas versus femininas, já que nunca se viu uma feminista ser "feminina" -- gostar de maquiagem e maternidade, sei lá), porque o que está acontecendo na Europa, segundo o idiota, é hordas de refugiados islâmicos saírem à noite para caçar mulheres para estuprar. Mas só pra estuprar as mulheres femininas! E as feministas têm inveja porque, lógico, mulher só é feminista por "falta de rola". 
E nenhum homem vai estuprar uma feminista, porque "não merecemos" ser estupradas (aleluia, você pode pensar! Mas não, é o contrário: você tem que ficar chateada porque ninguém quer te estuprar!), porque somos feias, gordas, não femininas. Porque, evidentemente, estupro tem tudo a ver com atração sexual, e nadinha a ver com poder e humilhação.
Um dos princípios do patriarcado é que homens devem proteger as mulheres... de outros homens. Não tem nada de novo nisso. Racismo sempre foi construído na base do "homens brancos precisam proteger as mulheres brancas dos homens negros". O mito do "gigantesco falo negro" está conectado a esse medo, que é muito mais um medo e uma obsessão dos homens brancos, que terão as "suas" mulheres violadas, do que das próprias mulheres (e note que legal como nessa equação racista as mulheres negras são deixadas de fora: ninguém precisa protegê-las, pois elas também são selvagens -- diz o mito. São elas que atacarão o pobre homem branco! Tem paralelo com outro grupo também sempre esquecido: as mulheres muçulmanas).
Espere pra ver cada vez mais essa reação dos homens conservadores: mulheres, por favor, nos façam sentir importantes novamente! Temos que nos sentir másculos protegendo vocês mulheres femininas de homens selvagens, escuros, bárbaros, primitivos, não civilizados! Tudo que nós homens honrados queremos fazer é poder sair armados às ruas à noite para exterminar os caras violentos! Enquanto isso, vocês mulheres ficam em casa, trancadinhas, esperando. Lá vocês estão seguras! 
No mundo dos reaças, conquistas das mulheres equivalem à emasculação. E feministas exigirem viver num mundo sem estupro equivalem a "elas querem ser estupradas (mas não merecem)". Perdão por não querer ser protegida por esses malucos.