terça-feira, 21 de maio de 2013

GUEST POST: EU, AGRESSORA

Vou publicar dois guest posts que se contradizem um pouco entre si. Ambos estão relacionados à violência doméstica.

A.
Eu cresci ouvindo que todo mundo (pai, mãe, irmãos mais velhos) pode bater em criança porque é para o bem dela. Porque criança que não apanha não foi educada e não terá limites. Que bater é uma prova de amor. 
Cresci ouvindo sobre as "vantagens", aliás, a "necessidade", de bater em criança para educá-la. Só que nunca ouvi que bater em criança está relacionado com violência doméstica.
E tampouco ouvi que mulher pode bater em homem, ou em outra mulher. Mulher tem que ser fina. Mulher só pode bater em criança, e isso se for a mãe. E, claro, isso nem é bater, é educar.
Ouvi muito que em mulher não se bate nem com uma flor. Mas também ouço "um tapinha não dói", e a surrada frase do Nelson Rodrigues, "Não é toda mulher que gosta de apanhar, só as normais". E, mesmo que a frase não diga, desde criança eu sabia que, nesse ditado, estava implícito que quem bate (pra dar prazer pra mulher, claro) é o homem.
Acabar com a violência doméstica é deixar de bater em criança, mulher, homem, idoso, animal de estimação, o que for. Não há desculpa, não há exceção válida.
B.
Sou feminista, mas muito antes de me dar este rótulo, nunca aceitei nenhuma violência de nenhum tipo vinda de qualquer homem que fosse. 
Cresci ouvindo, como um valor social considerado do bem, que homem não pode bater em mulher e nem em criança porque é muito mais forte. Homem pode bater em homem. Mulher pode bater em mulher. Mulher pode bater em criança. Mulher pode bater em homem.
É a primeira vez que paro pra rever estes conceitos que agora me parecem tão estúpidos, mas ecoam na minha maneira de me relacionar de uma forma assutadora e que eu não queria. Cada vez mais percebo o quanto qualquer tipo de violência é inaceitável e desnecessário, e o tanto que eu tenho que me vigiar para não ser violenta em nenhuma instância, com ninguém.
Exercício difícil. Eu fui uma mulher daquelas que se chamam de barraqueira, mas num sentido ruim isso é apenas uma pessoa agressiva. Quando alguma coisa me irrita muito sinto uma raiva indescritível que me faz ser violenta verbalmente e muitas vezes fisicamente.
Meu companheiro aceita isso porque sou barraqueira. Ele não sente que sofre violência doméstica porque isso é coisa de homem frouxo. E porque eu sempre tenho uma desculpa: estou cansada, preocupada, você me provoca, etc.
Isso não acontece com frequência, mas a última vez me vi batendo no ombro dele com muita raiva e o xingando com muito palavrão, e depois me justificando que ele recebeu estes tabefes porque insistiu num assunto que estava me irritando.
Mas quando minha amiga apareceu na minha casa machucada porque a companheira dela a agrediu, eu disse a ela: não importa o que você fez, não existe justificativa pra uma pessoa invadir o corpo da outra dessa forma.
E que medida foi essa que me impediu de ver que era exatamente isso que eu fazia, sem que me doesse nenhuma parte da minha consciência? O que me faz pensar que no meu relacionamento esta mesma atitude merecia outro nome? Agora sim me vejo como agressora, e digo que na minha casa temos uma história de violência doméstica. Mesmo que o machismo permita que esta violência seja cometida e que autorize a ser uma pessoa violenta por baixo de um título de mulher barraqueira. Que eu saiba contar até dez e me livrar desse comportamento repulsivo porque a luta agora é interna, companheira! 

segunda-feira, 20 de maio de 2013

RADFEMS, TRANSFEMS, E MINHA POSIÇÃO CÔMODA

Give peace a chance

O mundo trata muito mal as mulheres, fato, mas também trata mal -– não vou dizer pior, porque não estamos em Olimpíadas da Opressão -– quem não é facilmente identificável, quem está numa categoria indefinida, quem não é "normal", com todas as aspas aí. 
Eu sou gorda, nunca pintei as unhas, não tenho orelha furada, não uso maquiagem nem salto alto, mas, apesar disso tudo, nunca tive minha identidade de gênero questionada. Ninguém nunca me chamou de homem. Já tive, sim, minha sexualidade questionada -– já me chamaram de lésbica porque, na adolescência, eu jogava futebol no meio de belos homens. E, claro, como autora de um blog feminista bastante conhecido (mas se fosse desconhecido não faria diferença), hoje sou tachada de lésbica o tempo todo. Afinal, toda feminista é lésbica, odeia homens, e já realizou inúmeros abortos. Quantas vezes por dia você ouve essa propaganda anti-feminista, que não faz sentido algum?
Embora eu nunca tenha sido “feminina”, no sentido de ser vaidosa, decorativa, maternal, obediente e submissa, nunca ninguém negou que sou mulher (logicamente que fui muito cobrada para ser feminina, não para ser mulher). Nunca tive que provar que sou mulher. Nunca ninguém ouviu minha voz no telefone e teve dúvidas sobre meu sexo biológico. E, pra mim, é óbvio que, num mundo que a gente tem que provar tanta coisa todos os dias, não ter que provar ser mulher é um privilégio. Pode não ser nada vantajoso ser mulher no nosso mundo, mas é um fato aceito. 
Portanto, eu vejo como um privilégio não ter que provar todos os dias que sou mulher. Esta é a nossa primeira e mais insistente forma de segregação. A pergunta “é menino ou menina?” (nessa ordem) é a primeira a ser feita, antes mesmo que o bebê tenha nascido. E a resposta a essa pergunta, todos os estudos mostram, determina a forma como esse bebê será tratado, desde suas horas iniciais de vida. 
A ansiedade das pessoas em classificar um ser humano é enorme. É por isso que cobrimos bebês meninas de rosa e já colocamos um brinquinho em sua orelha, um lacinho em seu cabelo em muitos casos inexistente –- pra que ninguém tenha dúvidas de que é uma menina. Ninguém vai precisar perguntar “é menino ou menina?”, e já pode partir logo pra outra etapa de interação, como “que idade elx tem?”, ou “qual seu nome?”. Sem que a pessoa saiba antes se o bebê é menino ou menina, ela não fará as outras perguntas. Saber a resposta vai determinar como aquela pessoa tratará aquele bebê.
Ah, dirão algumas pessoas, então um bebê que nasce homem tem privilégios, mesmo que, anos mais tarde, esse mesmo menino/homem perceba que não se identifica com seu sexo biológico, e queira ser mulher. É, acho que ele tem privilégios, até que dê as primeiras exibições da sua não-identificação. A partir do momento em que é visto como indefinido, vai sofrer um bocado. 
Eu tive o privilégio de ter pais liberais, que nunca me falaram o que eu devia ou não fazer por ser menina, e estudei, pelo menos nos meus primeiros anos, em escolas liberais. Talvez, vez por outra, eu tive contato com alguém que queria que eu fosse mais feminina. Mas uma coisa é se recusar a pintar as unhas; outra é, prum menino, ser considerado “menos homem”, ou não ser homem o bastante. Qualquer garoto “afeminado” vai sentir a pressão pra ser mais masculino.
E não estou nem falando dos bebês hermafroditas, termo que hoje não é considerado muito bacana, e prefere-se o termo intersexual. Imagina a ansiedade de pais, médicos, familiares, enfim, todos que cercam o bebê, para determinar a qual sexo ele pertence. É a partir dessa ansiedade que vem cirurgias mutiladoras que forçam uma definição. Esse bebê continuará sendo tratado como uma anomalia. Tudo que não se encaixa numa divisão estanque de gêneros é visto como anormal, doença. Pelo menos pelo senso comum.
Eu me lembro de uma amiga que tive na juventude, a Regina. Eu era dois anos mais velha que ela; ela era filha do zelador do primeiro prédio em que vivi em SP. Eu não fazia, nem faço, distinção por classe social, e Regina era minha amigona, vivia no meu apartamento, eu vivia no dela, jogávamos futebol juntas, brincávamos de polícia e ladrão, esconde-esconde. Tive muito convívio com ela entre meus 10 e 16 anos, por aí. 
Do Being Amy
Só que, apesar do nome tão feminino, Regina não era vista como menina. Quero dizer, ela era menina, mas as pessoas ficavam ansiosas ao seu redor. Porque ela era gordinha, ainda não tinha seios, usava cabelos curtos, encaracolados, calça comprida, não tinha voz fina. Era comum que gente sem nenhuma educação, nenhuma insensibilidade, perguntasse pruma pré-adolescente de 12, 14 anos, “você é menina ou menino?”, ou dissesse, com surpresa, “ah, você é menina!” Fora o bullying que eu não via de perto, porque não estudávamos na mesma escola (ela estudava em escola pública). Mas só o que eu acompanhava já era quase todo dia. Eu não era feminina, usava bem pouco vestido ou saia, mas ninguém duvidava que eu era menina. Regina fazia o mesmo que eu fazia, e seu sexo era posto à prova diariamente. Vai me dizer que isso não afeta uma pessoa? Regina se ressentia com isso. Muitas vezes a vi chorar e a consolei. 
Detalhe: se uma menina, que não era transexual –- ela não tinha dúvida que era menina (acho, inclusive, que ela não tinha nem dúvida que era hétero) -–, sofria tudo isso, pense no que uma criança ou adolescente realmente transexual tem que enfrentar.
Portanto, eu acredito que pessoas cis (que sempre foram identificadas pelo seu sexo biológico) tenham privilégios que pessoas trans não têm. 
Outra coisa que acredito é que uma mulher trans (um homem que "virou" mulher, só pra elucidar, porque muitxs de nós somos leigxs) é tão mulher quanto eu. Não importa se ela não fez operação, se ela tem pênis: se ela se identifica como mulher, ela é mulher, ué. Deve ser tratada pelo nome que escolher e pelo pronome feminino. Simples assim (e o mesmo respeito deve ser dado a um homem trans, ou seja, a uma mulher que "virou" homem).
Uma mulher trans tem tanto espaço no meu feminismo quanto qualquer outra mulher. Mas eu sou suspeita pra falar, porque no meu feminismo, que eu considero inclusivo, homens também têm espaço. Nunca pensei em fazer um blog só pra mulheres. Eu acredito em homens feministas, e acho ofensivo quem diz que homens só estão no feminismo pra pegar mulher. Pô, eu quero mais é que todo mundo seja feminista. E é impossível mudar o mundo sem a colaboração e o empenho dos homens.
Muitas (não todas, que eu saiba) feministas radicais pensam que o feminismo deve ser um espaço só de mulheres cis. Elas excluem não só homens, mas também pessoas trans. Uma mulher trans, pra muitas radfems, segue sendo homem porque nasceu com o par de cromossomos XY. Não interessa se esse ser com cromossomos XY se identifica como mulher: para muitas radfems, ela não tem lugar no feminismo delas.
Com pensamentos assim, não é de espantar que radfems venham brigando com transfeministas faz tempo, principalmente nos EUA. Ontem me chegaram dois emails de meninas jovens preocupadas com o crescimento do feminismo radical no Brasil. Uma delas, a Brunna, de apenas 14 anos, escreveu um texto muito bom sobre as regras de um grupo radfem fechado, que levou para um outro post, este de um humanista. Reproduzo aqui essas regras (clique para ampliar; não sei quem fez os comentários em vermelho). 

Agressivo e absurdo. É preocupante que um blog radfem diga, com todas as letras, "O feminismo radical tem posicionamentos transfóbicos", e ache que tudo bem ter esses posicionamentos (a autora diz que descontextualizei sua fala). Não é assim que as radfems sairão dos grupinhos fechados. Mas nem sei se elas querem sair. Suponho que o feminismo radical esteja crescendo no Brasil, porque semana passada fiquei sabendo de dois blogs que eu nunca tinha ouvido falar.
Em 5,5 anos de blog, sabe quanto contato eu tive com radfems? Quase zero. Apenas num post chamado "Para quem não gosta, todo feminismo é radical", surgiram algumas poucas radfems nos comentários justificando o ódio aos homens. Depois, ou antes, não lembro, toda vez que algum incauto me acusava de ser feminista radical, alguma leitora vinha dizer, "A Lola, feminista radical? Ahaahuahauahau". Porque, né, de fato eu não sou. Aliás, não sei praticamente nada de feminismo radical.
Mas só pra citar um exemplo de como as radfems são um grupo minúsculo: em maio do ano passado, haveria um debate sobre pornografia feminista em SP. Uma das organizadoras do debate entrou em contato comigo porque precisava de alguma feminista anti-porn pra participar, já que todas que iriam participar eram pró-porn. Eu mandei emails pra algumas pessoas e grupos, deixei mensagens no Twitter e no blog, e ninguém se habilitou. Radfems são anti-porn, sabe? Nenhuma apareceu. Eu acho, sinceramente, que a influência de um grupo que mal aparece é bem insignificante.
Mas também acho que elas têm o direito de existir. Não é o meu tipo de feminismo, assim como as reações de algumas transfems me soam extremamente agressivas (die cis scum, por exemplo, morra escória cis, é um insulto que presta um enorme desserviço à qualquer causa, ainda mais uma que se alinha aos direitos humanos). 
Discordo de vários pontos de algumas transfems. Encher de termos cis (um termo, inclusive, que não é consenso nem entre os próprios grupos trans) um blog não especializado em transfeminismo não é algo que eu queira fazer. Banir autoras feministas importantes porque elas alguma vez falaram algo errado, acusar de transfóbica qualquer pessoa que discorda de alguma coisa trans, difamar indivíduos, discutir se a palavra trans deve ou não ter asterisco, insistir que blogs feministas falem de pessoas trans sempre que falam em gravidez, aborto, maternidade, ou menstruação -- são características de algumas transfeministas que não me agradam. No entanto, considero o transfeminismo importantíssimo para os feminismos, por trazer novas discussões sobre gênero.
Pois é, feminismos. No plural. Somos um movimento plural. Gostaria que feministas nos centrássemos no que nos une, não no que nos separa. Gostaria que não houvesse ódio entre os feminismos. Mas sei que estou falando de uma posição privilegiada e cômoda de feminismo mainstream, que já é bastante aceito na sociedade. E olha só, se a reação a este feminismo já é tão virulenta, imagina o que os feminismos minoritários não têm que enfrentar... Pior ainda é quando essa virulência vem de nós mesmxs, feministas.

domingo, 19 de maio de 2013

LIVRO, PALESTRAS, ABRAÇOS. CHOCOLATES?

Minha linda leitora Milena imita  Janet Leigh em Psicose. Idêntica

Se você não comprar meu livrinho depois desses comentários de leitorxs felizes, eu desisto! Tá, não desisto, mas por favor, compra, vai! É fácil! Até agora vendi 65 dessa reimpressão. Tenho mais duzentos exemplares. Quantos você vai querer?


Comentário da Milena, fofa que trabalha na Unicamp e não só comprou meu livro como me deu de presente um do Galeano: "Achei seu livro o máximo! Eu nunca gostei de críticas de cinema e sempre pulava as críticas em jornais e revistas. Mas eu adoro cinema, só achava meio estraga prazeres ler as críticas de filmes porque ou elas tiravam algumas expectativas que eu tinha com relação aos filmes ou porque davam umas expectativas irreais (como uma crítica do filme A Árvore da Vida, que me fez querer ir correndo pro cinema, enquanto o filme me fez rezar pra que as luzes se acendessem).
Mas as suas crônicas de cinema são tão diferentes que, desde que comecei a lê-las no blog, os meus preconceitos começaram a se dissolver... Você não usa a terceira pessoa pra falar dos filmes, nem aquele tom impessoal, e isso faz toda a diferença porque você vai deixando claro ao longo do texto que a sua opinião não é um veredito, que pode acontecer (e em alguns casos você até dá um jeito de avisar isso) de a gente discordar completamente da sua opinião.
Além de tudo, o bom humor, os trocadilhos com os nomes dos filmes, e muitas das relações (que eu nunca ia fazer!) que você faz nas crônicas são hilários e geniais! Uma das crônicas que eu mais gostei foi a do Apanhador de Sonhos, um dos raros casos em que o nome é beeem melhor que o filme. Na crônica, você traduziu as semanas de pesadelo e aflição que eu tive após ver o filme. E vaginas dentadas foi a comparação do ano! ;D
Já quando li a crônica do Senhor dos Anéis me lembrei da minha tia que, quando assistiu o último filme da trilogia (e também não conseguiu ver os outros), ficou repetindo: "E se não fosse o Sam? Esse Frodo é um banana". Eu não só assisti os filmes, como li os livros (tá, no último eu roubei e pulei um pedaço do final porque toda aquela guerra mágica estava muito monótona) e achei os filmes bons, mas cansativos, mas nem por isso eu me revoltei com vc ao ler a crônica..."
Luiz, engenheiro florestal em Unaí, MG: "Peguei ele pra ler no final de dia das mães e adorei! Sua escrita é ótima e cê consegue transmitir boas doses de oralidade pro papel. Coisa difícil e que aproxima o escritor do leitor. É como se nós estivéssemos num quiosque da Praia do Futuro falando sobre cinema. 
Mas, vem cá, cê gostou ou não de O Dia em que a Terra Parou? Não dormi na sala de cinema, mas só faltou eu por em dia o corte das unhas dos pés e das mãos. Deve ter sido a mesma sensação quando eu e uma grande amiga assistimos 300. Tava tão bonitinho, tão feitinho, tão mastigadinho, tão linearzinho, tão inho, que, pra quebrar o tédio, virei pra ela e disse: 'Eles tão usando o shortinho Carla Perez!' E ela, sem titubear: 'E as botas das Paquitas!' Seu livro me lembrou que eu não consumo cinema como antigamente. Devo ter visto uns 40% dos filmes que você falou! Já pode ter medo de assistir O Senhor dos Anéis?"

Mande sua fotinho e um comentário que, se você deixar, eu publico
Queria lembrar que esta quinta, 23 de maio, às 20 h, estarei na 9a Semana de Ciências Sociais da USP (na Cidade Universitária, Prédio de Ciências Sociais e Filosofia, sala 14) para, junto a Adelia Toledo Bezerra de Meneses, e a Giulia Manera, falar sobre a Representação da Mulher na Literatura. Quero ver todo mundo lá! (veja toda a excelente programação aqui. A semana começa amanhã e vai até sexta, com duas mesas por dia).
Aí, bem cedinho na sexta, vou direto de SP pra Recife. Às 19 h, estarei no auditório G4 da Unicap para falar sobre cyberativismo e feminismo. É uma organização da Marcha das Vadias, que promoverá debates preparatórios durante toda a semana (clique no cartaz para ver melhor). 
E, no sábado, acontecerão várias Marchas das Vadias por todo o país (uma nova página no Twitter, Agenda Feminista, vai tentar colocar todos os eventos. Contribua com ela). Eu estarei na de Recife, saindo da Praça do Derby às 14 h. Venha marchar comigo e com todo o pessoal.
E já sei quais serão minhas próximas atividades! Anotem aí, que quando chegar mais perto da data, eu dou mais detalhes:
Dia 1 de junho darei uma oficina e participarei de uma mesa sobre opressões no II Congresso Nacional da Anel - Assembleia nacional dos Estudantes Livre!, em Juiz de Fora. Será minha primeira palestra como convidada em Minas! 
Dia 5 de junho estarei na UFSC! Yayyy! Será minha primeira volta à Santa Catarina desde que me mudei pra Fortaleza, 3,5 anos atrás. Darei um mini-curso sobre direitos humanos e feminismo na IV Semana de Direitos Humanos da UFSC. Estou muito ansiosa pra rever amigxs e colegas e fazer novas amizades na minha universidade querida, onde tive o privilégio de fazer o mestrado e doutorado. 
Pena que vai ser vapt-vupt. Dia 6 de junho (meu aniversário) já estarei na maravilhosa Balneário Camboriú para palestrar no SINJUSC - Sindicato dos Servidores do Poder Judiciário de SC. E dia 7 tenho que estar de volta a Fortaleza, porque não posso abandonar meus lindos aluninhxs por tanto tempo.
Bom, vocês não podem reclamar! Entre os dias 23/5 e 7/6, passarei por cinco estados! Alguns estarão bem gelados, inverno e tal... Não quero pensar nisso. Quero só pensar em todo o carinho, todos os chocolates que receberei, os livrinhos que venderei, os abraços que darei. 

sábado, 18 de maio de 2013

FEMEN UCRÂNIA ROMPE RELAÇÕES COM FEMEN BRAZIL

O Zero Hora publicou hoje uma declaração da líder do Femen Ucrânia, Alexandra Shevchenko: 
"Não temos mais Femen Brazil. A pessoa que nos representava, Sara Winter, e que tem sua própria conta no Facebook, o Femen Brazil, não faz parte do nosso grupo. Tivemos muitos problemas com ela. Ela não está pronta para ser líder. É uma pena, mas essa decisão faz parte do nosso crescimento como movimento honesto. O Femen Brazil não nos representa".
Sara, por sua vez, citou desacordos financeiros com a Ucrânia, disse que seguiria com os protestos no Brasil, e se defendeu: "Elas queriam que eu contratasse um helicóptero para desenhar um símbolo do Femen no Cristo Redentor. Como iria fazer uma coisa dessas? Queriam que eu encontrasse uma cruz de madeira no Rio ou em São Paulo e serrasse, como elas fizeram em Kiev. Elas tinham muitas ideias absurdas que foram nos distanciando".
Uma matéria do Uol diz que o Femen Br ainda não está sabendo do desligamento, e que prosseguirá com as atividades. Diz Sara: "Não assinamos nenhum contrato, usamos o nome porque nos identificamos com as ideias. Vamos continuar trabalhando, independente de qualquer mudança no nome do nosso grupo".
Já esta notícia do G1 indica que o motivo da discórdia foi financeiro. Alexandra diz que Sara não pode mais usar o nome Femen, e Sara diz que vai continuar a usá-lo. Ish.

Em outubro do ano passado, Luma, uma universitária em SP, me enviou este relato, que não publiquei antes por pena da Sara:
"De julho pra agosto entrei em contato com o Femen por email e me convocaram para uma reunião, fui até o local e no mesmo dia chegou a produção da RedeTV para fazer uma matéria (ninguém me avisou). Fiquei assustada, mas encarei e já fiquei com várias questões na cabeça. 
Fiz uma foto com os seios pintados, publiquei, pois o movimento acredita que é bom para lidar com a reação de familiares e amigos. A Bruna [então número dois do grupo; ela saiu em setembro, fazendo várias críticas] e a Sara queriam muito que eu ficasse e começaram a entrar em contato comigo, mas desde o início eu disse que seria importante para o Femen entrar em contato com outros coletivos, que eu tinha como marcar encontros e tal. A Bruna achou interessante, mas a Sara fingiu que não me ouviu. 
Na semana seguinte, me informaram que elas participariam do Superpop e me chamaram para acompanhá-las, e fui apesar de discordar de tudo. Chegando lá fiquei sabendo que o movimento tinha assessor de imprensa e até mesmo fotógrafo. Fiquei encucada com tudo isso e, convivendo com as meninas, vi que o foco era ter mídia, não lutar. Ouvi várias coisas, como uma empresa de cerveja querendo fechar um contrato com o Femen, e a Sara aprovando a ideia. Ela me disse que a Playboy havia oferecido um cachê de 30 mil reais pra que ela posasse nua, mas que ela só posaria daqui a oito anos. 
No dia seguinte, depois da participação no Superpop, a Rede Record passou o dia conosco. Já comecei a ficar bem mais na minha e vi que não era o que eu queria pra mim. O movimento estava perdido e parecia uma espécie de diversão da Sara, que muitas vezes me irritava questionando o corpo de algumas garotas e até o seu próprio. Ela falava muito sobre magreza. 
Uma vez quando estava no hotel com ela e a Bruna, Sara contou que uma das meninas da Ucrânia havia falado que parecia que ela estava grávida, pois num protesto a calcinha que ela usava estava muito apertada. Sara sempre queria que para as fotos as meninas estivessem maquiadas (como se alguém fosse obrigado a usar maquiagem, né?). Comentou certa vez que estava chateada em relação às garotas da Ucrânia, pois elas colocavam na página só as meninas brasileiras que elas consideravam bonitas. Disse que as ucranianas faziam considerações acerca dos corpos das brasileiras que entravam pro Femen.
Sara usava termos racistas como se fossem brincadeira. Por exemplo, logo no primeiro dia ela já soltou essa (não lembro exatamente qual era a conversa): 'Ah, mas isso é coisa de preto!' E eu olhei assustada pra ela e ao mesmo tempo indignada. Percebendo isso, ela já veio dizendo, rindo: 'Não liga não, é que meu pai é 'preto' e minha mãe fala assim, de vez em quando eu falo assim também!' 
Mais tarde, no mesmo dia que a Record passou conosco, tenho outra surpresa: elas me informam que haveria um ensaio fotográfico. Fui junto com elas, mas ninguém me avisou que eu também iria participar. Na hora que a Sara 'mandou' que eu fizesse as fotos, eu não quis. Era um ensaio nu, com um fotógrafo que eu nem sabia quem era e elas não souberam me explicar o motivo do ensaio, então eu me recusei. Nessa a Sara rasgou o verbo e depois fingiu que me compreendeu, para que eu continuasse no movimento. As outras meninas também não queriam fazer, mas obedecem a Sara como ninguém e fizeram. 
No dia seguinte seria meu primeiro protesto, e Sara me informou que o objetivo era ser presa. Ela ligou para várias emissoras para que eles cobrissem. Me recusei a participar e mandei uma carta ao movimento e publiquei no meu blog. Está um pouco doce porque não quis que parecesse um ataque pessoal. Quero deixar claro que minhas críticas são em relação ao Femen, e não diretamente a Sara, mas se ela é a porta-voz do movimento, deve no mínimo ter coerência no que diz e não ficar mais utilizando uma luta séria para questões pessoais.
Se entrei no Femen era porque queria ajudar a construir o movimento, mas percebi que com a liderança da Sara é impossível. Ela tem muito a aprender e espero de coração que aprenda. Não vou ficar atacando ninguém. Desejo que ela amadureça e não use o nome do feminismo para diversão, ganhar mídia e quem sabe ganhar um dinheiro. 
Não me arrependo de ter saído e hoje vejo que não se encaixa com meu jeito de fazer militância. Quem permanecer deve tomar muito cuidado, o Femen está perdido, tem muita gente mal intencionada visando ganhar mídia e dinheiro usando o nome do feminismo. Não é de agora que o Brasil sabe o que é feminismo, a luta é antiga, é de todos os dias. Só quero que Sara e as outras garotas aprendam."

Em novembro uma outra ativista do Femen, a Sabrina, que levou a Sara para Belo Horizonte para vários protestos, me enviou um email: "Na primeira vez que vi o seu nome  [Lola] e visualizei seu twitter/blog, eu nem conhecia o Femen. Tomei conhecimento dos seus escritos graças a uma discussão que você teve com o Pablo Villaça, crítico de cinema, meu conterrâneo que adoro tanto. Naquele momento não tomei partido e comecei a ler o que você publicava no blog, e até hoje leio do mesmo jeito, seja críticas ao Femen ou outros assuntos. 
Gosto do seu blog, Lola, e espero um dia ver nele um post dizendo que o Femen adquiriu seu respeito. Se isso não acontecer, tudo bem, mas que eu vou lutar para que pessoas COMO VOCÊ nos deem mérito, eu vou. Digo você porque a sua crítica é diferente. A sua crítica ensina, capacita. Depois do protesto nas Lojas Marisa, eu percebi que existe muito lobo em pele de cordeiro no meio feminista. Meninas que se intitulam feministas melhores do que nós questionando o tamanho dos meus seios, o tênis que eu uso ou a cor da axila da fulana. 
É muito triste porque vendo esses comentários que algumas meninas plantam e os mascus curtem e colhem, dá a entender que nosso protesto só será válido se tivermos seios grandes, se estivermos descalças e desgrenhadas (de acordo com a lógica deles), sendo que em nenhum momento passa na cabeça deles que eu uso All Star porque eu gosto. E a gente não perturba ninguém, a gente faz do nosso jeito tentando melhorar sempre. 
Eu entrei no Femen porque acreditei na Sara, e com o tempo e convivência acredito mais ainda. Menina de coração bom, só precisa de apoio e instrução... sou um pouco mais velha do que ela e pretendo fazer isso."

Infelizmente, não tive mais contato com a Sabrina. Ou com a Luma. Meu único contato com a Sara eu já narrei aqui. Em outubro, ela foi assistir uma mesa em que eu palestrei, numa organização da Marcha das Vadias SP. Conversamos depois da palestra, uma conversa tensa, mas produtiva. Sugeri que o Femen Br desse um tempo pra se reestruturar, e que ela, individualmente, procurasse aprender mais não só de feminismo mas de História, de movimento estudantil, de lutas da esquerda.
Minha sugestão não foi aceita. 
O Femen Br não saiu da mídia. E continuou fazendo as piores besteiras, como homenageando uma grande inimiga do feminismo, Margaret Thatcher. Já o Femen do resto do mundo conseguiu fazer pior: promoveu um topless jihad day, fazendo com que várias feministas islâmicas respondessem que o Femen não as representa e nem elas querem ser "libertadas" por um grupo de mulheres magras e brancas que precisam tirar a roupa para ser ouvidas. 
Assim que escrevi sobre o Femen pela primeira ou segunda vez, algumas feministas brasileiras já me alertaram que o Femen seria um grupo de inspiração fascista disfarçado de feminista. Cada vez mais há provas disso, o que parece indicar que o Femen Ucrânia originalmente aceitar ser representado por Sara (com seu recente passado neonazista e sua tatuagem da cruz de ferro) não foi mera coincidência. O Femen Ucrânia sabia exatamente o que estava fazendo ao "contratar" Sara. Assim como sabe que a página do Femen do Reino Unido, só pra ficar num exemplo, é administrada por um membro de um grupo de extrema direita.
Eu mantenho o que já disse várias vezes: pra mim, o fracasso do Femen é internacional, não só brasileiro. Não foi o Femen Br que inventou a imagem da linda moça segurando testículos sangrentos, nem a tal do "islamismo mata gerações". 
As declarações que tenho visto da Alexandra não são muito melhores que as da Sara. O Femen é um movimento midiático que depende demais de suas lideranças. É um movimento hierárquico, nada horizontal, nada democrático.
Pra mim, individualizar o problema do Femen na figura da Sara é um erro. 
Claro, Sara deve ser responsabilizada por suas ligações neonazis e pelo seu desconhecimento sobre feminismo(s). Mas nem ela, nem ninguém, tem a permissão de tirar a blusa, por uma guirlanda de flores na cabeça, chamar a imprensa e sair gritando que é do Femen. O Femen é uma marca, e foi essa marca que autorizou Sara a abrir uma franquia no Brasil. Alexandra dizer "o Femen Brazil não nos representa" equivale a lavar as mãos para todas as asneiras que o Femen tem feito em todo o mundo. Só trocar a líder brasileira não limpa sua barra.
Agora podemos ter umas questões interessantes. Se Sara promover protestos sem estar ligada ao Femen, a mídia lhe dará destaque?  E, se ela continuar fazendo seus protestos com a marca registrada do Femen (seios de fora, flores na cabeça), o Femen Ucrânia irá processá-la? E será que, a essa altura, o Femen tem salvação?