segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

SOU A ÚNICA FEMINISTA QUE REAÇAS CONHECEM EM SEU MUNDO FALOCÊNTRICO

Foi só no ano passado que me dei conta que uma das frases preferidas dos machistas (além de "Vai lavar louça"), "Isso é falta de rola", remete à estupro.
Geralmente essa frase tão criativa é gritada para feministas, que os caras acham que são todas lésbicas. Aliás, eles não se decidem. Às vezes falam que sofremos por falta de pênis; noutras vezes, sofremos pelo excesso, porque somos promíscuas (lembra quando disseram que transamos com dez por noite, e um monte de mulher veio correndo querendo saber onde tira a carteirinha?). 
Quando se diz que uma lésbica precisa de rola, está se aludindo a estupro corretivo, puro e simples. Outra fantasia reaça, a "cura gay" (afinal, orientação sexual seria uma doença e, como tal, passível de cura), prova que eles acreditam mesmo que lésbicas devem ser estupradas para serem "corrigidas". 
Reaças e mascus não sabem nada de nada, então é normal que eles não conheçam muitas feministas. Pra muitos, eu sou a única que eles conhecem. E tentam encontrar uma explicação para eu não me encaixar na narrativa que eles fazem das feministas. Tipo: eu sou hétero, casada com um homem há 26 anos, e eles ficam terrivelmente decepcionados quando descobrem isso. Primeiro: como é que pode uma mulher gorda ter marido? 
Segundo: como que pode eu não ser lésbica? Vocês precisam ver as especulações que eles fazem da minha vida sexual. Eu imagino que a deles não seja exatamente um sucesso, pra eles gastarem tanto tempo falando sobre a vida sexual alheia.
E eis que eu vi outro dia essa camiseta aí em cima no Twitter de um reaça. Não sei se é de verdade, não sei se eles realmente fizeram algo assim e se alguém comprou. Deve ser dura a vida do cara que veste isso e tem que ouvir a cada cinco minutos "Quem é Lola?" porque, convenhamos, fora da internet eu não sou muito famosa. 
Ano passado reaças carregaram cartazes de "Menos Freire, mais Frota", comparando um educador referência no mundo inteiro com um ator pornô (se bem que, no Brasil pós-golpe, a gente sabe quem consegue se reunir com o ministro da Educação). Não sei se chegaram a fazer camisetas. 
Mas é o que eu sempre digo: se rola resolvesse algum problema, homens reaças não seriam o fracasso ambulante que são.
Se rola fosse solução, reaça não estaria vendendo camiseta com trocadilhos ignorantes.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

GUEST POST: FALEMOS SOBRE ABORTO

Excelente texto da Sabine.

Nunca me esqueço de minha querida mãe, falecida há mais de 7 anos, chegando em casa numa noite de 2007, quando ainda morávamos juntas. Grande fã do filme 21 Gramas, do mexicano Alejandro G. Iñárritu, tinha ido ao cinema, muito animada, assistir ao recém-lançado Babel. Ela não era muito chegada em cinema, inclusive dormia nos poucos filmes que topava assistir por indicação minha. Poucas vezes a ouvi falando tão bem, e tanto, de um longa. Falando um pouco mais, talvez no dia seguinte, ela comentava uma cena específica, em que a personagem de Cate Blanchett, baleada e sem acesso a um devido atendimento médico, estava perdida no meio do Marrocos.
Sem muitas descrições, sem muito entender, não dei tanta bola. O papo da mesma cena surgiu alguma outra vez depois disso, mas não me lembro a ocasião. Também não me lembro se eu estimulei a elaboração ou se ela quis falar espontaneamente. Mas ela deu-me a explicação, contando melhor uma história que tinha sofrido e me resumido muito brevemente: quando teve uma gestação interrompida, antes de ter meu irmão mais velho. 
Ela entrou em detalhes dessa vez. Durante o oitavo mês da gravidez ela e meu pai viajaram à Bahia, para visitar uma amiga querida. Essa amiga tinha montado uma cama improvisada, com um colchão, para eles. Minha mãe descrevera bem a cena quando, deitada para descansar, sentiu-se molhada. Levantou-se e viu o colchão com uma enorme mancha de sangue, seu vestido encharcado. Correram para o hospital.
Meu pai também já faleceu, então não tenho informações mais específicas, como por exemplo a cidade em que isso tudo se passou. Sei que era uma cidade pequena; sei que já sabiam que o bebê era um menino, já haviam escolhido nome. Estavam muito felizes com a gravidez. Ao chegarem ao hospital, minha mãe de cara foi maltratada. Enfermeiras, atendentes, médicos -- todos trataram-na como criminosa. A hemorragia era intensa, seus nervos obviamente à flor-da-pele. O que perguntaram a ela? “Foi o quê, agulha de tricô?”, e outras coisas do gênero. 
Falaram, de malgrado, que não havia lugar para ela. Pelo que me contava, poderia ser mentira -- deveria ser. Depois de muito esperar, e de muito meu pai reclamar (lembrando que ela estava perdendo uma gravidez no final do terceiro trimestre, com 8 meses, quando é super perigoso para a vida da mulher, com intensa hemorragia), colocaram-na numa maca (até então esperava sentada). A maca foi deixada no corredor. Depois de esperar ainda mais, sendo ignorada, ela disse ao meu pai que precisava urinar, e chamaram uma enfermeira. Ela olhou minha mãe com desprezo e disse: “Faz aí”. 
E nessa parte retorno ao filme. Em Babel, a personagem americana precisa urinar, mas não tem condições de se levantar. Seu marido a ajuda, com uma bacia, e pede privacidade ao homem que tentava ajudá-los. Minha mãe sequer recebeu uma bacia, e teve de fazer como estava. Ela não se emocionava com tanta facilidade com filmes. Com este, disse ter chorado com a cena, ao lembrar de sua experiência. 
É muito triste que um parto prematuro (lembremos que, já nos 8 meses, não é aborto -- mesmo com feto natimorto) em um hospital se assemelhe, em sensação, a tomar um tiro no meio de uma região desértica.
Depois que foi (mal) atendida pelo médico, as enfermeiras, com muita raiva, colocaram-na num quarto de maternidade. Com mulheres que haviam acabado de parir -- e seus bebês. Falaram em tom de punição que não haviam outros quartos disponíveis. Deveriam ter dito de uma vez que era “para ela se arrepender do que havia feito”. 
Acho que essa história ilustra bastante a realidade sobre o aborto no país. Mulheres sofrem de todos os modos -- as que não queriam abortar e perdem, as que não querem a gravidez e apelam para medidas drásticas. Quem ainda pensa que uma mulher que aborta não sente nada deveria ficar quieto. Peço uma atenção especial às mulheres. Com homem é simples: se você não engravida, nem ouse opinar. Se estiver interessado (e deveria), é bem-vindo para ouvir e entender o drama das mulheres. 
As mulheres que se dizem contra o aborto também devem ter cuidado. Se você nunca quiser abortar, pense com cuidado no momento e na razão de proferir a opinião. Falar isso repetidamente pode soar como julgamento para aquelas que passaram por isso. Mesmo para quem não se arrepende do que fez, não é uma experiência fácil de digerir. E muitas das pessoas que “jamais fariam um aborto” nunca precisaram cogitar, nunca viram seus contraceptivos falharem, nunca foram estupradas. Falar de certezas absolutas no futuro do pretérito do indicativo pode ser uma bela armadilha. Peço uma reflexão. 
Depois disso minha mãe teve dois filhos. No primeiro parto, sofreu violência obstetrícia e nunca soube disso, achava que era culpa dela. A episiotomia que sofreu foi extremamente traumática. O segundo parto foi uma cesariana, pois a opinião médica era de que ela tinha certos problemas com dilatação, por isso o primeiro parto fora “difícil”. Uma balela sem tamanho. 
Depois, quando eu era criança, ela precisou realizar um aborto, pois não tinha condições de ter mais um filho e ela e meu pai estavam perto de se separar. 
O que fez? Arranjou sozinha um remédio, provavelmente Cytotec, e confiou no terrível mito de que você deve tomar alguns comprimidos além de usar topicamente. Resultado: passou um dia inteiro muito mal, com mais uma hemorragia intensa e risco de hemorragia interna. Correu para um ginecologista de confiança e precisou passar por uma curetagem, pois o aborto tinha sido malsucedido. Acho que jamais teria ido a um hospital.
Minha mãe era branca, intelectual e bem instruída, de classe média. O tratamento dado às mulheres e todos os problemas relacionados à saúde reprodutiva renderam a ela apenas experiências traumáticas. Como sabemos, todos os problemas sofridos por uma mulher branca de classe média pioram muito para negras, pardas e/ou pobres. 
O problema do aborto, me parece, é extremamente ligado à violência obstetrícia. É tudo banhado em profunda misoginia e pautado no poder absoluto sobre tudo -- inclusive o corpo da mulher. O aborto é tido como crime. As pessoas sentem raiva e chamam as mulheres de monstras (ou putas ou sem vergonha e a lista não tem fim). Criminalizam a prática, mesmo que não esteja na lei, e estamos todas sujeitas a punições dadas por profissionais da medicina. 
Como nos casos de estupro, somos desacreditadas -- sempre culpadas e nunca vítimas. A mulher que aborta clandestinamente é vítima da sociedade injusta e patriarcal que não dá amparo e suporte; a mulher que sofre aborto espontâneo é vítima de uma infelicidade da natureza -- e todas são tratadas de forma grosseira, cruel e sádica. Como são as parturientes, como são as mulheres que não abaixam a cabeça, e as que abaixam também. 
Falemos sobre aborto sim, sempre, até que ele seja reconhecido como uma questão de saúde pública e de escolha apenas da mulher. Enquanto falamos, sejamos justas e companheiras umas com as outras -- estamos precisando mais do que nunca de sororidade. 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

CAPAS DE REVISTA QUE MANTÊM MENINAS E MENINOS EM CAMISAS DE FORÇA

Tradução do meu querido Flavio Moreira, que encontrou e traduziu este artigo.

A comediante Amy Schumer
diz não
Há algo muito errado com a diferença entre essas duas capas de revista.
Na imagem acima, que foi compartilhada pela comediante Amy Schumer, a capa da revista Boy’s Life apresenta a seus leitores um futuro com oportunidades aparentemente ilimitadas de carreira, enquanto a capa da revista Girl’s Life limita-se a reduzir os sonhos de suas leitoras a primeiros beijos e parecer bonita.
As duas edições foram lançadas em setembro de 2016, provando que, apesar do quanto a igualdade de gênero tem avançado, ainda há muitos espaços que divulgam essas expectativas de gênero ultrapassadas e estereotípicas.
É bem mais do que simplesmente decepcionante. Isso tem um efeito negativo em um enorme contingente de jovens meninas impressionáveis.
Quando a designer Katherine Young viu as capas lado a lado, decidiu redesenhar a capa da Girls’ Life — com algumas alterações importantes.
Young trocou a foto da atriz da Disney Olivia Holt pela foto de Olivia Hallisey, uma cientista adolescente que ganhou a Feira de Ciências do Google em 2015 com a invenção de um teste de 25 dólares para a detecção do vírus Ebola. Em vez de dicas de cabelo e tendências da moda outono, a capa de Young anuncia carreiras de sonho e maneiras pelas quais as garotas podem ajudar suas comunidades.
Em aproximadamente 10 minutos ela deu à capa da revista a melhor remodelagem possível. Aqui está uma ampliação de seu trabalho. [Clique para ampliar].
Young pôs as fotos lado a lado em seu blog com a legenda “Podemos fazer melhor”, e quando ela postou o trabalho feito no Photoshop no Twitter, ele rapidamente viralizou.
É claro que Young não é a única que já se sentiu pessoalmente vitimizada (para usar uma frase de Garotas Malvadas) por capas de revistas que promovem estereótipos de gênero batidos como esse.
“Eu tive problemas reais de aceitação do meu corpo até os 20 e poucos anos”, explica Young por e-mail. “Eu quase não comia na frente de meus amigos quando era adolescente porque me sentia constrangida com o tamanho muito grande da minha calça jeans. Eu achava que tinha menos valor como indivíduo porque eu não era a “garota bonita” definida pelos padrões sociais e da cultura pop”.
Muitos estudos descobriram que a autoestima de meninas cai dramaticamente durante seus anos de pré-adolescente, bem mais do que a de meninos. Há várias razões para isso, mas um fator gritante é que meninas são muito mais críticas de seus corpos em mudança do que meninos. Não é difícil imaginar por que isso ocorre. 
Antes mesmo que as meninas atinjam a puberdade elas são soterradas com imagens do que a sociedade considera que deve ser o visual da mulher ideal.
Certamente meninos também experimentam esse tipo de mensagens dirigidas a eles, mas há muito mais ídolos masculinos, em variedade muito maior de tipos de corpos, idades e profissões do que as contrapartidas femininas (obrigado, duplo-padrão sexista da mídia).
Após ser constantemente bombardeada com mensagens sobre como vestir, que estilos de cabelo são bacanas e dicas de exercício para adquirir um “bumbum da hora”, não surpreende que meninas adolescentes e pré-adolescentes por vezes tenham uma autoestima tão baixa e que estudos mostrem que a mídia continua a cobrar seu preço enquanto elas crescem.
“Isso importa e tem mais efeitos sobre nós do que nos damos conta”, escreve Young.
Isso posto, há exemplos na mídia que mostram uma melhora.
A revista Teen Vogue tem publicado algumas histórias poderosas recentemente sobre o estado de nosso mundo político. Mulheres de tamanho médio e plus size aparecem em capas de revistas de moda e de estilo de vida. E até mesmo homens começaram a se tornar os porta-vozes de marcas tradicionalmente dirigidas a mulheres. [Dúvida da Lola: isso é bom?]
Modelo "plus size"
Pouco a pouco a paisagem midiática está mudando, mas ainda existe um longo, longo caminho a percorrer.
Será que as revistas femininas precisam se livrar de todas as suas dicas de maquiagem e das seções de “copie o estilo dessa celebridade”? Não. Maquiagem e roupas podem ser coisas divertidas para muitas mulheres. Revistas segmentadas por gênero que continuam a reforçar estereótipos batidos, entretanto, não deveriam ser tão polarizadas.
Por exemplo, muitos homens (héteros e gays) gostam de cuidar do cabelo e usar maquiagem e esmalte também. Se as revistas masculinas falassem para esse público, talvez esses homens não sofreriam tanto julgamento?
Inclusão e confiança deveriam sempre prevalecer sobre o sarcasmo e padrões estereotípicos e superficiais. Temos esperança de que a mídia aceite o desafio e vá mais nessa direção de querer fazer melhor em 2017.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

EU SEI QUEM EU SOU, E SEI QUEM SÃO ELES

Pessoas queridas, ter tantos inimiguinhos me lendo faz com que eu não seja tão transparente quanto gostaria de ser. 
Mas preciso falar, de toda forma, mesmo sabendo que esse comunicado me coloca em risco, porque covardes se aproveitam da minha ausência para fazer novos ataques e falsificações. Amanhã cedo viajo para Santiago e, depois, Buenos Aires. Eu e o maridão ficaremos lá quinze dias, uma viagem planejada (e ansiosamente aguardada) há meses. Vou tirar o dia hoje para preparar alguns posts e deixá-los agendados para serem publicados automaticamente (se alguém tiver um guest post que quer que eu publique, mande pra mim: lolaescreva@gmail.com).
Aliás, aproveitando o post. Eu tive a brilhante ideia de entrar em sites de ofertas coletivas no Chile e Argentina para tentar comprar promoções em restaurantes. Encontrei excelentes promoções em Santiago (em B.A., não). Mas, na hora de pagar com cartão de crédito, a gente não consegue comprar. Alguém já teve esse problema também? (Já avisamos a operadora que faremos uma viagem internacional e desbloqueamos o que precisava ser desbloqueado, mas nada). 
Não sei se terei acesso fácil à internet durante a viagem, e, mais ainda, não sei se vou querer chegar perto de um computador. Preciso descansar, e não quero que nada se coloque entre mim e os inúmeros sorvetes cremosos de chocolate amargo que consumirei durante a viagem. Mas, vocês já sabem: tentem ignorar os trolls o máximo possível. E, se aparecerem sites ou tuítes escandalosos no meu nome ou no do meu marido, não são nossos. É de algum mentecapto tentando me atacar não pelo que eu digo ou faço, mas pelo que eles inventam que eu digo ou faço. Não é triste isso? Deve ser chato não ter nada contra mim. Às vezes fico com pena de quem me escolheu como inimiga, confesso.
(Ah, o bolão do Oscar a gente faz quando eu voltar. Como a cerimônia é no dia 26/2, acho que dá tempo até lá, não dá, Júlio César?).
Bom, gente, o post que publicarei hoje é de uma entrevista que dei ontem por email a Mayara Paixão, repórter da revista Brasil de Fato

- Qual foi a justificativa que o Google Jurídico deu pra você quando disse que restabeleceria a conta e as imagens retiradas?
Ele disse que minha conta foi removida e quase todas as imagens também porque havia imagens de abuso sexual infantil no blog, e que eles eram extremamente severos quanto a isso. Mas que, olhando o contexto, eles viram que a imagem estava coberta e que era uma denúncia (justamente relativo ao mesmo chan que fez script para me denunciar em massa. Eles sim postam pornografia infantil, eu não) e, portanto, iriam restabelecer a conta e as imagens, mas não aquela. Não entendi como, por causa de uma só imagem coberta, de denúncia, no meio de um blog com mais de 60 mil imagens, o Google optou por praticamente deletar o blog inteiro, incluindo o cabeçalho do meu blog, que tem uma foto de quando eu era criança.
- Como foi o processo do contato feito por você com o Google até que eles resolvessem restabelecer tudo?
Assim que eles suspenderam minha conta, enviei uma solicitação explicando a situação (que meu blog estava sendo alvo de denúncias em massa via script vindas de criminosos misóginos). Mas, dois dias depois, eles responderam mantendo a remoção da conta. Só com muita mobilização de tanta gente é que conseguimos que o problema chegasse a humanos do Google, não robôs. Muita gente enviou emails e tuítes pro presidente do Google Brasil, pro vice-presidente internacional do Google. Porém, o Google se manteve em silêncio por muito tempo. Foi uma dor de cabeça que durou quase uma semana e que, se tivesse sido tratada por humanos, e não por robôs, poderia ter sido resolvida rapidamente.
- Além desse recente ataque, nesses nove anos de blog vc recebeu grande quantidade de ofensas e ameaças de morte. Como lida com isso?
Ódio gratuito tentando se
passar por humor
As ameaças de morte, estupro, tortura, atentados, estendidas inclusive a minha família, são diárias. Eu não deveria me acostumar, porque é horrível, mas é inevitável: a gente se acostuma. Afinal, são seis anos. Na realidade eu sei que eles não farão nada, porque são acima de tudo covardes. Só querem aterrorizar mesmo. Eu não tenho medo deles. Tento levar minha vida com bom humor porque, de vida infeliz e medíocre, já basta a deles. E não me abalo, porque eu sei quem eu sou e sei quem eles são e o que eles representam -- o mais puro atraso, preconceito, retrocesso, fracasso.
- Algum dos boletins de ocorrência que vc fez contra os agressores teve desdobramentos?
Não, nunca. O primeiro BO eu fiz em janeiro de 2012 e o mais recente, o nono, em setembro de 2016. Boletim de ocorrência não serve pra nada. É como disse um advogado que de vez em quando me acompanha à delegacia: é um jeito de transferir a responsabilidade para quem tem algum poder de resolver a situação. É dizer "a minha parte eu fiz". As pessoas têm a impressão que fazer BO resolve alguma coisa, tanto que a primeira pergunta que fazem ao saber de uma nova ameaça é "Já fez BO?" E é impossível fazer BO a cada ameaça porque, como eu disse, elas são diárias. Eu tenho mais que fazer do que ficar indo à delegacia cada vez que sou ameaçada. Se tivesse algum efeito, pelo menos...
- Esse ódio destilado contra as feministas é o que a seu ver?
Eles odeiam mulheres, negros, homossexuais. Muitos dos "mascus", abreviação para masculinistas, são neonazistas. São de extrema direita. Eles perseguem pessoas assim cotidianamente. É a missão de vida deles. De ativistas eles têm mais ódio ainda, porque nós os denunciamos, os combatemos. Nós somos as mulheres fortes, empoderadas, aquelas que eles mais detestam. E eles têm medo da gente, porque conhecem o nosso poder. Fecho com Eduardo Galeano: "O machismo é o medo dos homens das mulheres sem medo".
- O que te motivou, lá atrás, a criar um blog pra discutir, especialmente, as pautas das mulheres?
Eu sempre fui feminista, desde os 8 anos de idade. Então a questão de direitos iguais, de gênero, sempre foi importante pra mim e se manifesta em tudo que escrevo. Mas considero meu blog um blog pessoal, tem até o meu nome no título. E nem tudo que tem no blog está ligado a pautas feministas. Porém, eu colaboro com textos pra internet faz tempo, desde 2000, e, quando eu colaborava com sites alheios, pensava que queria ter meu próprio blog, para ter total liberdade editorial. E iniciei meu blog em janeiro de 2008. Desde o início, sempre que tocava em feminismo, o que era frequente, vinha gente querendo conversar, saber mais. Eu tinha acabado de ler o excepcional O Mito da Beleza, da Naomi Wolf, e quando comecei a falar de aceitação do corpo, também apareceu muita gente interessada.
- A gente sabe que a militância feminista está presente nos mais diversos espaços, dentre eles o virtual. Qual a importância que você acredita ter a militância virtual hoje?
A militância virtual não substitui a militância presencial, do dia a dia. Mas seria absurdo um coletivo presencial não se aproveitar da tecnologia ao seu alcance para divulgar e planejar suas ações. Portanto, são complementares. A militância virtual costuma ser mais rápida para responder a questionamentos e para denunciar atos e discursos machistas. E tem o poder de ser mais abrangente, de conseguir chegar a muito mais gente. Porém, precisamos urgentemente realizar ações presenciais enormes aqui no Brasil, como a Ni Una a Menos. Os vários protestos Nenhuma a Menos no Brasil ainda estão longe de atrair a opinião pública, como acontece na Argentina e em outros países.
- A que pé anda a luta feminista no Brasil a seu ver?
Isso é humor? Blog recém iniciado
dos "reaças zueros"
A luta está forte, temos influência. Mas, quanto mais crescem os movimentos feministas, mais cresce também a reação virulenta ao feminismo. Os conservadores reagem com grande ódio a nossa luta. E é um combate desigual, covarde, já que, enquanto nós temos rosto, nome, endereço, eles se escondem por trás de fakes.
- Por último, Lola, na sua percepção, o atual cenário político do nosso país corrobora para a permanência desse ódio destilado às feministas, às mulheres e aos grupos que lutam por reconhecimento em geral?
Sem dúvida. A consolidação da candidatura de Bolsonaro, o golpe reacionário e a derrubada do PT, a eleição de Trump nos EUA, o plebiscito em favor do Brexit, tudo isso deu um enorme ânimo aos conservadores. Imagina que você é um reaça troll que passa o dia atacando feministas, mulheres, negros, gays, e aí você vê que, de repente, tem um candidato a presidente fazendo isso na TV e nos jornais, sem disfarces, sem rodeios, sem vergonha. E o cara ainda por cima é eleito pro cargo mais poderoso do planeta! Claro que esse troll reaça se sente validado. Eles ainda não abandonaram suas máscaras porque são covardes, mas renovaram suas forças. 2016 foi o ano deles
E, mesmo dentro da esquerda, ter um cenário nacional e internacional tão à direita também é penoso pras feministas, porque boa parte dos homens de esquerda costuma ver nossa luta como algo secundário, na linha do "primeiro a revolução, depois vemos a questão das mulheres, negros, LGBT aí". É por isso que precisamos lutar mais do que nunca. 

sábado, 14 de janeiro de 2017

VENCEMOS! COMO O GOOGLE DEVOLVEU O MEU BLOG

Olá, pessoas lindas e queridas! Como vocês viram, meu blog voltou ontem no início da noite! Estou muito feliz.
Deixa eu contar como foi. Primeiro, pra quem tá chegando agora, um breve resumo: no final de semana passado, mascus do chan do Marcelo começaram a planejar uma ação para derrubar meu bloguinho, que já tem nove anos de muita luta. Usaram script para fazer milhares de denúncias ao Google, que hospeda meu blog no Blogspot.
Na segunda-feira, quando fui acessar meu blog para moderar comentários, como faço sempre, foi pedida a senha para fazer login. Uma das duas contas de email que eu tenho (há mais de dez anos e que hoje só uso pra acessar o blog) havia sido removida. Como eu já sabia da ação dos mascus, concluí que foi por causa das denúncias em massa. 
Escrevi uma solicitação explicando a situação (ou seja, que é um grupo de ódio que me persegue e ameaça há 6 anos e que está sendo investigado pela polícia por, no Natal, enviar um email ao reitor da UFC afirmando que, se eu não fosse exonerada, cometeriam um atentado na universidade que mataria 300 pessoas).
Já no mesmo dia, algumas imagens no blog começaram a sumir, sendo substituídas por pontos de exclamação. Na terça a destruição já era total: praticamente todas as imagens haviam sumido, incluindo o cabeçalho do blog, que tem uma foto minha de quando eu era criança. Publiquei um post na quarta, sem imagens, pedindo ajuda. Muita gente havia notado que o blog estava sem imagens, mas pensava que era um problema de configuração ou algo assim. 
Um dos muitos tuiteiros reaças que
comemoraram a derrubada do meu
blog
Enquanto isso, mascus continuavam atacando, enviando mais e mais denúncias ao Google, porque o objetivo era derrubar a outra conta também (e também meu Twitter), para que eu não pudesse mais acessar o blog (assim, ele ficaria congelado, até ser eliminado). Um idiota que me liga todos os dias, desde novembro, ligou várias vezes, inclusive de madrugada, para rir. Mascus fizeram bolão pra apostar quando o blog efetivamente sairia do ar. Comemoraram como uma gigantesca vitória. Reaças, provando que seguem exatamente a mesma ideologia mascu, também celebraram. Afinal, era um blog de direitos humanos (que eles chamam de nazista) que estava sendo censurado, o que podia afetar outras páginas com a mesma temática. 
O lado bom é que recebi o imenso apoio de vocês. Foram milhares de pessoas fazendo barulho, criando tópicos em fóruns de ajuda do Google, enviando tuítes pro presidente do Google Brasil, enviando muitas ofertas para me auxiliar a transferir o blog pra outra plataforma, ofertas de advogadas para processar o Google, escrevendo emails em outras línguas para o Google e para ativistas de outros países. A gente emplacou a hashtag #GoogleNaoCensureLola e fez uma grande mobilização, o que chamou a atenção da mídia. Dei várias entrevistas (algumas das quais ainda não saíram e não sei se vão sair). 
Muito apoio (clique
para ampliar)
Mas... nada. Silêncio total do Google. Na quarta à noite, recebi um email (claramente automático) dizendo que minha conta não seria restabelecida, que minha solicitação havia sido revisada e que eu violei as regras dos temos de serviço do Google (sem explicar quais eram). 
Na quinta escrevi um outro post contando o que estava havendo, e a mobilização cresceu ainda mais. Mesmo assim, nem uma palavra de algum humano do Google. Um leitor amado me escreveu por DM: "Não quero parecer pessimista, mas os dois únicos casos que me lembro de terem conseguido reverter esse tipo de situação foram o Ministério da Cultura do governo Dilma e o gabinete do primeiro ministro da Noruega".                        
E, como explicou um consultor de Marketing Digital numa ótima matéria publicada hoje no jornal O Povo, as avaliações de denúncias tanto no Google quanto no Facebook são feitas por robôs. É quase impossível que a punição seja revista porque as análises seguintes também são feitas por robôs, não humanos! "Até chegar a mediação de uma pessoa é um longo caminho", diz ele. 
Pois é. Por isso o silêncio sepulcral do Google durante a semana toda. E a gente sabendo que precisava chamar a atenção de algum humano com poder na empresa para que a situação fosse reavaliada e a tremenda injustiça, desfeita.
Ontem já no final da tarde uma humana entrou em contato comigo. Primeiro o Google Jurídico me mandou um email pedindo um telefone para a gente conversar. Eu enviei o número, e uma mulher (cujo nome não captei, e se tivesse captado, também não colocaria aqui) me ligou cerca de 40 minutos depois. Conversamos, e foi uma conversa bastante tensa. Ela disse que era lamentável a demora da empresa em estabelecer contato. Disse que minha conta havia sido suspensa por imagens de abuso sexual infantil (!), e que, quando há denúncias nesse sentido, o Google é "extremamente severo" e "toma passos extras" na averiguação. 
As únicas imagens de pornografia infantil no meu blog que eu conseguia imaginar foram duas que postei num post de denúncia sobre mascus, que sempre põem imagens de pedofilia em seus chans. 
Como este é um dos poucos crimes cibernéticos que a polícia federal costuma investigar com rapidez, quis mostrar que, já que não vão mesmo prender mascus pelas inúmeras ameaças de morte e estupro que dedicam a feministas como eu, que os prendessem por pedófilos que são. Óbvio ululante que cobri as partes genitais e os rostos que apareciam naquelas duas asquerosas imagens que tirei do chan do Marcelo.
De todo modo, esse é um post de 2015, quase um ano e meio atrás. Lógico que a imagem só foi denunciada agora porque mascus usaram script para fazer "um zilhão" de denúncias falsas. Não dá pra entender que, por causa de duas imagens no meio de milhares -- afinal, meu blog tem 4.200 posts, e cada post deve ter umas quinze imagens, em média --, todas as imagens do blog (inclusive fotos pessoais minhas, capas de livros e filmes, enfim, tudo mesmo) foram removidas, e minha conta, eliminada. Não podiam ter eliminado apenas aquelas duas imagens? (Só encontrei uma. E é assim que ela está agora -- print ao lado).
A moça disse que o Google analisou o contexto daquela imagem, viu que era uma denúncia de pedofilia, que a foto estava coberta, e que, por isso, minha conta seria devolvida e todas as imagens também, menos aquelas. 
Eu disse que era um absurdo que o Google não conseguisse diferenciar denúncias sérias de denúncias feitas por script com a única intenção de derrubar páginas de ativistas, e que esse papelão realmente maculava a imagem do Google, que tenta se vender como uma marca de defesa aos direitos humanos mas que, neste episódio em que há dois lados -- uma ativista com nome e rosto, professora universitária, autora de um blog feminista de relevância, e um grupo de ódio cheio de anônimos que passam seus dias ameaçando e buscando novas formas de arruinar a vida de ativistas -- o Google, ao tão rapidamente acatar a denúncia e aplicar a censura, claramente se posicionou ao lado do ódio. 
Ela respondeu que o Google é neutro e imparcial, e que não leva em consideração a ideologia de quem denuncia ou de quem é denunciado. E assegurou que nada disso tinha acontecido com meu blog por ele ser feminista. Que não havia tratamento especial.
Eu disse que esse era um problema -- a falta de tratamento especial. Que o Google sabe muito bem que ativistas em todo o mundo são alvejadas por grupos de ódio. Que é uma luta desigual, já que nós geralmente somos pessoas reais, com nome, rosto, endereço, que somos atacadas diariamente por fakes anônimos. E, mesmo quando sabemos o nome (caso do Marcelo e de vários de seus comparsas) e temos certeza absoluta que é ele, é difícil provar porque o chan é anônimo e fica hospedado na Malásia (ainda assim, tenho fé que Marcelo voltará a ser preso).
Ele não vai parar. Isso é o que ele escreveu hoje em seu chan, além de "Quero focar o meu tempo para f*der a Dolores". Agora que mais um de seus planos infalíveis do Cebolinha para acabar com a minha vida fracassou (ele já admitiu que pagou R$ 80 mil a um ex-policial para vir à Fortaleza e me matar, fazendo parecer um latrocínio), o infeliz deve estar com o orgulho mais ferido ainda. Eu não canso de me impressionar como o sujeito não assume a responsabilidade por nada que faz na vida e dedica toda sua energia a alguém que ele não conhece pessoalmente e que nunca trocou uma palavra com ele. 
Pra mim parece muito óbvio que páginas ativistas merecem sim tratamento especial. Precisamos de um mínimo de proteção, de um mínimo de diálogo, de um mínimo de compreensão de empresas que devem saber que existe uma coisa chamada contexto. 
Nós lutamos legitimamente pelo que é certo. Grupos de ódio lutam para nos destruir. E nisso de "eles" entram também os reaças, cúmplices dos mascus. É só ver como reaças nunca condenaram as ameaças mascus contra ativistas. Muito pelo contrário, ou eles divulgam sites e tuítes falsos criados por mascus no meu nome, ou eles negam que as ameaças existam. Porém, quando meu blog é derrubado por denúncias mascus (ou seja, eles existem, certo?), reaças comemoram junto. Eles têm lado. Todxs nós temos.
É simples: 
se empresas internacionais querem ser vistas como parceiras dos direitos humanos, se querem ser reconhecidas como parte do combate ao sexismo, à homofobia, ao racismo, à violência (e hoje a enorme maioria das empresas quer ter essa imagem), elas devem promover, não perseguir, páginas que lutam por esses mesmos ideais. E, quando uma empresa acata denúncias falsas vindas de mascus, quando demora dias para responder a pedidos de uma cambada de gente ligada a direitos humanos, soa sim como perseguição.
De qualquer jeito, no telefonema a moça garantiu que minha página e conta seriam restabelecidas (só não sabia dizer quando), e pouco tempo depois chegou este email do Google pra mim, também automático, burocrático:
E de repente todas as imagens voltaram! Confesso que senti falta da minha carinha de criança no cabeçalho.
Não haverá pedido público de desculpas do Google, porque isso seria reconhecer um grave erro, e corporações têm dificuldade em fazer isso. Mas considero o resultado uma vitória. Mostramos, mais uma vez, que podemos nos unir, que somos muitas e muitos, que somos multidões, que somos fortes. E que não temos medo dos covardes. Eles que têm medo de nós, por isso se escondem. Não vão nos calar.
Agradeço do fundo do meu coração a cada pessoa que se mexeu e que, apesar de todas as dificuldades, de todos os ataques e ameaças, continua lutando. Juntxs somos mais fortes, não há dúvida. Obrigada!