quinta-feira, 26 de maio de 2016

INDIGNAÇÃO SELETIVA É O QUE HOMENS SENTEM EM RELAÇÃO A ESTUPRO

Ontem fiquei toda a manhã na faculdade e só quando voltei, perto do meio dia, vi que tinha recebido várias mensagens desesperadas pedindo para denunciar um vídeo. 
Nem sabia do que se tratava e o vídeo já havia sumido (óbvio que nada some na internet; ele continua circulando livremente). Mas logo vi que a palavra "estupro" estava nos Trending Topics do Twitter, e pouco a pouco fui me informando. Uma menina de 17 anos no Rio foi drogada e estuprada, segundo um dos estupradores que filmou, baixou e divulgou o vídeo, por "mais de 30". No vídeo, um deles filma a sua cara (e a da menina, claro), e mostra a garota nua, de costas, sangrando. Rindo, ele faz piada com o estado físico dela.
 
Eu vi o vídeo horas depois, num chan misógino em que, óbvio ululante, homens culpam a vítima. E preferia não ter visto. Sabe quando você se pega chorando e balançando a cabeça para tentar esquecer? Pena que a vítima não possa fazer isso. É terrível imaginar como ela deve estar se sentindo.

Como sempre acontece com vídeos e posts que viralizam, pessoas bem intencionadas, que queriam (e querem) denunciar o caso, ajudaram a divulgar o vídeo. 
Gente, é o que eu vivo dizendo: nunca divulguem, apenas denunciem. Podem denunciar à Polícia Federal, ao Ministério Público, à Safernet (infelizmente, um importante canal de denúncias, o Humaniza Redes, foi desativado pelo presidente golpista já no primeiro dia de seu governo). Podem se indignar nas redes sociais, mas sem linkar pro que vocês querem denunciar. Senão, estamos sendo cúmplices. 
Depois de mais de 800 denúncias recebidas, o Ministério Público pediu para que agora só sejam enviadas informações sobre o caso (como identificação dos envolvidos, endereços, novas provas do que aconteceu). Pode também ligar para o Disque-Denúncia: (21) 2253-1177, ou enviar email para o delegado da Polícia Civil responsável pelo caso: alessandrothiers@pcivil.rj.gov.br
Mas como fazer com que o vídeo, que está circulando na net, desapareça? Isso é bem difícil. Recomendo denunciar a cada canal (lembrando: sem divulgar o link). Se você viu algum perfil no Twitter divulgando o vídeo, denuncie ao Tw. Se viu no FB, denuncie ao FB. Se viu no YouTube, denuncie ao YT. Por aí vai. 
A menina de 17 anos, que estava desaparecida há dias, foi encontrada num bairro do Rio, Praça Seca, por um agente comunitário que havia visto o vídeo. Ela está agora na casa da família e fez os exames de corpo de delito. Já prestou depoimento à polícia, que já identificou dois dos envolvidos (faltam só 28 agora?).
Quase sem procurar, até porque não tive tempo, me deparei com inúmeros exemplos de misoginia, como o que coloquei para abrir o post, um tuíte de um cara com quase 50 mil seguidores no Twitter. Ele se revolta não com estupros, mas com feministas ("gordas", segundo ele) que combatem estupro.

Não seria bacana se esses homens se indignassem tanto com a violência contra as mulheres quanto se indignam com generalizações sobre homens?
Não, eles estão ocupados demais combatendo feminismo. Não têm tempo para combater problemas menores como estupro, violência doméstica, assédio sexual, pornografia infantil etc. Todo o seu tempo de vida útil é gasto atacando feministas e demais ativistas sociais. Porque nós somos a grande praga do mundo. Não os crimes que combatemos.
Vi também que nós feministas falamos tanto sobre estupro porque queremos ser estupradas (mas não merecemos!), que feministas não ligam pra estupro, que as feministas só começaram a falar de estupro no século 21 (de onde esses caras tiram essas coisas?!), e que -- la crème de la crème -- feministas não fazem nada contra estupro, quem faz é o Bolsonaro. 
Pois é, depois de sete mandatos como deputado federal sem fazer absolutamente nada, Bolso decidiu lançar um projeto que estipula castração química para estupradores. Castração é considerada uma violação a direitos humanos e não resolve nada. Na falta de um pênis que funcione, estupradores continuarão estuprando usando objetos (o que já é uma prática muito comum atualmente, mesmo entre homens não castrados).

Combater a misoginia, que é o que causa estupros, os reaças não querem. São contra discutir gênero nas escolas, pois consideram isso doutrinação (Alexandre Frota foi ontem recebido pelo ministro da educação para levar propostas da Escola Sem Partido, que proíbe que educadorxs deem sua opinião em sala de aula). 
Temos que ouvir que um misógino de marca maior como Bolsonaro faz muito pelas mulheres! 
Bolso, que defende torturador estuprador de mulheres; Bolso, que concorda com empresários pagarem menos às mulheres para compensar gastos com licença maternidade; Bolso, que culpa as mulheres que trabalham fora pelo aumento de homossexuais; Bolso, que edita vídeos para difamar professora universitária; Bolso, que se indigna quando o Enem cita Simone de Beauvoir; Bolso, que grita para uma deputada que ela "não merece" ser estuprada; 
Bolso, que tem uma legião de misóginos neonazistas que fazem de atacar mulheres sua missão na vida -- é, esse é o sujeito que faz mais pelas mulheres do que todas as feministas juntas na história do feminismo!
É curioso: anteontem, reaças diziam que um homem -- o heroico cunhado de Ana Hickmann -- representava toda a masculinidade. Agora temos trinta homens que estupraram uma menina, e nenhum deles foi capaz de parar aquilo, de se revoltar, de gritar que isso não estava certo. Eles não representam a masculinidade? Não são homens?
Tipo este comentário (clique para
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representativo da masculinidade?
E os milhares de homens que divulgaram o vídeo para zombar da vítima e para se masturbar com ele? Nada a ver com masculinidade? E as centenas de comentários justificando o estupro corretivo, alegando que a garota era mãe solteira e usuária de drogas? Nenhuma conexão com a masculinidade? (lembrando que em toda e qualquer notícia sobre estupro aparecem inúmeros caras para justificar o estupro. Isso porque cultura de estupro é invenção de feminista).

Pra eles, estuprador não é homem. É verme, monstro, doente, demônio, animal... Qualquer coisa menos o óbvio: é homem, p*rra! Dizer que estupradores são homens é bem diferente de dizer que homens são estupradores. 
Mas se você sequer reconhece que estupradores são homens, como vai lutar contra estupro? Se você não identifica as causas de estupro -- se você não sabe que estupros têm infinitamente mais a ver com poder e humilhação do que com sexo, que estupro é um meio de homens se unirem, que é uma prova da masculinidade, que parte do princípio que a vítima não é uma pessoa, mas uma coisa -- você não tem como combater essa verdadeira chaga social.
Mas a verdade é que você não quer combater nada, né? Só feminista mesmo.
O estuprador não é um alienígena que desembarca no nosso planeta e se põe a estuprar. Ele é cria nossa, prata da casa. Ele não foi necessariamente ensinado que estuprar é legal (pelo menos a maior parte não). Mas ele foi ensinado um monte de lições que no fundo dão no mesmo: foi ensinado que homem pode tudo, que homem tem que ser pegador, que mulher é inferior, que mulher gosta de ser estuprada, que mulher sozinha é de todos, que homens precisam insistir e forçar um pouco para fazer sexo, que quando uma mulher diz "não", na verdade ela está dizendo "sim", que essa tava pedindo. O estuprador ouviu (e fez) centenas de piadas de estupro dizendo que estupro é uma ótima oportunidade de sexo pra mulher, que c* de bêbado e, principalmente, de bêbada, não tem dono. É uma vida toda de lições. É isso que chamamos de cultura de estupro.
Você, homem, não quer ser confundido com um estuprador? 
Não entende como uma mulher na rua pode ter medo de você? Ou é realmente contra estupro e quer que eles deixem de existir? Então é hora de parar de combater quem combate estupro. É hora de você assumir sua responsabilidade. É hora de você aceitar que estuprador é homem, sim. Que há todo um modelo de masculinidade que causa, justifica e defende estupro. 
E lembre-se sempre: nós mulheres não queremos ser salvas por homens. Só queremos que vocês parem de nos atacar.
É hora de você fazer a sua parte. 

quarta-feira, 25 de maio de 2016

O MACHISMO NÃO SALVOU ANA HICKMANN, O MACHISMO QUASE A MATOU

Ontem o projeto de escritor Rodrigo Constantino falou mais das suas tradicionais besteiras, desta vez sobre como a masculinidade salvou Ana Hickmann. 
Rodrigo, o stalker
Vale ressaltar que essa ideia ridícula de que o cunhado másculo de Ana a salvou não é exceção, mas regra entre reaças. Eles são incapazes de ver que Ana foi salva por um homem de outro homem. O cunhado herói que reagiu ao ataque representa a masculinidade? E por que o stalker com desejo de matar não representa? Se vamos usar o caso para falar de masculinidade, vamos falar de todos os homens envolvidos (incluindo o cabeleireiro de Ana que, segundo o cunhado, salvou a vida de Giovana ao levá-la de táxi pro hospital).
E tem algo muito interessante que está sendo completamente ignorado pela mídia: Giovana, a cunhada de Ana, esposa do herói, assessora da apresentadora, que levou dois tiros (mas felizmente passa bem), também foi uma heroína. 
Giovana e Gustavo: cunhados heróis
de Ana Hickmann
Veja a partir de 8:10 até o décimo minuto a entrevista da apresentadora. Ana diz que o stalker atirou nela duas vezes: "Pelo jeito que o tiro passou do meu lado e pegou na minha cunhada, ela deve ter feito um movimento com o corpo pra me proteger. Eu não consigo imaginar de outro jeito".
Mas todos só falam de Giovana como vítima, não como heroína! Porque o ato de auto-sacrifício de Giovanna não cabe na narrativa da "masculinidade heróica" que adoram contar. 
A advogada e feminista Kamilla Barizon deu uma excelente resposta a Constantino. Conheçam as ótimas páginas da Kamilla! 

O machismo não salvou Ana Hickmann, o machismo quase a matou.
O ex-blogueiro da Veja, Rodrigo Constantino (aquele do vídeo do Dá-Bilhão?! também conhecido por usar t-shirt do Che Guevara com orelhinhas de Mickey Mouse e ainda pelo episódio em que escreve uma carta aberta ao povo americano pedindo votos para Ted Cruz), resolveu comentar o caso Ana Hickmann.
Com toda sua sagacidade, o economista traz: ANA HICKMANN ESTÁ VIVA GRAÇAS ÀS CORAGEM E VIRILIDADE DE UM HOMEM QUE REAGIU como título de seu mais novo texto.
Pois muito que bem, o moçoilo começa o texto falando que raríssimos são os que têm coragem de falar abertamente em masculinidade (não é o caso de Constantino que vira e mexe está por aí perguntando onde estão os machos?), porque, segundo o economista, teriam receio de serem tachados de machistas.
Rodrigo não tem esse receio e passa a defender a macheza, a virilidade, e por que não, a brutalidade, natural desse ser tão iluminado: o homem.
Em um dos melhores momentos do texto ele diz que: Ana Hickmann está aí, literalmente, para provar a importância da masculinidade e da fortaleza que leva até o auto-sacrifício. 
Uma das declarações de Rodrigo
para Ana
Vamos resumir aqui o caso da Ana Hickmann para o leitor(a): a apresentadora tinha um “fã” fanático, obcecado. Rodrigo (não o Constantino, o fã obcecado) a desejava, em suas redes sociais encontramos declarações insanas para a apresentadora, recheadas de mensagens com conteúdos pornográficos. Ele “a amava”, segundo suas mensagens. Bem sabemos que esse louco sentimento de posse que Rodrigo apresentava não é amor porra nenhuma (ao contrário do que diz o irmão do atirador, quem ama não invade o quarto da pessoa amada, armado e gritando desaforos).
Outra declaração de Rodrigo
Em busca da mulher que deveria ser sua, Rodrigo vai atrás da apresentadora em um hotel, entra armado e rende todos os presentes (Ana, a assessora e o cunhado). Armado, o criminoso passa a ofender a apresentadora que não correspondia ao seu "amor". No meio de tudo isso o cunhado, em defesa de Ana, da assessora e em sua defesa (pois acompanhando o caso é evidente que o desfecho seria a morte dos três seguida do suicídio do criminoso), de forma sim, muito corajosa, trava uma luta com “o fã”, consegue tomar a arma e atira nele.
Em resumo: um homem armado tenta assassinar uma mulher que não corresponderia ao seu amor.
Adivinhem vocês, carxs colegas, o objeto da crítica feita por Rodrigo Constantino em seu texto?
A indústria das armas? Não. 
[Nota da Lola pra quem defende armamento: bebês de um a três anos mataram mais pessoas este ano nos EUA do que terroristas. Pela atenção, obrigada].
O sentimento doentio de posse que os homens ainda têm perante as mulheres que lhes são objeto de desejo?
Ana e Giovana
NÃÃÃÃÃO! Rodrigo critica os pacifistas (!) e, claro, óbvio, evidentemente AS FEMINISTAS!
Rodrigo não perde a oportunidade de defender o armamento enquanto, sutilmente, aproveita qualquer deixa para falar das feministas.
Pra fechar o texto com chave de ouro, ele manda: 
contra essas pessoas armadas que querem matar inocentes, nada como um homem igualmente armado ou capaz de enfrentar o perigo para defender os demais. Foi isso que salvou Ana Hickmann. É isso que as feministas tanto atacam e condenam.
Do alto de seu conhecimento sobre a vivencia feminista Rodrigo me traz um insight: claro, sim, é isso que as feministas atacam e condenam -- o cunhado bem intencionado da Ana Hickmann.
As feministas não atacam e condenam a covardia de homens como Rodrigo (o atirador, não o Constantino, se bem que… enfim), as feministas não atacam e condenam a forma como esses homens doentes facilmente têm acesso à posse de armas, as feministas não atacam e condenam a forma como os homens apoiados na cultura patriarcal imaginam possuir as mulheres, as feministas não atacam e condenam homens que diariamente agridem e matam. O que as feministas tanto atacam e condenam são os homens como o cunhado de Ana Hickmann que esboçou uma digna reação de defesa.
Não vamos nem entrar no mérito e sair colando aqui links para mostrar que em diversas situações existia uma mulher igualmente capaz de enfrentar o perigo para defender os demais. Vamos apenas, diferentemente de Rodrigo Constantino, enxergar o óbvio: o machismo não salvou Ana Hickmann, o machismo quase a matou, como mata milhares de mulheres todos os anos.

terça-feira, 24 de maio de 2016

GUEST POST: STALKING, UM CRIME PERIGOSO

A modelo e apresentadora de TV Ana Hickmann foi vítima de um stalker, que invadiu seu quarto de hotel em BH e foi morto pelo cunhado de Ana, não sem antes atirar na cunhada da apresentadora. 
Várias mulheres no Twitter lembraram que stalking é muito comum e não ocorre só com celebridades. No meio de uma conversa, a advogada Regina me mandou seu TCC sobre stalking. Pedi para que ela escrevesse um guest post, e ei-lo:
Me chamo Regina Claudia Bortman Salvador, sou mãe, esposa, filha e como muitas, sou batalhadora. O meu primeiro canudo conquistado foi em Psicologia. Agora recém-formada, conquistei o segundo, em Direito. 
O tema stalking (perseguição) partiu da experiência pessoal. Fui vítima desta perseguição insidiosa. "Meu" Stalker ficou impune, assim como muitos por aí estão devido à fragilidade do nosso sistema. 
Apesar da dor emocional que fui submetida, resolvi que não me daria por vencida. Com a experiência adquirida, resolvi aliar Psicologia e Direito, ciências que se casam perfeitamente. 
No processo de pesquisa quase nada encontrava sobre o stalking aqui no Brasil, um tema ainda mítico, mas para a minha surpresa e alegria encontrei uma voz que gritava sobre os perigos deste fenômeno que já é tão conhecido em outros países, mas que aqui popularizou-se com os acessos à internet e as redes sociais.
Lola Aronovich publicou no seu blog alguns alertas, denúncias e matérias, inclusive sobre um stalker que estava na mídia por conta de um reality show
O termo nasceu como star stalking nos Estados Unidos da América, na década de 80, fruto da perseguição obsessiva às celebridades hollywoodianas por parte dos fãs e de jornalistas conhecidos como paparazzi. [Nota da Lola: Recomendo um ótimo filme do Scorsese, O Rei da Comédia]. 
Stalking é uma perseguição que invade a privacidade da vítima, tendo reflexos negativos à sua integridade psicológica e emocional. A conduta é direcionada a uma pessoa específica e que se caracteriza pela invasão da esfera de intimidade e privacidade, pela incerteza da segurança e por assolar completamente a vida de alguém.
A persistência e motivação são critérios base para tornar o comportamento em conduta de stalking, que pode desenvolver padrões de criminalidade anunciada.
O comportamento de um stalker pode parecer inofensivo ao primeiro olhar, sendo confundido com gentileza, admiração ou até mesmo paixão efêmera.
Qualquer indivíduo pode figurar como o sujeito ativo ou o sujeito passivo na perseguição insidiosa, independente de sexo ou idade, basta para o sujeito ativo ter a motivação e o sujeito passivo sentir-se vulnerável. Mas as vítimas preferenciais de stalking costumam ser mulheres. Os dados dos EUA confirmam que uma em cada seis mulheres e um em cada 19 homens já foi stalkeado em algum momento de sua vida. 
A conscientização do stalking como problema social despertou no final do século XX. Os americanos nos anos 90 apropriaram o termo para determinar um padrão de perseguição e de condutas que precedem crimes violentos, por vezes fatais, onde as vítimas deixam de ser apenas celebridades, transpondo para outros contextos e relações da população geral.
Com o advento da internet, com o fruto da evolução das relações sociais, da variedade e da quantidade de dados pessoais divulgados nas redes, a conduta adentrou para o campo virtual e o termo se expandiu, criando o cyberstalking, isto é, o stalking alcançado pela rede mundial de computadores, perpetrado através de meios informáticos com qualquer pessoa que desperte o interesse do agressor.
As vítimas desta violência virtual não são mais apenas as celebridades. Todos que usam as redes sociais, como Facebook, Twitter, Instagram, Snapchat ou WhatsApp podem ser molestados por recados injuriosos e passíveis de perseguição, visto que há pessoas que utilizam os aplicativos de geolocalização FourSquare e o Swarm, onde publicam sua localização com exatidão e tempo real, desta forma fornecendo ao stalker dados preciosos para que ele obtenha êxito em sua caçada.
Ainda não há em vigor no Brasil uma lei específica que proíba a prática do stalking. Os juízes buscam na Constituição Federal e no Código Civil o amparo devido à vítima, a solução para o caso e as consequências ao algoz. Desta forma sentenciam realizando adaptações com as leis existentes, porém não ultrapassando a contravenção penal. Sendo assim, a conduta de perseguição insidiosa não é criminalizada, o que provavelmente vem a se tornar um problema social devido a indisposição que a vítima sofre.
Atualmente no Brasil, quando a vítima é alvo de perseguição e toma a iniciativa de denunciar o responsável pela angústia, a situação segue de acordo com o artigo 69 da Lei Federal n.º 9.099/95, para iniciar o trâmite jurídico com o registro de um Termo Circunstanciado de Ocorrência.
A esperança para quem sofre de um assédio constante e persecutório em todas as esferas sociais reside no anteprojeto do novo Código Penal, criado pelo Requerimento nº 756, de 2011, de autoria Senador Pedro Taques, aditado pelo de nº 1.034, de 2011, com aprovação pelos senadores da República em 10 de agosto de 2011, como proposta para a real solução brasileira anti-stalking. 
O texto do anteprojeto foi entregue em solenidade no Senado Federal no dia 27 de junho de 2012. Para que o texto fosse preparado foi necessário reunir um grupo seleto de juristas, que discutiram e elaboraram o anteprojeto para reforma do Código Penal.
Neste grupo está incluído o renomado jurista Luiz Flávio Gomes, que sempre foi exímio defensor da criminalização do stalking, que juntamente com Damásio de Jesus, foram os pioneiros na seara jurídica a trazer o tema e proporcionar as discussões sobre a criminalização e como a perseguição insidiosa afeta a vítima, proporcionando aos acadêmicos de Direito o contato com esta modalidade desde o ano de 2006.
A Comissão de Reforma também oferece um nome juris a cada um dos tipos penais propostos. A necessidade de uma descrição típica é fundamental diante aos novos tipos penais propostos, em especial o stalking, conhecido através do termo jurídico de “perseguição insidiosa ou obsessiva”. O crime de stalking estará previsto no Capítulo V, Crimes Contra a Liberdade Pessoal. 
A Comissão de Reforma vislumbrou a criminalização do stalking não apenas para atender uma recomendação da ONU, mas também por identificar na sociedade contemporânea o anseio em obter uma resposta incisiva aos comportamentos que não eram considerados criminosos e acima de tudo, por considerar uma afronta à liberdade pessoal. 
Com isso, o Brasil busca equiparar-se aos demais países que já possuem a lei anti-stalking, editando normas civis e penais. Na proposta do anteprojeto do novo Código Penal, o novo artigo 147 assim está redigido:
“Perseguição obsessiva ou insidiosa 
Art. 147. Perseguir alguém, de forma reiterada ou continuada, ameaçando-lhe a integridade física ou psicológica, restringindo-lhe a capacidade de locomoção ou, de qualquer forma, invadindo ou perturbando sua esfera de liberdade ou privacidade:
Pena – prisão, de dois a seis anos.
Parágrafo único. Somente se procede mediante representação.”
Em minha pesquisa encontrei a divisão tipológica dos stalkers feita com base nos inúmeros casos atendidos por policiais estadunidenses durante décadas e com o apoio do National Center for Victims of Crime através do Stalking Resource Center, que criaram uma tipologia que inclui as seguintes categorias:
a) Obsessivos simples: o tipo mais comum, onde o sujeito ativo é do sexo masculino e o sujeito passivo é uma ex-esposa, ex-amante, ou antigo patrão/patroa. Por vezes a conduta persecutória deriva da ideia que o stalker tem de que a vítima o terá maltratado. 
b) Obsessivos amorosos: o stalker para o sujeito passivo é um estranho ou um conhecido casual, que inicia uma empreitada de assédio até fazer com que a vítima tome consciência da sua existência. 
c) Erotomaníacos: o sujeito ativo acredita que a vítima está romanticamente envolvida com ele e crê que eles deveriam estar juntos. É um tipo de stalker que pode colocar em risco as pessoas próximas da vítima. 
d) Síndrome de falsa vitimização: é alguém que conscientemente desempenha o papel de vítima através de idealização, criando um enredo complexo onde alega ser a vítima da perseguição obsessiva, transformando a verdadeira vítima em algoz.
Recentemente fomos todos surpreendidxs com o que aconteceu com a apresentadora Ana HickmannUm caso clássico de stalking!
Através do material que eu tive acesso, o agressor era um erotomaníaco, pois através de suas postagens no Twitter e Instagram ficou claro que o rapaz acreditava que ele e Ana mantinham um romance. 
Talvez a partir de agora, com o acontecido com Ana Hickmann, o Legislativo perceba a necessidade de leis incisivas que protejam as vítimas contra os avanços, até mesmo já na prevenção.
Eu não tenho disponibilizado o meu TCC pela web mas fico imensamente grata em compartilhar por e-mail (escrevam para reginabortman@gmail.com). Acredito que meu trabalho ultrapassa o conteúdo educativo, pois serve de alerta.
Diálogo gravado no quarto de hotel de Ana Hickmann entre Rodrigo e o cunhado de Ana
Descrição da mãe de Rodrigo sobre ele: parece um mascu (morava com os pais, não trabalhava, machista, anti-sociável, obcecado por academia
Mascus lamentam que Rodrigo não fez mais (clique para ampliar)