sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O MASTERCHEF E O PATRIARCADO

Terça foi a final do único programa de TV que eu e o maridão estávamos acompanhando, o MasterChef, na Band. 
Não deu pra tuitar nada porque a gente estava na linda Caponga, CE, sem acesso à internet. Minha torcida era por Helena, mas nada contra a jovem Elisa ter vencido. Foi emocionante ver duas mulheres disputando o título de melhor chef amadora num meio tão machista, em que 90% dos chefs são homens. 

O programa foi excelente e aguardo ansiosa pela segunda temporada (que obviamente terá muito mais que os 300 inscritos desta temporada), mas o que me chamou a atenção foi ler um monte de babaca afirmando que Elisa só ganhou porque foi ajudada pelo pai. 
Foi assim: na final, Elisa e Helena tiveram duas horas para preparar um menu com três pratos cada uma, entrada, prato principal e sobremesa. Qualquer pessoa que já entrou numa cozinha sabe que duas horas pra cozinhar três pratos é super pouco tempo. Ambas tiveram que correr pra terminar os pratos no último minuto. Muita adrenalina.

Já na contagem regressiva, Elisa -- que havia imaginado uma reinterpretação da velha Romeu e Julieta -- não conseguiu abrir o pote com a goiabada. E pediu ao pai, que estava na plateia, que a ajudasse. O pai abriu e ainda guardou a tampa como lembrança. Foi um gesto bonito e emocionante, ainda mais porque a mãe de Elisa já havia dito que Elisa era igualzinha ao pai, e que sua paixão por culinária vinha dele. 
De um fórum mascu
Mas lógico que os machistas viram o gesto como uma vantagem desleal, digna de quem ganha as coisas graças a um pussycard, ironizando a opressão do patriarcado (que pra eles não existe), e sugerindo que o verdadeiro vitorioso do programa foi um homem. Afinal, chef de verdade é quem sabe abrir pote de conserva.
 
Cada vez que os misóginos adotam esse tipo de discurso ridículo, reforçam a ideia de que é só pra abrir pote que eles servem... 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

GUEST POST: DESCULPA, VIOLÊNCIA DOMÉSTICA NÃO É NORMAL

A M. me enviou este email:

Sou leitora do blog, e me considero uma feminista apesar do que tenho pra te contar. E você é a única a saber disso.
Eu sou casada há pouco mais de 5 anos, e estamos juntos há quase 9. Tenho um relacionamento que eu sempre sonhei, de pura cumplicidade, de respeito e de amor. Não moramos no Brasil há um ano e meio, e apesar de ter que recomeçar, sei que tomamos a decisão certa de mudar pra ter qualidade de vida.
Eu sofri sim violência doméstica. Mas meu marido nunca se encaixou no típico perfil. Ele nunca controlou nada, sempre gostou de como me vesti, da maneira como levo a vida, do meu corpo fora do "padrão de beleza" e de como sou. Nunca me ameaçou, nunca duvidou de mim.
Mas, em um dia que tivemos um problema que saiu do nosso controle, ele se descontrolou, e me encostou na parede. Apertou meu braço, e de repente eu tinha um outro homem na minha frente. Eu terminei, disse que não queria isso pra minha vida. Eu tinha 21 anos. Ele me pediu perdão, disse que não ia acontecer de novo. Eu o amo, Lola, sempre o amei. E voltei. E comecei a entender o problema. Essa era a forma que ele reagia quando as coisas saíam do controle dele. E foi o que a mãe dele disse pra mim: ah é normal, ele reage assim. O que eu pude responder diante disso foi: não é normal, desculpa.
Depois disso, comecei a fazer ele entender que não era normal. Que ele não tinha direito de fazer isso com ninguém (sim, não era só comigo, eu já vi ele reagir dessa forma com o pai, com as irmãs e com a mãe). E aos poucos fomos conversando, mas eu confesso Lola, ele não entendia 100%. A forma como ele foi criado influenciou demais em tudo isso. E tivemos por muitos anos longas conversas sobre o assunto.
Alguns anos depois outro problema grave nos afetou, e aí sim apanhei. Ele bateu em mim, ameaçou bater o carro, e estava lá aquela pessoa que eu não conhecia. Naquela mesma noite, não conseguia mais entender tudo aquilo, só sabia que não dava mais. Depois que ele se acalmou, conversamos, e falei como tudo aquilo tinha afetado nossa vida, minha vida e a dele também. E disse que eu até pensava que poderia ajudá-lo, mas não podia. Aquilo era muito além do que eu conhecia de problema. E ele me pediu ajuda, pra procurar alguém que pudesse tirá-lo daquilo. Aqui, Lola, você pode me julgar, falar que eu fui muito errada de continuar, de acreditar, mas eu o fiz. E te escrevo pra te dizer que não me arrependo.
Ele mudou, é uma outra pessoa. Faz terapia, fez parte de um grupo de ajuda enquanto estávamos no Brasil, e eu te digo que nunca mais tivemos nada nem parecido. Já aconteceram diversas coisas que saíram do controle, e sentamos, conversamos e resolvemos, como sempre deve ser. Hoje ele é leitor do seu blog, entende que tem um problema, e entende que nada se resolve com violência, que isso não é o normal. Conversou  muitas vezes com a mãe, com os pais, e infelizmente teve que se afastar deles um pouco, por acharem que "isso de o homem e a mulher serem iguais tá errado". Pra ele somos iguais sim.
Dividimos problemas, tarefas de casa, sonhos e planos. Não sinto medo, nem receio. Confio nele e ele confia em mim.
Talvez você diga que estou louca e errada, mas pra mim fiz o certo. Nunca me arrependi e sou feliz demais com a vida que temos, a escolha que fizemos, e ver o quanto amadurecemos.
Lutamos pela igualdade, lutamos pelos animais (somos vegetarianos há pouco mais de dois anos) e vemos tudo isso como uma superação.
Ler o blog nos ajuda, nos faz entender melhor o que acreditamos.
Essa é a minha história, confiei em você depois que li vários guest posts, inclusive aquele que um estuprador escreveu. Talvez você entenda tudo isso que escrevi, a forma como me sinto e minhas escolhas.
Obrigada por ter esse meio de desabafar e por tudo que você escreve.

Poster da Anistia Internacional contra
a violência doméstica 
Minha resposta: M. querida, não estou aqui para julgar ninguém. Eu critico o sistema. Evito, sempre que possível, criticar indivíduos. E algo que definitivamente não faço é decidir quem é ou não é feminista. Não tenho poder nem vontade para ficar cassando carteirinhas. 
Recebo vários emails com questões como: posso ficar em casa cuidando dos filhos e ser feminista? Posso ter montes de pares de sapato e ser feminista? Posso ser obcecada por maquiagem e ser feminista? Posso mostrar os seios numa manifestação e ser feminista? Posso não mostrar os seios numa manifestação e ser feminista? Posso votar num playboy misógino e ser feminista? (Ahn...). Posso ser homem e ser feminista? Eu sempre respondo que sim, pode. Porque não tem uma comissão que avalie o feminismo de cada feminista. Eu acho bem ridículo decretar que uma feminista de quem você discorda sobre algum assunto não é feminista. Ainda precisamos aprender a discordar.
Não sei se você sabe, mas um dos grandes ícones feministas, Betty Friedan, autora do revolucionário Mística Feminina, sofreu violência doméstica por parte do marido durante vários anos, antes de se separar. E aí, ela foi menos feminista por causa disso? Seria ideal se, nas nossas vidas pessoais, todxs nós aplicássemos o que defendemos politicamente. Mas nem sempre é o caso. 
Você e seu marido tinham um problema sério, e vocês resolveram esse problema. Como alguém pode condenar vocês por isso? A praga da violência doméstica não se resolve com cadeia. A Lei Maria da Penha é fundamental para dar visibilidade a este problema social, e para dar voz às vítimas. Antes da lei, marido que batia na esposa tinha no máximo que pagar uma cesta básica. A impunidade reinava. Mas só a lei não reduziu a violência. É preciso mudar a cultura de que tudo bem bater (inclusive pra "educar" os filhos), de que em briga de marido e mulher ninguém mete a colher, de que é melhor estar mal acompanhada do que só. 
Será que preciso explicar que não estou encorajando que mulheres que sofrem violência dos seus parceiros continuem com eles? É, acho que preciso. Como feminista, meu conselho é: ao primeiro sinal que a pessoa é obcecada, controladora, ciumenta, pule fora. Como mulher, eu nunca aceitaria permanecer num relacionamento abusivo -- eu acho (porque às vezes leva tempo pra se perceber que está num relacionamento abusivo). 
Mas só punir alguém que é agressivo não vai necessariamente torná-lo menos agressivo. Tanto que grupos de discussão e de apoio psicológico para homens agressores muitas vezes são mais eficientes que um tempo na prisão. 
Seu marido cresceu com a ideia de que é normal reagir agressivamente quando algo foge do controle. Que é assim que conflitos são resolvidos. Que a violência é o único meio possível. E você desconstruiu tudo isso. Juntos, vocês construíram uma nova narrativa. Acho mais é que você deve se orgulhar de ter conseguido. 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

GORDA NÃO PODE COMER EM PÚBLICO?

A N. me enviou este relato:

Lolinha, faz um tempinho que eu queria te escrever porque eu realmente preciso trocar ideias com alguém tão bem resolvida e inteligente como você. Seu humilde bloguinho me ajuda mesmo. Estou adorando conhecer mais sobre o feminismo e tantas outras coisas.
O problema, Lola, é aquele velho de sempre: sou gordinha (devo estar com uns 88 kg pra 1,60 de altura) e não consigo encontrar paz dentro de mim pra viver bem com isso. No momento não estou seguindo nenhuma dieta restritiva (decidi que não mereço passar por esse tipo de privação) e também não estou tomando mais remédios (que me fizeram mal e, quando eu parei com eles, voltei a engordar).
Estou procurando ser mais equilibrada na alimentação e fazer exercícios porque sei que isso é importante pra saúde também, mas eu odeio exercícios e, se emagreço 2 kg, engordo de novo na semana em que como algo fora do programado e não vou à academia. 
O fato é que isso, pra mim, é como um castigo! Tenho vontade de chorar só de saber que não sou livre pra comer o que quiser e que preciso ir para a academia sozinha, e ficar lá olhando pra parede, cercada de gente magra que fica me olhando (engraçado como não tem gordxs na minha academia). 
Também não quero ter nenhum tipo de pensamento destrutivo com relação ao meu corpo (sei que sair comendo feito louca me fará mal, e eu não quero me sentir mal). Não sou de comer desenfreadamente, mas como coisas calóricas às vezes, e é claro que eu me culpo e já me obrigo a fazer a minha comidinha mais balanceada. Na realidade eu só queria a paz. A paz de olhar pro espelho e me sentir bem do jeito que eu sou, sem me importar com o que os outros pensam. 
Me irrita saber que, mesmo sendo preocupada com alimentação e saúde, fazendo meus exames e indo aos médicos todos, as pessoas que me veem devem pensar que sou descuidada, relaxada e como demais. E eu não como demais: tenho amigas que comem o triplo e são magras. E essas amigas também deixam de comer coisas pensando que estão gordas! Olha, elas não sabem o que é ser gorda, não sabem o que é viver uma felicidade de vidro.
Exemplo: você está de boa, feliz da vida comendo num restaurante e vai pegar a sobremesa e chega um desconhecido e diz, em tom de brincadeira, “Melhor vc não pegar isso porque engorda, viu?”. A vontade é de dizer que ele não tem nada a ver com isso, mas você se limita a dar um sorriso falso pra não arrumar confusão. Pronto: vidro da felicidade quebrado.
Esses dias fui ao mercado com uma amiga comprar sorvete e ela disse “Melhor não, porque vc quer estar bonita quando o fulano te encontrar, né?” 
Isso caiu como uma bomba em mim. Eu disse pra ela: “Então vc tá querendo dizer que o fulano só vai gostar de mim se eu for magra? É isso que vc tá dizendo?” E comecei a chorar. A menina não sabia o que fazia, me pedia desculpas, dizendo que falaria isso pra qualquer amiga, que é uma brincadeira dela. 
Depois me acalmei porque, se o fulano não gostar de mim pela minha aparência, pouco me importa. Não vou querer uma pessoa que seja só ligada nisso. O fato é que mesmo os homens que parecem “diferentes” (não encontro um adjetivo legal pra isso) podem ter preconceitos com gordas. Eu nunca vou saber com segurança.
Esses são só exemplos da minha felicidade frágil. Ser gorda te obriga a estar pronta pra se defender de piadinhas e indiretas que surgem do nada. Ser gorda é rezar pra que a pessoa que vc gosta olhe dentro da sua alma e não pro seu corpo. É torcer pra encontrar uma pessoa que goste de vc APESAR dos quilos a mais. É torcer para que todos percebam como vc é legal, inteligente, educada... porque bonita, ah não, bonita vc não pode ser sendo gorda. 
Às vezes penso: não quero ser magra, queria só perder uns 9 ou 10 kg pra me sentir melhor (porque esse foi um peso que eu já tive e me sentia bem), mas magra de verdade não preciso ser. Só que não tenho nem forças pra buscar esse emagrecimento e me chateio ao ver que ninguém me aceita como estou agora. Poxa, eu sou uma pessoa culta, divertida e tenho outras qualidades (alguns defeitos também, claro), mas é duro ser julgada sempre pela aparência. Ela chega primeiro...
Lola, te escrevo porque não aguento mais conselhos do tipo: “Se vc não se sente bem assim, então por que não emagrece?” Eu quero me sentir bem agora, é urgente. Quero ser forte pra enfrentar a sociedade e suas capas de revistas esqueléticas, pra enfrentar piadas em programas de TV, pra enfrentar um fora sem culpar o meu corpo por isso. Tenho direito de me sentir bonita do jeito que sou. Não quero gastar dinheiro com produtos que prometem emagrecer, nem com cremes que tiram celulite (minha irmã é do tipo que gasta 100 reais num creme pra bunda e se orgulha de nunca ter lido um livro inteiro. Ela é valorizada na minha família; eu, com pós-graduação, não sou). Será que tenho chances de conseguir ficar em paz comigo mesma?

Se me chamassem de barata eu
ficaria ofendida
Minha resposta: Querida N., ficar em paz com vc mesma depende mais de você do que dos outros. Porque, independente do seu tipo físico, sempre vai aparecer algum panaca pra tentar te puxar pra baixo, ainda mais na internet. Meus inimiguinhos me chamam de gorda (que, pra mim, nem é insulto; faz parte da minha identidade), balofa, jubarte, orca, saco de banha, entre vários termos. É ridículo. Eu diria que me sinto na primeira série, mas a verdade é que meus coleguinhas de sete anos na época eram muito mais maduros que esses trolls. 
Não me canso de repetir: se eu fosse a cara e o corpo da Gisele, iam me chamar de nariguda e esqueleto anoréxico. Se eu fosse a Angelina, iam de chamar de beiçuda. Se eu fosse a Lupita, iam me chamar de... ahn, melhor não falar. Por aí vai. Minha aparência não faz a menor diferença pra eles. É minha existência que incomoda. E quem usa gorda como ofensa está dizendo muito, muito mais sobre ele do que sobre você. Então, por que se deixar afetar?
Eu parei de me incomodar com o que as pessoas dizem ou deixam de dizer de mim quando eu tinha quinze anos. E, sem dúvida, foi uma sensação muito libertadora. Bem mais difícil foi aprender a gostar de mim, a não ser tão crítica com a minha aparência, a ser mais generosa com as mulheres em geral. Nunca esqueço de alardear que ler O Mito da Beleza foi um processo importantíssimo nessa jornada (que eu nem sei se termina um dia). Você pode lê-lo aqui, grátis, em português. 
Porque, né, quem falou que eu devo estar eternamente desfilando numa passarela disputando um concurso de miss? Quem coloca todas as mulheres numa passarela (ou num açougue, se você quiser olhar as coisas de um jeito menos glamouroso)? Quem dá aos homens o direito de serem jurados vitalícios nesse concurso que começa na pré-escola?
Quem disse que temos que participar?
Claro que você tem o direito de se sentir bonita do jeito que é. Você tem inclusive o direito de não se sentir bonita. Você tem todo o direito de achar que dane-se a aparência física, que você quer brilhar em outros campos. A escolha é sua. Óbvio que as cobranças não cessarão, mas a escolha de dar atenção ou não a essas cobranças é toda sua.
Não sei se você leu, mas outro dia publiquei um texto traduzido dizendo que não é nada incomum pessoas, principalmente homens, julgarem mulheres em público pelo que elas comem. Pensei que isso só acontecesse com gordas, mas trata-se de um fenômeno bem mais geral. Porque gorda comer qualquer coisa em público já é motivo de escândalo. Olha só, ELA COME, por isso é gorda! Só que esse tipo de patrulha também é feito com mulheres magras. 
E aí? Tente imaginar que não é você que está sendo vigiada (e punida). Imagine que você é apenas uma testemunha: você vê um cara passar por uma moça que ele nunca viu antes e fazer um julgamento sobre a barra de chocolate que ela está comendo. O que você acha daquele cara? Ele é um babacão intrometido, certo? Bom, isso vale também pra quem fica te julgando.
Portanto, não se deixe abater. Ser forte, adquirir autoconfiança, cultivar esse gostar de você, não é algo que surge da noite pro dia. Mas é super importante, até porque a opinião que temos da nossa parte física influencia a opinião que temos de nós como um todo. Ame-se por inteiro!

domingo, 14 de dezembro de 2014

CONSCIÊNCIA NEGRA PRESENTE

Alguns ótimos comentários tirados do post sobre a Consciência Negra:

Sou parda e aluna do 5º período de Engenharia em uma Universidade Federal e sinto na pele o que é ser a única pessoa parda de uma sala com quase 50 alunos. Única pessoa PARDA, negra eu nunca vi passar nem no bloco de Tecnologia. No início o curso, já ouvi inúmeras vezes piadinhas e perguntas direcionadas a mim sobre como foi passar na frente dos opressores (falavam fazendo aspas com as mãos) e ficado com a vaga deles sem precisar estudar nada. O curioso é que eu não passei por cotas porque terminei o ensino médio em escola particular - também era a única parda da sala. Eles acham que minha cor estaria diretamente relacionada as costas e a vagabundagem. Depois do que eu sofri no começo das aulas, sou completamente a favor. A ignorância é tanta que muitos juram que alunos cotistas não estudam na-da, só ficam de boas esperando seu nome na lista de aprovação. :( (Anônima)

Olá Lola. Se você não conhecia uma negra que cursa Medicina em uma Federal, eis-me aqui! hahaha Sim, sou a única negra da sala e sim, já sofri preconceito declarado por pelo menos 70% da sala. Por que né, como assim uma negra com cara de doméstica estudar na mesma sala que meu tesouro estuda? Absurdo! kkk Hoje eu realmente não fico chateada quando ouço ou leio algo de cunho racista, eu mostro que eles terão que aceitar sim e se reclamar terão muitos e muitos médicos negros no país. Não me importo mais porque apanhei muito, é uma vida inteira de preparação pra chegar a esse ponto que cheguei, de não ligar mais. Já estou calejada sabe? Depois que as pessoas viram que eu não "voltarei para o meu lugar", e que não estava nem aí se x ou y achavam um absurdo uma negra cursar Medicina, elas simplesmente pararam de tentar me intimidar. Algumas hoje são minhas amigas, e abraçaram a pauta negra pra si sem tomar o protagonismo. Jamais aceitarei um branco falando sobre como eu, negra, me sinto ao ser ofendida. Ele não sabe da minha dor, nem mesmo se quisesse sentir, então se não tiver nada aproveitável para falar, que ele não diminua a dor e revolta dos meus irmãos. (Anônima)

Sempre estudei em escolas públicas. Quando eu estava no ensino médio, eu era categoricamente contra a política de cotas. Acreditava que era concorrência desleal. Afinal, eu sou pobre, minha família sempre enfrentou dificuldades financeiras e o mesmo conteúdo era apresentado para mim e para os meus colegas negros.
No entanto, no curso do ensino médio, uma experiência me marcou muito. Uma professora, que estava organizando uma feira de filosofia em um dos colégios mais elitistas da cidade, nos levou para lá como público. A desigualdade era aberrante: enquanto a imensa maioria de nós, da escola pública, era parda e negra, não havia sequer um aluno negro na escola privada. O perfil era homogêneo, assustadoramente branco.
Foi nesse dia que compreendi o discurso da desigualdade. A pobreza econômica é só um dos fatores de desequilíbrio na sociedade. E enquanto a sociedade permanecer racista, exclusivista, arcaica e colonialista, sendo a cor da pele de uma pessoa o motivo para que seja alvo de mais ou menos desigualdades que outra pessoa de cor diferente, as ações afirmativas são, sim, medidas urgentes de justiça. (Anônimo)

Sou negro e era um que repetia o que alguns amigos brancos falavam no fundo, com a intenção de ser aceito por eles; repudiava as cotas, dizia que uma vez deixado de falar sobre racismo, ele desapareceria, entre outras pérolas. Quando acordei para vida e vi o que estava falando, mudei muita coisa. Curso Farmácia em uma PUC. E de todos os comentários racistas que já ouvi na minha vida e olha que foram muitos, o pior pra mim foi de um colega de classe reclamando muito sobre as cotas e xingando os negros de uma forma geral, ao ver que eu reclamei do seu comentário escroto, ele disse "relaxa cara, você não é negro, tu é pardo e tem grana pra bancar seus estudos, menos mal. Tô falando dos vitimistas que ficam atrás de cotas mesmo, eles merecem se foder muito." 
Tem como não sentir vontade de quebrar a cara do sujeito? Até hoje não sei dizer o que é mais absurdo: ele achar que um pardo seria melhor do que um negro e me tirar do "grupo ruim" porque aos olhos dele sou pardo, um homem branco saber e opinar se é vitimismo ou não o que as pessoas negras sentem, ou ele achar que beleza se tu for negro mas tenha grana pra bancar seus estudos. Essa foi demais pra mim, depois disso nunca mais falei com o retardado racista (redundante, eu sei). (Anônimo)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

ELE É MACHISTA E NUNCA BATEU EM NINGUÉM

A Deb me perguntou:

"Olá Lola, acompanho seu blog há algum tempo e gosto muito dos seus post. Mas eu só tenho uma pergunta sobre um cara que comentou em um post meu no facebook sobre feminicídio, que alega que o machismo mata. Ele disse: sou machista e nunca bati em ninguém.
É impressão minha, ou é a mesma coisa que alguém da Ku Klux Klan dizer que nunca bateu em um negro? Ou seja, pura hipocrisia, como alguém homofóbico dizer que nunca bateu em gay, porém apoia, mesmo que de forma indireta, a violência.
Concorda ou estou exagerando na comparação?"

Minha resposta: Bom, pra começar, a resposta do seu colega/amigo/conhecido é totalmente estapafúrdia. Só porque ele nunca bateu em ninguém quer dizer que o machismo não existe? Quer dizer que o machismo não mata? Ele pode não ter matado ninguém ainda, mas, sei lá, quinze mulheres são mortas todos os dias aqui no Brasil, a maior parte por seus maridos ou namorados ou ex-parceiros que as viam como posse e não aceitavam o fim da relação. Aliás, metade de todas as mulheres assassinadas no mundo são mortas por companheiros ou ex-companheiros. Meio difícil afirmar que o machismo não mata ninguém.
Placa com o nome das 14 vítimas
Por exemplo, este sábado o Canadá lembrou o massacre numa escola politécnica em Montreal. Em dezembro de 1989, um sujeito que não conseguia entrar na faculdade e achava que a culpa disso era das mulheres, que não deveriam estar cursando engenharia em primeiro lugar, entrou nessa universidade, separou os homens das mulheres, e matou 14 estudantes mulheres, enquanto gritava "Odeio feministas!". O sujeito era um típico mascu. Mas, por incrível que pareça, o massacre foi visto não como um crime de ódio ou um atentado misógino, mas como obra de um desequilibrado. Só nos últimos anos é que essa visão passou a mudar (e o massacre virou um filme que ainda não vi).
O que o seu conhecido entende por "ser machista"? Poucos homens hoje veem ser machista como uma qualidade. A maioria vê como um grande defeito mesmo. Ser machista é ser preconceituoso, retrógrado, ignorante. É achar que tudo bem mulheres serem vistas como inferiores, tudo bem mulher ganhar menos pelo mesmo trabalho, tudo bem homem ser violento. Quer dizer, alguém que diz "sou machista" com orgulho é uma pessoa que se orgulha da sua estupidez. 
Propaganda misógina: um dos clichês
publicitários é mostrar modelos com
pouca roupa em posições... mortas
(E não preciso nem dizer, mas vou dizer: assim como vestir uma camiseta escrito "100% branco" definitivamente não é a mesma coisa de usar camiseta "100% negro", ter orgulho de ser machista é totalmente diferente de se orgulhar de ser feminista. Feminismo é uma luta revolucionária para mudar o mundo e para que a metade da população que foi neglicenciada durante séculos finalmente tenha direitos e cidadania. Machismo é apenas a manutenção de uma estrutura que só traz malefícios para toda a humanidade. Não é tão difícil de entender).
Uma coisa são suas ações, outra são seus pensamentos. Se você tem pensamentos machistas e racistas e homofóbicos mas não expõe seus preconceitos pra ninguém, problema seu. Como não inventaram máquina pra ler pensamentos, a gente não vai saber o que se passa dentro da sua cabecinha. O problema é que esses pensamentos são tóxicos. Eles poluem a sua mente. E eles raramente ficam só na cabeça. Na primeira oportunidade, a pessoa preconceituosa vai externar esses preconceitos. Num momento de tensão, chamará uma mulher de puta. Tentará se impor sobre ela. Vai considerá-la inferior. E inúmeras vezes isso desagua em violência. 
Placa de verdade em algum lugar
do Texas
Então, sim, concordo com sua analogia. A Ku Klux Klan não é feita apenas de caipiras sulistas brancos que saem por aí incendiando igrejas negras ou linchando negros. É feita também de ideólogos que tratam de justificar e fomentar este ódio. E o que não falta pro machismo e pra misoginia são gente que propaga essa ideologia como se ela fosse inofensiva.