quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

GUEST POST: COMO SOBREVIVI A UM RELACIONAMENTO ABUSIVO

Kah Dantas fala na roda de conversa

Sexta participei de uma roda de conversa muito bacana no lançamento do livro da Kah Dantas, Boca de Cachorro Louco. Kah foi minha aluna, e também fez estágio docência (brilhantemente) no semestre passado numa disciplina minha. Ela é mestranda e pesquisa sobre Game of Thrones
Ela publicou o livro sozinha. Ainda não li o livro tudo, mas pelo que li, é excelente, muito bem escrito. Recomendo que você compre e chame a Kah para palestras e rodas de conversa sobre o tema. Ela é uma sobrevivente, uma guerreira. 
Kah e eu depois da roda de conversa
Confesso que, ao planejar o lançamento do Boca de Cachorro Louco para o dia 2 de dezembro, não tinha me ocorrido que, alguns dias antes, seria celebrado o Dia de Enfrentamento à Violência contra a Mulher. A data marca a consciência de muita gente, e também contribuiu bastante para a promoção do meu relato em forma de livro, um conjunto de textos que reúne as mais diversas e doloridas impressões que tive -- durante e depois -- de um relacionamento no qual sofri violência física e psicológica. E, devo dizer, registrá-lo com o próprio punho não foi mais fácil do que vivê-lo.
Sempre gostei de escrever. Escrever para dar forma aos sonhos, às felicidades e, especialmente, às tristezas. Escrever para espantá-las e, depois de vê-las longe, entendê-las. E não foi diferente com o Boca de Cachorro Louco. Como eu mesma escrevi em algum lugar daquelas páginas, “A ode se transformou em um exorcismo poético [...]” e o enganado amor, em companhia da cega paixão, deixou de ser para dar lugar ao medo e ao desprezo.
Minha gente, foram dias laboriosos. Todos os dias eu morria pelas mãos dele. E todos os dias eu o desejava mais perto de mim. E demorou um bocado para eu perceber como uma das minhas cantoras favoritas não poderia estar mais errada ao afirmar que “ele me machucou, mas pareceu amor verdadeiro” [“he hurt me, but it felt like true love”, Ultraviolence, Lana Del Rey].
Público na roda
Antes dele, eu achava simplesmente absurdo que uma mulher continuasse em um relacionamento povoado de agressões físicas e psicológicas, provocações, humilhações e por aí vai, porque me parecia que dar um fim nele era a coisa MAIS ÓBVIA e FÁCIL a ser feita.
Mas isso foi só até eu, depois de alguns anos, viver coisa parecida -- por mais de um ano. Mais- de- um- ano. Será que eu era uma sem-vergonha? Será que eu gostava de apanhar? Será que eu me sentia bem ouvindo as ofensas mais espinhosas e cruéis? Eu? Logo eu? Que me achava tão bonita, tão inteligente, tão segura, tão empoderada? Absolutamente não. Ele me deixou doente.
Eu e a coach de relacionamentos
Vânia Mendes também participamos
da roda
Na época, eu tinha um caderno/ diário onde escrevia sobre a minha rotina dentro daquele relacionamento (sempre achei o registro da minha vida importante), sobre como eu me sentia e o que eu pensava, sobre as conversas com ele, os sonhos, os maus tratos, a incredulidade, as agressões e a minha própria e estúpida obsessão na ideia de que ele me amava muito e de que era por isso que... (Não vale nem a pena terminar o raciocínio). 
O resultado? Um retrato maravilhoso e fiel do meu encarquilhado estado emocional e do difícil caminho de aceitação e esclarecimento que precisei percorrer até que tivesse forças para finalmente entender que ELE ME BATEU, MAS NÃO PARECEU UM BEIJO. 
Boca de Cachorro Louco tem aproximadamente 134 páginas recheadas de eventos dispostos de forma não linear, alguns dos quais eu me envergonho, outros dos quais discordo veementemente e muitos que me entristecem ainda hoje por representarem a perda sem volta de um tempo precioso da minha existência, tempo que tento resgatar através da esperança de que esse livro poderá ser útil a outras mulheres que, assim como eu, conhecem na pele (muitas vezes literalmente) o que é um relacionamento abusivo.
Deixo o convite da leitura para quem tiver ficado interessado. E aproveito para agradecer à querida Lola pela presença no primeiro lançamento do Boca, lá na biblioteca do Cuca Mondubim, aqui em Fortaleza, como convidada e parte essencial de uma roda de conversa esclarecedora sobre o tema e que, sem sombra de dúvida, fez a diferença na vida de quem esteve lá conosco.
Você pode conferir algumas amáveis resenhas sobre o livro aqui, aqui, e aqui
O livro (e-book) pode ser adquirido neste link da Amazon, por R$ 10, e o livro impresso e artesanal pode ser solicitado através do e-mail contatocontakah@gmail.com, por R$ 15.
É isso, gente! Obrigada!

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

CENA DE ESTUPRO DE ÚLTIMO TANGO É EXEMPLO DE NATURALIZAÇÃO DA VIOLÊNCIA

Muita gente me pediu pra falar sobre o caso do Último Tango em Paris, então vamos lá. 
Pra quem não sabe, a história é a seguinte: em 1972 o diretor Bernardo Bertolucci fez um filme que ficou famoso e continua sendo elogiadíssimo, O Último Tango em Paris (adoro o título), com o super astro Marlon Brando, considerado um dos melhores atores de todos os tempos, e uma jovem atriz até então desconhecida, Maria Schneider, de 19 anos, que até então havia feito seis filmes franceses (e depois faria outros quarenta). 
Eu só vi o filme uma vez, eu acho, na década de 80 ou 90. É interessante, mas é também arrastado e deprimente (ele pode ser visto aqui, dublado em português). É sobre um viúvo americano de meia idade e uma jovem francesa que se conhecem sem querer ao visitar um apartamento pra alugar em Paris, e passam a ter um relacionamento sexual intenso e destrutivo. Desde o início, o americano diz a ela que não quer nem saber seu nome. Há várias cenas de sexo no filme, o que o fez ser censurado em diversos países e, ironicamente (porque o clima do filme é todo amargo), constar em inúmeras listas de "filmes mais eróticos de todos os tempos". Eu nunca achei o filme erótico. 
A cena mais famosa é, sem a menor sombra de dúvida, "a da manteiga" (veja aqui). Como acontece tantas vezes, a cena -- sexo anal com manteiga usada como lubrificante --, que na realidade é um estupro, sempre foi tratada como uma cena erótica, o que é muito estranho, porque o personagem discursa sobre a família sagrada durante o ato, e a moça chora e grita "não" (como diz a sábia Louise em Thelma e Louise, antes de atirar no estuprador: "Quando uma mulher está chorando desse jeito, ela não está se divertindo"). E sempre foi motivo de piadinhas. Não é absurdo atestar que o filme é conhecido por essa cena. Muitos que nunca viram o filme já ouviram falar da tal "cena da manteiga".
Pois bem. Em 2013 o diretor deu algumas entrevistas. Para o jornal The Guardian, ele disse: "Pobre Maria. Não tive a oportunidade de lhe pedir que me perdoasse. [...] Talvez, em algum ponto do filme, eu não falei a ela o que estava acontecendo porque eu sabia que sua atuação seria melhor. Então, quando fizemos a cena com Marlon usando manteiga, decidi não falar pra ela. Queria uma reação de frustração e raiva". 
Ele também disse para outro jornal, The Telegraph: "Não me sinto culpado, mas quando ela morreu [em 2011, aos 58 anos, de câncer], eu pensei, Deus, me sinto muito mal por não poder pedir desculpas pelo que Marlon e eu fizemos com aquela cena e da nossa decisão de não contar a ela. Ela sentiu-se realmente humilhada, mas creio que o que realmente a ofendeu foi que ela não pôde se preparar para a cena como atriz. Mas eu queria sua reação como pessoa, não como atriz". 
Nove meses depois, ele repetiu o que havia dito, quase palavra por palavra, desta vez num programa de TV: "Depois do filme, quase não nos vimos, porque ela me odiava. A ideia da manteiga foi uma ideia que tive com Marlon naquela manhã, durante o café da manhã, antes das filmagens. Mas, de um modo, me comportei horrivelmente com Maria, porque não lhe disse o que iria acontecer. Porque eu queria sua reação como garota, não como atriz. Queria que reagisse sentindo-se humilhada, que gritasse 'Não! Não!', e acho que ela odiou a mim e também a Marlon porque não lhe contamos que havia esse detalhe da manteiga usada como lubrificante. E me sinto muito culpado por isso". 
O repórter lhe perguntou se ele se arrependia de ter feito a cena assim, e Bertolucci respira fundo e responde: "Não, mas me sinto culpado. Me sinto culpado mas não me arrependo. Sabe, para fazer filmes, para obter algo, às vezes você precisa ser completamente livre. Eu não queria que ela atuasse humilhada. Eu queria que ela se sentisse humilhada. Por isso, ela me odiou por toda a vida".
Maria Schneider em 2007
Maria já havia falado sobre o filme várias vezes. Em 2007 ela contou ao Daily Mail que as cenas de sexo de Tango não eram reais, que não havia atração entre ela e Marlon, que a relação entre eles era paternal. Sobre a cena da manteiga, ela disse: "Aquela cena não estava no roteiro original. A verdade é que a ideia foi de Marlon. Eles só me avisaram antes de fazermos a cena e eu fiquei muito zangada. 
Maria em 2010
"Eu deveria ter chamado meu agente ou meu advogado para vir às filmagens porque você não pode forçar alguém a fazer algo que não está no roteiro, mas, na época, eu não sabia. Marlon me disse, 'Maria, não se preocupe, é só um filme', mas durante a cena, embora o que Marlon fazia não ser real, eu estava chorando de verdade. Eu me senti humilhada e, para ser honesta, me senti um pouco estuprada, tanto por Marlon quanto por Bertolucci. Depois da cena, Marlon não me consolou ou pediu desculpas. Felizmente, foi só uma tomada". 
Ela contou que Bertolucci era muito manipulador. "Marlon depois me disse que ele também se sentiu manipulado, e ele era Marlon Brando, então imagine como eu me senti". (Brando declarou que, para ele, fazer Tango também foi uma experiência excruciante, tanto que ele não fez outro filme durante quatro anos e não falou com o diretor durante 15 anos, pois Bertolucci queria que Brando fosse ele mesmo, não um personagem. Além disso, ele foi meio que chantageado para fazer o filme. Um produtor que estava processando Marlon por ter saído de Queimada fez um acordo: se Marlon fizesse Tango, ele acabaria com o processo). 
Antes da entrevista em 2007, Maria Schneider havia dito para a revista Premiere, em 2000: "Você precisa entender o tipo de mundo em que Bertolucci vive. Ele estava apaixonado por Marlon. A parte que eu interpretei foi escrita para um garoto! É por isso que está lá a manteiga, a sodomização". Nessa entrevista (antes de Marlon morrer, em 2004), ela afirmou que era amiga de Marlon, e que a fama repentina dela a levou a usar drogas e tentar suicídio. Ou seja, não é exatamente o que está sendo divulgado, que a cena em si causou tantas coisas ruins em sua vida.
Mas o fato é: Marlon e Bertolucci foram indicados ao Oscar pelo filme. Maria ficou com a fama de ser analmente penetrada usando manteiga (lembre-se que durante décadas a cena não foi vista como estupro) e, depois, só lhe ofereciam papéis em que ela tivesse que tirar a roupa e transar. Ela nunca mais apareceu nua em cena. Como defensora dos direitos das atrizes, ela costumava dizer:  "Nunca tirem a roupa para homens de meia idade que dizem que isso é arte". 
O mais incrível dessa história toda, pra mim, é que Maria falou da cena em 2007, e Bertolucci falou disso em 2013, e a repercussão foi quase nula. Por que então agora, quase quatro anos depois da entrevista do diretor, estamos dando atenção ao caso? Por que só agora a atriz Jessica Chastain escreve um tuíte dizendo "A todas as pessoas que amam esse filme -- vocês estão vendo uma moça de 19 anos sendo estuprada por um homem de 48. O diretor planejou o ataque. Sinto-me enojada". O que mudou nesses três ou quatro anos?
Foi a ONG espanhola El Mundo de Alycia que encontrou o vídeo com a entrevista de 2013 de Bertolucci, o legendou e postou, como sinal de alerta no dia 25 de novembro, Dia Internacional da Eliminação da Violência contra a Mulher. E a revista Elle americana ajudou a divulgar o vídeo através de uma matéria com o título "Bertolucci admite que conspirou para filmar uma cena de estupro não-consensual em Último Tango em Paris", causando hoje grande furor, que fez algumas pessoas se posicionarem. 
O diretor de fotografia do filme, Vittorio Storaro, disse: "Eu estava lá, estávamos fazendo um filme, não era real. Ninguém estava violentando ninguém. Maria sabia perfeitamente bem o que estava fazendo. Ela sabia que era uma cena de estupro e não tinha problemas com isso. Era um trabalho de atuação e nada mais". 
Para esclarecer, Bertolucci afirmou agora que não houve estupro algum e que ele se expressou mal: que Maria sabia da violência, porque estava no roteiro -- ela não sabia da manteiga. "Aqueles que não sabem que num filme o sexo é (quase) sempre simulado, provavelmente também acham que toda vez que John Wayne atira, alguém morre". 
O filho mais velho de Marlon Brando declarou: "Este não é meu pai. De jeito nenhum. Ele era a favor de direitos humanos, de direitos civis. Ele marchou com Martin Luther King. Ele era a favor das pessoas, não contra. Não é verdade. Foi há 40 anos, por que estão trazendo isso à tona agora? Não é essa pessoa que ele era". 
Por que agora? Uma jornalista do Independent acredita que o tratamento dado às atrizes tem recebido mais atenção nos últimos anos. Ela cita como exemplo as várias acusações de estupros cometidos por Bill Cosby. Uma das acusações é de 2004, mas só mereceu destaque depois que um comediante (homem) fez uma piada, em 2014, sobre como Cosby tem uma imagem "Teflon", em que as acusações contra ele não colam (depois da piada viralizar, colaram, e hoje a imagem de Cosby está destruída). 
Eu ainda não tenho uma resposta. Estamos cada vez mais cientes de como nós mulheres podemos nos revoltar com maior rapidez e mobilidade do que antes da internet (pense no tratamento ofertado à promotora do julgamento mais famoso da história dos EUA, em 1994, pré-internet). Portanto, não resta dúvida de que o machismo hoje não fica mais impune, como ainda ficava vinte anos atrás (e os machistas sabem disso, e lamentam muito). 
Mas o que mudou nos últimos três anos? O poder do feminismo cresceu ainda mais? Creio que é uma questão de timing, não sei. Aqui no Brasil, em 2012, um comercial asqueroso da Nova Schin (em que os homens, para responder à pergunta "O que você faria se fosse invisível?", bolinavam mulheres na praia e invadiam seus vestiários) circulava na TV havia vários meses, gerando reclamações ao Conar. Mas foi só depois que o meu bloguinho, modéstia à parte, publicou um post condenando a cultura de estupro daquele comercial, que os protestos começaram pra valer. 
Sobre O Último Tango em Paris, "sentir-se estuprada" (como Maria disse que se sentiu) é diferente de ser estuprada. Porém, talvez mais importante que discutir se a atriz foi estuprada "de verdade" é admitir que houve violência, houve humilhação, houve abuso de poder, houve uma jovem atriz sendo explorada "pela arte" por dois homens infinitamente mais poderosos do que ela. 
Se "a cena da manteiga" do filme (em que uma personagem é estuprada) for vista como estupro, já estamos no lucro. Porque é perturbador que uma cena de estupro seja percebida durante tantas décadas como erótica. E que seja material para piadas. Este é mais um exemplo de como a violência contra as mulheres é naturalizada, romantizada, não reconhecida como o que realmente é -- violência. 
Lembrem-se da foto mais icônica do final da Segunda Guerra Mundial, em que um marinheiro beija uma enfermeira no meio da rua em Nova York. Durante mais de meio século, a imagem foi vendida como uma bela comemoração e prova de amor. Até que a enfermeira em questão revelou que nunca tinha visto o cara, que a agarrou no meio da rua e a beijou. Ela se sentiu abusada. Meio como disse Pedro Bial quando um participante do BBB foi acusado de estupro, "O amor é lindo".
Não, não é lindo. E não é amor. É violência. 

Um jovem Bertolucci
(ele tinha 32 anos na
época) dirige Maria e
Marlon
UPDATE: Vale destacar o que informaram duas leitoras. Uma, que os Trapalhões, um programa infantil, fez música com referência à cena da manteiga nos anos 80. Outra é que o site Mundo Estranho, da Abril, escreveu em 2011, atualizado em agosto deste ano: "Primeira cena de sexo anal: A primeira chegada pela porta dos fundos não foi em uma ceninha qualquer. Quem viu O Último Tango em Paris (1973), de Bernardo Bertolucci, nunca vai se esquecer da seqüência em que Marlon Brando pega de jeito a frágil e safada Maria Schneider e, com um bocado de manteiga, faz a alegria do público masculino". Eles estão falando de uma cena de estupro.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

AMEAÇAS DOS MASCUS SANCTOS A JOICE HASSELMANN

Hoje a jornalista reaça Joice Hasselmann, ex-Veja, fez um vídeo dizendo que estão ameaçando a ela e a sua família. 
Eu digo "jornalista reaça" porque ela é abertamente de direita. Ultimamente, pelo que vi, deu até pra defender a "intervenção" (eufemismo pra golpe militar na cara dura). Considero essa senhora no mesmo nível de irracionalidade de outros reaças famosos como Olavo de Carvalho, Roger Ultrajante, Danilo Gentili, Alexandre Frota, Lobão, Rachel Sheherazade et caverna.
No entanto, ofereço a ela minha solidariedade. Infelizmente, sei bem como é ser ameaçada. Sou ameaçada de morte, estupro, tortura e desmembramento desde 2011. Meu marido e minha mãe, uma senhora de 81 anos, começaram a ser ameaçados mais recentemente, desde o ano passado apenas. Já registrei nove boletins de ocorrência, o primeiro em janeiro de 2012, e o último, em setembro deste ano. As ameaças são praticamente diárias. E eu não vejo a polícia fazendo coisa alguma. 
Este foi o email recebido por Joice. Como que eu sei? Porque os criminosos o colocaram no Dogolachan (clique para ampliar)
Joice está jogando pro seu time ao afirmar que as ameaças partem do PT ou da esquerda. Ela sabe que não vem da esquerda, tanto que no vídeo ela diz que é contra "radicais" de qualquer lado. Seria mais honesto da parte dela dar nome aos bois. 
Vou compartilhar com vocês o que sei. Talvez o email abaixo explique melhor. Eu o escrevi e o enviei a três delegados da Policia Federal no dia 20 de novembro (só tirei alguns nomes para não expor as vítimas envolvidas):

Prezados Delegados da Polícia Federal, Srs. Fluvio Garcia, Flavio Setti, Pablo Bergmann,
Escrevo porque a situação chegou a um nível insustentável. Já me comuniquei com os senhores antes. Meu nome é Dolores Aronovich Aguero, sou professora do Departamento de Inglês da Universidade Federal do Ceará, e há quase nove anos escrevo o blog Escreva Lola Escreva, um dos maiores blogs feministas do Brasil.
Projeto de Luizianne Lins
Como os senhores sabem, sou constantemente ameaçada de morte, estupro, tortura etc. Muitas vezes, quando aviso nas minhas redes sociais que darei uma palestra em alguma faculdade, misóginos prometem que cometerão atentados nesses lugares. Ameaçam também o meu marido e minha mãe. Oferecem recompensas para quem me matar, divulgam meu endereço e telefone residencial, fazem sites de ódio no meu nome e em nome do meu marido etc. A lista é longa. Já registrei nove boletins de ocorrência, o primeiro em janeiro de 2012, e não vejo investigação nenhuma. Recentemente, a deputada federal Luizianne Lins aprovou um projeto de lei, baseado na minha experiência, que atribui à Polícia Federal a responsabilidade de investigar crimes contra as mulheres na internet. Espero que isso traga algumas mudanças.
Passaporte falso de Marcelo postado
no chan
O principal chan de onde vem as ameaças e demais crimes é o Dogolachan, chan de Marcelo Valle Silveira Mello, um dos dois presos e condenados pela Operação Intolerância por manter o site de ódio Silvio Koerich. Desde que saiu da prisão, em maio de 2013, Marcelo vem fazendo as mesmas coisas que fazia antes. No início de 2014 começou o Dogolachan.
Entendo que o chan seja anônimo e esteja hospedado no exterior, mas, através de uma investigação, é possível provar que o criador e autor do chan é Marcelo. Uma das testemunhas é um jornalista da Rede Globo. Em dezembro do ano passado foi exibido um Profissão Repórter que falava de feminismo, e eu fui uma das entrevistadas. Um mês antes do programa ir ao ar, Guilherme foi à Curitiba e abordou Marcelo na rua da sua casa, como pode ser visto no programa. Na mesma noite em que Marcelo foi abordado na rua, ele descreveu o encontro no seu chan. Ninguém além dele, de Guilherme e do cinegrafista sabiam o que tinha acontecido.
Nos últimos dez dias, os misóginos que se autodeclaram "dogoleiros" resolveram atacar qualquer pessoa que se comunique comigo nas redes sociais. A primeira vítima foi C., uma professora universitária em Goiás. Ela se mostrou solidária no Twitter quando eu comentei que estava recebendo telefonemas de misóginos em casa. Este foi o primeiro email de para C., com cópia para o meu email, em 12/11/16:
"Goec" em autoretrato
EI VADIA, SE VOCÊ NÃO RESPONDER ESTE EMAIL COM FOTOS DA SUA BUCETA E DO SEUS PEITOS NOS VAMOS ESTUPRAR VOCÊ NA SAÍDA DO SEU TRABALHO (E VAI SER MUITO GOSTOSO, PORQUE VOCÊ É MUITO GOSTOSA, HUE). JÁ TEMOS TODOS OS SEUS HORÁRIOS.FICA ESPERTA. FOI SE ALIAR COM A JABBA E AGORA VAI PAGAR! AVISA NO SEU TWITTER QUE TODO MUNDO QUE INTERAGIR COM A JABBA VAI PAGAR COM SANGUE!!
C. foi à delegacia e fez BO. Além dessas ameaças, os misóginos fizeram montagens pornôs com o rosto de C. e as enviaram para todos os contatos dela (inclusive colegas na universidade). Também colocaram seu telefone num site de prostituição, o que lhe rendeu inúmeros telefonemas.
Um dos muitos sites de ódio de
Marcelo: guia do estupro
A próxima vítima foi L., de Feira de Santana, BA. Ela recebeu a seguinte mensagem, também com cópia para mim:
-----BEGIN PGP SIGNED MESSAGE-----
Hash: SHA512
QUERO DEIXAR APENAS UM AVISO: QUEM INTERAGIR COM A JABBA EM QUALQUER MEIO, SEJA TWITTER, EMAIL OU BLOG, ESTARÁ SUJEITO A SOFRER DOXXING! NÃO É QUESTÃO DE SE, MAS SIM QUESTÃO DE QUANDO!
Foi a mesma mensagem recebida por L., de Nova Iguaçu, e A, de Curitiba.
Email enviado a D., professor em
Curitiba (com cópia pra mim)
A., que é doutor pela USP e professor de universidade federal em Curitiba, me enviou ontem, via Twitter, uma mensagem dizendo que iria comprar um livro que estou vendendo, junto a um print de agendamento. Eu retuitei a mensagem. Pouco tempo depois, no Dogolachan, os misóginos já tinham vários dados de A. e sua família. Se os senhores forem rápidos, podem acompanhar o tópico no Dogolachan. Ele foi colocado em outro tópico chamado "epic".
A. tem uma filha, uma criança, então as mensagens que estão indo pra ele (com cópia para mim) são estas:
-----BEGIN PGP SIGNED MESSAGE-----
Marcelo faz saudação nazista
no Rio 
Hash: SHA512
VAMOS ESTUPRAR SUA FILHINHA. JÁ SABEMOS ONDE ELA ESTUDA E JÁ TEMOS TODOS OS HORÁRIOS E CRONOGRAMAS COMPLETOS DA ESCOLA!
NÃO ADIANTA FUGIR OU DENUNCIAR PRA POLÍCIA! QUANDO VOCÊ MENOS ESPERAR SUA FILHINHA VAI DESAPARECER E VAMOS NOS DELICIAR COM ELA DURANTE MESES.
QUERO VER A JABBA ESCREVER UM ARTIGO NO BLOG DELA SOBRE COMO ABUSAMOS SEXUALMENTE E TOTURAMOS SUA FILHINHA POR MESES!!
Segue também um print que tirei hoje do Dogolachan, mostrando como eles planejam os emails com ameaças no chan. A. vai à delegacia amanhã registrar BO.
Eu gostaria de saber se este é realmente o cenário do país: criminosos ameaçando mulheres e meninas de morte e estupro, divulgando seus endereços e fotos da fachada de suas casas, sem que as polícias tomem qualquer providência.
Marcelo comentando com seu
próprio nome
Mesmo que o Dogolachan seja anônimo e hospedado em outro país, está na hora de prender Marcelo Valle Silveira Mello, o responsável pelo chan onde essas ameaças são realizadas e encorajadas.
Eu fico pensando se os senhores estão esperando que alguma tragédia aconteça para só então fazer alguma coisa. Cedo ou tarde, um dos misóginos cumprirá a promessa de cometer um atentado em alguma faculdade "esquerdista" ou marcha feminista. Eu recebo ameaças diárias, e a última foi que Marcelo pagou R$ 80 mil a um policial civil em Curitiba para vir até Fortaleza e matar a mim e a meu marido, fazendo parecer um latrocínio. E agora estão ameaçando uma menina.
Isso, para mim, é terrorismo. Suponho que a PF investigue suspeitas de terrorismo, não?
Peço, encarecidamente, para que a Polícia Federal investigue e prenda esses criminosos. Os senhores vão tolerar a violência contra as mulheres até quando?
Atenciosamente,
Dolores (Lola) Aronovich Aguero

Marcelo preso em março 2012
O Dr. Fluvio, responsável pela Operação Intolerância em 2012, que prendeu Marcelo e seu comparsa, Emerson Eduardo Rodrigues, respondeu na hora. Disse ser solidário, mas que não está mais na área dos crimes cibernéticos. O responsável atualmente é o Dr. Flávio Setti, que está em licença capacitação. Dr. Pablo também não se manifestou.
Nos dias seguintes, os mascus do Dogolachan seguiram fazendo doxxing com leitoras minhas. Este email foi para E., jornalista de SP, sempre com cópia pra mim, e já vinha "assinado" por Emerson:
EI, VADIA. ESTÁ ACHANDO QUE APENAS PORQUE É JORNALISTA E RIQUINHA PODE SAIR POR AÍ ESPALHANDO DIFAMAÇÕES JUNTO COM A JABBA? VOCÊ VAI PAGAR. VAMOS ESTUPRAR VOCÊ E DEPOIS TE CORTAR EM PEDAÇOS NA FRENTE DO SEU CUCKOLD. ESPERO QUE A JABBA VÁ NO SEU VELÓRIO! VADIA FALANDO MERDA COM FAKE NO TWITTER. ACHA QUE USAR FAKE PROTEGE ELA DE DOXXING, HUE? VADIA DESGRAÇADA, NEM DEUS FOGE DO MEU DOXXING!
Doxxing planejado no chan contra uma de minhas leitoras (clique para ampliar)
Este foi para uma rapaz que, numa rápida troca de tuítes comigo, lamentou o doxing
DESGRAÇADO. CITOU MEU NOME NO TWITTER? QUEM TE DEU ESSE DIREITO? VOU PAGAR UM NEGRO PRA ESTUPRAR SUA MÃE NA SUA FRENTE, APENAS POR ESSA DIFAMAÇÃO. SUA MÃE VAI SOFRER SEU VIADO DESGRAÇADO.
Jornalista de esquerda recebeu as
mesmas ameaças com doxing
(clique para ampliar)
No dia 22/11, ameaçaram uma jornalista famosa, notadamente de esquerda. Também enviaram cópia pra mim. E por aí vai. 
Quase todas as vítimas fizeram BO. Minha sugestão a elas é que fizessem BO citando o chan e Marcelo, o autor do Dogolachan. Fora isso, que não falassem sobre o que estava acontecendo em suas redes sociais, porque mascus se alimentam dessa atenção.
No Dogolachan, criminoso anuncia sua nova vítima (clique para ampliar)
Eu denuncio esses misóginos há muitos anos. Eles vivem disso: de fazer terrorismo na internet, ameaçando mulheres e meninas, criando sites falsos, acusando desafetos de pedofilia e outros crimes. Foi justamente esse chan que Felipe Neto denunciou em setembro (Felipe foi o único que me citou. Eu acho fantástico quando sites de esquerda fazem textos sobre os criminosos da internet e não mencionam que sou o principal alvo há anos). 
Quadrinho feito por um "artista" do
chan: ameaça ao deputado
Marcelo, Emerson, e todos os outros que frequentam chans são de direita. São reaças de carteirinha. Grande parte é neonazista. São declaradamente racistas. Odeiam a esquerda, principalmente os "sjw" (social justice warriors, ou seja, nós ativistas). São eleitores de Bolsonaro. Eles não atacaram Joice por ela ser de direita, mas por ela ser mulher.
Ameaça a mim, pelo mesmo
"artista" do chan
E também para tentar incriminar Emerson. A história é meio complicada, mas vou contar. Emerson, que está me processando (eu entrei com reconvenção por calúnia; afinal, o estrupício fez mais de 25 vídeos me xingando e inventando mil e uma mentiras a meu respeito. Aliás, dica: tudo que ele me acusa é coisa que ele fez e faz), é amigo de Marcelo há vários anos. É mascu, de direita, frequentavam os mesmos espaços sórdidos na internet. Tanto que fizeram um site de ódio juntos, o Silvio Koerich, e por ele foram presos e condenados a 6,5 anos de prisão.
Emerson e Marcelo: melhores
amigos no final do ano passado
Brigaram na cadeia. Quando saíram, em maio de 2013, eram inimigos. No início de 2014 Marcelo, após ser expulso de diversos chans, começou o Dogolachan. Voltou a criar sites de ódio, desta vez com a ajuda de Kyo (Bryan). Marcelo e Emerson passaram todo o primeiro semestre de 2015 brigando e se ameaçando no chan. Tanto que Emerson veio me suplicar um acordo. Eu respondi que não fazia alianças com misóginos, o que despertou ainda mais a ira do rapaz que se dizia engenheiro sem sê-lo. Os dois fizeram as pazes e reataram a amizade, como mostra a foto ao lado, de dezembro do ano passado (reatar amizade com quem ameaçou a filha de 3 anos é dose!). Um mascu que mora nos EUA, Coelho, foi a Curitiba passear com eles.
Marcelo, Guilherme "Coelho", e
Emerson em dezembro de 2015
Pouco depois brigaram de novo, mas novamente viraram amigos. Até que Emerson convidou Marcelo para ir com ele passear no Rio. Emerson foi com amigos reaças entrevistar Jair Bolsonaro (que não os recebeu, e hoje, por isso, Emerson detesta Bolso). No Rio, Marcelo e Emerson brigaram novamente. 
E agora são inimigos mortais... de novo. Emerson está nos EUA e jura, em inúmeros e intermináveis vídeos, que já denunciou Marcelo e Coelho até pro FBI. Marcelo e Coelho também denunciam Emerson. 
Emerson em vídeo hoje
Emerson é um lunático completo, mas não é ele quem fez as ameaças a Joice (ou às minhas leitoras). É bem verdade que Emerson odeia Joice, assim como odeia Olavão, Constantino, Reinaldo Azevedo, e qualquer reaça que não lhe deu atenção. Nos vídeos, ele reclama da "falsa direita", da qual Joice faria parte (a "verdadeira direita" é, segundo Emerson, a que ele representa). E xinga Joice várias vezes (neste vídeo ele chega bem perto de ameaçá-la). Até a acusa de ser feminista (porque Joice é mulher, logo...). Espero que Joice o processe pelos vídeos que ele faz, mas não é ele o autor das ameaças.
"Goec", autor das ameaças
Esta "honra" cabe a um personagem novo, surgido há menos de um mês, cujo nome eu ainda não sei. Ele se autointitula "Goec" e posta fotos mascarado no Dogolachan. É um hacker. Não tem teorias da conspiração aqui. É um cara frustrado, solitário, com muito tempo de sobra, que paga taxas para ter acesso a dados pessoais das pessoas. Eu não entendo nada de internet, mas creio que não é difícil conseguir dados. Pelo menos os meus eles divulgam desde 2011. 
Goec se gaba nos chans de, em 2013, ter hackeado e exposto os dados pessoais de 50 mil policiais militares e suas famílias, no Rio. Alguns PMs sofreram ameaças, principalmente o policial que matou Wellington Menezes, o assassino do massacre de Realengo. Wellington, que matou dez meninas e dois meninos numa escola carioca, em março de 2011, era um mascu. Foi um crime de ódio: ele foi à escola onde estudara matar meninas. Portanto, para os mascus ele é um herói, e o policial que atirou nele, um bandido. 
Marcelo, criador do chan
Como eu escrevi no email aos três delegados, é inaceitável que um chan planeje, efetue e ameace dezenas de pessoas (principalmente mulheres). Cadê a polícia? Vamos mesmo ser reféns desses terroristas virtuais? Todos nós sabemos de quem é o chan. A policia civil do Paraná está cansada de saber. Eu não creio que eles vão realmente matar ou estuprar Joice, eu, nossos familiares, ou quem quer que seja. 
Mas mais cedo ou mais tarde Marcelo e sua corja irão convencer algum misógino a cometer um outro atentado. O que mais tem nesse e em outros chans são rapazes dizendo que a vida não presta e por isso quer se matar, e outros rapazes respondendo "leve a escória junto".
Email sendo escrito no chan
Torço para que agora, que uma jornalista "do lado de lá" foi ameaçada, a polícia finalmente aja. Quem sabe os reaças que insistem que eu não sou ameaçada, que é tudo mimimi, agora vejam que as ameaças existem, são reais e preocupantes.