quarta-feira, 17 de setembro de 2014

"NÃO QUERO UM MACHISTINHA NA FAMÍLIA"

A J. me enviou este email:

Já aviso que não sou feminista, mas foi graças ao feminismo que me livrei de DIVERSAS ideias e atitudes machistas (sim, tenho vergonha de falar que já fui machista). Sou o típico caso da família que é naturalmente machista, mas em contrapartida sou filha de mãe solteira que enfrentou o pai (meu avô) por amor a essa que vos escreve...
Quero cada vez mais conhecer o feminismo pois ele me faz crescer em TODOS os aspectos! E desde já te agradeço por me fazer crescer assim... Conheci seu bloguinho há mais ou menos um ano e meio e desde então, mudei muito e sinto orgulho de tais mudanças!
Estou com meu marido há sete anos, nos casamos há sete meses e estou grávida há cinco meses! Pois é, fomos rápidos, escolha nossa mesmo.
Meu marido é o caçula de três irmãos, uma família muito pobre, que lutou MUITO para levar uma vida digna. Sempre percebi em minha sogra uma mulher guerreira, batalhadora mas sempre um pouco solitária, sempre com algo a desabafar, por isso sempre conversamos bastante. Já com meu sogro a história é diferente. Sempre evitei dialogar com ele porque é algo enervante. Ele é aquela figura machista, que acha que mulher "deve se dar o respeito".
Mesmo antes de conhecer o feminismo eu sabia que tinha algo de errado nessas ideias dele. São tantas coisas que ele faz que me irritam... 
Como quando aparece uma moça de biquini na TV ele já solta "puta, vagabunda, biscate". Essas são as três palavrinhas típicas dele, que diz que "está apenas brincando". Ou quando ele (constantemente) começa uma conversa para falar sobre as mulheres que traem seus maridos ("porque é um absurdo, onde já se viu, muitas MULHERES fazem isso"). Ah, e teve o dia, logo no meu primeiro ano de namoro, que em meio a uma conversa, não me lembro sobre o quê, ele disse a famosa frase "filho do meu filho, meu neto É. Filho da minha filha, meu neto SERÁ".
Há uma semana estávamos conversando e ele me disse "Sei que você não gosta que peguem na sua barriga, mas quando ela estiver grande eu vou pegar sim, porque é meu neto e eu peguei na barriga das minhas outras noras também". Óbvio que ele disse isso na maior naturalidade, e eu? Bom, eu fiquei sem reação... como aconteceu das outras vezes em que ele disse as coisas que citei acima. 
Aliás, falando sobre "corpos grávidos", falei sobre o assunto no bendito Facebook e até postei o guest post do seu blog falando sobre isso. Não preciso nem falar o quanto as pessoas ficaram indignadas ao saber que "meu corpo não é público". Umas até levaram para o lado pessoal e pediram desculpas por querer fazer um carinho no meu bebê (oi?). Enfim...
Voltando ao meu sogro, Lola, em suma, tenho medo da influência que ele pode ter sobre o meu filho, afinal, pretendo fazer com que ele respeite as pessoas e suas escolhas, sem julgá-las, sem atacá-las. Quero ensinar que todo ser é ÚNICO e que ele pode ser quem ele quiser!
É claro que sei que tudo isso vai depender de mim e do meu marido. Felizmente, meu marido também discorda dessas ideias machistas do meu sogro. Mas também não posso evitar que meu filho conviva com os avós... Sei lá, muitas vezes não sei o que fazer.
Ah, apenas falando só um pouco da minha sogra. Em uma de nossas muitas conversas, ela me contou como meu marido foi concebido: ela e meu sogro estavam em uma festa. Na época, estavam quase se separando. Ela bebeu bastante nessa festa. Em um certo momento ela não estava se sentindo bem e meu sogro a levou p/ casa e a colocou na cama...e daí ela não lembra de muita coisa. Tempos depois descobriu que estava grávida.
Sem contar os relatos do meu marido sobre as vezes em que o pai chegou em casa bêbado e agrediu a mãe e ele, com apenas 14, 15 anos tendo que 'ir para cima' pai para evitar que sua mãe fosse agredida.
E aí Lola, como não temer uma influência dessa?

Minha resposta: De fato, parece ser uma figura bem nefasta esse seu sogro. Eu também não ia querê-lo perto de mim, e muito menos perto de uma criança. Mas não sei se você tem muita escolha. 
Ele será o avô do seu filho, e de repente as besteiras que ele diz pra você e pro mundo não serão repetidas pro neto. De maneira geral, as pessoas são diferentes com cada um. Só porque seu sogro é um escrotossauro contigo não quer dizer que ele será igual com o neto. Vai saber? Talvez ele seja um carneirinho com o neto. 
Acho que você pode cobrar que ele não fale essas asneiras perto de uma criança. Vai criar um climão, eu sei, mas comece a reagir de leve. Quando seu sogro soltar uma das dele, diga "Ah, as coisas ridículas que você diz!", sem muita seriedade, zombando dele. Quer dizer, estou sugerindo. Sei como é difícil, na hora, a gente rebater. Mas não é pra iniciar um debate, é só pra apontar que ele não está agradando. 
Termos como "puta, vagabunda, biscate" ele não vai poder usar diante de uma criança, vai? Tá, sei que os machistas ridículos usam, crentes de que estão ensinando o menino a "ser homem". Mas deixe claro que não aceita esses termos, e que você e seu marido, como pais do menino, não querem que ele seja educado pra ser um machista. Se seu sogro perguntar "por que não?", explique que, hoje, um homem chamar uma mulher de vagabunda por qualquer motivo que seja não é mais aceitável. Que esses julgamentos moralistas ficaram pra trás. Que você quer um filho que ame e respeite as mulheres (e os homens também), e que seja amado e respeitado por elas. 
E sobre tocar na sua barriga... A barriga é sua, toca nela só quem você quiser. Seja insubordinada. É uma pena que ele não vai gostar de você. Provavelmente já não gosta, mas dane-se. 
Se você conseguir se impor sem cortar a relação, ótimo. Senão... Não sei se tem algum jeito de sentar com seu sogro e falar pra ele o que te incomoda. Ou ele vai dizer que "estava brincando", ou ele vai ficar muito bravo por ser criticado por alguém que, pra ele, está numa posição duplamente subalterna (por ser mulher, e por ser casada com o fiho dele, em quem ele acha que manda). 
Eu digo tudo isso, mas a verdade é que eu nunca tive avôs. Só conheci, e muito pouco, a minha vó Tina, mãe do meu pai, uma senhora ranzinza, séria e distante (tanto emocional quanto fisicamente, já que ela morava na Argentina e creio que só veio nos ver duas ou três vezes). Ela morreu quando eu ainda era criança, então realmente me lembro pouco dela (não lembro de tê-la visto sorrir alguma vez; lembro do meu pai chorando quando soube da sua morte). Meus outros avôs morreram antes de eu nascer. Eu vejo crianças com avôs bondosos, e isso é muito bacana. Acho que é melhor pra uma criança ter contato com seus avôs, mesmo que eles não sejam tão boa gente, do que não ter. 
E lamento te informar, mas seu sogro não será a única má influência do seu filho. Nem de longe. Vamos ver se as boas influências que você e seu marido vão passar pra ele superem as más. Espero que sim!

terça-feira, 16 de setembro de 2014

"PAREM VOCÊS BRANCOS DE AGIR COMO SE SOUBESSEM O QUE É SER NEGRO"

Milena, o gatinho Salem, e Ana (Yoshi), autora deste post

Hoje estreia Sexo e as Negas, minissérie que vamos boicotar. Para marcar minha posição no protesto, publico o lindo desabafo de Ana Thaís, de 20 anos, estudante de design gráfico, bolsista, bissexual, e que também tem um blog.  

Sou negra. Não morena, nem moreninha. Não sou mulata, e não lhe dou liberdade de me chamar de nega. Não sem antes me conhecer e saber minha realidade. Começo esse desabafo assim, desaforada, porque estou farta de ser taxada de tudo que é coisa por ser negra, por ser mulher. 
Acho um absurdo ver esse bando de branco se dizendo representante de nós, negros. Como você representa algo que não faz parte da tua realidade? Que você apoie, simpatize, lute ao lado, mas não se coloque a frente, não fale por nós. 
Temos voz, sabemos falar por nós e acredite, só nós podemos responder por nós. Só quem sofre o racismo velado na pele diariamente é quem pode reclamar das mazelas que é ser negro num país de maioria negra, mas que age como branco, porque assim nos foi imposto. É tão triste saber que se declarar negro é motivo de discriminação, de chacota, de redução. 
Vocês brancos têm o péssimo costume de se meter em tudo, querer validar tudo, dizer amém ao que acham que lhes convém, ao que acham que é da sua alçada também, mas tenho uma coisa a lhes dizer: não é. Eu não preciso do teu amém para dizer que sou negra, que me assumo com meu cabelo crespo, com meus traços negros, com minha realidade negra. Não é você quem valida isso, sou eu. 
Sou eu quem acorda todos os dias e aprende a se orgulhar da cor e da origem um pouco mais. Quando eu digo que não vou alisar meu cabelo porque você acha bonito, eu estou dizendo que não vou alisar porque amo meu cabelo natural. Quando eu digo que meu corpo é meu, que a minha vida sexual pertence à mim e que eu não levo uma vida promíscua só porque você quer, eu estou dizendo pra você parar de agir como se todo negro tivesse pênis grande e toda negra desse pra todo cara que a quisesse. 
E quanto a esse povinho metido a escritor negro, se comparando a mais negros... É, estou falando do tal do Miguel Falabella. Querido, você não é o Spike Lee. E você pode até escrever sobre a sua realidade, mas sinto informar que sua realidade é misógina, racista. Você é bem famoso por criar bordões que diminuem. “Eu tenho horror a pobre”, já dizia teu personagem, o Caco Antibes. 
Tua série me causa asco e a tua defesa me causa tanto nojo que eu até ri, tamanha ‘ridicularidade’ do que estava escrito. Você tanto diz defender as negras e a forma como elas vivem, diz tanto não vulgarizá-las que simplesmente começou teu texto objetificando a moça que você disse ter contribuído para o título da tua série. 
Eu não sou representada por sexo e badalação. Me coloque como alguém que batalha, me descreva como uma rebelada que se mostrou dedicada aos estudos e não ao que todos dizem que serei. Eu sou pobre, e muitos negros também, mas as camareiras, as professoras, as domésticas, as ambulantes, as putas, são muito mais dignas que as descritas em séries feitas de brancos para brancos. 
Cláudia Durans, candidata a vice-
presidente pelo PSTU, e autora
deste ótimo artigo
Eu li no Blogueiras Negras na semana passada o que levarei para toda a minha vida: só um negro pode escrever sobre o que é ser negro, sobre a vida negra... Então parem vocês brancos de agir como se soubessem o que é ser negro. Vocês não têm a mínima ideia da delícia e da dor de ser o que somos, quem somos, como somos. Escrevam sobre vocês, a realidade de vocês. Dizer que escreve sobre um negro pra por dois negros atuando num elenco de 30 atores brancos, e dizer que assim está dando oportunidade ao negro... Sinto dizer, mas nem mesmo os pombos gostam de comer migalhas por toda a vida. 

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

UMA EVOLUÇÃO POSSÍVEL: MENOS CARROS, MAIS BICICLETAS

Venho acompanhando meio de longe a polêmica em torno das novas ciclovias em São Paulo, cidade em que morei durante 16 anos, até 1993. 
Antes de mais nada, só uns avisos: não ando de bicicleta desde os meus 15 anos, por aí. Nunca fui muito boa nisso, me faltava equilíbrio. Se a bicicleta tivesse rodinhas, ou se fosse um triciclo, seria mais convidativa pra mim. Que mais? Não sou fã de carro. Desde que cheguei em Fortaleza, quase cinco anos atrás, ainda não peguei no volante. Aliás, minha carteira de motorista venceu. Talvez eu a renove, mas não sinto falta nenhuma de dirigir. Mesmo.
De todas as cidades onde morei (na ordem: Buenos Aires, Rio, São Paulo, Joinville, Florianópolis, Detroit, Fortaleza), a que menos gostei foi SP. Hoje até gosto de visitar, mas, na época, eu tinha chegado ao meu limite. Fui assaltada lá três vezes. E detestava a poluição, que barrava as estrelas. Mas o pior era o trânsito, e olha que estou falando do trânsito de vinte anos atrás. Era inviável morar numa metrópole dessas. 
Campanha nos anos 1920
Em 2010, o Estado de SP recebia 1.200 novos carros todos os dias. Na capital, são 680 veículos novos sendo emplacados a cada dia. A cidade já tem 7 milhões de veículos, ou seja, um carro para cada duas pessoas. Além de lotar todo o espaço e poluir o ar, os carros matam. Em 2009 houve 1.382 mortos em acidentes de trânsito na capital, contra 1.301 vítimas de assassinato. 
Os números de SP são assustadores. Vão mesmo contra qualquer bom senso. 
Segundo um engenheiro de transporte, apenas 20% dos paulistanos andam regularmente de carro. No entanto, esses 20% ocupam 80% das vias públicas. Não é muito democrático, é? Fica menos ainda se pensarmos que, em todos os governos, as políticas "públicas" (não parecem privadas?) são feitas focando só os carros. 
E qualquer administração que ofereça alternativas ao monopólio dos carros enfrenta enorme resistência. Quando Luiza Erundina e Marta Suplicy investiram nos corredores de ônibus, a galera chiou. 
Agora é a vez de Fernando Haddad (também do PT), que promete investir em ciclovias, virar alvo. É uma guerra urbana: os 20% que andam de carro veem a cidade como sua, totalmente sua, unicamente sua, e não aceitam dividi-la com mais ninguém -- nem motos, nem ônibus, nem bicicletas, e muito menos pedestres. Esquecem-se que carro não é liberdade. É opressão social
Semana passada, uma professora e pesquisadora, referência em semiótica no Brasil, deu uma bola fora ao reclamar contra as ciclovias em SP e ainda, pra piorar, associar a cor vermelha (padrão internacional para faixas de bicicletas) com propaganda do PT. 

O senador e candidato a vice-presidente pelo PSDB, Aloysio Nunes, também se posicionou: contra as ciclovias, a favor dos moradores de Higienópolis. Aqueles que foram contra um metrô no bairro, porque traria gente "indesejável". Os mesmos que protestaram contra a construção de um shopping (que hoje eles adoram). 

Uma cidade do tamanho de SP tem hoje apenas 60 km de ciclovias. 
O atual prefeito, Haddad, quer aumentar esse número para 400 km até o final do ano que vem. Além de todas as vantagens possíveis (diminuição do trânsito, da poluição e do barulho, economia para a cidade, saúde para quem pedala), um efeito colateral das ciclovias é aumentar a segurança urbana. Já pensou nisso? Foi com a ajuda das ciclovias que Bogotá conseguiu reduzir drasticamente a criminalidade em suas ruas.
É simples: pra combater a criminalidade, é muito melhor ter mais gente nas ruas do que ruas desertas.
Fui convencida disso quando estive na Universidade Federal de Juiz de Fora, no ano passado. Lá, eles abrem as portas do campus nos fins de semana, para que cidadãos possam caminhar e pedalar. Muito mais eficaz que manter uma universidade lacrada e monitorada por guardas. Ocupar o espaço urbano deveria ser a palavra de ordem. 
É preciso sim superar a cultura do automóvel. É preciso refletir: de quem é a rua?
Campanha nos anos 20:
carros como máquinas
mortíferas
Em 1920 muita gente achava que ruas eram espaços públicos para crianças brincarem. Nada andava mais rápido que 16 km/h. Uma rua era como um passeio público, em que você só precisava se desviar de animais ou outras pessoas. Aí vieram os carros, que no início foram vistos como máquinas da morte, pois atropelavam -– e matavam –- pessoas, principalmente crianças. 
A relação dos cidadãos com a rua mudou. A rua pouco a pouco virou um lugar de carros, não de gente ou bicicletas. O fato é que essa relação entre pedestres, ciclistas, passageiros de transporte público, e motoristas de carro não é algo natural, que surgiu de repente. É uma construção social. E, como tal, pode ser desconstruída. Por que uma cidade privilegia os carros? Quem ganha com isso?
Uma das muitas casas
abandonadas em Detroit
Eu morei um ano em Detroit, Michigan. Felizmente, aluguei um lugar que ficava pertinho da faculdade, a quatro quarteirões, então era possível ir andando. Quando precisava pegar ônibus para ir a algum outro lugar não era muito bom (mas também não era um desastre, é só que demorava). Detroit é tida como uma das piores cidades americanas no que se refere ao transporte público. Por quê? Porque Michigan foi o estado em que ficavam todas as grandes montadoras de veículos (foi, não é mais. Hoje Michigan está falido justamente porque as montadoras, para aumentar os lucros, saíram dos EUA à procura de países onde podem pagar salários incomparavelmente menores e ainda ganhar isenções fiscais, como o Brasil). 
E obviamente não interessa às marcas de carro ter bom transporte público. Elas fazem lobby para que o transporte seja o pior possível, para que todas as pessoas precisem de um carro (a propósito, foram elas também que mataram o carro elétrico). 
Também morei em Joinville, conhecida como "a cidade das bicicletas", pois tem uma para cada quatro habitantes. Durante algum tempo eu dei aula na Tupy, que ficava a 1,5 km da minha casa, então eu ia andando. Quando dava a saída da fábrica, era um mar de bicicletas. Imagina toda essa gente indo de carro, ou lotando ônibus. E Joinville está longe de ser bem equipada em matéria de ciclovias. 
Tem um vídeo maravilhoso sobre como Copenhagen virou a cidade das bicicletas a partir dos anos 70. Hoje 55% dos habitantes da capital da Dinamarca vão de bicicleta para o trabalho todos os dias. São 350 km de ciclovias. É a capital com menor índice de congestionamentos urbanos na Europa. Mas nem sempre foi assim. E foi a pressão popular que fez com que Copenhagen mudasse de atitude.
Copenhagen nos anos 1930
O arquiteto Jeff Risom explica que havia centenas de bicicletas na Copenhagen da década de 1930, mas nos anos 50 chegaram os carros. Se olharmos fotos da cidade entre as décadas de 50 e 70, não veremos bicicletas. Só que, nos anos 70, com a crise do petróleo, as pessoas passaram a exigir (“como os paulistas devem fazer”, acrescenta Risom) mais opções de transporte. Foram os cidadãos que saíram às ruas para pedir ciclovias. 
Bicicletada em São Paulo
No começo, como toda mudança, ficou um pouco congestionado. Mas, à medida que mais pessoas começaram a deixar o carro em casa e adotar a bicicleta, mais espaço foi aberto para esse meio de transporte. E olha só, os dinamarqueses têm um alto padrão de vida. Não teriam dificuldade pra comprar um carrão. Só que lá carro não é status, é locomoção. E bicicletas são o meio mais rápido, barato, e não poluente de chegar a um lugar.
Os ciclistas em Copenhagen andam a 20 km/h, em média. Acha pouco? É porque você assiste muita Fórmula I, ou porque você fica fantasiando com a potência do seu automóvel. A velocidade média dos carros em SP é de 13 km/h. 
Aqui tem um texto muito bom rebatendo as principais críticas feitas às ciclovias de SP (que são muito parecidas às críticas feitas às ciclovias em qualquer lugar). 

Combater a cultura do automóvel é superar mitos, é parar de ver carro como símbolo de status e masculinidade, e admitir que outras alternativas são mais que possíveis -- são urgentes. 
Desde quanto estacionamentos são mais importantes que calçadas, máquinas têm mais prioridades que pessoas? É como o Patrick lembrou: muitos prédios públicos não oferecem creches para que seus funcionários possam deixar os filhos enquanto trabalham. Mas oferecem estacionamentos, com vigias. No nosso mundo, babás para carros são mais fundamentais que babás para crianças. 
Carros estacionados em cima de faixa
para bicicletas, em SP
Eu vou e volto andando de casa pra faculdade. Fiz essa opção, e paguei muito mais caro, para poder viver perto do meu trabalho. Assim, ganho em tempo e economizo no transporte. Não é perfeito: as calçadas são esburacadas, sujas, e muitas vezes ocupadas por carros e motos que decidem que precisam estacionar bem ali onde os pedestres passam. Os motoristas tampouco respeitam as faixas de pedestres (se não respeitam as calçadas, vão respeitar uma faixinha numa rua que eles têm certeza que pertence a eles?). 
O momento mais bacana no meu trajeto não acontece todos os dias. É quando, durante alguns segundos, o trânsito dá um suspiro. É o tempo que demora pro sinal abrir e todos os automóveis voltarem. Mas durante aqueles segundos, a cidade é outra. É silenciosa, calma, o ar é melhor. Nesses raros instantes, eu imagino como seria viver num lugar em que a cultura do automóvel não fosse tão predominante.

domingo, 14 de setembro de 2014

SÓ DIZ QUE ANTIGAMENTE ERA MELHOR QUEM NÃO VIVEU LÁ

Domingo retrasado publiquei alguns dos excelentes relatos que foram deixados no post "No tempo da vovó era melhor. Era mesmo?", que por sua vez foi um lindo comentário escrito no post sobre mulheres contra o feminismo. Adoro quando uma discussão rende desse jeito.
A ideia é a mesma: quem diz que "antigamente é que era bom", não sabe do que está falando. Ou talvez saiba, e não queira admitir: era bom pra quem? Porque pras mulheres é que não era.
Aqui outras reflexões maravilhosas escritas por leitorxs idem.

"A minha avó com certeza não tinha a menor saudade do meu avô.
Às vezes ele ficava numa onda meio deprê e botava umas músicas tristes pra ouvir durante o almoço ou o jantar, depois de comer. Todo mundo tinha que ficar na mesa, quem saísse antes dele terminar de ouvir as tais músicas deprimentes levava um belo tapão na cara." (Death)

"As mulheres mais novas não tem a menor ideia de como era difícil a vida das mulheres. O machismo era tão naturalizado que bem poucas se davam conta dos absurdos de desigualdades a que éramos sujeitas diariamente.
Fico pasma quando vejo garotas jovens dizendo que o feminismo não é mais necessário. Se elas soubessem como era, jamais diriam tamanha besteira. 
Eu creio que sou mais velha do que a grande maioria das suas leitoras Lola, mas fui educada de maneira até mais liberal. Escutava das minhas amigas coisas inacreditáveis.
Uma delas tinha muitos irmãos e irmãs, e o pai desconfiava da mãe dela, mesmo sem nenhuma prova. Espancava a esposa na frente de todos os filhos, humilhando-a de maneira brutal. Nessa época isso não era digno de sequer ser levado às autoridades, e muitas mulheres passavam por isso como se fosse natural, parte da vida de uma mulher. 
Se fosse só esse relato de uma amiga, já seria bem triste, mas infelizmente conversei com várias mulheres que passaram por situações que hoje seriam consideradas impensáveis.
Tenho também uma mãe de amigos, um amor de mulher que eu tenho como amiga. Em uma oportunidade ela desabafou comigo sobre como foi a vida dela. É de chorar.
Mesmo ela tendo uma profissão antes de casar, o marido não a deixava trabalhar em hipótese alguma, e preferiu ver os próprios filhos passarem fome durante um período de desemprego, do que deixá-la trabalhar. Ela, desesperada com essa situação, começou a fazer costuras escondida dele. Ele quando descobriu a espancou, e insultou os clientes que ela tinha. 
Sem contar a parte sexual: várias diziam que os maridos não as procuravam. Essa amiga disse que a última relação que teve com o marido foi aos 40 anos de idade, e elas tinham que se conformar com isso, e nem reclamar podiam, pra não serem chamadas de vagabundas. 
Mesmo minha mãe que nem era muito machista, quando servia a mesa, era meu pai quem tinha que se servir primeiro, e nem pensar em pegar uma porção maior que a dele. Essa era uma regra que estava implícita na maior parte das casas.
Poderia ficar horas me lembrando de situações machistas e injustas que no passado eram tão comuns.
Só posso lamentar que ainda hoje não são todas as mulheres que lutam pelo feminismo. Se elas soubessem..." (Sara)

"Me emocionei muito com esse post.
Minha avó materna tem uma história parecida. Meu avô era uma pessoa muito ruim, e chegou a deixar a minha avó, quando nova, a duas quadras do hospital (na frente do bar onde ele entrou) enquanto ela estava tendo uma hemorragia. Minha avó caminhou sozinha até o pronto-socorro para ser atendida.
Assim como no post, minha avó descobriu o que era a liberdade e a auto-determinação quando eles se separaram.
Curioso pensar que essas mulheres só se sentiram verdadeiramente felizes como indivíduos (não como mães) depois de se livrarem de seus maridos, verdadeiros algozes." (Anônimo)


"Minha vó SÓ sofreu nesta vida por ser MULHER, mulata. Ela nasceu no Sul do país. Ela já tinha dois irmãos e quando nasceu foi desprezada por ser, adivinha, mulher. Depois de humilhar e maltratar ela por anos, a então mãe dela a 'emprestou' para uma senhora que morava em uma vila alemã. Lá ela disse que foi feliz. Aprendeu a costurar, sempre separada das pessoas, mas não era maltratada como em casa. Mais tarde, ela começou a ter um namoradinho, negro, com quem trocou cartas.
O pai dela, quando descobriu, a surrou muito, cortou o cabelo dela e disse que ia casar ela com algum fulano. Ela fugiu. Mudou de nome. E foi parar em Santa Catarina. Fazendo o que sabia, que era costurar, limpar terreno e usar plantas medicinais para ajudar pessoas. Conheceu meu avô, que era estrangeiro. Era um amor de pessoa, segundo ela. Ele a chamou para ir para São Paulo com ele. Ele a trouxe e a botou para trabalhar com ele, o que não era nada, se ele não tomasse todo o dinheiro dela para jogar e usar com outras mulheres. 
Fora as surras. Meu avô quebrou braços, dedos, dentes. Minha avó odiava tanto ele, que nunca quis ter filhos. Ela abortava direto, por via de plantas (e olha que tem gente que acha que planta não faz nada), e ajudava outras mulheres a fazerem o mesmo. Quando tinha uns 30 anos, começou a demonstrar os traços de vitiligo, o que fez ela se sentir pior ainda. 
Mesmo assim, ela teve 5 filhos. A primeira é minha mãe, que minha avó, como foi ensinada, odiou por ser mulher. Meu avô já tinha 50 anos quando minha mãe nasceu. Mas ele precisava dela. Com 14 anos ela sustentava a casa, e parte dos vícios dele. Minha mãe fez ele parar de bater na minha avó. Minha mãe diz que minha avó só soube o que era sentimento quando teve netos. Ela se sentiu amada e amou. Mas mesmo assim no final da vida. A gente via o quanto de dor ela carregava." (Anônimo)

"Não acho que no tempo da minha avó as coisas fossem melhores (e espero que o futuro seja muito melhor que hoje), entretanto, vejo meus avós casados há 50 anos e enxergo um dos casais mais lindos do mundo! Ambos sempre trabalharam, pedreiro e doméstica, e meu avô nunca levantou a mão ou a voz pra minha avó. Sei que a maioria acha pouco mas ele cozinha, lava louça e a trata como se fossem namorados até hoje, com presentes e surpresas.
Com certeza são 'exceção à regra'; afinal, vieram para SP do interior da Bahia e, diga-se de passagem, minha avó é infinitamente mais machista que meu avô. Ela acha que é obrigação da mulher cuidar da casa e que somente o casamento e a maternidade podem fazer uma mulher plenamente feliz, enquanto ele tem o sonho de ter alguma neta engenheira...
Espero que um dia não precisemos mais do feminismo, mas enquanto esse dia não chega continuemos a luta!" (Anônimo)

"Eu jamais trocaria os dias de hoje por 50 anos atrás. Acho que nem por 10 anos atrás. Só mesmo se o mundo estivesse atravessando uma terceira guerra mundial, infestação de zumbis, invasão alienígena etc. Aí sim. Mas fora isso, nem pensar. 
E pra mostrar que o caso da avó da NormalidadeRealidade não foi isolado, minha avó apanhou do marido por 17 anos. Ela casou novinha, foi estuprada na noite de núpcias, ficou toda mordida. Não podia trabalhar, estudar. Já aconteceu inclusive de meu avô rasgar um vestido lindo que ela tinha ganhado de presente -- isso entre muitas outras coisas. 
Ele não punha comida dentro de casa e ainda reclamava quando não tinha nada pra comer. Quando casaram, eles moravam num barraco mixuruca porque nem um lugar decente ele pode arrumar. Os dois só conseguiram morar num lugar melhor porque ela ajudou lavando roupa pra fora e também servindo de servente de pedreiro. Alguém consegue imaginar uma mulher baixinha, magrinha e delicada carregando sacos de cimento e baldes de areia? E alguém consegue imaginar essa mesma mulher apanhando de um sujeito que devia ter 1,70 m e era forte como um touro? Pois é. Era a minha avó. 
Depois de ajudar a construir a casa com dinheiro e serviço, sabem o que aconteceu? De tanto apanhar, ela decidiu pedir o divórcio. Mas na época a coisa estava tão feia que ela acabou tendo que fugir. O que aconteceu depois? O juiz deu abandono de lar e falou que por causa disso ela não teria direito a nada, mas meu avô resolveu dar a metade da casa por causa da minha mãe, e fez isso como se fosse uma caridade. Anos depois ele ainda teve o atrevimento de jogar na minha cara que eu dependia dele desde o nascimento só por causa disso, sendo que ele nunca sequer comprou um saquinho de leite pra mim. 
Aí vem mascuzinho dizer que bom era nos tempos da vovó. Bom pra quem? Só se for pros misóginos estupradores e espancadores de mulheres, que podiam fazer o que bem entendessem porque não tinha nem delegacia da mulher. Se eles acham que vamos abrir mão de todos os direitos que conquistamos pra voltar a esses tempos, então eu sugiro que eles se matem de uma vez porque isso não vai acontecer." (Mallagueta Pepper)

"Canso tanto de falar a mesma coisa que já devia andar com uma plaquinha na mão: só diz que 'antigamente era melhor' quem não viveu lá." (Anônimo)