terça-feira, 27 de setembro de 2016

GUEST POST: "EU NUNCA PENSEI EM APANHAR DE UM HOMEM"

A H., de 18 anos, vive em Minas e está passando por uma situação difícil.

Oi Lola, quero começar dizendo que sou sua mega fã, te admiro muito. Eu queria te contar uma coisa que aconteceu ontem e tem me feito sentir medo e ódio, muita coisa ruim.
É mais ou menos assim: Quando eu tinha 11 anos meu pai morreu, ficou minha mãe sozinha com quatro filhos pra criar e na época ela era faxineira (hoje ela é concursada de auxiliar de serviços).
Depois de uns dois anos, um senhor que tinha um bar começou a se aproximar da minha mãe, nos tratava bem, levava pra passear, essas coisas, como um pai mesmo. Mas acontece que ele tem uns filhos que não trabalham, vivem de dar golpe e ficar no bar e bater em bêbados e velhos e nunca dá em nada.
Até que em dezembro do ano passado eles vieram aqui na porta de casa e três pessoas agrediram muito minha mãe. A partir daí nos afastamos desse senhor e não passávamos nem na mesma rua.
Até que... Ai Lola, isso é tão triste de falar!
O filho adotivo desse senhor nos viu passando na rua (eu acompanho às vezes minha mãe até o serviço), deu ré no carro e desceu chutando minha mãe.
Lola, eu não pensei duas vezes e fui pra cima dele. Ele me jogou no chão e agrediu minha mãe mais vezes. 
Quando eu levantei pra ir pra cima dele de novo, a população começou a aglomerar e aquele covarde fugiu.
Eu vou denunciar e tudo, mas tô com medo e com vergonha, Lola. Eu nunca pensei em apanhar de um homem, muito menos de um quase desconhecido. Imagina se uma menina com 1,50 intimida um homem adulto?
O que eles não fazem pelo dinheiro do pai deles?
O pai deles sabe de tudo, ele coopera com os filhos dele que já brigam com meio mundo. Ele faz vista grossa e paga caro os advogados. Ele dizia amar minha mãe, mas os filhos dele são uns monstros e agora o agressor sai dizendo que eu encarava ele.

Minha resposta: Força, H.! Faça um BO numa Delegacia da Mulher e peça medida restritiva contra eles. Não que isso adiante muito, mas... Pelo menos você deixa registrado.
Informe vizinhos e amigos sobre o que aconteceu. É bom denunciar sempre que eles estiverem por perto. 
E você, sua mãe e toda a sua família devem romper qualquer contato com o pai deles. 
Não fique com vergonha. Você defendeu a sua mãe. Isso é uma coisa muito digna que você fez. Os covardes são eles, não você. Quem deve se envergonhar são eles.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

HOMENS SE CONFUNDEM, MULHERES PAGAM

Uma dúvida da B.:

"Conheço um amigo há menos de seis meses, e nesse tempo nossa amizade foi se aprofundando. Estudamos juntos e temos muito em comum. Gosto muito da companhia dele e o tenho como um bom amigo. Apenas isso. Só isso, sem dúvidas. Até porque ele tem uma namorada, e mesmo que eu quisesse algo com ele, jamais iria investir em caras comprometidos.
O caso é que ele vem demonstrando mais e mais interesse (leia-se segundas intenções) para comigo. Eu achava que era impressão minha até amigas comentarem que estão achando suspeito. Fofocas estão rolando. E agora estou numa situação que não pedi: fiz um amigo e tenho a probabilidade de ficar conhecida entre todos como 'a outra que rouba namorados alheios'.
É serio isso? Não posso ter um amigo homem hétero que ele se confunde e acha que está se apaixonando? Ele tem noção que isso ultrapassa meus sentimentos por ele? Que ele está machucando a namorada? E que me trará uma reputação que não mereço? Porque, sim, não acredito que as pessoas irão culpá-lo se, por exemplo, ele terminar o atual namoro. Afinal, eu 'dei bola', 'deixei brecha'... Eu encantei o homem bem como todas as mulheres de saia curta seduzem estupradores -- é isso? 
Ser amiga leal me torna a criminosa nesse caso? Ser eu mesma e explorar afinidades com alguém me torna culpada? É errado ser simplesmente amiga de um homem comprometido? E por que eu tenho que tomar atitude, e não ele, para corrigir isso? Por que eu me sinto culpada por uma confusão que não foi causada por mim nem por minhas atitudes? Ou tenho que sempre ponderar minhas ações para que nenhum homem entenda o 'sinal errado'?
Enfim. Só estou traçando um paralelo com o mesmo argumento que usam para mulheres 'que vacilam'. É curioso (e agonizante) como atitudes simples, que não trariam tanta carga se tomadas por homens, trazem para uma mulher essa imagem de 'oferecida' (ou nesse caso de 'a outra'). Ser livre e interagir com o mundo, mais uma vez, é algo mais trabalhoso para mulheres... Isso me entristece."

Minha resposta: Concordo contigo, B. É uma droga mesmo. Creio que muitas meninas já passaram por isso de ver amigos héteros se apaixonarem ou darem em cima das amigas. Imagino que isso também aconteça com homens (amigas hétero se apaixonarem por eles), mas tenho certeza que não na mesma frequência.
Eu sou um cara legal! Por que fico
sendo posto no friendzone por
essas vadias?
É só ver como se popularizou esse fenômeno recente da "friendzone" (o termo existia antes da internet? Duvido). Apesar de haver mulheres que gostariam de ter algo a mais com um amigo, e mesmo assim ouvem "Vamos apenas ser amigos, ok?", foi uma horda de rapazes que transformou a friendzone em algo "pior que estupro" (sim, eu já li isso inúmeras vezes). Deixa eu esclarecer: tá cheio de cara jovem que se sente no direito de namorar ou transar com a amiga, e quando ela responde "Não, obrigada, gosto de você só como amigo", ele faz um escândalo, sente-se traído, vai pra internet chorar as pitangas de que ele foi "posto na friendzone", faz um grande drama. 
Já existe toda aquela besteira de que homens e mulheres héteros não podem ser amigos. A enorme maioria das mulheres que eu conheço acha esse mito uma estupidez, mas lamento dizer que muitos homens que conheço acham que é verdade. E aí vem a pressão pra mulher hétero terminar a amizade -- ou pelo menos ter menos contato -- com o amigo hétero, assim que ela começa a namorar com outro (e do cara hétero não ter mais contato com a amiga hétero). 
Palmas pra namorada do seu amigo, que pelo jeito não tem ciúmes.
E agora o problema do seu amigo, que está com segundas intenções contigo. É bom por as cartas na mesa logo e falar pra ele que essas segundas intenções não são correspondidas. Você não tem interesse nele, ponto. 
Penso que, através do diálogo, até dá pra resolver isso com ele. Mas quanto a você ser vista como "dando bola" ou suspeita de querer arruinar o namoro dele, não sei se é possível fazer alguma coisa. Você já está sendo vista dessa forma apenas por ser amiga de um cara hétero comprometido. Você já é "oferecida" apenas por isso (não viu a atriz Marion Cotillard ser culpada pelo fim do casamento de Brad e Angelina? Marion só fez um filme com Brad. Mesmo grávida de seu segundo filho com o namorado, Marion foi apontada como pivô da separação!).  
Afinal, você está inserida na mesma sociedade que culpa a amante pelo cara casado ser infiel (e às vezes culpa a esposa, porque ela não deu o que ele queria em casa, então ele foi procurar lá fora). 
A gente não tem controle sobre como as pessoas nos veem. Numa sociedade que culpa as mulheres por tudo, seremos eternas culpadas. É aquilo: aos homens, a desculpa; às mulheres, a culpa. 
É triste sim, mas creio que o melhor a fazer é não ligar, não deixar, dentro do possível, que esse determinismo que não tem nada de pessoal afete a sua vida pessoal. 
E, ao mesmo tempo, denunciar mais essa atitude machista do mundo em que vivemos.

domingo, 25 de setembro de 2016

GOLPE 16, A RESISTÊNCIA E O FUTURO DA DEMOCRACIA

Pessoas queridas do Ceará, nesta terça-feira, dia 27 de setembro, às 18:45h, acontecerá o evento "Golpe 16: A resistência e o futuro da democracia".
O evento será na Adufc (Av. da Universidade, 2346, Benfica, Fortaleza) e incluirá uma mesa redonda sobre a conjuntura política do país e um protesto contra o golpe, com a presença de três professoras da UFC -- eu e as aguerridas Alba Pinho de Carvalho (Ciências Sociais) e Irenísia Oliveira (Literatura). Com a ajuda da Adufc, vamos trazer de SP o Renato Rovai, jornalista e editor da Fórum
Depois da mesa-redonda haverá um coquetel e o lançamento do livro Golpe 16, organizado por Renato. O livro tem 224 páginas e 23 artigos com diferentes enfoques escritos por nomes ilustres da blogosfera de esquerda, como Adriana Delorenzo, Altamiro Borges, Beatriz Barbosa, Conceição Oliveira, Cynara Menezes, Dennis de Oliveira, Eduardo Guimarães, Fernando Brito, Gilberto Maringoni, Glauco Faria, Ivana Bentes, Luiz Carlos Azenha, Marco Aurélio Weissheimer, Miguel do Rosário, Paulo Henrique Amorim, Paulo Nogueira, Paulo Salvador, Renata Mielli, Rodrigo Vianna, Sérgio Amadeu da Silveira, Tarso Cabral Violin, e eu. 
Além disso, traz um prefácio do Lula e uma entrevista exclusiva que Dilma deu a Maíra Streit e Renato em agosto. 
Modéstia à parte, meu artigo ficou muito bom. Eu o reli e gostei! Agora arranjei um tempinho e comecei a ler alguns artigos. Eles estão excelentes. Como eu já disse, tenho muito orgulho de fazer parte do livro. Destaco alguns trechos.

Em algumas páginas, Rovai, o organizador do livro, dá um ótimo apanhado da nossa história recente. "Mesmo ganhando pela esquerda, Dilma definiu seu governo da reeleição [em 2014] olhando mais para a direita. Na posse da presidenta Dilma, no dia 1o de janeiro de 2015, já era claro o descontentamento de setores do PT e da esquerda com os rumos que o seu segundo governo tomara. [...] O golpe não é, o golpe vai sendo. Nem aconteceu num único dia e muito menos por conta de erros ou acertos de uma ou outra pessoa". 

Cynara Menezes, do Socialista Morena, trata da perseguição a Dilma como uma "caça às bruxas" e faz uma comparação instigante: lembra o que era dito a e sobre FHC no auge da sua impopularidade, em 1999, e o que era dito a e sobre Dilma no auge da sua. O machismo domina, a gente sabe. "Qual a diferença entre um presidente impopular e uma presidenta impopular? Nenhuma, a não ser o fato de que, em se tratando de uma mulher, os ataques se concentram literalmente abaixo da linha de cintura. O 'fator machismo' do golpe contra a presidenta Dilma Rousseff ainda será objeto de estudos, mas só um misógino como os que a perseguem não consegue enxergar a influência do preconceito de gênero no ódio em torno dela". 

"Fugiu-se -- aliás foge-se há muitos anos -- da polêmica e da disputa, aceitando a ideia de que o Brasil poderia ser 'o país de todos', o que não foi, não é e não será, no horizonte visível, porque nem mesmo as equações de 'ganha-ganha' as elites brasileiras aceitaram, seja na economia, seja numa prosaica passagem pelos aeroportos" (Fernando Brito, do Tijolaço). 

"Está claro que sem comunicação democrática não é possível haver democracia. E, por outro lado, é evidente que sem democracia não há espaço para a existência de uma comunicação democrática. Por isso, quando são atacados os pilares de um Estado Democrático de Direito, uma das primeiras vítimas é a liberdade de expressão" (Renata Mielli, jornalista e Coordenadora Geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação). 

"No Brasil, na mídia tradicional, criou-se uma versão dos fatos que ignora a realidade. Independentemente de provas, eles já escolheram um criminoso e depois ficam só atrás do crime. Mas eles hoje já não falam sozinhos. A democracia que construímos a duras penas no Brasil permitiu que uma rede de veículos independentes, de blogueiros, de midialivristas e mesmo de ativistas digitais, professores, cidadãos, fizesse o contraponto informativo. E isso é uma coisa que incomoda aqueles que sempre tiveram o privilégio de falar sozinhos" (Luis Inácio Lula da Silva, no prefácio do livro).

"Apesar da verba dos anúncios institucionais e das empresas estatais na mídia alternativa equivaler a apenas 0,6% do orçamento da Secretaria de Comunicação Social (Secom) da Presidência da República, os golpistas confirmaram que temem as suas críticas e denúncias, que não toleram o contraponto. Por outro lado, eles mostraram sua enorme gratidão à imprensa hegemônica, que foi a principal protagonista do 'golpe dos corruptos', criando o clima para desestabilizar o país, para estimular o ódio fascista na sociedade e para viabilizar o impeachment ilegal da presidenta Dilma" (Miro Borges)

"Acredito que há um centro nesse golpe. Diante da crise, e não estou falando dessa crise, mas da que começa lá em 2008, há sempre um conflito, que surge em todos os países: quem vai perder mais ou quem vai ganhar menos. É a visão do governo interino e provisório, de um lado, caracterizado pela figura do pato [da Fiesp]. O pato é gravíssimo. É uma visão de um segmento da elite econômica do Brasil que acha que quem paga o pato é só a população brasileira. E isso se expressa em algumas medidas propostas pelo governo ilegítimo" (Dilma Rousseff, em entrevista dada em agosto para Maíra Streit e Renato Rovai).  

E tem muito, muito mais. Portanto, se você não é de Fortaleza e quer adquirir o livro, ele está sendo vendido em vários lugares na internet, e também nas livrarias. Agora, se você quiser um livro com dedicatória minha (que deve ser a maior dedicatória já escrita na história da humanidade), basta depositar R$ 43 (equivalente aos 35 do livro, mais o preço do envelope e do envio registrado pelo correio) numa das minhas duas contas (em nome de Dolores): Banco do Brasil, agência 3653-6, conta 32853-7, ou Santander, agência 3508, conta 010772760
Depois me mande um email (lolaescreva@gmail.com) com alguns dados sobre você, pra que eu possa me inspirar e escrever uma dedicatória mais pessoal. E o endereço (com CEP) pra onde eu devo mandar o livro. Dica: você pode dar o livro de presente. Eu escrevo uma dedicatória pra pessoa, é só me falar um pouco sobre ela. 
E se você é do Ceará ou perto, venha pro nosso evento na terça. Aliás, eu peço que, se você for comprar o livro, já traga os R$ 35 certinhos, porque os bancos estão em greve e eu tenho exatamente sete notas de R$ 5, cinco de R$ 10, e dez de R$ 20. Tenho medo de não ter troco suficiente. E se você quiser vir só pra ver a mesa redonda, não tem problema. Mas venha!

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

REFORMA DE ENSINO MÉDIO DO (DES)GOVERNO: UMA ESCOLA PARA RICOS, OUTRA PARA POBRES

Ontem tivemos mais um show de horrores do governo golpista, ao lançar uma reforma do ensino médio. 
Primeiro que não se faz uma enorme reforma na educação por medida provisória (MP). Isso tudo tem que ser amplamente discutido, não pode ser imposto. Tem que fazer parte de plano de governo, aprovado nas urnas.
Segundo que não cabe a um governo interino, sem legitimidade, sem voto, reformas estruturais. Não só na educação, como na previdência, nas leis trabalhistas, em nada. Mexer em regras que afetarão a vida de milhões de brasileiros para sempre é o golpe dentro do golpe.
A reforma prevê ensino integral, de 7 horas, uma incongruência, pois o governo já anunciou cortes imensos na educação. Quem vai dar aula pra esses jovens, se o MEC não contratará novos professores? Ah, gente sem diploma. Isso está na MP. 
O que mais chamou a atenção ontem nas redes sociais  foi a eliminação (ou "deixar como matérias optativas", o que dá no mesmo) de Sociologia, Filosofia, Artes e Educação Física. Tantas pessoas protestaram (inclusive os jovens alunos dessas disciplinas, que saíram em sua defesa, certificando sua "utilidade" -- que termo absurdo quando falamos em educação) que o governo teve que voltar atrás. Disse que lançou a versão errada da MP. É rir pra não chorar.
Reaça é mesmo tão burro assim ou
se faz? Esta performance não teve
nada a ver com Ensino Médio
A felicidade dos reaças com o fim de Sociologia e Filosofia mostra mais uma vez o pouco apreço que essa gente tem pela democracia e pelo pensamento crítico. Para eles, essas duas disciplinas (e Artes também, e Geografia, e Literatura) são antros marxista de doutrinação ideológica. Logo, tem mais é que acabar com elas mesmo -- e, de preferência, com os "professores comunas maconheiros" que dão essas aulas. 
É pra isso que fundamentalistas cristãos estão investindo a fundo na "Escola sem Partido", chamada pelos próprios professores de Lei da Mordaça. Esse projeto ditatorial não tem grande chance de passar, porque boa parte da população já percebeu o caráter fascista por trás. 
Então, se não podemos passar a Lei da Mordaça, vamos tirar as disciplinas "problemáticas", aquelas que ensinam os alunos a pensar. 
Ontem pela manhã, numa assembleia que tivemos no nosso sindicato de docentes da UFC, uma professora explicou: em governos de exceção, sempre se mexe na educação. E as primeiras disciplinas a serem limadas são sempre aquelas associadas ao pensamento crítico. Mas não vamos desistir. Vamos pras ruas.
Reproduzo aqui um excelente texto publicado ontem no site da Anped. O texto é da autoria do filósofo e educador Gaudêncio Frigotto, professor do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana da UERJ.

A reforma de ensino médio proposta pelo bloco de poder que tomou o Estado brasileiro por um processo golpista, jurídico, parlamentar e midiático, liquida a dura conquista do ensino médio como educação básica universal para a grande maioria de jovens e adultos, cerca de 85% dos que frequentam a escola pública. Uma agressão frontal à constituição de 1988 e a Lei de Diretrizes da Educação Nacional que garantem a universalidade do ensino médio como etapa final de educação básica.
Os proponentes da reforma, especialistas analfabetos sociais e doutores em prepotência, autoritarismo e segregação social, são por sua estreiteza de pensamento e por condição de classe, incapazes de entender o que significa educação básica. E o que é pior, se entende não a querem para todos.
Com efeito, por rezarem e serem co-autores da cartilha dos intelectuais do Banco Mundial, Organização Mundial do Comércio etc, seus compromissos não são com direito universal à educação básica, pois a consideram um serviço que tem que se ajustar às demandas do mercado. Este, uma espécie de um deus que define quem merece ser por ele considerado num tempo histórico de desemprego estrutural. O ajuste ou a austeridade que se aplica à classe trabalhadora brasileira, da cidade e do campo, pelas reformas da previdência, reforma trabalhista e congelamento por vinte anos na ampliação do investimento na educação e saúde públicas, tem que chegar à escola pública, espaço onde seus filhos estudam.
A reforma do ensino médio que se quer impor por Medida Provisória segue figurino da década de 1990 quando MEC era dirigido por Paulo Renato de Souza no governo Fernando Henrique Cardoso. Não por acaso Maria Helena Guimarães é a que de fato toca o barco do MEC. Também não por acaso que o espaço da mídia empresarial golpista é dado a figuras desta década.
Uma reforma que retrocede ao obscurantismo de autores como Desttut de Tracy que defendia, ao final do século XIX, ser da própria natureza e, portanto, independente da vontade dos homens, a existência de uma escola rica em conhecimento, cultura etc, para os que tinham tempo de estudar e se destinavam a dirigir no futuro e outra escola rápida, pragmática, para os que não tinham muito tempo para ficar na escola e se destinavam (por natureza) ao duro ofício do trabalho.
Neste sentido é uma reforma que anula Lei Nº. 1.821 de 12 de março de 1953. Que dispõe sobre o regime de equivalência dos cursos de grau médio para efeito de matrícula nos curso superiores e cria novamente, com outra nomenclatura, o direcionamento compulsório à universidade. Um direcionamento que camufla o fato de que para a maioria da classe trabalhadora seu destino são as carreiras de menor prestigio social e de valor econômico.
Também retrocede e torna, e de forma pior, a reforma do ensino médio da ditadura civil militar que postulava a profissionalização compulsória do ensino profissional neste nível de ensino. Piora porque aquela reforma visava a todos e esta só visa os filhos da classe trabalhadora que estudam na escola pública. Uma reforma que legaliza o apartheid social na educação no Brasil.
O argumento de que há excesso de disciplinas esconde o que querem tirar do currículo -- filosofia, sociologia e diminuir a carga de história, geografia etc. E o medíocre e fetichista argumento que hoje o aluno é digital e não aguenta uma escola conteudista mascara o que realmente o aluno desta, uma escola degradada em seus espaços, sem laboratórios, sem auditórios de arte e cultura, sem espaços de esporte e lazer e com professores esfacelados em seus tempos trabalhando em duas ou três escolas em três turnos para comporem um salário que não lhes permite ter satisfeitas as suas necessidades básicas.  
Um professorado que de forma crescente adoece. Os alunos do Movimento Ocupa Escolas não pediram mais aparelhos digitais, estes eles têm nos seus cotidianos. Pediram justamente condições dignas para estudar e sentir-se bem no espaço escolar.
Por fim, uma traição aos alunos filhos dos trabalhadores, ao achar que deixando que eles escolham parte do currículo vai ajudá-los na vida. Um abominável descompromisso geracional e um cinismo covarde, pois seus filhos e netos estudam nas escolas onde, na acepção de  Desttut de  Tracy,  estudam os que estão destinados a dirigir  a sociedade.
Uma reforma que legaliza a existência de uma escola diferente para cada classe social. Justo estes intelectuais que em seus escritos negam a existência das classes sociais. 
Quando se junta prepotência do autoritarismo, arrogância, obscurantismo e desprezo aos direitos da educação básica plena e igual para todos os jovens, o seu futuro terá como horizonte a insegurança e a vida em suspenso.