sexta-feira, 22 de maio de 2015

MENINA ESTUPRADA NA ESCOLA E OS ABUTRES DE SEMPRE

Estou sem tempo, pra variar, e detesto escrever sobre o óbvio, motivo pelo qual ainda não me pronunciei sobre o terrível caso de uma menina de 12 anos que foi estuprada dentro da escola por três garotos com idade próxima à dela (pelo que vi, entre 13 e 14 anos). 
O caso -- que corre em segredo de Justiça -- aconteceu na Escola Estadual Leonor Quadros, zona sul de SP, no dia 12, mas só virou notícia nos últimos dois dias. Só pra resumir: a menina foi tomar água no bebedouro quando recebeu uma gravata de um dos meninos, que a arrastou até o banheiro masculino. Lá, outros dois garotos já estavam esperando. Os três a estupraram.
Ela foi levada a um hospital, que comprovou os estupros. Ao contar para a família o que aconteceu, a menina pediu desculpas. Sentia-se culpada, como é comum com vítimas de violência sexual. Pelo jeito, a escola demorou a agir, porque deu tempo para que um dos suspeitos fugisse com a família. Um deles já confessou, outro negou. Este entrou em contato com a menina no Facebook, e lhe disse que podia provar que não esteve envolvido. 
A menina respondeu pra ele que estava se sentindo "um lixo": "Vocês acabaram comigo. Infelizmente, eu nunca mais vou esquecer isso. Não minta para você mesmo". 
O Ministério Público Estadual vai pedir que os três adolescentes sejam internados na Fundação Casa. 
A imprensa vem dando bastante repercussão ao caso e por enquanto, pelo pouco que acompanhei, vem agindo corretamente. Num caso ocorrido há alguns anos em Florianópolis, em que meninos dessa idade estupraram uma garota (não na escola, mas no apartamento de um deles, filho da família dona da RBS, maior grupo midiático do sul do país), houve divulgação de nomes e fotos dos envolvidos, o que é proibido por lei.
No entanto, o Jornal Nacional fez uma reportagem tendenciosa, falando do atendimento a vítimas de violência sexual num hospital paulistano. O hospital recebe quase sete pacientes por dia, e em 45% dos casos, a vítima tem menos de 11 anos de idade. Isso tudo é verdade, mas, o noticiário da Globo não explica que nenhum desses casos acontece numa escola, e que a enorme maioria é cometida por adultos (geralmente pelo pai ou padrasto da vítima). 
Ao juntar esses dados ao estupro na escola, o Jornal Nacional dá a entender que crianças e adolescentes são quem cometem violência -- e não que crianças e adolescentes são vítimas de violência por parte de homens adultos.
Obviamente, tanto a Globo quanto os outros grupos midiáticos têm uma agenda: reduzir a maioridade penal. Grande parte da população embarca nessa canoa furada e apoia, achando que a medida vai de fato alterar os índices alarmantes da violência no país (aliás, recomendo fortemente este texto, que pede para pararmos de tentar combater violência com mais violência e traz este dado: entre 2011 e 2012, 80% dos homicídios no Estado de SP foram causados por motivos fúteis -- brigas de trânsito, de rua, entre vizinhos etc --, sem envolvimento com ação criminosa. "Mortes que poderiam ter sido evitadas com menos ódio", lembra o autor).
A maioridade penal ainda nem foi reduzida para 16 anos e já querem baixá-la para 13 anos. Quando surgir um caso de um menino de nove anos que matou, estuprou ou assaltou alguém, pedirão pena de morte para crianças de nove anos
Eu disse que não gosto de falar de casos óbvios, e este caso do estupro coletivo na escola é óbvio. Toda a minha solidariedade à menina. E quero que os meninos sejam punidos. Quero também que entendam a gravidade do que fizeram e que sejam reabilitados, para que nunca mais façam isso novamente. Ser contra a redução da maioridade não tem nada a ver com defender a impunidade. Eu defendo a punição desses meninos, e ficar internado durante anos numa instituição que está muito longe de ser uma colônia de férias parece ser uma punição bem adequada (mas que dificilmente reabilita).
Só que é mais produtivo debater soluções a longo prazo, ao invés de querer vingança para cada caso pontual. O problema é muito maior que esses três garotos estupradores. E deve ser enfrentado como um problema de toda a sociedade. 
Que tal, em vez de xingar meninos e ativistas de direitos humanos (que, de acordo com uma parcela da sociedade, são tão culpados como quem comete o crime), ter uma discussão sobre o que leva garotos a acharem normal estuprar uma colega? 
Vamos pensar: o que seria mais eficaz para que meninos passassem a ver meninas como seres humanos, e não como objetos? Prisão perpétua, castração e pena de morte para esses garotos, ou aulas sobre questões de gênero nas escolas? Punição ou educação?
Pra mim a resposta parece um tanto óbvia.

37 ANOS, MUITO VELHA PARA SER PAR ROMÂNTICO DE UM ATOR DE 55

Meu querido Flavio me enviou a tradução de um artigo de Ben Child que saiu ontem mesmo no jornal britânico The Guardian
Eu já escrevi sobre essa ridícula imposição da diferença da idade. E tem tudo a ver com o vídeo hilário sobre o último dia em que Julia Louis-Dreyfus é considerada bonita o suficiente para transar. 

Maggie Gyllenhaal, aos 37 anos, era “velha demais” para um papel ao lado de um homem de 55 anos.
Hollywood se encontra sob escrutínio cada vez maior por sua incapacidade de representar mulheres de forma justa nas telas.
Um produtor de Hollywood disse a Maggie Gyllenhaal que ela, aos 37 anos, era muito velha para interpretar o par romântico de um homem de 55 anos.
Em uma entrevista para The Wrap, Gyllenhaal disse que o choque de se encontrar “acima da idade” aos 30 e poucos anos foi seguido de escárnio, dada a natureza farsesca da situação.
“Há coisas que são realmente desalentadoras em ser atriz em Hollywood e que me surpreendem o tempo todo”, disse ela. “Tenho 37 anos e me disseram que eu estava muito velha para interpretar o amor de um homem que tinha 55. Foi espantoso para mim. Isso me fez me sentir mal, e em seguida zangada, e aí me fez dar risada”.
A prática lugar-comum de escalar uma mulher muito mais jovem para contracenar com um homem muito mais velho tem sido predominante desde a era de ouro de Hollywood: Kim Novak tinha a metade da idade do cinquentão James Stewart durante as filmagens de Um Corpo que Cai, de 1958.
Recentemente o novo filme de James Bond, Spectre, recebeu elogios (nem tanto da própria atriz, que disse: "Pensei que iria substituir Judi Dench") por escalar Monica Bellucci, 50 anos, para contracenar com Daniel Craig, 47 anos. Ainda assim, as outras duas “Bond girls”, Léa Seydoux e Stephanie Sigman, estão na faixa dos vinte, e a prolongada saga do espião também tomou como hábito fazer 007 ter como interesse afetivo mulheres com metade de sua idade. 
Roger Moore, então com 57 anos, contracenou com Tanya Roberts, que tinha 29 anos na época, em sua última encarnação como Bond, em 007 Na Mira dos Assassinos, de 1985.
David Oyelowo recebe instruções de
Ava DuVernay durante filmagens de
 Selma
Entretanto, Hollywood está sob crescente observação em 2015 por sua incapacidade de representar mulheres de forma justa, nas telas e fora delas. No início deste mês a American Civil Liberties Union anunciou que iria exigir que agências estaduais e federais investigassem porque os grandes estúdios repetidamente fracassam em contratar tanto diretoras aspirantes quanto experientes para fazer filmes, citando a “discriminação desenfreada” na indústria. 
Enquanto isso, um relatório do Centro de Estudos das Mulheres em Televisão, Filmes e Novas Mídias da Universidade de San Diego descobriu que atrizes tiveram apenas 12% dos papeis principais nas 100 maiores bilheterias domésticas de 2014. [Em janeiro eu citei a Ms. pra afirmar que não existe outra indústria nos EUA que seja tão excludente com mulheres. Até mineração de carvão tem mais mulher que Hollywood tem diretoras].
No começo da semana, no Festival de Cinema de Cannes, os realizadores do thriller de combate ao tráfico Sicario revelaram que, em certo momento, foram pressionados pelos produtores a reescrever o papel principal, de uma agente do FBI interpretada por Emily Blunt, para que fosse um homem. 
E pesquisa do ano passado descobriu que somente 22% dos membros de equipes envolvidos na realização de 2000 das maiores bilheterias dos últimos 20 anos eram mulheres.
Gyllenhaal disse à The Wrap que, apesar de sua experiência recente -– ela não revela o nome da produção ou do ator mais velho -– ela permanece esperançosa que Hollywood lentamente irá se tornar um lugar melhor para as mulheres trabalharem. “Muitas atrizes estão fazendo um trabalho incrível agora, interpretando mulheres reais, complicadas”, disse ela. “Não quero me sentir desesperançada, de forma alguma. E espero com otimismo por algo fascinante”.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

GUEST POST: DEPOIMENTO DE UMA EX-TESTEMUNHA DE JEOVÁ

A E. me enviou este relato: 

Oi, Lola. Depois de muito tempo lendo o seu blog resolvi contar a minha história. Minha e da minha mãe. Minha mãe nasceu e cresceu sozinha em uma família machista -- mãe, avós, irmão, tios extremamente opressores, e ela nunca teve voz. Saiu de casa para estudar em outra cidade e engravidou. Foi obrigada pelo irmão e a mãe a fazer um aborto e fez. Engravidou de novo aos 21 anos, de mim, e desta vez não quis abortar, mas foi obrigada a casar com o meu pai biológico (chamo assim porque "pai" é uma palavra forte e ele não merece ser chamado assim).
Este homem era Testemunha de Jeová. Sabe que as Testemunhas de Jeová não podem fazer sexo fora do casamento, né? Mas ele falou com os "anciãos" (assim que eles chamam os que têm um nível de autoridade dentro da congregação), confessou o que fez, pediu perdão e não foi "desassociado" (assim que chamam aqueles que eles expulsam lá de dentro, e ninguém mais pode falar com a pessoa, pra não contaminar) porque prometeu que não continuaria no pecado e casou. 
E, com o tempo, foi trazendo minha mãe para dentro dessa religião e eu fui criada lá também. Hoje eu entendo o quanto as Testemunhas de Jeová são machistas e opressoras e sou feliz todos os dias por ter conseguido me livrar do ex-marido da minha mãe e dessa religião.
Eles cercam você de todas as formas, reuniões três vezes por semana (onde você é condenado pelos outros se não for; se escolher um emprego ou faculdade que interfira com os horários das reuniões, vai ser mal visto), publicações pra ler e pregação toda a semana (os membros devem entregar relatórios mensais dizendo quantas horas pregaram, quantas vezes voltaram para revisitar os interessados, quantas publicações foram colocadas). 
A maior parte do tempo das pessoas é gasta com a manutenção da religião e captação de novos membros. Além disso você é encorajado a não investir na sua vida material (trabalho, estudo) e sim na vida espiritual, não ler revistas, livros e outras publicações "seculares" (do mundo), se relacionar apenas com outros "irmãos" e jamais namorar uma pessoa de fora da organização -- que eles acreditam ser a única a adorar o deus verdadeiro e a única que será salva. 
Lá só os homens podem ter cargos de autoridade e eles pregam a submissão da mulher e usam um texto bíblico que diz que "o homem é a cabeça da mulher". E meu pai biológico usava de tudo isso pra manipular a minha mãe e nos oprimir de todas as formas. Ele é alcoólatra, mau e egoísta. 
Ele fazia coisas como colocar minha cachorrinha de 4 kg na última prateleira da estante (encostando no teto) de madrugada e quando a gente acordou procurando por ela, ele dizia que tinha deixado ela na rua. E ficou olhando o nosso desespero durante uns 30 minutos até conseguirmos encontrá-la e o desespero do animal lá em cima, não conseguia nem chorar. Tudo isso porque ela tava no cio e sangrou em cima da cama. 
Quando eu tinha 12 anos e ganhei um computador novo da minha vó, não quis que ele usasse (porque ele nunca tinha deixado eu usar o computador dele). Tranquei a porta do meu quarto; saí e quando voltei ele tinha quebrado a minha porta inteira. Um dia chegou bêbado e quebrou em pedaços a bicicleta de uma amiga que estava na minha casa. 
Quando eu tinha 15 anos, ele e minha mãe estavam brigando, eu estava no meio da briga, defendi a minha mãe e ele me jogou na cara que minha mãe tinha feito um aborto (eu ainda não sabia), esperando me colocar contra ela. Mas isso não iria acontecer jamais.
Com a minha mãe era pior. Ele a humilhava constantemente, a fazia acreditar que era feia, que não servia pra nada, enquanto ela fazia tudo dentro de casa, além de me criar sozinha e trabalhar fora, tudo isso aguentando um bêbado que não fazia nada além de nos controlar e nos fazer sofrer. Quando minha mãe ia falar com os amorosos "irmãos" da religião sobre a situação, eles nunca tomavam nenhuma atitude. 
Prometendo o fim do mundo
há décadas (revista de 1975)
Todas as vezes que ela quis se separar, eles foram na minha casa pra convencê-la a não fazer isso. Duas vezes ele saiu de casa e aqueles homens a convenceram a deixá-lo voltar -- um homem que eles sabiam ser bêbado e abusivo. E eles queriam deixar ele cada vez mais perto da gente. Eu chorava muito cada vez que ele voltava. Eu detestava voltar pra casa todos os dias. Detestava ter que olhar pra cara dele. Tudo que eu queria é que ele fosse embora e não voltasse nunca mais. Até hoje tenho pesadelos em que ele volta e fico muito mal. Ele nos prendia dentro daquela religião que reforçava a atitude dele e nos impedia de nos libertar.
Mas há quase dez anos, quando eu tinha 16, minha mãe conseguiu se separar de vez. E então passamos juntas por um processo que durou uns dois anos em que fomos nos libertando aos poucos das obrigações religiosas e da culpa. Foi difícil pois não tínhamos amigos, visto que só podíamos nos relacionar com pessoas de dentro da religião e agora todos haviam nos dado as costas. Nesse período a internet me ajudou muito, fiz amigos com pessoas com quem eu me identificava e são minhas amigas até hoje. 
Em 2007 nos mudamos de cidade e foi aí que conseguimos mesmo deixar tudo aquilo pra trás, com um círculo novo de amigos. Apesar de eu ter conhecido pessoas ótimas que me ajudaram muito nesse processo de libertação, sempre tive vergonha de contar que fui uma Testemunha de Jeová, que preguei de casa em casa, acho isso ridículo. Tenho apenas um amigo que sabe. E demorei quase seis anos pra ter coragem de contar isso pro meu namorado. Tentei esconder essa parte do meu passado e fingir que não aconteceu, mas a verdade é que, de qualquer forma, passar por isso fez de mim quem eu sou hoje. 
Minha mãe ainda passou muitos anos sem ter outro relacionamento, com sentimento de culpa, até conseguir sair com outras pessoas. Ela descobriu que é bissexual e tem um relacionamento aberto com uma pessoa. Hoje valorizamos muito a nossa liberdade e encontrar o feminismo foi encontrar um lugar para nós. Para nossa vontade de nunca mais deixar que nada nem ninguém nos oprima.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

"POR QUE AINDA TORÇO O NARIZ PRO FEMINISMO"

A T. enviou um email (longo, que eu tive que reduzir) dizendo que "tá na hora de falarmos porque ainda torcemos o nariz pro feminismo". A minha resposta (embaixo) eu escrevi faz um tempinho.

Lola, eu tenho algumas críticas ao feminismo, espero que você consiga me esclarecer. Te admiro muito e adoro seus textos!
Sou mulher, hétero, balzaca, não sou casada e não tenho filhos. 
Nunca sonhei com o príncipe encantado, e sempre disse que casaria quando (e se) encontrasse um homem com os valores, visão de mundo, e ideia de relacionamento parecidos com os meus. Bom, nenhum que eu namorei chegou lá. Aprendi e desaprendi com eles. 
Também nunca quis ter um bebê. Quando amadureci percebi como é ruim a sociedade valorizar tanto a mulher por ser mãe. Explico, na bíblia nosso papel é trazer vida ao mundo, e parece que isso perpetuou de uma forma inexplicável, ouço coisas do tipo “mulheres se transformam pra melhor depois de ter filhos”, e sinceramente não acredito que um ser humano podre passe a ser incrível por parir. Também sou julgada de egoísta, e acho que egoísmo é colocar um filho no mundo indiscriminadamente. Um dia talvez eu adote uma criança.
Lola, entendo o sexo livre, mas não curto poligamia, não adianta, não me sinto à vontade, e não é nem repressão. Aí pra ser feminista não posso querer uma relação com um só homem, relação com fidelidade, baseada na igualdade de direitos e deveres, e no amor? 
Não consigo sentir amor por dois caras ao mesmo tempo, e por isso sou julgada como reprimida? Eu gosto de homens, e de um por vez, não vou virar poligâmica nem lésbica.
Ouço muito a teoria que no fundo todo mundo é gay ou bissexual, só não se descobriu. Eu me descobri, descobri meu clitóris, aprendi a me dar prazer sozinha e com o parceiro, descobri o que gosto e o que me atrai, gosto de fazer amor, pois não consigo separar amor de sexo, e adoraria ser respeitada e amada do jeitinho que sou. Enfatizando que aceito perfeitamente a liberdade. Luto por uma sociedade com mais tolerância, amor, gentileza, paz, onde todas as relações sejam baseadas em respeito mútuo, com direitos e deveres iguais.
Aí quando o movimento levanta bandeira de ódio aos homens, a todos, e não aos podres que profetizam o machismo e se pautam na bandeira do patriarcado, me sinto não representada. Desculpa Lola, é que alguns sites ficam retratando o feminismo como uma apologia ao amor livre, e à poligamia. Entendo o total apoio ao amor livre no movimento, e também à homossexualidade. Mas poucos e raros discursos feministas levantam a bandeira da mulher hétero que quer respeito, amor e igualdade, numa relação monogâmica. 
Liberdade não é libertinagem, pelo contrário, requer muita responsabilidade. Creio sinceramente que provocações, ofensas, e frases de ódio piorem o quadro de violência contra a mulher. Respeito é uma via de mão dupla, e se consegue com exemplo e esclarecimento. Muitas pessoas não aderem ao movimento por isso, porque não se sentem representadas quando a coisa descamba pro ódio. É contra a violência, não é?!
O machismo fica onde? Ele só ocorre contra os gays e as mulheres poligâmicas? Só ocorre contra transsexuais e bissexuais e transgêneros? Nem os homens héteros que apoiam o feminismo são bem vistos no movimento. Se não dermos espaço para que eles aprendam e se recuperem, como pretendemos acabar com a violência contra a mulher? Qual o espaço pra recuperar o homem agressor, se não for através de homens mais conscientes? E participar do movimento não seria uma ótima forma de se conscientizarem?
Eu falo muito do feminismo com as minhas amigas, inclusive metade delas é feminista, só que elas não são ativistas porque não se sentem representadas nas marchas, pelo contrário, se sentem discriminadas quando se assumem heterossexuais e monogâmicas.

Minha resposta: T., entendo sua angústia. Já recebi outras mensagens de mulheres que tinham tudo pra ser feministas, que queriam se assumir feministas, que entraram em algum grupo feminista, e não foram bem recebidas. Infelizmente, isso acontece. Feministas são humanas, estamos longe da perfeição, e em todo grupo é frequente algumas pessoas serem excluídas. 
Em todo lugar há panelinhas. Por mais que a gente tenha um interesse em comum -- o feminismo --, claro que a gente vai se identificar mais com algumas pessoas, menos com outras. Estamos falando de grupos feministas, não do feminismo em geral, que é um movimento revolucionário (e não uma turma pra gente fazer amizades, embora não haja nada de errado em querer fazer amizades em grupos de luta). 
Assim como no "mundo real", fora do feminismo, somos cobradas como mulheres pra fazer ou deixar de fazer mil e uma coisas (ser mãe, ser bonita, ser hétero, casar etc), em alguns grupos feministas também há cobranças. Eu pessoalmente acho que não deveria haver. Quero um feminismo inclusivo, em que todo mundo possa se declarar feminista e lutar para mudar o mundo. 
Já recebi vários comentários aqui no blog dizendo que eu não posso ser feminista, ou que sou menos feminista, ou que sou pseudofeminista, ou que sou feminista entre aspas, ou que presto um desserviço ao feminismo (enquanto que, pra reaças e mascus, eu sou a super feminazi radical misândrica por excelência -- sinal de que, se você entrou no feminismo pra agradar alguém, melhor sair rapidinho). As razões, segundo essxs comentaristas, pra eu não ser tão feminista como "deveria ser" incluem ser hétero, ser monogâmica, ser classe média. Uma vez alguém disse até que eu não posso ser feminista porque já usei corretivo pras olheiras!
E aí, o que vou fazer? Vou fechar o blog e dizer adeus pra uma identidade de luta que abracei aos oito anos de idade (algumas pessoas também dizem que não é possível ser feminista quando criança, mas essa é outra história) porque alguém decidiu confiscar minha carteirinha? O bom é que não existe carteirinha. Não existe uma comissão que se reúne pra determinar quem é ou não feminista. O que tem é bastante gente arrogante e sem noção achando que pode tomar essas decisões. 
Sabe, não existe uma competição pra ver quem é mais feminista. Não é que a gente recebe pontos se for uma feminista assim ou assado, e alcançando uma certa pontuação, a gente ganha, sei lá, um sutiã queimado. Então feminista que fica fiscalizando o feminismo alheio não deixa de ser feminista (quem sou eu pra cassar carteirinha que sequer existe?), mas, na minha humilde opinião, está perdendo tempo. Criticar é uma coisa, e todo mundo está sujeito a críticas. Mas colocar numa listinha e perseguir quem discorda de vc é bem diferente. E, lamentavelmente, eu vejo muita feminista de várias correntes fazendo isso.
Agora, uma coisa que os feminismos dificilmente vão fazer é celebrar o que já é celebrado e imposto. Por exemplo, a heterossexualidade e a monogamia. Isso já é o que a sociedade espera da gente, então não faz sentido gritar "Viva a monogamia! Yay, orgulho hétero!". O mesmo com, sei lá, maquiagem. Como o mundo impõe que a gente "se produza" (tem milhares de sites de "stars without makeup" pra provar que maquiagem é uma imposição), não vale a pena pro feminismo saudar uma indústria bilionária. O que não quer dizer que uma mulher que adora maquiagem não possa ser feminista.
As escolhas pessoais que fazemos podem não ser tão pessoais assim (até que ponto realmente temos escolhas? E quem tem? Todxs nós?), e sim, o pessoal é político, mas estamos aqui pra derrubar um sistema (pode chamar de patriarcado). Pra mudar o mundo é preciso mudar as pessoas dentro deste mundo, mas focar pessoas, e não o alvo maior, não é a solução. Individualizar um problema é algo bem burguês. 
Meu conselho é: não torça o nariz pro feminismo. Se algum grupo te desprezou ou destratou, existem outros. E você nem precisa fazer parte de um grupo pra ser feminista. Você pode ser feminista no seu dia a dia, no seu trato com as pessoas, nas suas discussões. Tudo isso é muito válido.