sexta-feira, 4 de setembro de 2015

GUEST POST: O QUE O ESCÂNDALO NO CINEMA PERNAMBUCANO NÃO MOSTRA

Muita gente comentou sobre uma amostra de machismo ocorrido no sábado, em Recife: num debate sobre Que Horas Ela Volta?, elogiadíssimo filme de Anna Muylaert, dois cineastas, bêbados, tentaram roubar a cena.
Anna Muyalert e Camila Márdila
recebem prêmio no Festival de Sundance
Anna deu uma declaração gentil mas contundente sobre o comportamento dos colegas, seus amigos: "Agiram de maneira infantil e boba, numa atitude de egolatria comum aos homens. Quando viram uma mulher em evidência, precisaram atrapalhar o momento". 
A Fundaj decidiu punir os dois cineastas. Durante um ano, a fundação não passará os filmes deles nem os convidará para eventos. Eu acho justo. Vários coletivos feministas de Recife, também. 
No entanto, toda essa discussão (saudável) sobre o machismo de homens num meio artístico, que deveria ser mais progressista e inclusivo, trouxe à tona um outro escândalo de que muito se fala na cidade. Ou melhor, se cochicha. 
Até agora, nada foi publicado sobre isso, além de um ou outro comentário no Facebook. 
Recebi ontem este email de Renata de Maio -- um nome fictício, mas que os envolvidos no caso devem entender. 

Claudio Asssis e Lírio Ferreira são dois machistas e malucos, que foram grosseiros com a Anna Muylaert e só se fala nisso, na cidade. E o comportamento deles virou escândalo nacional Mas a história que vou contar para vocês é muito pior que as grosserias de dois bêbados mal educados. É uma coisa bem mais séria do que a conduta que tem chocado tanta gente. Envolve cineastas pernambucanos, ao menos três deles [não Claudio nem Lírio]. E envolve também pressão, humilhação e abusos. 
Ninguém diz quando começou, talvez até os participantes mais íntimos não tenham certeza, porque faz mais de dez anos. Era uma lista de e-mails, depois, virou comunidade no Orkut. Chegou ao Facebook e, quando entrou no whatsapp foi que descobriram. A quantidade de vítimas também não se sabe. Mas o grupo de abusadores tem mais de dez homens, todos de Recife, uns mais, outros menos, ligados à cena cultural da cidade e alguns cineastas bem conhecidos. Entre professores, músicos, escritores, jornalistas, criou-se um hábito que só veio à tona porque dois deles foram pegos, enquanto mexiam no seu whatsapp, pelas respectivas namoradas, há menos de um ano. 
Mulheres que fizeram entrevistas para ingressar no elenco de filmes, alunas que seduziram e foram seduzidas, desavisadas, foram fotografadas e filmadas. Enquanto faziam sexo, enquanto estavam tirando as roupas, em momentos íntimos, com alguns desses caras. Sem saber. Sem que algum deles tenha lhes pedido autorização para tanto. E essas imagens eram compartilhadas entre os amigos de misoginia. Um dos caras só queria transar num quarto do apartamento dele. O quarto com câmeras escondidas, depois as meninas ficaram sabendo. 
Os dois desmascarados saíram do grupo de whatsapp. Um deles morre de medo de perder o emprego. Outro é militante feminista, ou diz que é, agora que foi desmascarado, então, virou um feminista de carteirinha de facebook. 
Algumas das vítimas deles conversaram entre si, outras, conversaram com advogadas, ligadas a questões de gênero. Uma foi internada numa clínica psiquiátrica. Nenhuma teve coragem de denunciar, de dizer, em público, o que não se para de comentar, nos bares da cidade e nas mensagens privadas. 
“Eu sou atriz, não vou estragar minha carreira por causa desses escrotos”. 
O silêncio se perpetua na mesma velocidade da fofoca a respeito do grupo de whatsapp. Faz quase um ano que esse grupo começou a ser descoberto. Algumas das vítimas e algumas outras mulheres, advogadas, feministas militantes e jornalistas, tentaram abrir uma discussão, pública, no Facebook. Receberam ameaças, em mensagens privadas. Ameaças de processos, ameaças de não serem lembradas em trabalhos e oportunidades, olhares agressivos, ao vivo, como se dizendo: “me sacaneou, vou te foder”. 
A vida aqui não é muito acolhedora para mulheres, imagine para feministas. A minha geração está começando a mudar as coisas. Somos menos condescendentes e estamos num processo de empoderamento, nesta sociedade patriarcal e autoritária. Mas também somos, ou ainda somos muito desprotegidas e muitas vítimas, na hora “h”, ficam com medo e recuam. 
“Tenho uma profissão para construir”. “Meus pais não vão aguentar ver isso”. 
Uma das mulheres diz que tem prints, que tem a lista do whatsapp, que viu mensagens do facebook, do grupo, lá, dos caras. Nenhum deles foi publicado. Todo mundo sabe, mas ninguém sabe. Recife é muito assim, a violência se perde nos silenciamentos e na maneira como se naturaliza tudo. 
Por conta do escândalo com Claudio Assis e Lírio Ferreira, durante a sessão de estreia do filme de Anna Muylaert, esse assunto voltou para as conversas e para as mesas de bar recifenses, com intensidade. 
E muita gente está incomodada, e vítimas estão entristecidas e revoltadas (embora sigam com medo, ou por isso mesmo?). Membros do grupo de voyeurs, abusadores e cúmplices em geral, de machismo e das violações às imagens e à privacidade de mulheres, estão clamando por justiça contra Cláudio Assis e contra Lírio Ferreira. Alguns defendem o banimento da exibição de seus filmes e defendem que a Fundação Joaquim Nabuco esteja agindo em represália. 
Ontem à noite tinha gente quase indo para as vias de fato, num dos bares da área central da cidade, em defesa e contra os cineastas. Não suportei assistir aquilo e voltei para casa. Foi quando recebi um email, que transcrevo abaixo:
“Sabe o que é foda? É a hipocrisia dessa história toda, a sacanagem que tão fazendo e cara de pau de acusarem uns caras que ninguém leva a sério, quando estão bêbados, para soltar os cachorros. E todo mundo sabe, e a galera toda do cinema sabe, que eles não têm nada a ver com o que aconteceu, sem cachaça nenhuma”. 
Fiquei pensando numa coisa que se parece com o nosso momento político, com o espírito de época, no país, hoje. Os mais de rabo preso são os que mais gritam contra a corrupção do outro. Compartilhar fotos íntimas, sem autorização, não é crime? Dá para acreditar que esses caras fizeram isso e talvez ainda façam e acham que não são machistas nem misóginos? E que podem acusar nas redes sociais os outros, como se ninguém soubesse quem eles são, e a gritarem contra a “impunidade” e a “brodagem” que “protege” Cláudio Assis e Lírio Ferreira? 
O que eu quero com este texto, Lola, não é inocentar ninguém, não é defender machista nenhum. Eu quero é que as pessoas saibam que o que ocorreu, fora dos escândalos, é que é realmente grave. A grosseria pública é uma coisa. O uso de imagens íntimas sem autorização é outra. 
Não vou dizer meu nome, mas sinto que preciso contar às pessoas que o problema é muito mais violento, contra nós, aqui. Por que esse abuso que eu relatei e que todo mundo comentava, ontem, não é tratado como escândalo? Até quando sofreremos e nos sacrificaremos pelo nosso empoderamento?

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

O PRIMEIRO PASSO É VOCÊ GOSTAR DE VOCÊ

Recebi este pedido de ajuda da D., de 17 anos, que mora no centro-oeste.

De uns três anos pra cá conheci o feminismo e seu blog foi um divisor de águas na minha vida, quebrou tabus, abriu minha visão. Depois de ter aberto os olhos muita coisa mudou. Não consigo mais ir à igreja da mesma forma que antes, não consigo ir às reuniões de família como antes, muito menos concordar com meus pais e meu namorado como antes. 
Todas essas reviravoltas já seriam motivo suficiente para amar o seu blog, aí meio que sem querer vi um guest post sobre estrias (um que dizia que estrias eram marcas de guerra) e foi tudo que eu precisava, até hoje eu salvei o link dele nos favoritos do Google e quando preciso de algo pra me dar um UP eu leio... Vou dar um jeito de resumir o que me aflige.
PARTE UM: relacionamentos
Essa história de mulher que tem muitos relacionamentos é vadia, que esposa tem que ser submissa ao marido, eu estou cansada de ouvir.
Nas reuniões de família somente as mulheres cozinham (embora meus tios sejam cozinheiros que até trabalham em festas), e depois do almoço somente as mulheres lavam a louça, enquanto meus primos e tios estão sentados bebendo, mesmo sabendo que são eles os responsáveis por sujar a maior parte da louça, quando a cada cerveja usam um copo diferente, e pra cada rodada de churrasco um prato diferente; sempre sobra para nós mulheres sair pela casa recolhendo pratos e copos e limpando tudo.
Tenho que ouvir calada eles contarem piadas machistas; tenho que ouvir calada minha avó, minhas tias e até minha mãe falarem de uma mulher com "a vida torta", como se liberdade sexual fosse algo horrível e nojento. Se eu for argumentar vou ouvir coisas do tipo: "Nossa! Diz que é crente mas olha o jeito que ela fala!" ou "Tá virando puta, é?" 
Um dia meu namorado veio com o papo de mulher "se dar o respeito". Aí eu grilei, e falei tudo que estava guardado há muito tempo. Depois desse dia ele melhorou bastante em relação ao machismo, mas sabe Lola, é difícil tirar as pessoas desse monstrinho verde. Tanto meus avós, quanto meus tios e tias, meus pais e até meu namorado tiveram uma criação nos moldes machistas e conservadores. Com minha irmã mais velha e meus primos eu argumento, mostro o outro lado da moeda, mostro o machismo oculto, porque um dia eu também fui assim: cega e machista. Me despi de meus preconceitos. Infelizmente, muitos a minha volta ainda não.
PARTE DOIS: corpo
Sempre achei que meu corpo fosse realmente meu, até o dia em que manifestei a minha vontade (que vem desde a infância) de fazer uma tatuagem no ombro e furar o nariz. Pra quê?
Ouvi da minha irmã, uma mulher formada, super inteligente: "Isso é pecado!"
Isso mesmo Lola, pecado... Sendo que já ouvi tantos pastores falarem "Deus quer o seu coração..." E pra quem acredita em Deus isso é verdade. Eu tenho um bom coração, qual o problema? 
Minha irmã é a pessoa dentro de casa pra quem eu conto algumas coisas, minha mãe mesmo sendo conservadora é muito gente boa, mas raramente consigo contar algo pra ela. Meu pai é um anjo, nunca brigou comigo, tem uma paciência enorme, mas é um senhor de 64 anos e também muito conservador. Já que eu não tive apoio de minha irmã, resolvi falar com meu namorado. Afinal, sempre o apoiei em tudo.
O que eu ouvi: "Piercing? Tatuagem? O que minha família vai dizer? Que eu achei minha namorada numa boca de fumo! Como você vai entrar na igreja? Isso é horrível, um absurdo!"
Ah Lola, tive vontade de terminar com ele e quase fiz isso. Que discurso mais preconceituoso! Não entendo como um piercing ou uma tatuagem afeta o caráter de alguém.
Em novembro eu faço 18 anos e queria muito mesmo um furo no nariz e uma tatuagem. O que tem de ruim nisso?
Comecei a namorar em agosto do ano passado e meu namorado era ciclista, louco por academia, barriga tanquinho. E eu? Engordei 8 kg do ano passado pra cá. As estrias no bumbum só aumentaram. Eu nem ligava pra estrias até minha mãe entrar no quarto e dizer que elas eram horríveis, que eu parecia uma zebra, uma garota negra cheia de estrias dá nisso, né? Eu me sentia mal com meu corpo, por cima da roupa tudo lindo, por baixo estrias. 
Mês passado fomos viajar e mesmo estando com 58 kg eu estava feliz pra ir. Tinha lido uns textos seus sobre se amar e se aceitar e estava pronta pra colocar um biquíni. Escolhi um com shortinho embaixo porque meu namorado também ia e eu não queria que ele visse as estrias. 
Na noite anterior ao passeio minha mãe me detonou: “Você vai ver o quanto vai sentir vergonha do seu corpo, gorda e cheia de estrias, todas as garotas vão olhar pro tanquinho do seu namorado, se você não se cuidar ele vai te deixar, ele é vaidoso, a família dele é vaidosa”.
Eu confesso que chorei escondido, debaixo do cobertor de madrugada. Senti raiva de mim.
O passeio foi super legal. Mas quando eu olhava pra mim sentia vergonha. Em casa minha mãe e minha irmã disseram: “Tá vendo? No clube nenhuma das garotas com namorados tinham estrias, nem eram gordas. É pro seu bem que eu falo, emagrece antes de ficar sozinha”.
Então Lola, o que eu faço? Sinto-me mal com MEU corpo. Não posso fazer algo que me agrada sem correr o “risco de ir pro inferno". Me sinto triste e sozinha na maioria das vezes. Rola aquela pressão porque esse ano eu termino o ensino médio e tenho que entrar na faculdade, se não vou ser eternamente comparada com minha irmã porque ela passou na primeira tentativa no vestibular, sem cursinho e sem ajuda.
Gosto de pensar que eu sou a garota “gostosa e legal” que tem piercing no nariz e pássaros desenhados no ombro. Gosto de pensar que minha família e meu namorado me acham linda. Gosto de pensar que LIBERDADE SEXUAL existe e gosto mais ainda de pensar que eu sou livre pra sentir prazer sem ser condenada.
Despi-me de tudo... O que os outros esperam pra se despir também?
O que eu faço? Heeelp!

Meus comentários: Não tem fórmula pronta, D. querida. Talvez as pessoas com quem você convive, pessoas que você ama, nunca se livrem desses preconceitos todos. Você tem que aprender a se amar e a aceitar o seu corpo mesmo que elas não o aceitem. Você precisa aprender a não depender da aprovação de ninguém. 
Claro, falar é fácil. E mais fácil ainda é falar de onde eu falo, com a vivência de uma mulher de 48 anos. Certamente com 17 anos eu era muito insegura e tinha mil neuras sobre o meu corpo. Porém, creio que mesmo naquela época, três décadas atrás, eu era a crítica mais ferrenha do meu próprio corpo. O que as pessoas achavam ou deixavam de achar sobre minha aparência física não me afetava muito.
Mas e o meu olhar crítico e impiedoso? Eu não via um monte de defeitos nos corpos dos outros. Ah, mas no meu, como eu via!
Algo que me ajudou demais a destruir essa imagem foi a leitura do Mito da Beleza, da Naomi Wolf. Aqui tem o livro de graça, em português. Leia com calma, e veja como somos ensinadas a odiar nosso próprio corpo. E como essa é uma excelente estratégia de dominação. 
No seu caso, linda D., você ainda parece ter vários problemas com a religião e uma certa competição com a sua irmã. Você vai ter que trabalhar tudo isso, e tudo bem: você tem tempo. Mas o primeiro passo é você gostar de você. Mãos à obra!

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

"ACOLHIMENTO, NÃO ORDEM OU CONSELHO": ENTREVISTA COM CAROL ROSSETTI

Dei pulinhos de alegria ao receber o fantástico livro Mulheres, e mais ainda quando perguntei se poderia entrevistar a magnífica Carol Rossetti, e ela aceitou. 
Eu demorei uma semana pra mandar as perguntas, mas Carol, eficiente que é, respondeu no mesmo dia! Foi ontem (clique nas imagens para ampliá-las):

Lola: Carol, desde que vi suas ilustrações pela primeira vez, adorei. Você está de parabéns pelo seu belo trabalho, tão completo e inclusivo. Fiquei muito feliz em receber o seu livro, e é um prazer te entrevistar. Já trocamos algumas ideias também, e sei que a admiração é mútua. Bom, antes que alguém grite “Get a room!”, vamos lá: conte como nasceu seu amor pela arte. Foi mesmo aos três anos quando você começou a rabiscar as paredes da casa dos seus pais?
Carol: Ah, pois então. Não sei exatamente quantos anos eu tinha. Gosto de desenhar desde que sou capaz de segurar um lápis. Mas isso é verdade: aos três anos, meus pais fizeram um pacto comigo. Eu podia desenhar nas paredes, contanto que respeitasse a fronteira do meu quarto. O resultado era o meio metro de rabiscos (até onde meu bracinho alcançava) por todas as minhas paredes, hehehe! 

E quando foi que esse amor pela arte se transformou numa profissão?
Bom, eu sempre quis que minha profissão fosse relacionada ao desenho. Muita gente dizia que eu devia fazer belas artes, mas eu não queria ser artista, não gostava desse título. Me falaram para fazer arquitetura, mas eu não tinha o mínimo interesse em desenhar planta baixa e planejar casas. Eu gostava de desenhar mulheres. Aí, quando eu estava no ensino médio, uma amiga minha que estava cursando design começou a me falar sobre o curso. Depois de ela ter me garantido que não tinha matemática, eu achei que fosse um boa ideia. Eu me formei em design gráfico em 2011, mas percebi que a profissão não envolvia tanto o desenho quanto eu gostaria -- apesar de ter me apaixonado pelas outras possibilidades do design. Eu percebi que, se queria ser ilustradora, precisaria desenvolver meus projetos pessoais e criar um portfólio por mim mesma.

Como surgiu a ideia de fazer esses desenhos de empoderamento? Você começou a divulgá-los logo no Facebook?
O projeto Mulheres surgiu exatamente nessa minha empreitada de criar um portfólio. Um dia, eu me propus um auto desafio de fazer um desenho por dia, e para garantir a disciplina, fiz uma página no facebook para postá-los. Na época, só meus amigos mais próximos e alguns familiares me seguiam. Eu já vinha lendo bastante sobre feminismo, já vinha observando algumas situações cotidianas que aconteciam com todas as mulheres de uma forma ou de outra, e resolvi criar umas mensagens positivas em relação a isso. Como só os meus amigos viam meus desenhos, não hesitei em usar uma linguagem super intimista. E assim eu comecei a postar os desenhos.

Uma das coisas que mais gosto no seu trabalho é como você é inclusiva. Acho que você foi capaz de representar uma diversidade enorme de mulheres. Ao mesmo tempo, você não reduz suas personagens a uma característica especial. Por exemplo, você fala que Jéssica é magrinha, e desenha uma mulher sem um braço. Você fala que Lana não tem vergonha de usar short, e desenha uma moça com vitiligo. Como veio essa preocupação com mostrar a diversidade?
Acho que é aquela história de que o que foi visto, não pode ser desvisto. Quando você começa a ler sobre feminismo interseccional, começa a observar melhor a questão de padrão de beleza, não tem como voltar atrás. Cada vez que eu estava no caixa do supermercado e olhava a estante de revistas, eu ficava incomodada de ver apenas mulheres brancas, jovens, magras e quase sempre seminuas. Isso sem falar das manchetes e chamadas. 
Chegava em casa pra ver uma série, o elenco era de 4 homens brancos, um homem negro, 2 mulheres brancas. Sempre uma proporção desse tipo. Isso começou a me incomodar, o problema de representação era muito explícito e ninguém estava falando sobre isso. Eu, como profissional de comunicação e imagem, senti que eu tinha a responsabilidade de mudar isso, pelo menos no meu trabalho. Não tenho como mudar o mundo inteiro, mas tenho como tornar meu trabalho mais diversificado e, quem sabe, inspirar outras pessoas a fazerem o mesmo.

Pelo que pude acompanhar, a recepção foi maravilhosa. Você esperava essa reação?
Eu não esperava nada! Eu tinha minha página, só umas 150 pessoas acompanhavam, era isso aí. E tava legal. Quando a coisa cresceu, foi tudo muito rápido e foi tudo muito legal. Eu recebo sempre muitas mensagens carinhosas, positivas, muito amor. Não tem nem como reclamar!

Mas óbvio que há críticas, imagino. Você poderia resumir quais as críticas que você mais ouve ao seu trabalho?
Tem críticas, sim. Acredito que existam dois tipo de críticas: as construtivas e as destrutivas. As primeiras são pessoas que me davam toques ótimos, sugerindo uma forma melhor de me expressar em relação a alguma coisa, chamando atenção para um grupo de pessoas que não estava sendo mostrado, ideias de como tornar o trabalho mais diverso, sugestões de palavras que evitassem uma dupla interpretação... Enfim, discussões que visam o crescimento do próprio projeto. E tem gente que só quer chamar pra briga, quer xingar, ofender, etc. Em geral, vinham de pessoas com interpretação de texto bem duvidosa, me acusando de incentivar as mulheres a abortarem (oi?) ou a odiarem os homens (mas gente?).

Vi que seu trabalho ficou tão popular que reaças e mascus decidiram parodiá-lo, trocando o que você escreveu por mensagens preconceituosas. Tem como impedir isso? Como você se sente ao ver sua obra sendo deturpada?
Ah, pois é, tem isso. Foi uma página criada com o objetivo exclusivo de fuguetar (como diz minha cunhada) meu trabalho. Todos os dias eles postavam várias imagens com texto trocado. Quer dizer, havia um comprometimento e ume dedicação em pegar minhas imagens, tirar o texto no photoshop, criar uma nova mensagem, montar a nova ilustração, postar no face e administrar a página. Aí eu me pergunto, SÓ EU QUE ESTOU TRABALHANDO, MUNDO? 
Bom, eu entrei em contato com um advogado e estou devidamente orientada sobre meus direitos autorais. A página citava na sua descrição a lei de liberdade de expressão, mas esqueceu que a lei também protege os direitos de autor. Bom, aquela página já foi removida, mas algumas dessas imagens continuam circulando pelo face em outras páginas. Sempre que eu vejo (ou que alguém vê e me avisa), eu denuncio para o facebook por desrespeito aos meus direitos autorais e eles tiram do ar em poucas horas. Mas esse povo é teimoso! Tem uma galerinha defensora da moral e dos bons costumes que A-DO-RA desrespeitar os direitos autorais dos outros, impressionante! Confesso que no começo fiquei chateada, hoje em dia já acostumei. Todo domingo à noite tem a hora da denúncia! :D

Você diz que, apesar de ser feminista, você demorou pra falar especificamente de feminismo num desenho, e que você explica que essa demora foi para não afastar as pessoas que têm uma ideia errada e negativa do que é feminismo. Eu fico impressionada que alguém deixe de perceber já no primeiro contato como sua obra é totalmente feminista. Você não?
Não. Ao longo do tempo, feminismo se tornou uma palavra com uma carga pesada e um suposto significado muito distorcido. A maioria das pessoas não sabe mesmo o que é feminismo. Na verdade, acho que pouca gente vai se identificar como feminista desde sempre. Eu sei que se me perguntassem se eu era feminista aos 15 anos, provavelmente eu diria alguma bobagem tipo, "não sou machista nem feminista, sou humanista", e ia achar que tava arrasando. Quando meu trabalho começou a aparecer mais na mídia, minha mãe me ligou um dia e falou comigo, "Carol, tão falando que seu trabalho é feminista", "Aham", "Mas não é, não, né?", "Claro que é mãe, totalmente feminista", "Mas você fala de muito mais coisa do que igualdade entre homens e mulheres", "E feminismo é isso também, mãe!", "É?", "É!", "Olha só que coisa... não sabia..." .
Quem já está no movimento tem sempre a grande questão: como furar a bolha? Como falar de feminismo para minha tia que não deixa meu primo brincar com bonecas? Não dá pra manter o diálogo apenas entre ativistas. Eu percebi que os conceitos básicos do feminismo relativos à igualdade, ao respeito, à dignidade eram coisas que as pessoas sempre tendiam a concordar, mas na hora de aplicar dava um nó na cabeça e a coisa não dava certo. 
Então eu resolvi falar de tudo aquilo que a gente fala dentro do movimento com vários nomes e conceitos através de história, de vivências, com personagens que soassem humanos e despertassem a empatia, a identificação. Para quem já era feminista, era tudo muito óbvio. Para quem nunca tinha pensado muito sobre feminismo, foram ilustrações legais que falavam de coisas que elas entendiam -- ou, quando não entendiam, elas tentavam entender. Foi uma abordagem muito simpática e não agressiva. Quando eu finalmente usei o termo "feminismo", muita gente falou tipo, "Ah, feminismo é isso? Acho que sou feminista então"! Foi um resultado fantástico.

Carol Rossetti com Fátima Bernardes
Outra das coisas que mais gostei no livro e nos seus desenhos de forma geral é que, embora você use o imperativo para falar com uma personagem e, assim, falar com o leitorado, você não tem um tom mandão. Você parece sugerir, mais do que impor. E, ao mesmo tempo, você não adota um tom condescendente (patronizing), tão comum nas revistas femininas, por exemplo. Ou seja, sua obra, além de visualmente linda, também está muito bem escrita. Como você conseguiu isso?
Ah, pois é. Muita gente disse que meu tom era condescendente, sim, recebi essa crítica de alguns. Na verdade, o tom do texto foi muito natural. É como eu converso com minhas amigas e amigos, e como eles conversam comigo. Quando comecei os desenhos, só meus amigos viam minhas coisas. Era natural para mim. Eu gosto de pensar em sempre ter uma linguagem não de ordem, não de conselho, mas de acolhimento. A questão para mim é incluir, acolher. Eu não quero que a mensagem final seja "você tem que fazer isso", mas sim "tudo bem, sua vivência é válida, seus sentimentos são válidos, você merece respeito. vamos buscar juntas uma solução, você não está sozinha". 

Como você escolheu os nomes das personagens?
Tudo aleatório! Mentira, um ou outro não foi. A Amanda, que não se depila, foi uma referência clara à Amanda Palmer diva da minha vida. Maya, que tem a pele bem escura, foi uma referência a Maya Angelou. Alguns nomes foram escolhidos por pessoas no Instagram: eu postava a foto da carinha da personagem (sem o texto) e pedia sugestões. Algumas foram pessoas que pediram pra ver o próprio nome no trabalho, e eu falava que tudo bem, mas que o tema seria aleatório. 

Adorei como o livro foi dividido, em seções como “Corpo”, “Moda”, “Identidade”, “Escolhas”, “Amores”. E a introdução também está ótima. Mas senti falta do número da página. Por que essa decisão de não numerar?
Ah, isso foi uma coisa que defini com a editora Sextante. Não foi propriamente para não numerarmos, mas queríamos colocar várias imagens sangradas na página, e aí o número da página às vezes não caía bem com o layout. Aí tiramos o número, mesmo.

Seus lindos desenhos já foram traduzidos para quinze idiomas, e os direitos do livro foram vendidos para EUA, Espanha e México. Você acha que sua obra tem apelo universal? O que nos une enquanto mulheres de todo o mundo?
Acho que sim, a luta por igualdade ainda é uma questão mundial, embora aconteça de forma diferente em cada país. Cada lugar tem suas especificidades, suas lutas e sua forma de lutar. Mas a questão das histórias é universal. Pode ser que nem toda mulher que não se depila passe pela mesma vivência da Amanda, mas isso pouco importa. A Amanda não é todas as mulheres, ela é Amanda. Algumas vão se identificar, outras, não. Mas todo mundo pode se sensibilizar com a história dela.

Acho que seu livro seria ideal para ser adotado em aulas de gênero nas escolas, para adolescentes. Quero dizer, se conservadores e religiosos permitissem que a existência dessas aulas. Você pensa em fazer uma obra mais didática para crianças e que lide com gênero e diversidade?
Sim! Na verdade, meu novo projeto que devo apresentar na semana que vem é exatamente isso. Vão ser tirinhas em quadrinhos, voltado para todas as idades (vulgo público infantil, mas os adultos vão gostar), tratando ainda dessas questões de gênero e diversidade. O projeto vai se chamar Cores (Colors), e vai ser bem fofinho!

Mensagem da Lola: Comprem o livro da Carol, em todas as livrarias! É uma obra de referência mesmo, pra olhar e motivar sempre. Ah, enquanto estava ilustrando este post, vi uma entrevista que ela deu em inglês.