segunda-feira, 25 de julho de 2016

"MEU FILHO BRINCA COM BONECAS E CARRINHOS"

Denise me mandou este lindo email cheio de reflexões:

Primeiro queria te dizer que AMO seu blog, leio sempre que posso e comento sempre também. Já tem um tempo que penso em te escrever um email dividindo minha experiência pessoal com a maternidade feminista e nunca conseguia organizar minhas ideias. Lendo seu post sobre Jennifer Aniston me inspirei a falar sobre isso.
Eu nunca quis ser mãe, até conhecer meu atual marido. Nunca me declarei feminista quando jovem, apesar de sempre ter acreditado na igualdade entre os sexos, mas nunca fui ativista. Me lembro que meu marido, quando ainda namorávamos, me disse que se um dia ele tivesse uma filha/ filho não ia deixar a criança assistir filmes das princesas da Disney porque eram muito machistas
Eu na época achei que ele estava exagerando e problematizando tudo (tolinha!). Até o dia em que resolvi ter filhos, e não consegui por quatro anos, tendo que recorrer a inúmeros tratamentos. Nesse meio tempo me descobri feminista, comecei a ler cada vez mais sobre feminismo e criação de filhos. Tenho um marido que é feminista e que tem valores iguais aos meus no que toca a criação de filhos, então debatemos muito diversos assuntos.
Quando engravidei sofri o primeiro baque: eu que queria tanto ter um filho, que sonhava com a barriga de grávida, odiei a gravidez. Passei muito mal a gravidez toda, meu bebê mexia noite e dia sem parar e eu me sentia mal dizendo que odiava tudo aquilo, porque afinal estaria soando como ingrata, e o desgaste emocional me levou a um quadro de depressão e síndrome do pânico com 7 meses de gravidez. Cheguei a falar pro meu obstetra, em prantos, que queria que ele tirasse o bebê naquele momento! Graças a muito suporte que recebi do meu marido, do obstetra, de uma psiquiatra e um psicólogo a que fui encaminhada (moramos longe da família, então não tenho muita ajuda deles no dia a dia), levei a gravidez até o fim.
Eu sempre lia e ouvia que o instinto materno é inerente à mulher, que quando o bebê nasce o pai pode até precisar de um tempo de adaptação, mas a mulher sabe o que fazer. Só que comigo foi o inverso. Meu marido sempre teve um enorme instinto maternal, desde que nosso filho nasceu ele sabia como segurá-lo, como colocá-lo pra dormir, como acalmá-lo. Já eu vivia em pânico! Tinha medo de pegar meu filho, achava que ele não ia me amar, ele só chorava nos meus braços. 
Com o fim da licença paternidade de duas semanas do meu marido eu entrei em um pânico ainda maior por ter que ficar sozinha com o bebê. Mas encarei, aos trancos e barrancos. Os primeiros meses de vida do meu filho foram muito, mas muito difíceis. A todo momento eu era desacreditada pelos médicos/ enfermeiras nos meus (poucos) instintos, ouvia palpite sobre tudo e me senti sozinha como nunca antes. Aos poucos fui lendo muito, construindo a mãe que eu queria ser e me fortalecendo.
Aí começou minha outra luta: criar meu filho como feminista e sem outros preconceitos. Diariamente faço uma desconstrução de tudo que me ensinaram pra tentar criar meu filho sem amarras sociais, sem distinção de gênero. Tento comprar roupas mais neutras, mas é batata que sempre que meu filho está vestindo alguma peça de roupa rosa (ou que lembre qualquer coisa rosa) se dirigem a ele como menina. Eu nunca me importei, continuo a conversa naturalmente com a pessoa. Aliás, o que me incomoda na verdade é a pessoa pedir mil desculpas quando percebe que se confundiu, como se fosse uma ofensa chamar um menino de menina. 
Tento dar ao meu filho uma gama de opções de atividades pra fazer (futebol, ginástica, artes, dança -- tudo muito barato aqui onde moro ou muitas vezes gratuito) e o deixo escolher o que prefere, mas é um saco esbarrar em aulas de dança pra crianças de 1-2 anos exclusivamente para meninas e lotadas de rosa/ roxo, fadinhas e afins. Custa ter aula neutra? Outro dia conversei com uma professora de ballet e ela disse que adoraria ter um menino na turma, mas os pais não a procuravam nunca. Vou levar meu filho lá pra uma aula teste em breve.
Brinquedo é outra frustração. Todo mundo espera que meu filho brinque de carrinho, que tenha um monte deles em casa. Claro que não impeço ele de brincar com carrinho, e ele até tem um ou outro, da mesma forma que tem duas bonecas. Quando falo que comprei duas bonecas pra ele escuto da família que estou “querendo transformar ele em gay” ou que “quero impor meus extremismos pra ele” (?!). 
É aquela coisa, muita gente atualmente até já aceita que seu filho brinque com boneca, mas daí a comprar uma boneca mesmo antes da criança ter idade pra pedir é considerado um absurdo. Mas por que é um absurdo? Quando a menina é recém nascida já é bombardeada com bonecas, princesas etc, mas é um sacrilégio dar uma boneca para um menino? 
Eu quando compro brinquedos penso nos interesses do meu filho de acordo com a faixa de idade. Por exemplo, quando ele fez um ano e começou a se interessar por imitar os adultos, foi a idade que dei as bonecas e um kit de limpeza (com mini vassoura e aspirador). E ele ama! Empurra o carrinho da boneca pela casa toda, beija e dá mamadeira pras bonecas, “limpa” a casa. Em breve meu marido vai terminar de construir uma escada com proteção lateral para ele poder alcançar a bancada da cozinha e nos ajudar na cozinha. 
Outro dia a creche onde ele vai me mandou um relato com foto do meu filho pegando uma boneca negra que tem lá, espontaneamente, sentou com ela e ficou um tempo abraçando, ninando e beijando a boneca na testa. A foto é a coisa mais linda de se ver! Da mesma forma, quando meu filho mostrou que é super ativo e ama um desafio físico, montei um “circuito” de atividades em casa, aluguei um mini escorregador, tábua de equilíbrio, e ele passa o dia escalando/ pulando/ explorando. 
E os carrinhos? Ele adora jogá-los de cima do escorregador. Mas não é isso que o define, sabe? Assim como as bonecas não o definem, são só mais um brinquedo, uma forma dele expressar as emoções e compreender o mundo. Ele ainda não tem nem dois anos e não chegou na fase de desenhos/ filmes (apesar de amar Frozen), mas o dia que chegar vai ter a total liberdade de escolher o que quiser. Me incomoda quando ouço que a menina brinca de boneca pra treinar pra ser mãe. Um saco ficar rotulando tudo que a criança faz, impondo amarras a como ela pode brincar, com base em padrões sociais pré-estabelecidos.
Fico muito triste quando vejo pais limitando o potencial de uma criança com esses estereótipos de gênero. Pior é que tem muita, mas muita gente que acredita que meninos são isso e meninas são aquilo. Outro dia eu vi um documentário norueguês chamado The Gender Equality Paradox que tratava disso. Apesar de discordar da conclusão do documentário, achei ele interessantíssimo por mostrar o quanto desde que nascem as crianças são bombardeadas com estereótipos de gênero. 
Aí depois, quando crescem, as pessoas dizem que meninos são mais ativos, gostam de brincar de carrinho, enquanto meninas são calmas, dóceis e gostam de bonecas. Claro que as meninas são dóceis (leia-se submissas): elas desde pequenas escutam que tem que sentar de perna fechada, ser obediente, estar sempre arrumada e por aí vai. 
Discordo da conclusão desse documentário porque ele dá a entender que as pesquisas que demonstraram uma distinção de interesses inerentes ao gênero devem prevalecer, quando ainda que exista uma predisposição genética para isso ou aquilo, o meio social onde vivemos tem um papel muito mais decisivo [Nota da Lola: Reaças amam esse documentário! Recomendo ler o livro de Cordelia Fine, Delusions of Gender, que recebeu o título em português de Homens Não São de Marte, Mulheres Não São de Vênus, e que desmonta todas essas pesquisas "científicas" que juram que somos praticamente espécies diferentes]. 
Então enquanto o mundo não for verdadeiramente igualitário (o que pelo andar da carruagem parece uma utopia) não tem como se falar em predisposição genética. E mais importante: ainda que efetivamente exista uma predisposição genética ligada ao sexo, e daí? O ser humano é um conjunto de fatores genéticos e sociais, fora que eventual predisposição genética tem uma curva imensa. Explico: digamos, hipoteticamente, que se chegue à conclusão que, de forma geral, meninos são mais ativos fisicamente que meninas. Porém, sempre vão existir meninos que são mais ou menos ativos entre o sexo masculino, assim como vão existir meninas com a mesma curva.
Portanto, se ambos forem criados de forma aberta, essa predisposição genética no fim será irrelevante porque ambos vão ser livres para verdadeiramente desenvolverem seus potenciais e fazerem suas escolhas. Isso num mundo utópico, claro, porque nesse que vivemos o que mais vejo são falsas liberdades, quando no fundo a distinção de gênero reina desde a mais tenra idade.
Vou dar exemplos do meu convívio social: ouço muitas mães que dizem que deixam os filhos livres para escolherem com o que querem brincar afirmarem que seu filho "naturalmente" escolhe carrinhos. Aí pergunto a elas: ok, mas você já comprou uma boneca pra ele? Se não, então como sabe que ele prefere carrinho? Ou mães que dizem: “Ah, mas minha filha é naturalmente mais emotiva do que meu filho”, e num outro momento escuto o pai/ mãe da criança falando pro menino parar de chorar que nem uma mulherzinha. Cadê a criação igualitária aí?
Agora que pensamos em ter o segundo filho, todo mundo me pergunta se não quero ter uma menina. Sempre respondo que tanto faz! Seja menina ou menino, vai usar as mesmas roupas do meu filho (que tem um arco-íris de cores no armário), vai brincar com os mesmos brinquedos, vai ser criado/a da mesmíssima forma. Mas me angustia, Lola, pensar que quanto mais meu filho cresce mais ele vai ser exposto a outras influências e preconceitos. 
Por isso acho tão importante esse trabalho que você faz de discussão sobre o feminismo e desconstrução de estereótipos. Seu blog foi muito importante no meu crescimento como feminista e até hoje seus posts inspiram longos debates com meu marido de como podemos seguir desconstruindo a cada dia e nos despindo dos preconceitos que foram tão profundamente gravados em nós. Espero que você tenha forças pra seguir com o blog por muitos anos mais!

sexta-feira, 22 de julho de 2016

UMA SÉRIE DE TV PRA RECOMENDAR

Vou recomendar uma série de TV que pouca gente conhece (pelo que consultei por aí).
Foi a Cintia, uma jornalista e assessora de um sindicato de educação em Tubarão (onde estive em abril para uma palestra) que a recomendou pra mim, e aí eu, maridão e minha mãe assistimos as duas temporadas -- e adoramos.
Já ouviu falar de The Knick? (veja trailer legendado). O título é ruim e nada criativo. Refere-se a um hospital em Nova York, só isso. 
Antes de prosseguir, devo dizer que odeio séries passadas em hospitais. Nunca vi Plantão Médico, nem pra ver o George Clooney e a Julianna Margulies jovens, ou Grey's Anatomy; não sou fã de House (maridão e mamãe são). E eu não veria Knick se não fosse por um detalhe -- tudo bem, passa-se num hospital, mas um século atrás. É hiper interessante ver como era a ciência naqueles tempos. 
Imagina que, pra fazer uma reconstrução de nariz em 1900, a pele deve ser tirada do braço da pessoa (até aí, tudo ok), mas a pobre paciente tem que ficar com o braço colado no nariz durante meses. Imagina a enorme inovação que foi a máquina de raio X. Imagina um psiquiatra que acha que um bom remédio pra curar distúrbios psíquicos é arrancar todos os dentes do paciente. Imagina a eletricidade falhar e uma pessoa ser incendiada na mesa de operação. Imagina fazer tudo isso sem anestesia e sem luvas cirúrgicas...
Clive Owen é o ator principal. Ele faz um cirurgião brilhante e problemático, que só consegue funcionar se usar cocaína, heroína, morfina, ópio. E tem um vilão, o administrador corrupto do hospital, que você vai amar odiar. Há também outros personagens incríveis, como uma freira que realiza abortos (todos clandestinos, proibidos) para salvar as mulheres de uma morte quase certa.
Todos os episódios das duas temporadas (a terceira está em negociação) foram dirigidos por Steven Soderbergh, consagrado diretor de filmes como Sexo, Mentiras e Videotape e o maravilhoso Irresistível Paixão
Ultimamente ele tem preferido a TV ao cinema, pois a considera mais aberta à complexidade das personagens e mais afeita a riscos (vários diretores dizem o mesmo: que o cinema, por ser caro demais, não tem coragem de ousar, só segue fórmulas). 
O racismo e o machismo do século passado 
(segundo reaças, essas coisas acabaram, ficaram no passado; aposto como os antepassados reaças deles também achavam que racismo e machismo não existiam em 1900, era só mimimi de sufragista) estão muito bem representados em The Knick. O racismo fica por conta do tratamento que recebe um médico negro (tem gente que literalmente prefere morrer a ser operada por ele) e por todo um fascinante subtexto sobre eugenia, uma "ciência" então totalmente aceita como verdade. 
O machismo podemos ver mais através de duas excelentes personagens. Uma é Lucy, uma enfermeira jovem que tem ambições de se tornar médica, num mundo em que aquilo não é uma possibilidade (o monólogo dela, falando ao pai, um pastor hipócrita, é sem dúvida um momento marcante da TV, extremamente bem escrito e interpretado. Pode ser visto aqui, só que sem legendas e sem contexto).
A outra é Cornelia, a filha do dono milionário do hospital. Ela é uma ótima administradora mas é obrigada a largar o que gosta de fazer para virar esposa e dona de casa. Uma das minhas cenas favoritas de toda a série é quando o marido (que não é um cara abusivo nem nada) pede que ela faça o que é esperado dela por ser mulher. 
Minha única crítica à série é que há um certo exagero em mostrar todas as coisas nojentas possíveis. Acho isso desnecessário. Tem uma cena em que operam um olho que eu não consegui assistir e pedi pro maridão me avisar quando acabasse. Mas, de resto, The Knick é tudo de bom. 
Minha série favorita de todos os tempos continua sendo A Sete Palmos, que acabou em 2005. 
Pra quem não viu, olha, não sei o que você está esperando.
E você, tem alguma série pra recomendar? A gente está se sentindo tão órfã com o fim de The Good Wife, por exemplo, que passou a rever Game of Thrones desde o comecinho. Faz mais sentido agora, depois do final feminista da sexta temporada.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

"NÃO IMPORTA O QUE TE FIZERAM, MAS O QUE VOCÊ FEZ DAQUILO QUE TE FIZERAM"

A., de 26 anos, me enviou este relato que partiu meu coração em centenas de pedacinhos, mas depois o reconstruiu.

Minha mãe engravidou aos 20 anos, de uma transa na praia, numa viagem pra outro estado. Era o primeiro cara da vida dela, e imagino o horror ao voltar para o interior, contar aos pais... Na minha infância sempre fomos eu e ela, e graças a Deus a família toda dela, que depois daquele choque inicial foi tudo que eu precisava. 
Meu pai continuou um cara jovem, pegando onda, fumando maconha e curtindo os anos 80, aparecendo de três em três anos com uma Barbie na mão. Ele teve mais duas filhas, com duas mulheres e hoje é um homem de cinquenta e poucos anos namorando uma moça de vinte, despreocupadamente. Minha mãe se formou, construiu uma casa (literalmente, pois às vezes trabalhava até como servente do pedreiro) e isto tinha tudo para ser uma história com final feliz para nós duas. 
Mas aí entrou um padrasto. E por mais que os contos de fada insistam em colocar a madrasta como a bruxa má, pelos relatos que eu acompanho é do padrasto que as meninas deviam aprender a ter medo. 
Minha mãe engravidou e nos mudamos para a casa dele, eu tinha 11 anos. Após o primeiro ano de lua de mel e curtição do bebê, começaram as primeiras brigas. No dia do aniversário de um aninho ele deu um tapa na cara dela, porque ela havia batido a porta do carro. Ela ficou chocada, brigou, disse que não aceitava aquilo... E na mesma semana perdoou. Lembro deles conversando com um casal na minha frente e falando como aquilo era normal, briga de marido e mulher. 
Como alguém diz à filha de 12 anos que se ela levar um tapa na cara é normal? Nos meses e anos seguintes tudo foi se repetindo e aumentando. Lembro dele em cima dela no chão da sala, esmurrando sua cara. Ele chegou a quebrar a mão dela e umas costelas. Ela teve um segundo filho com ele, e ainda com os pontos da cesárea apanhou tanto que eles abriram. 
Todas essas vezes ela dizia que ia sair de casa, juntava tudo, ia pra casa de algum irmão ou amigo, e voltava. Virou piada da família, que sabia que ia continuar, e com 8 irmãos, ninguém nunca interferiu. Eu já adolescente ficava cada vez mais chocada: minha mãe, que era meu modelo de mulher na infância, que sempre tive o maior orgulho, era uma fraca. 
Mas nada é tão ruim que não possa piorar. Aos 16 anos, meu padrasto começou a me perseguir. Da primeira vez abria a porta do meu quarto de manhã e ficava me olhando, e eu era TÃO inocente que lembro de pensar: “Que bobo, deve tá achando que eu tô perdendo hora, não sabe que hoje não tem aula”. 
Meses depois eu estava tomando banho enquanto minha mãe trabalhava, e vi os olhos do meu padrasto me vendo nua da janela do banheiro. Congelei. Não consegui gritar, não tinha para quem gritar. Saí do banho e quando passei por ele, ele me entregou meu irmão bebê relando a mão no meu peito. Sabe qual foi minha reação? Não acreditei, não sabia se tinha ou não visto ele. Foi TÃO absurdo que meu cérebro realmente deu pane e eu não sabia de verdade se tinha imaginado aquilo. 
Minha mãe trabalhava de turno em um hospital e eu passava madrugadas inteiras com ele e os bebês em casa, apavorada, com a porta do quarto com chave. De repente o box do chuveiro que era aqueles acrílicos que tampam à vista apareceu quebrado. Logo aconteceu de novo ele me olhando no banho. Numa manhã, antes de ir pra aula, com minha mãe em casa e dormindo. Fui pra escola tremendo e chorando. 
Em algumas semanas ele sugeriu para minha mãe que eu desse meu quarto para meu irmão mais novo e me mudasse para um mezanino da casa, um espaço bem bacana -- sem porta. Fiquei apavorada imaginando suas intenções. Como eu podia contar para alguém? A vergonha se minhas amigas soubessem? Todas as vezes que minha mãe teve mil motivos para sair de casa e não saiu, ela perdoaria isso também? Se ele fosse preso, meus irmãos cresceriam sem pai como eu? 
Eu juntei minhas coisas e me mudei para a casa da minha avó.
Eles continuavam brigando até que um dia ele me ligou e disse que ia matar minha mãe na frente dos meus irmãos. Liguei pra polícia, que não foi lá. Liguei pra uma tia, que disse que era pra gente não se intrometer. Só me restou rezar, e semanas depois desenvolvi síndrome do pânico e pensei em me suicidar. 
Minha mãe insistia que eu voltasse e nossa relação mudou depois disso: ela se sentia abandonada por mim, achava que saí de casa porque queria curtir a juventude, que não queria ajudar com meus irmãos, sendo que eu tinha uma dívida com a juventude dela, né? E  eu me sentia traída por ela, não acreditava que ela podia não ter percebido, que tinha me sujeitado àquilo. E  tudo virou uma bola de neve. 
Eu me transformei numa pessoa amarga, não gostava de conhecer gente, não confiava em ninguém, menosprezava os problemas banais de amigas, não tinha relacionamentos saudáveis com namorados. Eu não gostava dela e nem dos meus irmãos, eles eram meu elo com aquele ser que eu mais odiava. Eu tinha pesadelos e ainda sonho com tudo. Até que quando os pensamentos suicidas voltaram eu comecei a fazer terapia, quase dez anos depois de sair de casa.
Na terapia eu comecei a aceitar que não posso mudar o que aconteceu e que sim, isso vai me machucar para sempre. Mas que eu fiz o melhor que poderia ter feito naquelas circunstâncias. Que dos males o pior não me aconteceu. E que quem eu sou hoje, a independência, a força, a garra, dentre outras coisas, foram frutos do mal que me assolou. Que eu posso trabalhar as coisas ruins e posso não cometer os mesmos erros. “Que não importa o que me fizeram -- mas o que eu fiz daquilo”, e eu fiz uma profissão, fiz a procura por um bom marido, fiz um relacionamento muito forte com minha avó e espero ser um dia a mãe que eu queria ter tido.
Citação do dia: Ele lhe ofereceu o
mundo. Ela disse que já tinha o
dela
Mas tanto quanto a terapia, o que salvou meu relacionamento com minha mãe foi o feminismo. Hoje eu enxergo a história dela não com raiva, mas com pena. Desde a garota que engravidou, até a mãe que não enxergou o que me acontecia, além da aceitação da violência toda... O feminismo me fez conhecer outras histórias, muitas ainda bem piores que a nossa, e me fez ver que não estamos sozinhas. Que a coisa é muito maior e pior do que minha cabecinha adolescente conhecia. 
Nossa relação jamais será a ideal, mas eu me libertei um pouco. Eu consigo ver que minha mãe é tão vítima quanto eu, e ver que a cultura do estupro estava até em mim, ao colocar a culpa nela, mas não está mais. 
Eu tenho acompanhando os relatos aqui diariamente e cada um é uma facada em mim, é rasgar o curativo precário que eu fiz nas minhas feridas... Vejo que na maioria dos casos as meninas desfizeram as relações com as mães, tenham elas descoberto ou não os abusos. Cada história tem seu contexto, mas eu quero que você que está aí lendo saiba que eu entendo completamente o quanto isto dói -- tanto quanto um abuso sexual. 
Mãe deveria ser aquele ser sagrado que nos ama e protege de tudo, mas elas não são, elas são apenas mulheres, muitas vítimas de uma sociedade machista, vítimas de abusos, de violência, de abandono e de preconceito tanto quanto nós. Eu não estou aqui julgando ninguém e dizendo “corra para o perdão”, estou aqui dizendo que é possível sim diminuir um pouco o ódio que cresce dentro da gente, porque o meu quase me destruiu. 
Hoje eu sou uma mulher que enxerga a mãe como outra mulher e isso muda tudo.