quarta-feira, 23 de abril de 2014

POR QUE, Ô GAME OF THRONES?

Este post terá vários spoilers, mas aviso quando eles chegarem. 
Meu relacionamento com a série de TV Game of Thrones é o seguinte: um tempo atrás, eu e o maridão, encorajados pelo hype, vimos os três primeiros episódios. Não gostamos muito. Eu achei que tinha violência demais, sexo e nudez (só de mulheres) colocados ali só pra atrair público. Portanto, só vimos aqueles três episódios, e paramos. 
Mas, no final do ano passado, minha mãe, que é historiadora e antropóloga, demonstrou todo seu entusiasmo pela série. Aquilo tudo era fantástico, incrível, maravilhoso, dizia ela. Essa recomendação, somada à de várias leitoras que consideram a série feminista (ou, no mínimo, uma ótima pedida pra se discorrer sobre gênero), fez com que a gente desse uma segunda chance a Game of Thrones
Começamos do comecinho, revimos aqueles três primeiros episódios, e seguimos firme. Vimos todas as três temporadas. E, realmente, é muito interessante. Compramos os livros de George R. R. Martin, chegaram semana passada. Minha mãe e o maridão vão devorá-los. Eu acho que, com toda as leituras teóricas, nunca encontrarei tempo pra ler 7 mil páginas. Vou ter que me contentar com a série mesmo.
Personagens femininas e Sor Loras (algum homofóbico o incluiu nessa montagem)
Sou daquelas fãs desleixadas, que não sabe o nome de ninguém (também, o troço tem 200 personagens! Você jura que decora cada nome?). 
Creio que meus personagens favoritos são Tyrion Lannister (o anão mais respeitado na história da ficção), e Daenerys Targaryen, a guerreira dos dragões e libertadora de escravos. Ela sem dúvida é a personagem mais bem construída. 
Além dela, a série está cheia de outras personagens femininas intrigantes, como Arya Stark (que precisa se disfarçar de menino para não ser estuprada e sobreviver), Olenna Tyrell (a velhinha tem as falas mais espirituosas e sabe tudo que está acontecendo), Brienne de Tarth (a donzela alta e forte que vira cavalheira, e que tem o péssimo costume de se apaixonar pelos caras errados), e Cersei Lannister (uma vilã por excelência, com pouquíssimos traços redentores).
Acho Sansa uma sonsa e não tenho muito interesse pela sua trajetória, mas eu gostava da sua mãe, Catelyn Stark (também gostava do Robb, bem provavelmente porque ele era interpretado pelo ator mais bonito da série. Estou falando neles no passado porque, ahn, não posso falar, mas você precisa ver o Casamento Vermelho)
Tenho boas expectativas quanto a Margaery Tyrell (manipuladora o suficiente para conseguir controlar o rei Joffrey, pelo menos por um breve período), mas sei que esta é uma série que constantemente frustra nossas expectativas. O autor não tem problema nenhum em matar personagens importantes. A prostituta Ros, por exemplo, foi apresentada como uma pessoa inteligente e com futuro na trama. Não durou muito. E digo o mesmo de Renly Baratheon.
Certo, mas por que estou falando de Game of Thrones exatamente agora? Porque uma cena do último episódio chamou a atenção, principalmente a das feministas. Não leia o resto do post se você não viu o episódio de domingo. Você não quer que estraguem a cena como minha querida Aiaiai fez comigo -- ela me falou da discussão sobre a cena antes de eu ter visto o episódio. Considere-se avisadx.
O que aconteceu bem no começo do episódio foi que Jaime Lannister estupra sua irmã gêmea Cersei. Os dois estão num templo, lamentando o assassinato do filho deles, Joffrey. Depois de trocarem algumas palavras (Cersei implora para que Jaime mate o irmão deles, Tyrion) e se beijarem, Jaime a chama de "mulher detestável", provavelmente porque ela se solta ao perceber sua mão dourada, e ele avança sobre ela. 
Ela pede por favor, não, pare, aqui não, isto não está certo, pare, não, e também luta fisicamente contra ele, ao que Jaime responde, "Eu não ligo" várias vezes. E ele a estupra no altar, embaixo do caixão com Joffrey.
Nenhum grande problema em filmar uma cena horrível como estupro, se isso serve à trama (e, claro, se você não for uma sobrevivente de estupro, o que pode gerar vários trigger warnings). Os problemas são dois: 1) a cena não é de estupro no livro, e 2) o diretor e o ator do episódio não consideram a cena como de estupro. 
Perguntado numa entrevista sobre a cena, o diretor Alex Graves respondeu: "Torna-se consensual no final, porque qualquer coisa para eles resulta em tesão, especialmente uma luta pelo poder". Nikolaj Coster-Waldau, o ator que interpreta Jaime, disse "sim e não" para a pergunta acerca de Jaime estuprar Cersei: "Há momentos em que Cersei cede, e momentos em que ela o empurra. Mas não é bonito".
Pois é, definitivamente não é bonito retratar uma cena de estupro como algo ambíguo, ou sexo selvagem. Se os próprios envolvidos com a cena não a veem como estupro, imagina o que o público vai achar -- que não pode ser estupro porque Jaime e Cersei já tinham transado antes (segundo essa lógica, se você consente uma vez, você consente pra sempre), que é claro que Cersei queria, ela só estava se fazendo de fresca, que ela mereceu, porque é uma vilã, que foi só "sexo forçado", que... (inclua aqui a sua justificativa). 
E resta o porquê de transformar uma cena que não é de estupro no livro numa cena de estupro na série. No livro A Tormenta de Espadas (que eu não li), Jaime e Cersei estão sem se ver há meses quando se reencontram no funeral. Jaime só consegue voltar ao reino após a morte de Joffrey. 
No templo, Jaime e Cersei se beijam, e ela murmura que há riscos de fazerem sexo ali, alguém pode ver, e que é desrespeitoso, pode despertar a ira dos deuses. Jaime continua com os beijos, arranca a roupa de Cersei, e ela sussurra: "Rápido, depressa, agora, vem já, me possua já, Jaime" (e a descrição ainda acrescenta "as mãos ajudaram a guiá-lo"). 
Ou seja, totalmente diferente do "por favor, não, pare, aqui não, pare, isto não está certo, pare, não!" da cena da série (que ainda por cima vem depois de Jaime chamá-la de "mulher detestável", indicando que o estupro tem muito mais a ver com poder e punição que com desejo sexual). 
Por que, então, os realizadores da série transformaram a cena num estupro? Não sabemos. 
Mas é lamentável, até porque ela faz parte de uma nova fase do personagem Jaime, em que ele estava em franca recuperação. De repente, na terceira temporada, a série nos fez ver o "outro lado" de Jaime, e isso graças ao seu relacionamento com Brienne -- que ele, inclusive, salva de ser estuprada (e depois, morta; ela também o salva da morte, diversas vezes). 
Acho que a "amizade" entre Jaime e Brienne foi o que mais gostei na terceira temporada (assim como Jon Snow se torna mais interessante quando está com a bárbara Ygritte). E de repente, sem mais nem nada, ele vira um estuprador!
Pensa só: os realizadores da série podiam ter feito a cena da maneira que quisessem. Escolheram filmá-la como uma cena em que Cersei deixa muito claro que não quer fazer sexo, pelo menos não ali, não naquele momento (em que está sofrendo com a morte do filho que amava, apesar de tudo). Ela se debate e diz "Não! Pare!" até o final da cena. É estupro. Não há ambiguidade nenhuma, ao contrário do que dizem o diretor e o ator.
Parece que os realizadores da série já tinham feito isso antes, isso de transformar uma cena que não é de estupro no livro numa de estupro. Foi logo no piloto, quando o casamento de Daenerys com Drogo é consumado através de um estupro. Para ler mais sobre isso (e sobre a série em geral), recomendo muitíssimo este post da Lidiany publicado ontem. Lá também ela deixa links para a análise de outras feministas sobre a cena em que Jaime estupra Cersei.
Não vou deixar de ver a série por causa dessa decisão catastrófica dos realizadores. Mas espero que eles entendam que Game of Thrones só é um sucesso por cativar também o público feminino. Se esse público sentir o cheiro forte da misoginia, é bem capaz de debandar. 

terça-feira, 22 de abril de 2014

REAÇA ATESTA QUE JOVENS DIREITISTAS NÃO PEGAM MULHER

Reaça forever alone

Ai, ai, não acredito que vocês vão me fazer falar do filósofo-reaça Luiz Felipe Pondé. Ontem, em sua coluna na Folha, ele publicou um texto chamado "Por uma direita festiva", que começa assim: "Ser jovem e liberal é péssimo para pegar mulher. Este é o desafio maior para jovens que não são de esquerda". 
Eu até fico com a pulga atrás da orelha se Pondé está sendo irônico ou não (afinal, não pegar mulher deve ser o menor dos problemas de jovens direitistas no Brasil, aqueles que imploram pro Bolsonaro se candidatar a presidente e acabam tendo que votar no Aécio, ou no Eduardo Campos, ou em qualquer um que não seja a Dilma). 
Mas, como o ultrajante músico Roger, com aquele radar perfeito pra detectar ironia, não se manifestou, vou crer que Pondé está falando mais ou menos a sério. Digamos: tanto quanto é possível levar um babacão como ele a sério. 
Mas não é que, pela primeira vez na vida, terei que erguer uma faixa escrito "Pondé was right"? Claro que no seu texto ele coloca mulheres como seres fúteis e despolitizados (basta chegar com uma camiseta do Che e gritar "Abaixo a opressão sobre o corpo da mulher" que todas as alunas de Humanas se jogarão em cima de ti, garanhão da esquerda) que detestam sexo (e só "aceitam" ser levadas pra cama com muita conversa e álcool). Porém, sobre reaças pegarem menos mulher, me alegra dizer que é verdade. 
Alguns meses atrás, a jornalista Cynara Menezes falou sobre um documentário de 2006, Comunistas Transam Melhor?, que conclui que as alemãs e os alemães do lado comunista do muro de Berlim tinham mais liberdade sexual que os do lado capitalista. No lado comunista, havia educação sexual nas escolas, aborto legalizado, uma tolerância maior à nudez, e muito menos interferência da igreja. Além do mais, as mulheres eram mais independentes. 
Se isso tudo se traduz em "melhor sexo"? Pode apostar. A maior parte das religiões nos ensina que sexo é pecado. O machismo fala pras meninas desde muito novas que elas devem "se valorizar" (e não, isso não é um incentivo pra que elas façam mestrado). 
Um monte de rapaz brocha com a ideia de uma mulher tomar a iniciativa. Ignorância sobre sexo é meio caminho andado pra sexo de péssima qualidade. Imagina: como que um cara que não sabe que o clitóris existe, ou, pior, que sabe mas não acredita que mulheres gostem de transar, pode ser um bom amante?

Reaça que passa a vida chamando feminista de mal amada sendo honesto
Que mulheres e homens feministas têm uma vida sexual melhor, também não restam dúvidas. Pessoas que conhecem melhor seus corpos e têm menos inibições vão ter mais prazer. Ou seja, aquela lorota de que feministas são mal amadas é apenas uma lorota (e das antigas: tem mais de 160 anos, já era usada contra as sufragistas). O estereótipo de "mal comida" não podia estar mais distante da verdade. Uma pesquisa da Universidade Rutgers, nos EUA, constatou que pessoas feministas são simplesmente mais felizes no amor, pois brigam menos e têm relacionamentos mais estáveis: 
"Ao contrário do que dita o senso comum, feminismo e romance não são incompatíveis, e o feminismo pode inclusive melhorar a qualidade das relações heterossexuais, de acordo com estudiosas da Universidade Rutgers. O estudo também mostra que estereótipos negativos sobre feministas, que tendem a estigmatizar feministas como não atraentes e sem apelo sexual, são insustentáveis". Chato, né, machistinhas? Onde está seu deus agora?
1o Congresso Mulheres em Luta
Não sei se preciso falar das ligações do feminismo com a esquerda. Preciso? Por mais que existam feministas de direita, são uma minoria. O feminismo é um movimento de esquerda. Eu pessoalmente desconheço coletivos feministas ligados à direita. Já coletivos antifeministas ligados à direita... São todos, né?
Não sei se dá pra chamar isso de coletivo, mas surgiu no final de janeiro uma página no Facebook chamada Musas Olavettes. São todas seguidoras do guru da direita Olavo de Carvalho, que ultimamente (desde que entrou no Facebook, digamos), tem feito declarações não muito ortodoxas sobre romance e relacionamentos, provando que, prum astrólogo, é tão fácil virar sexólogo quanto foi virar filósofo. É só querer. 

Uma das musas olavettes é aquela do Leblon, que faz pouco tempo nos alertou sobre um plano comunista totalitarista prestes a tomar o Brasil (obrigada pelo alerta vermelho, Marta!). 
É certo que todo mundo fica mais bonito com photoshop e posando em estúdio pra fotógrafo profissional, mas olhando essas musas, nada pode me convencer que, se elas fossem descritas como universitárias de Ciências Sociais ligadas ao DCE, ainda seriam vistas como musas. 
Comentário no Musas Olavettes
Como não existem muitas mulheres de direita, e muito menos mulheres assumidamente fãs do astrólogo-filósofo, os homens olavettes ficam ouriçados. Isso que é direita festiva! Natural, já que, segundo Pondé, esses seres não devem ter muito contato com mulher. Então o nível de puxa-saquismo é tão, mas tão alto, que nem meus inimiguinhos mascus (reaças em primeiro lugar) aguentaram, e declararam Olavão uma persona non gratta no masculinismo
Mais ainda: apelidaram os olavettes de consermanginas (mangina é um termo mascu pra homem que elogia mulheres e faz suas vontades), e as musas olavettes de conservadias (é o que eu sempre digo: ser mulher reaça não fará com que demais reaças te respeitem).
E chegamos aos mascus, exemplos típicos de homens de direita revoltados justamente por não fazerem sucesso com as mulheres. 
Eles odeiam o PT, não gostam do Brasil, detestam as pessoas de modo geral, mas, se não fosse pelo total fracasso com o sexo feminino, mascus não existiriam. Mascus sempre foram machistas e conservadores, mas o que os fez virar mascus e ir pro lado misógino da força é ou ter sido ignorado a vida toda ou ter tido o que eles chamam de "bruxa madrinha", uma ex que os traiu ou os abandonou, providenciando aquele empurrão final pra que eles concluíssem que mulher é tudo vadia, nenhuma presta. 
É público e notório que mascu não pega ninguém. E, sabe, não há nada de errado nisso -- exceto se você mede o valor dos homens pelo número de parceiras sexuais que eles têm (como mascus e o senso comum fazem), e o valor das mulheres pelo número de parceiros sexuais que elas não têm (quanto menos, melhor. O ideal é que a moça seja virgem).
Todos os mascus são reaças, mas nem todos os reaças são mascus. Pondé provavelmente nem sabe da existência de mascus, mas sabe, por experiência própria, que em ambientes reaças há poucas mulheres (por exemplo, entre os americanos que se dizem libertários, 68% são homens, 94% são brancos; ah, você vai querer negar que libertários são de direita? Poupe-me). 
E no Twitter tá cheio de reaça. Está sendo divertido vê-los agora fazer a egípcia, fingir que não é com eles. Eles, sempre tão barulhentos nas redes sociais, estão caladinhos. Não querem vestir a carapuça que Pondé lhes serviu. 
No entanto, apesar do artigo do filósofo na Folha chamar os jovens direitistas de pega ninguém, ele é otimista. Porque Pondé pensa que é só a direita ser mais festiva, os caras falarem de liberdade e de documentários e vestirem uma boina e fumarem um charuto cubano, que o problema está resolvido -- eles conseguirão enganar essas universitárias bobinhas, e pegá-las. Depende só deles, não delas.
E é aí que eu trago más notícias, Pondé e demais reaças. Convivo bastante com universitárias de Humanas (sou professora, dou palestras), e posso assegurar que elas estão cada vez mais politizadas, mais organizadas, mais inteligentes, mais livres. Elas sabem muito bem o que querem. E não querem coxinhas. 
Infelizmente, vocês vão ter mesmo que se contentar com a meia dúzia de musas olavettes.