terça-feira, 29 de julho de 2014

GUEST POST: UMBANDA E MEDIUNIDADE

Como quase todo mundo que conhece este blog sabe, não sou uma pessoa religiosa. Não sou sequer espiritualizada. 
Talvez por isso não haja muitos posts sobre religião por aqui (na realidade, tem muito mais post anti-religioso). Mas respeito quem acredita, e acho que a religião (qualquer uma) pode trazer alento para algumas pessoas. 
Isso foi para introduzir o relato que a E. me enviou:

Oi Lola, já acompanho seu blog há um bom tempo, e adoro tanto os temas como as formas com que eles são abordados aqui. Por muitas vezes me identifico com algumas situações, enquanto outras me ensinam a ter tolerância e aprender a lidar com as diferenças, pois fica muito mais fácil quando entendemos como as pessoas que passam por elas se sentem. Contudo, um tema que nunca vi por aqui é ligado à mediunidade e religião, em especial a Umbanda, onde entra o meu caso.
Sempre fui espírita kardecista e desde os meus 5 anos frequentava um centro perto de casa, local inclusive onde meus pais trabalhavam como colaboradores.
Aos 13 anos eu comecei a ver vultos em casa e, um certo dia, acordei no meio da noite e havia um senhora em pé, ao lado da minha cama me olhando, que acabou sumindo logo após meus gritos e o pulo que dei para a cama do meu irmão ao lado. Com este episódio, me foi falado no centro espírita que eu era médium e que essa mediunidade se desenvolveria quando eu fosse mais velha.
Não vi mais nada depois desse dia, porém, com 17 para 18 anos, comecei a ter depressão. Terminei o ensino médio e ao contrário dos meus colegas que entraram na faculdade e arrumaram um emprego, eu passava os dias deitada no meu sofá, chorando e sentindo uma tristeza imensa, a qual eu não sabia, aliás, não existia nem causa nem origem, pois graças a Deus, sempre tive mais motivos para agradecer do que reclamar na minha vida.
Minha tia, irmã da minha mãe, é do Candomblé, e quando eu tinha uns 21 anos, em visitas às festas do terreiro onde ela frequentava, a mãe de santo da casa me disse que eu era médium (novamente esta informação), mas que eu não poderia trabalhar no kardecismo como sempre pensei e quis, pois eu era médium de terreiro, de incorporação. 
Não aceitei. Eu seria macumbeira. Faria parte de uma religião da qual por ignorância e falta de conhecimento, eu tinha preconceitos. Também não me adaptei. Acostumada à calma e serenidade do kardecismo, achei muito pesada a mudança e não concordava com tantas imposições e a rigidez que esta religião impõe (aqui falo da minha percepção com o que vivenciei). 
Mas eu fui ficando cada vez pior. Chorava quase sempre, sentia muita tontura e cansaço, mãos geladas, arrepios e tantos outros sintomas inerentes à mediunidade, e por conta disso tive que fazer uma escolha, eu iria aceitar minha mediunidade. Sou médium de incorporação, sensitiva e de transporte; por conta disso, consigo captar energias e sensações de ambientes e pessoas, o que me faz frequentemente ter dores de cabeças, ânsias de vômitos e simpatias/antipatias sem motivo aparente, além de não poder frequentar lugares como cemitérios e hospitais, pois eu sentiria rapidamente a energia de espíritos desencarnados que podem estar sofrendo ou sentindo alguma dor.
Aos 22 anos, através de uma amiga da minha mãe, conheci a Umbanda e me senti bem mais tranquila. Frequentei um, dois, três... acho que estou no meu quinto terreiro, mas posso dizer que estou bem melhor. Aprendi a controlar minha mediunidade e hoje recebo minhas entidades, as quais estão aos poucos sendo doutrinadas. Ainda passo mal em alguns lugares e tenho sempre que tomar cuidado com meus pensamentos e sentimentos, pois algo negativo pode atrair energia nessa sintonia e as consequências não são nada legais, mas minha vida está bem melhor. 
Tenho 26 anos, estou terminando a faculdade de Direito e já passei na OAB. Faço estágio em um excelente escritório e acredito que terei sucesso profissional, mas ninguém sabe desse meu lado, quem eu sou de verdade, e isso me chateia pois não tenho vergonha, pelo contrário, hoje eu entendo que foi uma missão para a qual eu nasci, e se eu fizer um bom trabalho baseado no amor e na caridade, poderei ajudar muitas pessoas que precisam de um carinho, uma palavra, uma direção. 
Mas as pessoas têm preconceitos, sempre fazem piada quando esse assunto vem à tona, então eu nunca falei nada, não comento e não converso sobre isso com quase ninguém, nem com muitos dos meus amigos. Isso é uma pena pois quanto mais for divulgado, talvez as pessoas, assim como eu que tinha preconceitos no passado, entenderiam o verdadeiro conceito do que é a Umbanda, do que é essa religião que não prega nada além do amor, caridade e tolerância.

Você sabia que, segundo o Censo 2010, o Rio Grande do Sul é o estado com maior porcentagem de pessoas que se autointitulam umbandistas? 34% dos umbandistas brasileiros vivem no RS

segunda-feira, 28 de julho de 2014

MULHERES CONTRA O FEMINISMO

Nossa, só você foi criada pra ser mulher! Você é única neste mundo vaginante 

Não sei se está exatamente na moda, mas nos últimos dias tem se falado bastante de mulheres contra o feminismo. Não que isso seja novidade: sempre existiram mulheres anti-feministas.
Assim como existem várias páginas de "Preciso do feminismo porque...", também existem muitas do tipo "Não preciso do feminismo porque...", ou "Não sou feminista", ou "Damas contra o feminismo" (juro!). Algumas delas devem até ter sido criadas por mulheres de verdade (ou seja, não por homens machistas exercitando seu passatempo favorito de fingir que são mulheres na internet). Recentemente um novo tumblr chamou a atenção. Só não dá pra entender muito bem por que há tantas mulheres polonesas com cartazes. Deve ser uma campanha local, sei lá. 
Algumas das frases escritas nos cartazes "Não preciso de feminismo..."
Porque amo homens, porque ser elogiada na rua não é opressão, porque feminismo demoniza a família tradicional, porque não existe patriarcado, porque preciso que meu marido abra potes pra mim, porque homens e mulheres já são iguais, porque homens e mulheres não são iguais, porque suas vaginas não podem silenciar a minha voz [falo por mim, mas acho que tenho usos melhores pra minha vagina], porque quero continuar cuidando da casa e dos filhos, porque a diferença salarial é uma escolha das mulheres, porque eu amo homens masculinos como Christian Grey (do 50 Tons de Cinza), porque não quero que minhas filhas cresçam em volta de feministas vadias, porque muitas delas são veganas marxistas socialistas. E por aí vai.
Quer dizer... Por onde começar? É pra responder todas? Ainda que quase todas estejam calcadas em cima de clichês sobre feminismo? Eu não me canso de repetir: feminismo tem a ver com escolhas. Eu, pessoalmente, feminista desde criancinha, não costumo criticar escolhas pessoais. Eu critico sistemas. Não trabalhar fora, se maquiar, usar salto alto, casar virgem -- tudo isso são escolhas (e quem pode fazer escolhas é privilegiadx, porque significa que a pessoa tem opções). Não são escolhas necessariamente feministas (nem machistas, nem anti-feministas, nem nada), mas são escolhas. E devem ser respeitadas. O que não quer dizer que não se pode falar sobre essas escolhas num plano macro (não individual). 
Cerca de 31% das mulheres no Brasil e nos EUA se assumem feministas, o que considero um número bem alto. No começo dos anos 80, nos EUA, antes do backlash (da reação conservadora contra os movimentos sociais), esse número chegava a incríveis 80%. A pesquisa da Fundação Perseu Abramo mostra que 94% das mulheres (e 90% dos homens!) acha que existe machismo no Brasil. Metade das brasileiras, considerando-se ou não feminista, tem visão positiva do feminismo. Só uma em cinco tem visão negativa. 
Tem gente que acha 31% de mulheres feministas pouco. Bom, na pesquisa de 2001 eram 21% das brasileiras que se assumiam feministas. O número aumentou de 21% para 31% em uma década.
É absurdo pensar que toda mulher é feminista. Não é, nunca foi. Afinal, mulheres são criadas neste mesmo mundo preconceituoso. Mulheres aprendem valores machistas. Mulheres entendem, desde muito cedo, que não devem querer as mesmas coisas que os homens, e que as coisas que os homens querem são muito mais importantes. 
O feminismo é um movimento (ou melhor, vários) que luta para mudar o status quo. É óbvio ululante que muita, muita gente que não quer mudanças não aceita que tentem mudar o mundo em que vivem. Essas pessoas conservadoras estão desesperadas. São aquelas do "mundo está perdido", "ninguém presta", "antes é que era bom", porque elas percebem que a sociedade mudou muito nessas últimas décadas e continuará mudando. 
Ao mesmo tempo, é muito pouca gente que realmente se opõe ao feminismo. Sei que é difícil de acreditar, porque parece existir uma legião de caras nas redes sociais que têm como missão xingar o máximo de feministas todos os dias. Sei que é difícil de acreditar se lermos os comentaristas de grandes portais, ou se ouvirmos aqueles humoristas tão populares. Mas há mais gente que se assume feminista do que gente que se assume anti-feminista. E tem um montão de mulheres no meio, mulheres que nunca nem pensaram no assunto (18% das entrevistadas na pesquisa responderam que não sabem se são ou não feministas). 
Na quinta-feira, a revista americana Time validou a "moda" de mulheres contra o feminismo com um artigo dizendo que alguns cartazes têm pontos relevantes, como afirmar que certas partes do feminismo reduzem todas as mulheres a vítimas e todos os homens a predadores. Eu odeio termos como "vitimização" e "vitimista", porque eles implicam que pessoas que de fato foram vítimas devem ficar caladas. "Vitimização", pra mim, é alguém "se fazer de vítima" por algo que não aconteceu ou que não tem importância. E não sei como estupro e violência doméstica entrariam nessas categorias.
Para a Time, um "argumento poderoso" das anti-feministas é que o patriarcado não existe. Afinal, um patriarcado que permite (a autora realmente usa essa palavra, sem se dar conta da ironia e da contradição) que as mulheres votem, trabalhem, cursem faculdade, se divorciem, se candidatem a cargos públicos, e sejam donas de empresas, não pode ser considerado um patriarcado. 
Ahn, sério?! Primeiro que não foi assim que aconteceu: um grupo de homens se reuniu e decidiu que, opa, tava na hora de deixar as mulheres terem esses direitinhos aí. Muitas mulheres -- mulheres que essas anti-feministas ignoram ou desprezam -- lutaram para que todas nós usufruíssemos dessas conquistas. Não foi um progresso natural da humanidade, sabe? Eleanor Roosevelt, primeira-dama americana entre 1933 e 45, já dizia: "Os homens precisam ser lembrados que as mulheres existem". 
Segundo que falta muito para alcançarmos a igualdade, que é o que o feminismo quer. Mulheres ainda ganham quase 30% a menos que homens, em média. Se continuarmos no ritmo lento que estamos, vai levar 75 anos para que os salários entre os sexos se igualem. Só 10% dos países num mundo com 50% de mulheres são governados por mulheres. No parlamento, as mulheres são em média apenas 22% dos representantes (no Brasil, 8,6%). 
Nas universidades sim, as mulheres entraram com tudo. Mas ainda há mais professores universitários que professoras, e, claro, eles ganham mais (bem mais: nas mais conceituadas universidades americanas, um professor homem ganha em média 40 mil dólares a mais por ano que sua colega professora). E as docentes não estão em cargos de chefia. Só 10% dos reitores brasileiros são mulheres. 
E terceiro: mesmo que, graças ao feminismo que as anti-feministas condenam, tenhamos conquistado muita coisa, é preciso lutar para essas conquistas não sejam tiradas da gente, para que não haja retrocessos. Há um projeto tramitando na Câmara contra a lei do divórcio, lei conquistada, com muito esforço feminista, apenas em 1977. E em toda eleição alguém (como esta notória anti-feminista americana) diz que o voto feminino deveria ser revogado, porque não foi uma boa ideia. 
O que as anti-feministas têm em comum, além do desprezo por feministas? Elas são em sua grande maioria mulheres conservadoras. É só ver as anti-feministas famosas, como Ann Coulter, Phyllis Schlafly, Esther Vilar (ok, não existem muitas anti-feministas famosas) -- todas conservadoras. Você acha que as "musas olavettes" (mulheres fãs do reaça-mór Olavo de Carvalho que têm uma página não muito movimentada no Facebook) são feministas ou anti-feministas? 
Mulheres anti-feministas são mais que conservadoras -- são reacionárias. Querem voltar aos anos 1950, quando, segundo elas, os homens respeitavam as mulheres (decerto não existia estupro naquela época), eram cavalheiros, as mulheres (ricas e de classe média) podiam ficar em casa cuidando dos filhos, em vez de (argh!) trabalhar fora, e todo mundo se casava virgem (decerto não existia prostituição) e vivia feliz para sempre, sem essas libertinagens como os adultérios de hoje em dia (decerto não existia traição).
E tudo isso, todo esse reino encantado com cercas brancas, foi destruído pelas malditas feministas! (eu adoraria que o feminismo ficasse com todo o crédito, mas a verdade é que os governos de direita que essas conservadoras apoiavam e apoiam causaram um arrocho salarial tão potente que tornou-se inviável para uma família de classe média se manter com apenas um salário). 
E as anti-feministas também detestam com todas as forças a ideia do aborto. Para elas, foram as feministas que inventaram o aborto, que obviamente não existia antes da década de 60, e que hoje é realizado apenas por feministas (o perfil das mulheres que abortam no Brasil -- casada, com filhos, religiosa -- não parece ser o estereótipo da feminista; nos EUA, seis em cada dez mulheres que abortam já são mães, mas claro que devem ser todas mães feministas). 
São argumentos tão absurdos que quase se equivalem aos argumentos de anti-feministas mais profissionais -- os masculinistas, vulgo mascus
Mascu adverte sobre o que acontecerá se mulheres continuarem sendo feministas (clique para ampliar)
Muitos mascus, óbvio, estão festejando que as mulheres "acordaram" pra maldição demoníaca que o feminismo representa pra humanidade. Infelizmente, como mascus são acima de tudo misóginos, eles olham com certa desconfiança para o esforço das anti-feministas: 
Mascu aplaude as anti-feministas: continuem segurando plaquinhas!

Não é lindo você, mulher anti-feminista, se aliar à fina flor dos homens que odeiam mulheres?
Uma excelente e divertida resposta às mulheres anti-feministas foi um tumblr criado faz poucos dias, o "Gatos Confusos contra o Feminismo". Alguém poderia fazer algo parecido aqui no Brasil, né? (fica a dica). 
Os cartazes de gatos posando com dizeres anti-feministas incluem:
"Não preciso do feminismo porque sou pela opressão de todos os seres humanos", "Não preciso do feminismo porque preciso de atum. Onde está o atum? Eu pedi atum", ou "Eu me oponho ao feminismo porque eu amo caixas e todo mundo sabe que feministas odeiam caixas". São respostas tão eficientes que o tumblr já está fazendo sucesso na grande mídia.
E olha que gatos, ao contrário de mulheres, têm sim bons motivos pra serem anti-feministas. Afinal, todos os gatos vivem, segundo a lenda machista, com feministas sozinhas e amarguradas que só têm esses gatos como companhia. E óbvio que feministas não tratam bem seus bichanos (ainda mais os gatos machos). 

domingo, 27 de julho de 2014

"OBRIGADO POR MATAR A CADA DIA O MEU MACHISMO"

Pulp Fiction, modificado. E se as armas do cinema virassem joinhas?

No post traduzido do site Cracked, Lucas Pin deixou um comentário que, longe de ser perfeito (ele ainda sofre com as expressões ridículas que mascus usam), me dá alguma esperança

Há uns tempos eu estava bem frustrado com mulheres, e eis que conheci o movimento da real. Era um prato cheio pra alimentar minha mente odiosa: passei a enxergar mulheres apenas como vaginas ambulantes e as desgraçava de todas as formas possíveis, jamais conseguia enxergar mulheres como seres humanos, mas sim como depósitos de esperma.
Acho que sempre tive problemas em lidar com a rejeição feminina desde pequeno, por isso me tornei por grande parte da minha adolescência um cara depressivo e com a autoestima extremamente abalada. Mesmo conseguindo ficar com várias garotas, eu nunca me sentia satisfeito, até porque homem quer aquela mulher mais top que segue o padrão de beleza imposto. Mas isso jamais esteve sequer próximo da minha realidade então eu acabei criando esse ódio mortal por mulheres que não me davam mole e muita inveja e ódio dos caras que conseguiam ficar com elas. 
Por fazer parte do movimento da real eu odiava veementemente o feminismo e pra mim era "tudo piranha querendo dar sem que ninguém fale nada". Enfim, sempre o mesmo roteiro da história que vocês leem. UM BELO DIA conheci esse blog aqui da Lola e comecei a ler. Apesar de odiar feminismo, questões de gênero sempre me interessaram, pois eu sentia que alimentavam meu ódio, mas ao ler o blog da Lola e ver sua forma de pensar a respeito do assunto, isso foi me mudando de uma forma que não sei explicar. 
Comecei a ler alguns posts sobre friendzone e mascus (movimento do qual eu era adepto), e fui entendendo a mente feminina sobre esse tipo de coisa e vendo a merda na qual eu estava metido. E ao ler um post sobre friendzone eu descobri o porquê de ser um cara tão deprimido e tão triste: toda a minha adolescência eu me pautei por pegar mulher, assim como a maioria dos homens fazem, e isso pra mim era sucesso. Porém, acabei me tornando um "escravo de b*ceta" e isso me deixava muito triste por eu não ter esse retorno e sucesso que eu achava ser o máximo. 
Após ler o blog da Lola e dar umas pesquisadas, eu tenho mudado demais meu pensamento e já me policio bastante para cortar atitudes machistas, já não vejo mais mulheres apenas como pedaços de carne mas sim como pessoas, e algo mais surpreendente ainda: para mim amizade com mulher era inaceitável, só rolava se fosse pra conseguir algo, mas hoje não, hoje eu consigo tratar bem e me relacionar com mulheres sem segundas intenções, apenas para descobrir o ser humano legal que pode ter ali. 
Lola de verdade muito obrigado por matar cada dia um pouquinho do meu machismo e dos fantasmas que me assombram, não só você mas algumas pessoas que comentam também e são bem coerentes como vc. Eu descobri aqui um feminismo bonito que não julga e não é extremista, que abre espaço para todos e é coerente nas coisas que prega. Espero que continue fazendo este ótimo trabalho! 

sábado, 26 de julho de 2014

GUEST POST: ÓDIO NÃO GERA AVANÇOS

A A. me enviou este relato:

Gostaria muito de contar a minha experiência e o que tenho aprendido com ela.
Bom, tenho 21 anos. Meus pais se divorciaram quando eu tinha 4 anos, a partir de então sempre morei com a minha mãe. Ela trabalhava o dia inteiro e eu passava a tarde em casa com a empregada. Eu tinha 6 anos quando a primeira empregada que trabalhou em casa me molestou sexualmente. Eu não lembro bem dos detalhes. Lembro só dessa cena, e acho que foi só isso que aconteceu: eu sentada no braço do sofá, e ela me tocando e perguntando se eu gostava daquilo. Não contei pra minha mãe, mas pouquíssimo tempo depois ela contratou outra empregada. Eu não lembro o que eu pensava sobre aquilo naquela época. 
Com dez anos, fui passar pouco mais de uma semana na casa da minha tia, que tinha acabado de ter um bebê. O marido dela, o C., era meu tio preferido. Eu o adorava, ele me tratava super bem e sempre prometia me dar presentes. 
Acontece que um dia minha tia foi dormir, e ficamos só nós dois na sala vendo TV. Eu, desde pequena gostava que fizessem carinho em mim que causasse arrepios, sabe quando passamos a mão assim de leve na pele e os pelinhos arrepiam? Então. Aí lembro do meu tio fazendo isso em mim naquela noite. 
Quando fomos dormir, ele dormiu no quarto comigo pois minha tia estava dormindo com o bebê na cama. Não sei dizer porquê, eu pedi pra ele deitar comigo no colchão. Ele ficou fazendo esse "carinho" em mim, e eu dormi. Acordei no meio da noite com a mão dele praticamente dentro da minha calcinha. Fiquei muito assustada e pedi pra ele voltar pra cama dele. 
Isso mexeu muito comigo, eu pensava muito naquilo, e lembro que pouco tempo depois ele foi preso por porte de drogas. Lembro que eu sentia muita vontade de contar pra minha mãe, mas morria de medo -- medo do que as pessoas iriam pensar, me sentia culpada por ter deixado isso acontecer, além de ter perdido a confiança nas pessoas em geral. Tinha medo também da proporção que aquilo poderia tomar na família. 
Com onze anos eu e minha mãe fomos visitar uma amiga dela. O D., marido dessa amiga, era uma pessoa muito comunicativa, divertida, e começou a conversar comigo. Não lembro a ordem dos fatos, só lembro de nós dois no quarto, sentados na cama, ele sussurrando alguma coisa no meu ouvido, dizia que era um jogo, e eu paralisada, sem entender o que estava acontecendo ali. Depois lembro da gente usando o computador pra fazer tabelas de batalha naval. Ele pegou minha mão devagar e colocou em seu pênis por cima da calça e ficou esfregando. Eu lembro que fiquei em choque, sem reação. Mas me deu um click e tirei a mão, peguei o mouse e falei alguma coisa relacionada às tabelas. 
Depois lembro dele me chamando pra irmos no térreo do condomínio de prédios porque ele queria me mostrar alguma coisa. Eu fui, desconfiada. Fomos conversando e ele foi me levando até um canto escondido. De repente ele me agarrou por trás, e foi nesse momento que eu saí do estado de transe. Com uma força que veio não sei de onde, me soltei dele e já estava quase correndo, quando ele disse: "Olhá só essa porta, o que será que tem nesse quartinho, vamo vê?" 
Eu disse não e subi correndo, e fiquei sentada no sofá esperando minha mãe pra ir embora. Me dei conta de que poderia ter acontecido algo muito pior se eu tivesse aceitado entrar no quartinho. Percebi que eu tinha sido vítima de um pedófilo, de uma tentativa de abuso. 
No caminho pra casa, no carro, contei pra minha mãe, que é assistente social, e lida com isso todos os dias. 
Eu disse: "Mãe, preciso te contar uma coisa. Sabe aquele negócio de abuso sexual? Então, acho que o D. fez isso comigo". A partir daqui eu não me lembro do que aconteceu, mas segundo minha mãe, ela parou o carro e começou a perguntar o que tinha acontecido. Eu não respondia e só gritava com raiva, chorando, pra ela não fazer nada, pra não falar com ele, pra não contar pra ninguém. 
Eu tinha medo. Eu sabia que D., meu tio e a empregada estavam errados, mas ainda assim me sentia culpada e tinha medo. 
Nessa mesma época, eu sofria bullying na escola. Um tempo depois eu até fui a uma psicóloga. Mas não cheguei a falar sobre os abusos. Resolvi que era melhor abafar aquilo. Esquecer. Fingir que não tinha acontecido, superar.
Depois de um tempo, contei pras minhas amigas tudo o que tinha acontecido, e quando contava, falava com maturidade, como se tivesse acontecido há muito tempo. Eu tentava mostrar que tinha superado aquilo, e eu realmente acreditava que tinha superado. 
Na adolescência eu dizia que já tinha superado, que nem tinha sido nada de mais, que tinha casos muito piores que o meu. Falava sobre sexo numa boa. 
Mas demorei pra transar pela primeira vez. Na minha quinta relação sexual, passei por uma situação estranha, e na sétima vez também. Ambas com caras diferentes. Hoje em dia, eu consigo enxergar que essas duas situações estranhas foram tentativas de estupro. Não aquele estupro que um cara aparece do nada, te leva pro mato e acaba com a sua vida. Não. Foram tentativas de forçar algo que eu não queria, e que por mais que eu dissesse não, eles insistiam. E o jeito que eu encontrei de sair da situação, foi me submetendo, foi aceitando, pra que algo pior não acontecesse ali.
Depois disso, comecei a me dar conta de que alguma coisa estava errada.
Meses depois, assisti ao filme As Vantagens de Ser Invisível e me identifiquei tremendamente. Chorei litros. Alguma coisa tinha vindo à tona em mim. 
Passados mais alguns meses, entrei em contato com o feminismo. Comecei a descobrir o que era. Vi que era totalmente o contrário do que eu pensava que fosse. Comecei a entender o que era patriarcado. E aquilo iluminou todas as minhas dúvidas, todos aqueles incômodos constantes. 
E o meu passado voltou com tudo. Voltou a me assombrar como se dissesse: "Você ainda tem pendências a resolver comigo, mocinha, agora não tem escapatória". Comecei a falar sobre o meu passado, e conforme eu contava eu percebia o quanto aquilo me afetou sim, o quanto eu não tinha superado o fato de ter sido abusada na infância. Percebi que muito da minha insegurança, da minha dificuldade em confiar nos homens, em olhar nos olhos, eram consequências desses abusos. 
Falar sobre isso, e descobrir que muitas pessoas (bem próximas até) também passaram por situações parecidas ou piores, me deu muita força. Percebi que podemos e devemos lutar contra o machismo que nos oprime todos os dias, e está tão enraizado na nossa cultura. 
Mas não vim aqui apenas contar a minha experiência. 
Li um texto que você postou de um estuprador pedindo perdão e dizendo que se arrepende muito do que fez. Admiro muito a sua coragem de postá-lo no blog,
Acredito na reabilitação do ser humano. Claro que o que ele fez foi horrível, causou danos na vida das vítimas, mas acho que ele também sofre com o que fez, ficou bem claro pelo que disse. E não tem punição pior que essa. Você saber que arruinou a vida de alguém. 
Depois de todos esses anos, eu me perdoei. Eu era só uma criança. E perdoei as pessoas que me fizeram o que fizeram, mesmo elas nunca tendo me pedido perdão. Eu consigo enxergá-los como seres humanos, não monstros. Consigo enxergar que eles podem até mesmo ter sido vítimas na infância, e que talvez eles se sintam mal pelo que fizeram.
Estuprador tem que ser preso? Claro! Pedófilo tem que ser preso? Claro! 
Mas não acho que ser preso hoje em dia leve ao arrependimento (talvez em alguns casos sim), pelo contrário. Só piora. Então, eles merecem a morte? Não. Não estamos mais na idade da pedra onde tudo se resolvia pela lei de talião, olho por olho, dente por dente. Nós evoluímos. 
E se uma pessoa que comete um crime, se arrepende do que fez, não deveríamos dar a ela uma chance? Se ela se arrepende, não quer dizer que ela consegue, assim como nós (e talvez até por nossa causa) enxergar que o que ela fez foi muito errado, foi horrível? Não quer dizer que ela quer se tornar alguém melhor? Então. Ela precisa de ajuda. 
As feministas não deveriam gerar mais ódio, propagar ódio pelo ódio. O feminismo tem que ir além, tem que ir na raiz do problema. Lutar por um mundo melhor é acreditar no ser humano, por mais que a humanidade nos dê motivo para desacreditar, para jogar tudo pro alto, chutar o balde. Mas não é assim que vamos acabar com o machismo. 
E ele não vai acabar tão cedo. 
É claro que se eu tivesse sido estuprada, a minha primeira reação seria querer matar meu estuprador, ou sei lá, se alguém fizesse algo do tipo a alguma pessoa próxima, também sentiria muita raiva e vontade de me vingar. Mas, será que isso resolveria a tormenta interior, a catástrofe psicológica e emocional? 
Temos que lutar com todas as nossas possibilidades para a conscientização das pessoas. É uma luta diária. Nos deparamos todos os dias com pensamentos que culpabilizam as vítimas de estupro ou abuso, ou que oprimem de uma maneira geral as mulheres, as lésbicas, os gays, os negros, os pobres. 
Cultivar e propagar esses sentimentos de ódio não nos torna pessoas melhores e nem torna o mundo um lugar melhor. Não gera nenhum avanço.

Meu comentário: Obrigada pelo relato, muito forte, bem escrito, cheio de reflexões. Você é super madura pra uma menina de 21 anos. Parabéns, querida!
Só que tem uma coisa: no final do texto, você diz: "É claro que se eu tivesse sido estuprada...". A., você FOI estuprada. Pelo menos segundo as leis brasileiras de 2009. Não é só penetração que é estupro.
Fico muito feliz que, apesar de tudo que você sofreu, você não queira o olho por olho pra quem te abusou. E fico feliz que você esteja bem agora. Você é linda! É uma guerreira, uma sobrevivente.
Concordo contigo sobre o feminismo não propagar ódio. Entendo o ódio como um sentimento legítimo (apesar de nada saudável) de uma vítima. 
Não sou eu que vou falar pra ela o que ela deve sentir, como ela irá superar o trauma. Mas o ódio como estratégia de um movimento, de uma ação coletiva, pra mim soa como um tremendo tiro no pé. Porque, como você disse, o ódio não resolve nada. Ódio mal permite análises.
Denúncia, julgamento, condenação e punição de estupradores -- sempre. Mas com a possibilidade real da reabilitação. Ódio para sempre, não.