terça-feira, 28 de junho de 2016

A PREGAÇÃO MACHISTA DO PADRE MODERNINHO

Deus tá vendo

Não acompanho nada de Fábio de Melo, então não sabia que o padre era celebrado por parte da esquerda. 
Mas no domingo algumas pessoas me enviaram um vídeo com uma pregação horrível do padre moderninho, que havia sido colocado no Facebook. Pouco tempo depois o vídeo foi removido e logo me mandaram o link pro YouTube. Tá aqui. Não dá pra ver tudo a menos que você seja muito, muito devota. Mas o que interessa está entre os minutos 10 e 20. É um show de horrores, que causou indignação e decepção em bastante gente. 
Não vou entrar nem na discussão do que o padre diz sobre depressão -- "é a falta de amor por si mesmo" (em 10:20) -- reduzindo uma doença séria a um clichê de auto-ajuda. Depois dessa frase, ele compara mulheres promíscuas a praças públicas (cá pra mim, praças são espaços maravilhosos, que toda cidade quer ter, mas volto a isso mais adiante). E, em seguida, vem o trecho de sua pregação que mais gerou polêmica. Em suas palavras, tiradas do vídeo:
"Nós não saímos por aí com as plaquinhas: 'não abuse de mim', 'me respeite'. Porque essa placa não está escrita em palavras, ela está escrita nos seus olhos. É você com o seu jeito de olhar, com o seu jeito de ser gente, é o caráter que está exposto no seu rosto que vai dizer ao outro o que ele pode fazer com você ou não. Nós é que no momento em que nos construímos como pessoas é que sinalizamos o nosso território. Caso contrário, as pessoas virão, acharão que nós podemos tudo e farão tudo que querem conosco mesmo. Eu sempre digo, as mulheres que são agredidas fisicamente pelos seus maridos, no dia em que ela recebe a primeira agressão, ela que vai determinar para ele se ele vai ter o direito de agredi-lo a vida inteira ou não. É o jeito como ela olha pra ele. Não é nenhuma palavra, nenhum grito que vai dizer 'não me bata', mas é o seu jeito de ser mulher. O agressor, ele só se torna agressor porque a vítima o autoriza". 
É uma fala desastrosa porque coloca a culpa de ser agredida na mulher que é agredida. Muitas mulheres (pessoas em geral, aliás, homens e crianças também) não denunciam a violência que sofrem por uma série de motivos complexos. Por ser financeiramente dependente do agressor, por estar familiarizada com aquela violência, por achar que nada vai acontecer se ela denunciar (ela será devastada, ele sairá impune), por temer pela própria vida, por temer pela vida dos filhos (já que é comum um agressor fazer inúmeras ameaças), por ter motivos de sobra para não confiar nas instituições que deveriam protegê-la, por ter sido condicionada a crer que é melhor ter um homem violento do que nenhum, por achar que, se tivesse outro homem, ele também a agrediria etc. A baixa autoestima também é um fator, sem dúvida. Mas está longe de ser o único, sequer o mais importante. 
Eva foi incriminada
Além do mais, reduzir uma praga social (a violência contra as mulheres) a um problema individual é não querer encarar o problema. Não é "o seu jeito de mulher" que vai fazer tantas mulheres, independente de idade, classe, raça, religião, serem agredidas. É o "jeito que a sociedade vê a mulher". E um termo tão abstrato quanto "a sociedade" inclui acima de tudo a sua igreja, padre, que culpa as mulheres por todos os males da humanidade.  
A frase final desse trecho da pregação ("o agressor só se torna agressor porque a vítima o autoriza") é um resumo não só da culpabilização da vítima como também da cultura do estupro. Porque isso vale pra estupro também, certo, padre? É o velho "o que ela estava vestindo?" A roupa da mulher "autoriza o agressor"? E quando a vítima é criança, sua pregação vale pra ela também? A criança que é abusada sexualmente (muitas vezes por padres cujos crimes são encobertos pela igreja) também, com "seu jeito de olhar", autoriza o abuso que sofre? Em que momento ela não sinalizou seu território?
A fala do padre não é de agora, é de julho de 2007. E óbvio que todo mundo erra e que muita gente muda e se arrepende das besteiras que falou (tem um monte de crônica de cinema que eu escrevi dez, quinze anos atrás que eu olho e penso: "EU escrevi isso? Onde posso me esconder?"). O desafio é como se comportar diante de críticas merecidas. A atriz Fernanda Torres me veio à mente. Em fevereiro, ela escreveu um texto absurdo. No dia seguinte, publicou sua retratação. Um texto direto, simples, de muita reflexão, afirmando que errou e pedindo desculpas. Não daquele jeito "errei pero no mucho" de "Se eu errei, peço desculpas". Fábio de Melo não foi tão feliz:
O padre se diz "desconfortável", e assume que "culpar a vítima é abominável". Porém, responsabiliza "a linguagem" pela besteira que pregou, não o pensamento em si (e aposenta esse SE, padre! Você foi infeliz, não tem SE não!).
 
Ele pediu desculpas mas não mudou de opinião, nem passou por qualquer reflexão.
 
Pra ser franca, eu não achei o trecho acima o mais revoltante da pregação do padre. Como eu apontei, antes do trecho acima Fábio de Melo diz o seguinte, sobre quem tem depressão: 
"É aquela pessoa que já não tem mais nenhum cuidado consigo porque ela já perdeu todo o referencial do valor que ela tem. Por exemplo, uma pessoa que vive uma vida de promiscuidade sexual. Cada dia ela está com um. Um dia ela transa com um, um dia ela transa com outro. [...] É a consequência pior da vida moderna, que é a perda do sentido do corpo, da vida e do valor como pessoa . É a pior coisa, quando você descobre que a pessoa deixou a sua dignidade para se tornar uma praça pública. Existem pessoas que são semelhantes às praças públicas: todo mundo passa, joga o seu lixo, e ninguém volta pra cuidar depois. E aí você encontra essas pessoas por todos os lados, socializadas no nosso meio, em nome de uma modernidade, em nome de uma autonomia, de uma liberdade que a mulher conquistou, ela se sente no direito de passar a sua vida inteira experimentando. E o pior: os outros fazendo dela, tornando-a, transformando-a em espaço público que não merece ser respeitado. Porque você não tem placas proibindo pisar na grama. Proibido agredir. Proibido usar e depois ir embora. Você não tem essas placas". 
Ok? Essa foi a introdução do padre à história das plaquinhas. Aqui, ele ainda não está falando de vítimas de violência doméstica (ou de estupro), porque ainda não falou do agressor. Aqui, ele condena as mulheres promíscuas. Ele até pode estar falando de "pessoas", mas deixa claro quem são seus alvos na parte em que fala da "autonomia e liberdade que a mulher conquistou". Ele realmente compara mulheres promíscuas a praças públicas, mostrando o total desconhecimento que têm sobre mulheres e praças públicas.
Se, para ele, praças públicas são espaços ruins (tá cheio de indicador que mede a qualidade de vida de uma cidade pela quantidade dos espaços públicos), se para ele praças são lugares em que as pessoas vão jogar lixo, então tem que mudar a mentalidade que ele e as pessoas têm sobre as praças, não as praças em si. Porque quem está errado é quem vê praça como lugar pra jogar lixo, não a praça.
"Não acredito que ainda
tenho que protestar contra
essa m*rda"
Uma mulher, uma pessoa, assim como uma praça, deve ser respeitada de qualquer jeito. Seu caráter não pode ser medido pela sua vida sexual. Isso é um discurso moralista e misógino, porque implica que mulher "deve se dar o valor". Ou seja, não que uma mulher já tem valor, mas que ela precisa consegui-lo através de sua abstinência. Esse é um discurso que me revolta porque era o que eu ouvia trinta anos atrás, quando eu não tinha marido ou namorado e transava com quem eu quisesse, desde que o cara obviamente me quisesse também. É dureza ouvir tal discurso duas ou três décadas depois. Dá a impressão que tem gente parada no tempo, de que nada mudou.
E a parte do "os outros fazendo dela espaço público que não merece ser respeitado"? Aí não sobra muito espaço pra interpretação. Qual mulher "não merece ser respeitada", padre? Tem realmente mulher que não merece o respeito, porque respeito é algo que você, ou a sua igreja, tem que outorgar a ela?
Após a parte das plaquinhas ligadas à violência doméstica, o padre volta a pregar contra a mulher promíscua. Continua assim:
"Porque quando a falta de amor próprio se instaura dentro de nós, nós nos tornamos incapacitados de lutar por nós mesmos. Nós nos tornamos territórios baldios. É assim. Território baldio funciona desse jeito: você passa, vê que já está sujo mesmo, precisa jogar aquele seu lixo fora, o que você faz? Não tem ninguém olhando mesmo, já tá cheio de lixo, não vai fazer diferença, um pouquinho de lixo a mais, um pouquinho de lixo a menos, joga ali. Este é o grande problema do terreno baldio, porque ninguém está responsável por cuidar. Ninguém está fazendo sentinela para que os outros não continuem tratando como lugar de terreno baldio. Todo mundo vai jogando seu lixo e vai ficando. Minha gente, é lamentável que em muitos momentos da nossa vida, a gente assume a condição de terreno baldio mesmo. Porque os outros percebem em nós que aquilo ali você não precisa respeitar muito não. Você olha e já vê logo que aquela menina ali é fácil. É lamentável isso. Você olha pro rapaz e percebe, 'é, aquele ali não é muita coisa não, vamos, vamos fazer'. É lamentável que a gente vai colocando na nossa cara a condição de homens e mulheres que não se amam, e por isso não são respeitados, e por isso também não serão amados."
Desta vez o padre deixe a praça pública de lado (que certamente tem mais valor pra muita gente do que tem pra ele) e vai pro território ou terreno baldio, que não tem nada de positivo. O irônico é que quase sempre terrenos baldios não são espaços públicos. Pelo contrário, são propriedade privada. Se fossem propriedade pública, poderiam ser praças, deixando a cidade mais agradável. Aliás, tem algo de nefasto em comparar "mulher fácil" e corpos de mulheres a terrenos baldios, porque terrenos baldios são lugares especialmente perigosos para mulheres, onde elas às vezes são estupradas, onde seus cadáveres muitas vezes são abandonados. 
O padre continua seu sermão:
"E você aceita [que o "mais ou menos namorado" não dê notícias], você vai vivendo a condição de terreno baldio. Se ele percebe que a moça é séria, depois de uns três, quatro dias que ele ficou com ela, que ele sabe que não vai poder enrolar, o quê que ele fala? 'Olha, você é uma pessoa muito simpática, muito bacana, MAS...' Ele só não tem coragem de complementar, mas ele deveria falar assim, desculpe a palavra: 'eu prefiro uma puta. Eu prefiro aquela que viva a condição de prostituta no mundo de hoje sem saber que é'. Na verdade o que ele precisa dizer com coragem é isso".
Ou seja, Fábio de Melo compara a moça que não é séria (e a seriedade é medida pela sua abstinência sexual) a quem vive "a condição de prostituta no mundo de hoje sem saber que é". Discurso mais moralista que esse de chamar mulher que faz sexo de prostituta, impossível. Até porque tira toda e qualquer agência da mulher. Uma garota pode querer fazer sexo sem compromisso, e daí? Ela pode não se sentir "usada". Ela pode sentir que "usou", se a gente realmente quer ficar nessa narrativa utilitarista furada. 
Sou alérgica ao patriarcado
E o padre se contradiz: antes, disse que "mulher fácil" fica sozinha, porque não tem ninguém pra cuidar dela (quem disse que ela quer ser cuidada? Ela deve ser respeitada e acabou). Agora, diz que "moça séria" também fica sozinha, porque os caras preferem as moças fáceis, quer dizer, as putas. Olha...
Dá pra escrever mais 150 folhas sobre o discurso machista do padre, mas vou parar por aqui. Sinto por quem o idolatra, mas ele está muito equivocado sobre o que acha, ou achava, de mulheres e praças e terrenos baldios. Torço para que ele e seus seguidores, e principalmente suas seguidoras (porque a vasta maioria dos fiéis é mulher, basta ver o vídeo da sua pregação), possam refletir sobre o que pensam das mulheres. 
E mudar. Sempre dá tempo.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

GUEST POST: SOU VAIDOSA E SOU FEMINISTA

Luana, que assina como FeministVaidosa no Twitter, deixou sua indignação:

Eu vim desabafar sobre essa história de que toda feminista é peluda e suja.
Quero saber onde veio a história que toda feminista é peluda. Ou que ser peludo é ser sujo. Porque grande parte dos homens é peluda, e nem por isso é suja (ou é?).
Eu estudei e estudo sobre feminismo sei que o feminismo não é um amontoado de regras mas sim uma luta por direito das e para as mulheres serem tratadas como gente. Sei que há vários feminismos. Sei que existem feministas de todos os tipos -- que são mães, que não são mães, que não querem ser mães, que se pintam, que não se pintam, que usam salto, que andam de sapatilha. Sei que existe tanta diversidade no feminismo como existe entre as mulheres. 
Eu sou extremamente vaidosa e cuido da minha beleza.
Quero dizer que eu depilo o meu corpo porque não me sinto muito bem com os pelos. Mas aí vem algum mascu machão que exibe seus pelos do corpo mas sente nojo da parte íntima feminina estilo Claudia Ohanna. Parece que eles não sabem, ou não ligam, que pelos pubianos protegem a genitália das mulheres. Não sei se esses homens são frescos ou se têm  nojo das mulheres. Ou os dois.
Eu me depilo com a minha Gilette e creme depilatório. Mas quem manda no nosso corpo SOMOS NÓS e não os homens, que na verdade querem mandar na nossa vida. Eu tenho um recado pra esses mascus peludos que reclamam de mulher que não se depila: se vocês não gostam de pelos comecem a se depilar com cera quente. Aliás, muito quente mesmo, porque macho de verdade não deve ter medo de cera quente.
Por que esse pessoal está jugando o nosso corpo? E por que eles acham que podem mandar no nosso corpo? Eles não têm esse direito.
Às vezes eu vejo comentários de crianças, isso mesmo, meninos menores de idade que não têm nenhum pentelho, mas já reclamam das mulheres que não se depilam.
Eu me depilo. Eu uso maquiagem no meu rosto. Eu mudo o meu cabelo, deixo o meu cabelo natural, cacheado, faço escova. Faço exercícios físicos.
E sou feminista.
Porque quem manda no meu corpo sou EU MESMA e não vocês. 
Eu preciso muito do feminismo para ser tratada como gente e não como objeto. Pelo jeito, vocês também precisam do feminismo para começarem a tratar as mulheres com respeito. 

Cartum de 1905
Meus comentários: Luana, não ligue pro que reaças falam. Eles odeiam feministas e não têm qualquer compromisso com a verdade. Vale tudo pra atacar as inimigas. Infelizmente, eles são são muito criativos. 150 anos atrás os tararavôs desses reaças já chamavam as sufragistas (que cometeram o crime imperdoável de exigir o voto para mulheres) de ogras peludas bigodudas mal-amadas masculinizadas com inveja do pênis que odeiam homens mas que querem ser homens. Coerência não é o forte deles. Falta de originalidade, é. 
A boa notícia é que cada vez menos mulheres caem nessas ladainhas que eles contam. Eles sabem disso, o que só aumenta sua revolta. "Os cães ladram e a caravana passa", já diz o ditado. Nós somos a caravana.

domingo, 26 de junho de 2016

GUEST POST: CONTOS DE FADA? AS PRINCESAS DA VIDA REAL

Ane Santos, professora de Biologia, me enviou este texto redigido por ela:

Em leitura a um texto na perspectiva do feminismo sobre os contos de fadas, me chamaram a atenção algumas citações (des)interessantes, e então resolvi redigir uma resposta sobre o assunto.
A começar porque o texto em questão leva em consideração (exclusivamente?) os contos de fada Disney, isto é, princesinhas que fazem faxinas muito bem, damas “recatadas e do lar” (para utilizar uma expressão que ganhou destaque recentemente) etc cuja vida desagradável só poderia melhorar, claro, com a chegada do príncipe europeu em seu cavalo branco. Disseram que as feministas são cruéis por ignorar a beleza, sensibilidade, heroísmo e amor das histórias. Tudo isso que eu ainda estou procurando nessas histórias.
Claro, os desenhos são bonitinhos e tal, mas… Contos de fada não se referem aos seres mágicos que ajudam as princesinhas das referidas histórias e sim à varinha de condão, capaz de alterar o futuro de uma pessoa. As histórias reais são obscuras, sangrentas, bem diferentes das versões Disney.
Nas narrativas dos contos de fada, a inferioridade da personagem só pode ser vencida com auxílio de seres mágicos, e o desejo de libertação social é derrotado pelo conformismo. Com o passar do tempo, os contos de fada dão menor atenção a detalhes da cultura pagã e da sexualidade e, tomando emprestadas algumas ideias do romantismo do tempo da Revolução Francesa, se tornam um meio de educação para as crianças, embora os julgamentos sejam simplificados diante de personagens facilmente separáveis em “bons” e “maus” (não vou nem começar a falar sobre o problema que é essa separação dualista do mundo). Analisar a realidade por trás dos contos de fada pode ser bastante saudável para as crianças.
Mas ser princesa é legal como sonham as meninas, que se enrolam em panos rosas e colocam tiaras cheias de pedras brilhantes? E o príncipe encantado? Os casamentos eram por amor ou felizes? Hum, nem sempre; aliás, geralmente não. Eram casamentos arranjados, para produzir inúmeros herdeiros, de preferência homens.
Selecionei alguns fatos (achei somente personagens mais recentes, e quase nada sobre as mulheres da realeza do passado mais distante, por exemplo, as rainhas do Sacro Império Romano-Germânico) para ilustrar que a situação das mulheres da realeza não é lá muito “contos de fada”.
- Kate Middleton, ao entrar para a Família Real britânica, teve que aceitar, dentre outras coisas: comer mais devagar que a Rainha, andar atrás do marido, não opinar sobre política, não trabalhar, nunca chorar em público…
- Teresa de Leão (ca. 1080 – 1130), dada em casamento a Henrique de Borgonha aos 13 anos (junto com o Condado de Portugal), pois ele tinha ajudado seu pai em conquistas aos mouros.
Carlota Joaquina
- Bárbara de Brandemburgo (1423 – 1481), 14 filhos.
- Carlota Joaquina Teresa Cayetana (1775 – 1830), esposa do rei D.João VI. Casamento arranjado.
- Cristina de Bourbon (1606 – 1663), dada em casamento aos 13 anos.
- Doroteia Sofia do Palatinado-Neuburgo (1670 – 1748), quando viúva, voltou a se casar -- com o meio-irmão do falecido, que não queria devolver seu dote.
Luísa Isabel de Orleans,
a cara do Temer
- Luísa Isabel de Orleans (1709 – 1742), casou-se aos 12 anos com o futuro rei Luis I (que tinha 15), agia de modo descuidado na corte e chegou a ser trancada por seis dias. Quando se tornou viúva, ficou dois anos em um convento.
- Luísa Teresa Maria Clotilde de Saboia (1843 – 1911), casou-se com o príncipe Napoleão Bonaparte. Casamento infeliz, arranjado por razões políticas.
- Margarida Maria Teresa Joana de Saboia (1851 – 1926), casamento político acertado após a primeira opção de casamento, Matilde Habsburgo-Lorena, morrer em acidente. Casamento infeliz, com o rei tendo casos extraconjugais.
- Maria Ana Josefa de Áustria (1683 – 1754), casamento negociado para aproximação de Portugal com a Grande Aliança (Liga de Augsburgo), entre primos diretos.
- Maria Antonieta J. L. de Bourbon-Duas Sicílias (1851 – 1938), casou-se com o primo, teve 12 filhos.
- Maria Anunciata Isabel Filomena Sebásia (1843 – 1871), casamento arranjado, faleceu aos 28 anos de tuberculose.
- Maria Bárbara de Bragança (1711 - 1758), casamento arranjado para melhorar relações políticas entre as duas coroas ibéricas.
- Maria Beatriz Ricarda d'Este (1750 - 1829), casamento negociado por Francisco III. O primeiro pretendente, Jorge II, recusou, então o escolhido foi o arquiduque Fernando Carlos.
- Maria Beatriz Vitória Josefina de Sabóia (1792 - 1840), casou-se com o tio materno.
- Maria Cristina C. J. C. Elisa de Saboia (1812 – 1836), morreu cinco dias após um dos partos.
- Maria I (1734 – 1816), esposa de seu tio, Pedro III, arranjado para a continuidade dinástica da Casa de Bragança. 
- Maria Leopoldina de Áustria-Este (1776 – 1848), primeiro casamento contra a vontade, mantendo numerosos amantes. 
- Maria Luísa Imaculada de Bourbon-Duas Sicílias (1855 – 1874), família foi para o exílio, viu suas irmãs se mudarem ao se casarem com príncipes estrangeiros, e viu mãe e irmão morrerem de cólera. Com o casamento, tornou-se cunhada de uma de suas irmãs. Faleceu aos 19 anos, três meses após seu casamento.
- Maria Pia da Graça de Bourbon-Duas Sicílias (1849 – 1882), família exilada, casamento negociado com pretendente rico devido a dificuldades financeiras da família. Teve 12 filhos em treze anos, morreu de febre puerperal.
- Maria Pia de Saboia (1847 – 1911), casada aos 15 anos com D Luís, que ao ascender ao trono precisava de uma princesa europeia e herdeiros, e a escolha foi Maria.
- Maria Sofia Isabel de Neuburgo (1666 – 1699), escolhida como futura rainha porque seus pais tiveram 23 filhos (dos quais sobreviveram 17), e sob patrocínio da irmã mais velha.
- Maria Teresa Beatriz Caetana de Áustria-Este (1817 – 1886), casamento arranjado em tentativa de aliar a Família Real da França com a Casa de Áustria-Este.
- Maria Teresa Fernanda F. C. Pia de Saboia (1803 – 1879), casamento infeliz.
- Maria Teresa Isabel (1816 – 1867), detestava suas funções públicas, mas tinha bom relacionamento com o marido e o enteado.
- Matilde Maria Aldegundes Alexandra de Áustria-Teschen (1849 – 1867), um primo distante se apaixonou por ela e ia lhe pedir em casamento, mas sua mão já estava prometida ao rei da Itália, a fim de melhorar relações comerciais. Faleceu aos 18 anos em frente de toda a família, em acidente causado pelo cigarro que tentou esconder.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

A INCRÍVEL CARTA DE UMA SOBREVIVENTE A QUEM A ESTUPROU

Estudantes da Universidade de Stanford protestam: "Estupro aconteceu aqui" 

B. me enviou este email: "Você deve estar a par do caso da americana que foi estuprada por um nadador em Stanford, cujo caso teve veredito há poucos dias e que tem causado furor pelo fato de tanto o cara quanto o pai dele declararem que acham um absurdo serem condenados 'por tão pouco'.
Pois então, a garota que sofreu a violência escreveu uma longa carta a respeito do caso. Achei o texto um documento fortíssimo e que, apesar de um tanto quanto prolixo, mereceria uma divulgação para reflexões em tempo de frotas e gentilis e culturas do estupro. Portanto, tirei algumas horas do meu dia hoje para traduzir o texto para o português. Seria uma maneira de dar minha pequena e anônima contribuição pela luta do fim da cultura do estupro".
Muito obrigada, B. O texto é realmente longo, quase interminável, mas é poderoso pra caramba (tanto que o site que publicou a carta teve 4 milhões de acessos em poucas horas, tanto que a carta será lida na íntegra no Congresso dos EUA, e tanto que ela pode afetar a legislação americana em casos de estupro). Vocês precisam ler o que essa vítima, que não quis se identificar, escreveu. Ela leu esta carta formidável durante o julgamento do cara que a estuprou.

Excelência, se possível, gostaria de me dirigir, na maior parte desta declaração, diretamente ao réu.
Você não me conhece, mas você esteve dentro de mim, e é por isso que nós hoje estamos aqui.
Dia 17 de janeiro de 2015, uma noite tranquila de sábado em casa. Meu pai tinha preparado o jantar. Sentei à mesa com minha irmã mais nova, que nos visitava no fim de semana. Eu trabalhava em tempo integral e estava quase na minha hora de dormir. 
Havia planejado ficar em casa sozinha, assistir TV e ler, enquanto minha irmã ia a uma festa com amigos. Mas decidi que era minha única noite com ela, eu não tinha nada melhor pra fazer, então por que não, tem essa festa besta a dez minutos da minha casa, eu iria, dançaria como uma doida e deixaria minha irmãzinha constrangida. No caminho, brinquei que os calouros teriam aparelho nos dentes. Minha irmã tirou onda de mim por eu ir a uma festa de fraternidade vestida com um casaco de lã bege de bibliotecária. Eu me denominei “mamãezona”, porque sabia que seria a mais velha por lá. Fiz caretas, baixei minha guarda, bebi rápido demais, sem me dar conta de que minha tolerância tinha diminuído consideravelmente desde a faculdade.
A próxima coisa de que me lembro é que eu estava em uma maca em um corredor. Tinha sangue coagulado e ataduras nas minhas mãos e ombros. Pensei que talvez tivesse caído e estivesse numa sala da administração do campus. Estava muito calma, divagava sobre onde estaria minha irmã. Um auxiliar me explicou que eu havia sido violentada. Mesmo assim permaneci calma, tinha certeza de que ele falava com a pessoa errada. Eu não conhecia ninguém naquela festa. Quando finalmente me deixaram usar o banheiro, baixei a roupa de hospital que haviam me dado, fui baixar minha calcinha e não senti nada. Ainda me lembro da sensação dos meus dedos tocando minha pele e pegando o nada. Olhei pra baixo e não vi nada. Aquele tênue pedaço de tecido, a única coisa entre minha vagina e todo o resto, estava faltando e tudo dentro de mim havia sido silenciado. Ainda não tenho palavras para aquele sentimento. Para conseguir continuar a respirar, pensei que talvez os policiais tivessem usado tesouras para cortar a calcinha e usá-la como prova.
Daí senti pedaços de folhas de pinheiro roçando a parte de trás do meu pescoço e comecei a tirá-las do meu cabelo. Pensei que talvez as folhas tivessem caído de uma árvore. Meu cérebro dizia ao meu estômago para não colapsar. Porque o meu estômago dizia me ajude, me ajude.
Perambulei de quarto em quarto com um cobertor enrolado em mim, deixando um rastro de folhas de pinheiro por onde passava, um pequeno monte em cada cômodo por onde sentei. Pediram que eu assinasse papéis que diziam “Vítima de Estupro” e pensei que algo realmente teria acontecido. Minhas roupas foram confiscadas e fiquei nua enquanto as enfermeiras seguravam uma régua sobre vários dos arranhões no meu corpo e os fotografavam. As três de nós nos dedicávamos a pentear meu cabelo pra tirar dele as folhas de pinheiro, seis mãos encheram uma sacola de papel. Para me acalmar, me diziam que era apenas flora e fauna, flora e fauna. Tive múltiplos cotonetes inseridos na minha vagina e ânus, agulhas para injeções, pílulas, tinha uma Nikon apontada diretamente para minhas pernas abertas. Tinha bicos longos e pontudos dentro de mim, minha vagina manchada com fria tinta azul na busca por escoriações.
Após algumas horas, me deixaram tomar banho. Fiquei lá, examinei meu corpo sob o fluxo de água, decidi que não queria mais meu corpo. Estava aterrorizada, não sabia quem tinha estado dentro dele, se tinha sido contaminado, quem o teria tocado. Quis tirar meu corpo como um casaco e deixá-lo no hospital com todo o resto.
Naquela manhã, tudo o que me disseram foi que eu havia sido encontrada atrás de uma lixeira, potencialmente penetrada por um desconhecido, que eu precisaria fazer novamente o teste de HIV porque nem sempre os resultados saem imediatamente. Mas que, por enquanto, eu deveria ir pra casa e retomar minha vida normal. Imagine pisar de volta no mundo somente com essas informações. Me deram abraços enormes e saí andando do hospital pelo estacionamento vestida com um conjunto de moletom novo que providenciaram, já que me foi permitido ficar somente com meu colar e meus sapatos.
Minha irmã foi me buscar, rosto encharcado de lágrimas e contorcido de angústia. Instintiva e imediatamente, eu quis diminuir a dor dela. Sorri pra ela, disse para ela olhar pra mim, estou bem aqui, estou bem, está tudo bem, estou aqui. Meu cabelo está lavado e limpo, me deram o shampoo mais estranho, acalme-se, olhe pra mim. Olhe pra esse moletom engraçado, eu pareço uma professora de educação física, vamos para casa, vamos comer algo. Ela não sabia que por baixo da minha roupa eu tinha arranhões e ataduras na minha pele, minha vagina estava dolorida e com uma cor estranha depois de tanta manipulação, eu estava sem calcinha, me senti vazia demais para continuar a falar. Que eu estava com medo, que eu também estava devastada. Naquele dia, dirigimos pra casa e por horas minha irmã me abraçou.
Meu namorado não sabia o que tinha acontecido, mas ligou naquele dia e disse “estava realmente preocupado com você noite passada, você me assustou, você chegou bem em casa?”. Eu estava horrorizada. Foi então que soube que eu tinha ligado pra ele naquela noite, durante meu apagão, deixado uma mensagem incompreensível, que tínhamos conversado por telefone, mas que eu balbuciava tão forte a ponto de apavorá-lo, que ele havia dito repetidas vezes para eu ir procurar minha irmã. De novo ele me perguntou “O que aconteceu na noite passada? Você chegou bem em casa?”. Disse sim, mas desliguei e chorei.
Eu não estava pronta para contar ao meu namorado ou a meus pais que, na verdade, eu talvez tivesse sido estuprada atrás de uma lixeira, mas não sei por quem, quando ou como. Se eu contasse a eles, eu veria o medo em suas faces e o meu se multiplicaria por dez, então em vez disso eu fingia que a coisa toda não era real.
Tentei extirpá-la da minha mente, mas era tão pesada que não falava, não comia, não dormia, não interagia com ninguém. Depois do trabalho, eu dirigia para um lugar isolado para gritar. Eu não falava, não comia, não dormia, não interagia com ninguém, e tornei-me isolada daqueles que eu mais amava. Por uma semana após o incidente, não recebi nenhuma ligação ou novidade sobre aquela noite ou sobre o que tinha acontecido comigo. O único símbolo de que aquilo tudo não tinha sido um pesadelo era o moletom do hospital no meu armário.
Um dia, eu estava no trabalho, navegando as notícias no meu telefone, quando surgiu um artigo. Nele, li e soube pela primeira vez sobre como fui encontrada inconsciente, descabelada, longo colar amarrado em volta do meu pescoço, sutiã puxado para fora do meu vestido, vestido puxado pra baixo dos meus ombros e pra cima da minha cintura, nua da bunda até minhas botas, pernas totalmente abertas, tendo sido penetrada com um objeto estranho por alguém que eu não reconhecia. Foi assim que descobri o que tinha acontecido comigo, ao ler as notícias sentada à minha mesa no trabalho. 
Descobri o que aconteceu comigo ao mesmo tempo em que qualquer outra pessoa em qualquer outro lugar do mundo descobriu o que aconteceu comigo. Foi aí que as folhas de pinheiro no cabelo fizeram sentido, elas não tinham caído de uma árvore. Ele tinha tirado minha roupa de baixo, seus dedos tinham estado dentro de mim. Eu nem conheço essa pessoa. Eu ainda continuo sem conhecer essa pessoa. Quando eu li sobre mim dessa forma, eu disse essa não pode ser eu.
Essa não pode ser eu. Eu não poderia digerir ou aceitar nenhuma dessas informações. Eu não poderia imaginar minha família ter que ler isso online. Continuei a ler. No parágrafo seguinte, li algo que eu jamais perdoarei; li que, de acordo com ele, eu gostei. Eu gostei. De novo, não tenho palavras para esses sentimentos. 
É como se você lesse um artigo sobre um carro que foi atingido, e encontrado amassado, numa fossa. Mas talvez o carro gostou de ser atingido. Talvez o outro carro não queria atingi-lo, só esbarrar nele um pouco. Carros caem em acidentes o tempo todo, as pessoas não prestam atenção, não podemos dizer de quem realmente é a culpa. 
No fim do artigo, depois que descobri todos os detalhes sórdidos da minha própria violação sexual, o artigo listava os tempos de natação dele. Ela foi encontrada respirando, inconsciente e com sua roupa de baixo quinze centímetros distante do seu ventre nu, curvada em posição fetal. Falando nisso, ele é realmente bom na natação. Coloque na roda o meu tempo dos 1500m nado livre também, se é disso de que se trata. Eu cozinho bem, coloque isso, acho que é no fim onde você lista suas atividades extra-curriculares para anular todas as coisas doentias que aconteceram.
Na noite em que as notícias surgiram, eu coloquei os meus pais sentados e contei que eu tinha sido violentada, não olhem as notícias, é desagradável, apenas saibam que estou bem, estou aqui e estou bem. Mas na metade da minha fala minha mãe teve que me segurar porque eu não conseguia mais ficar em pé. Eu não estava bem.
Na noite seguinte ao acontecido, ele disse que não sabia o meu nome, disse que não conseguiria identificar meu rosto em uma fila de pessoas, não mencionou nenhum diálogo entre nós, nenhuma palavra, apenas dança e beijos. Dança é um termo bonitinho; será que se trataria de dedos estalados e coreografias giratórias ou apenas de corpos pressionados contra o outro num cômodo lotado? 
Me pergunto se beijos seriam apenas rostos desleixadamente apertados contra o outro. Quando o detetive perguntou como fomos parar atrás da lixeira, ele disse que não sabia. Ele admitiu ter beijado outras garotas naquela festa, uma delas a minha irmã, que o empurrou pra longe. Ele admitiu que queria ficar com alguém. Eu era o antílope ferido da horda, completamente sozinha e vulnerável, fisicamente incapaz de me defender sozinha, e ele me escolheu. Às vezes penso que se eu não tivesse ido, isso não teria acontecido. Mas aí percebi que teria acontecido, só que com outra. Na noite seguinte ao acontecido, ele disse que pensou que eu tivesse gostado porque eu acariciei suas costas. Carícia nas costas. 
Nunca mencionou eu consentir, nunca mencionou alguma conversa entre nós, uma carícia nas costas. Mais uma vez, pelas notícias, descobri que minha bunda e minha vagina tinham sido completamente expostas ao ar livre, meus seios tinham sido apertados, dedos enfiados dentro de mim junto com folhas de pinheiro e detritos, minha pele nua e minha cabeça tinham sido raspadas contra o chão atrás de uma lixeira enquanto um calouro ereto metia no meu corpo inconsciente e seminu. Mas eu não me lembro, então como provar que eu não gostei.
Pensei que de jeito nenhum isso vai à justiça; havia testemunhas, havia sujeira no meu corpo, ele correu mas foi capturado. Ele vai propor acordo, pedir desculpas formais e ambos vamos continuar nossas vidas. Em vez disso, me falaram que ele havia contratado um advogado poderoso, peritos, investigadores privados que iriam buscar e encontrar detalhes sobre minha vida pessoal para usarem contra mim, para descobrirem furos na minha história e desqualificarem a mim e à minha irmã, de forma a mostrarem que esse ataque sexual na verdade tinha sido um mal-entendido. Que ele iria até onde fosse necessário para convencer o mundo de que ele apenas tinha se confundido.
Não disseram a mim apenas que eu tinha sido violentada, disseram que, já que eu não me lembrava, tecnicamente não poderia provar que tinha sido contra minha vontade. E isso me distorceu, me fez mal, quase me destruiu. A maneira mais triste de ficar confusa é quando se descobre ter sido violentada e quase estuprada [as leis americanas sobre estupro são diferentes das brasileiras; aqui, desde 2009, enfiar dedos também é considerado estupro], completamente ao ar livre, mas não se sabe se isso vale como ter sido violentada ou não. Tive que lutar por um ano inteiro para deixar claro que havia algo de errado com essa situação.
Quando me disseram que eu teria que me preparar para caso nós não ganhássemos, eu disse que não poderia me preparar. Ele era culpado no minuto em que eu acordava. Ninguém pode me dissuadir da dor que ele me causou. Pior de tudo, me alertaram, já que ele agora sabe que você não se lembra de nada, ele vai poder ditar o script. Ele pode dizer o que quiser e ninguém poderá contestar. Eu não tinha poder, não tinha voz, estava indefesa. Minha ausência de memória seria usada contra mim. Meu testemunho era fraco, era incompleto, e me fizeram acreditar que, talvez, eu não fosse suficiente para ganhar essa. Isso é tão danoso. O advogado dele lembrava constantemente ao júri que o único em quem eles poderiam acreditar era Brock, porque ela não se lembra. Esse desamparo era traumatizante.
Em vez de usar o tempo para me curar, eu usava o tempo para relembrar aquela noite em detalhes excruciantes, de modo a me preparar para as questões do advogado que seriam invasivas, agressivas e concebidas para me desviar do caminho, me fazer cair em contradição, à minha irmã, colocadas de modo a manipular minhas respostas. Em vez de o advogado dizer "você notou alguma escoriação?", ele disse "você não notou nenhuma escoriação, certo?”. Era um jogo de estratégia, como se eu pudesse ser enganada sobre meu próprio valor. A violação sexual tinha sido tão clara mas, em vez disso, aqui estava eu no julgamento tendo que responder a questões como:
Qual sua idade? Qual seu peso? O que você comeu naquele dia? Então o que você teve no jantar? Quem fez o jantar? Você bebeu durante o jantar? Não, nem mesmo água? Quando você bebeu? Quanto você bebeu? De onde você bebeu? Quem te deu a bebida? Quanto você normalmente bebe? Quem te levou até a festa? A que horas? Mas onde exatamente? O que você vestia? Por que você foi àquela festa? O que você faria quando chegasse lá? Tem certeza de que fez isso? Mas a que horas você fez isso? O que esse SMS quer dizer? Com quem você trocava SMS? Quando você urinou? Onde você urinou? Com quem você urinou do lado de fora? O seu telefone estava no silencioso quando sua irmã te ligou? Você se lembra de ter colocado no silencioso? Sério, porque na página 53 eu gostaria de ressaltar que você disse que estava ajustado para tocar. Você bebia na faculdade? Você disse que era louca por festas? Quantas vezes você desmaiou? Você costumava frequentar festas de fraternidades? Você tem um relacionamento sério com seu namorado? É sexualmente ativa com ele? Quando começaram a sair? Você trairia? Tem histórico de traições? O que você quer dizer quando diz que gostaria de recompensá-lo? Você se lembra que horas você acordou? Você estava vestindo seu casaco de lã? De que cor era seu casaco? Você se lembra de mais alguma coisa daquela noite? Não? Ok, deixaremos Brock preencher o resto.
Fui martelada com questões específicas e pontuais que dissecaram minha vida pessoal, vida amorosa, vida pregressa, vida familiar, questões fúteis, acúmulo de detalhes visando encontrar uma desculpa para esse cara que nem se deu ao trabalho de ter perguntado o meu nome, que tinha me desnudado alguns minutos após me ver. Após uma violência física, fui violentada com questões concebidas para me atacar, para dizer "vejam, os fatos dela não são coerentes, ela está fora de si, ela é praticamente uma alcoólatra, ela provavelmente queria dar, ele é como um atleta, certo, ambos estavam bêbados, não importa, as coisas de que ela se lembra do hospital são de após o fato, por que levar em consideração, Brock tem muito a perder, ele está sofrendo muito com tudo isso agora.
E aí veio a hora de ele testemunhar e aprendi o que significa ser revitimizada. Quero lembrar-lhe de que na noite seguinte ao acontecido ele disse que nunca havia planejado me levar ao seu quarto. Ele disse que não sabia por que estávamos atrás de uma lixeira. Ele levantou e saiu porque não estava se sentindo bem quando foi subitamente perseguido e atacado. Aí ele soube que eu não me lembrava.
Portanto, um ano depois, previsivelmente um novo diálogo surgiu. Brock tinha uma nova e estranha história que soava como um romance juvenil mal escrito, cheio de beijos e danças e mãos entrelaçadas e corpos apaixonados tombando ao solo e, o mais importante nessa nova história, de repente havia consentimento. Um ano após o incidente, oh, sim, ela disse sim pra tudo.
Ele disse que perguntou se eu queria dançar. Aparentemente eu disse sim. Ele perguntou se eu queria ir até o quarto dele e eu disse sim. Depois ele perguntou se ele poderia enfiar o dedo em mim e eu disse sim. A maioria dos caras não pergunta "posso enfiar o dedo em você?”. Normalmente essa é uma progressão natural das coisas, uma evolução consensual, não uma sessão de perguntas e respostas. Mas aparentemente eu dei permissão total. Ele é inocente.
Mesmo nessa história praticamente não há diálogo; eu disse apenas um total de três palavras, sim sim sim, antes de ele me por seminua no chão. Eu nunca tinha sido penetrada após três palavras. No futuro, se você estiver confuso sobre se uma garota pode consentir, veja se ela consegue falar uma frase completa. Você não poderia nem fazer isso. Apenas uma sequência coerente de palavras. Onde estava a dúvida? Isso é senso comum, decência humana.
De acordo com ele, a única razão pela qual estávamos ao solo era porque eu caí. Nota: se uma garota cai, ajude-a a se levantar. Se ela estiver bêbada demais para andar e por isso cai, não suba em cima dela, não a arqueie, não tire a calcinha nem enfie a mão na vagina dela. Se uma garota cai, ajude-a a se levantar. Se uma garota estiver usando um casaco de lã sobre o vestido, não tire o casaco dela de forma a poder tocar os seios dela. Talvez ela esteja com frio, talvez seja por isso que ela está de casaco. 
Em seguida na história, dois suecos de bicicleta se aproximaram de você. Você correu porque disse que sentiu medo. Quando eles te abordaram você não disse “Parem! Tá tudo certo, perguntem a ela, ela tá ali, ela vai dizer pra vocês”. Quero dizer, você tinha acabado de ter o meu consentimento, né? Eu estava acordada, né? Quando os policiais chegaram e interrogaram o sueco malévolo que te segurou, ele estava chorando tanto que não conseguia nem falar por causa do que ele tinha visto.
Seu advogado apontou repetidamente que, bem, não sabemos exatamente quando ela ficou inconsciente. E você está certo, talvez eu ainda estivesse tremulando meus olhos e não estivesse completamente mole, ok. Não era esse o ponto. Eu estava com a fala vacilante, bêbada demais para consentir muito antes de estar no chão. Eu nunca deveria ter sido tocada em primeiro lugar. Brock afirmou: “em nenhum momento vi que ela não respondia. Se em algum momento pensasse que ela não respondia, teria parado imediatamente.” Aí está o lance; se seu plano fosse parar somente quando eu estivesse literalmente inconsciente, então você ainda não entende. De qualquer modo, você não parou mesmo quando eu estava inconsciente! Outra pessoa te parou. Dois caras de bicicleta perceberam, no escuro, que eu não me mexia, e tiveram que te conter. Como você não percebeu enquanto estava sobre mim?
Você diz que teria parado e buscado ajuda. Você diz isso, mas quero que você explique como você teria me ajudado, passo a passo, a sair dessa. Quero saber, se esses suecos do mal não tivessem me encontrado, como teria sido o resto da noite. Pergunto a você: você teria colocado minha calcinha novamente de volta por sobre minhas botas? Desembaraçado o colar em volta do meu pescoço? Fechado minhas pernas, me coberto? Colocado meu sutiã de volta no meu vestido? Me ajudado a tirar as folhas do meu cabelo? Perguntado se as escoriações no meu pescoço e meu traseiro doíam? Teria ido procurar um amigo e dito "Você pode me ajudar a levá-la a algum lugar quente e confortável?" Eu não durmo enquanto penso sobre o que teria se passado caso os suecos nunca tivessem aparecido. O que teria acontecido comigo? Para isso você nunca terá uma boa resposta, isso é o que você não consegue explicar mesmo depois de um ano.
Além disso, ele afirmou que eu tive um orgasmo um minuto depois de me penetrar com o dedo. A enfermeira disse que havia lacerações e sujeira no meu genital. Isso foi antes ou depois de eu ter um orgasmo?
Sentar sob juramento e informar a todos nós que sim, eu queria, sim, eu permiti, que você é a vítima real atacada por dois suecos por razões que você desconhece, é doentio, é egoísta, é nocivo. Uma coisa é sofrer. Outra é alguém trabalhar incessantemente para diminuir a gravidade daquele sofrimento.
Minha família foi obrigada a ver fotos da minha cabeça presa a uma maca cheia de folhas, do meu corpo de olhos fechados coberto de sujeira, cabelo desarrumado, pernas dobradas, meu vestido até em cima. E mesmo após tudo isso minha família teve que ouvir seu advogado dizer que as fotos eram de depois do fato, então que deviam ser desconsideradas. 
Dizer que "sim, a enfermeira confirmou que havia vermelhidão e feridas dentro dela, mas isso é o que acontece quando você enfia o dedo em alguém e ele já admitiu ter feito isso". Ouvi-lo tentar criar uma imagem de mim, do animal sedutor das festas, como se de alguma forma isso fosse levar a crer que tudo isso era algo que estava fadado a acontecer comigo. Ouvi-lo dizer que eu parecia bêbada ao telefone porque eu sou tola e essa é minha maneira tola de falar. Apontar que na mensagem de voz eu disse que iria recompensar meu namorado e que todos nós sabemos o que eu queria dizer. Garanto que meu programa de recompensas é intransferível, especialmente para qualquer homem sem nome que se aproxime de mim.
Ele causou danos irreparáveis a mim e a minha família durante o julgamento e nós ficamos quietos, ouvindo-o recontar a noite. Mas, no fim, suas declarações sem base e a lógica distorcida do advogado dele não enganaram ninguém. A verdade ganhou, a verdade falou por si mesma.
Você é culpado. Doze jurados condenaram você por três crimes, isso dá trinta e seis “sim” confirmando sua culpa, isso é cem por cento, culpa unânime. E pensei: "finalmente é o fim, finalmente ele vai ter o que merece, desculpar-se verdadeiramente, ambos iremos superar essa e melhorar". Daí li sua declaração.
Se você espera que algum órgão meu exploda de raiva e eu morra, estou quase lá. Você está muito perto. Essa não é a história de mais um encontro baseado em muito álcool e decisões erradas. Ataque não é acidente. De alguma forma, você ainda não entende. De alguma forma, você ainda soa confuso. Agora lerei trechos da declaração do réu e responder a elas.
Você disse: "estando bêbado eu não pude tomar as melhores decisões, nem ela”. 
Álcool não é desculpa. É um fator? Sim. Mas não foi o álcool que me despiu, enfiou o dedo em mim, arrastou minha cabeça pelo chão comigo seminua. Eu ter bebido muito foi um erro amador que admito ter cometido, mas isso não é crime. Todo mundo aqui presente já teve uma noite da qual se arrepende de ter bebido demais, ou conhece alguém que o tenha feito. Arrepender-se de ter bebido não é a mesma coisa que arrepender-se de ter atacado alguém sexualmente. Ambos estávamos bêbados, a diferença é que eu não tirei sua calça e sua cueca, não te toquei inapropriadamente e fugi. Essa é a diferença.
Você disse: “se eu quisesse conhecê-la eu teria pedido o telefone dela em vez de perguntar se ela queria vir comigo até meu quarto”.
Não estou brava porque você não pediu meu telefone. Mesmo se você me conhecesse, eu não iria querer estar nessa situação. Meu namorado me conhece, mas se ele me pedisse para enfiar o dedo em mim atrás de uma lixeira, eu lhe daria um tapa. Nenhuma garota quer passar por isso. Nenhuma. Não me importa se você tem o telefone dela ou não.
Você disse: “eu estupidamente pensei que fosse ok fazer o que todo mundo em volta estava fazendo, que era beber. Eu estava errado”.
De novo, você não estava errado ao beber. Todo o mundo em volta de você não estava me atacando sexualmente. Você estava errado por fazer o que ninguém mais estava fazendo, que era empurrar seu pau duro nas suas calças contra o meu corpo nu e sem defesa, oculto em um lugar escuro, onde as pessoas da festa não iriam mais me ver nem me proteger e minha própria irmã não poderia me encontrar. Beber não é seu crime. Retirar e descartar minha calcinha como uma embalagem de bala e inserir seu dedo no meu corpo, aí é que você cometeu o erro. Indago por que ainda tenho que explicar isso.
Você disse “durante o julgamento eu não quis vitimizá-la de jeito nenhum. Foi somente o meu advogado e o jeito dele de lidar com o caso”.
Seu advogado não é seu bode expiatório, ele te representa. Seu advogado falou coisas inacreditavelmente degradantes? Certamente. Ele disse que você teve uma ereção porque fazia frio. 
Você disse que está no processo de criar de um programa voltado a estudantes do ensino médio e universitário, no qual você fala sobre sua experiência e “contra a cultura de bebidas no campus e a promiscuidade sexual que vem com ela”.
Falar contra a cultura de bebidas no campus. É contra isso que discursamos? Você acha que é contra isso que lutei o ano passado inteiro? Não sobre violência sexual no campus, ou estupro ou sobre aprender a reconhecer o consentimento. Cultura de bebida no campus. Abaixo Jack Daniels. Abaixo Skyy Vodka. Se você quer falar sobre alcoolismo, vá a um encontro do A.A. Você compreende que alcoolismo é diferente de beber e propositadamente tentar fazer sexo com alguém? Mostre aos homens como respeitar as mulheres, não como beber menos.
Cultura da bebida e a promiscuidade sexual resultante. Resultante. Como um efeito colateral, como fritas acompanhando o prato principal. Onde é mesmo que a promiscuidade entrou em cena? Não vejo manchetes do tipo "Brock Turner, culpado por beber demais e pela promiscuidade sexual resultante". Violência sexual no campus. Taí o primeiro slide do seu powerpoint. Não tenha dúvida que se você falhar em fazer disso o seu ponto principal, eu te seguirei a qualquer escola que você for e farei uma apresentação depois.
Por fim, você disse: “eu quero mostrar às pessoas que uma noite de bebidas pode arruinar uma vida”.
Arruinar uma vida, uma vida, a sua, você se esqueceu da minha. Deixe-me reformular pra você, "Eu gostaria de mostrar às pessoas que uma noite de bebidas pode arruinar duas vidas". Você e eu. Você é a causa, eu sou o efeito. 
Você me trouxe para esse inferno junto com você, me empurrou de volta para aquela noite de novo e de novo. Você colocou abaixo nossas fortalezas, eu colapsei ao mesmo tempo que você. Se você acha que eu fui poupada, que saí livre, enquanto você sofre o golpe maior, você está enganado. Ninguém ganha. Todos estamos devastados, todos tentamos encontrar algum significado no meio deste sofrimento. Seu dano foi concreto; perdeu seus títulos, diplomas, matrículas. Meu dano foi interno, invisível, carrego-o comigo. Você tomou de mim meu valor, minha privacidade, minha energia, meu tempo, minha segurança, minha intimidade, minha confiança, minha própria voz, até hoje.
Veja que uma coisa que temos em comum é que somos ambos incapazes de levantar de manhã. O sofrimento não me é estranho. Você me fez uma vítima. Nos jornais, eu era tratada por “mulher inconsciente intoxicada”, doze sílabas, nada mais do que isso. Por muito tempo, acreditei que era tudo o que eu era. Tive que me forçar para reaprender meu nome real, minha identidade. Reaprender que isso não é tudo que eu sou. Que eu não sou somente uma vítima alcoolizada de uma festa de fraternidade encontrada atrás de uma lixeira, enquanto você é parte da equipe americana de natação e estuda em uma universidade de elite, inocente até prova em contrário, com tanto a perder. Eu sou um ser humano que foi irreversivelmente ferido, que teve a vida parada durante um ano para descobrir se eu valia alguma coisa.
Minha independência, minha alegria natural, minha gentileza e meu estilo de vida estável tornaram-se distorcidos a ponto da irreconhecibilidade. Tornei-me fechada, raivosa, auto-depreciativa, cansada, irritada, vazia. O isolamento era por vezes insuportável. Você não pode devolver a mim a vida que eu tinha antes daquela noite. Enquanto você se preocupa com sua reputação destroçada, eu refrigerava colheres toda noite para quando eu acordasse, e meus olhos estivessem inchados de tanto chorar, eu colocá-las sobre minhas pálpebras para diminuir o inchaço e me permitir enxergar. 
Aparecia com uma hora de atraso no trabalho toda manhã, saía para chorar nas escadas, posso te contar todos os melhores locais para chorar naquele prédio onde ninguém pode te ouvir. A dor tornou-se tão forte que tive que contar detalhes particulares a minha chefe para que ela entendesse por que eu estava saindo. Precisava de tempo porque o dia a dia não era mais possível. Usei minhas economias para ir até onde eu poderia ir. Não voltei a trabalhar em tempo integral porque sabia que precisaria de semanas no futuro para o julgamento. Minha vida parou por um ano, minha estrutura desabou.
Não consigo dormir sozinha à noite sem uma luz acesa, como uma criança de cinco anos, porque tenho pesadelos de ser tocada onde eu não posso acordar, fiz isso de aguardar até o sol nascer e me sentir suficientemente segura para dormir. Por três meses fui dormir às seis horas da manhã.
Eu costumava me orgulhar da minha independência, agora tenho medo de sair para caminhadas à noite, de frequentar eventos sociais com bebidas entre amigos com os quais eu deveria me sentir confortável. Tornei-me um pouco grudenta, preciso sempre estar ao lado de alguém, ter meu namorado por perto, dormindo comigo, me protegendo. É constrangedor o quão fraca eu me sinto, quão timidamente eu me movo pela vida, sempre resguardada, pronta para me defender, pronta para enraivecer.
Você não tem ideia de quão duro eu tenho trabalhado para reconstruir partes de mim que ainda estão fracas. Demorou oito meses para conseguir falar sobre o que aconteceu. Não conseguia mais me conectar com amigos, com ninguém à minha volta. Eu gritava com meu namorado, com minha família toda vez que eles traziam isso de volta. Você nunca me deixou esquecer o que aconteceu comigo. Ao fim da audiência, do julgamento, eu estava cansada demais para falar. Eu ia embora vazia, em silêncio. Eu ia pra casa, desligava meu telefone e por dias não falava. Você comprou pra mim uma passagem para um planeta onde eu morava sozinha. 
Cada vez que um novo artigo saía na imprensa, eu vivia com a paranoia de que minha cidade toda me reconheceria como a moça que foi violentada. Eu não queria a piedade de ninguém e ainda estou aprendendo a aceitar ser vítima como parte de minha identidade. Você fez da minha cidade natal um lugar desconfortável para mim.
Você não vai me devolver as noites sem dormir. A forma pela qual eu descambo a chorar incontrolavelmente se estou vendo um filme e uma mulher é machucada, para colocar de forma sutil, essa experiência expandiu minha empatia por outras vítimas. Perdi peso pelo stress, as pessoas comentam que devo estar correndo muito nos últimos tempos. Há momentos em que não queria ser tocada. Tenho que reaprender que não sou frágil, sou capaz, sou saudável, e não lívida e fraca.
Quando vejo minha irmã mais nova sofrendo, quando ela se torna incapaz de seguir a escola, quando ela perde a alegria, quando ela não consegue dormir, quando ela chora tão forte ao telefone que não consegue nem respirar direito, repetindo incontáveis vezes que ela sente muito por ter me deixado sozinha naquela noite, desculpe desculpe desculpe, quando ela sente mais culpa que você, eu não perdoo você. Naquela noite eu tentei chamá-la e encontrá-la mas você me encontrou primeiro. A declaração final do seu advogado começou com “A irmã dela disse que ela estava bem, e quem a conhece melhor que a própria irmã?”. Você tentou usar minha irmã contra mim. Seus pontos de ataque eram tão fracos, tão baixos, era quase constrangedor. Você não encoste nela.
Você nunca deveria ter feito isso comigo. Em segundo lugar, você nunca deveria ter me feito lutar tanto para te dizer que você nunca deveria ter feito isso comigo. Mas aqui estamos. O estrago está feito e ninguém pode desfazê-lo. Agora ambos temos uma escolha. Podemos deixar isso nos destruir, posso continuar com raiva e em sofrimento e você em negação, ou ambos podemos encarar de frente, eu aceito a dor, você aceita a punição, e vamos em frente.
Sua vida não acabou, você tem décadas para reescrever sua história. O mundo é enorme, muito maior do que Palo Alto ou Stanford e você conseguirá encontrar um espaço para você onde poderá ser útil e feliz. Mas nesse momento, você não pode dar de ombros e ficar confuso. Você foi condenado de me violar, intencionalmente, a força, sexualmente, com intenções maliciosas, e tudo que você admite é ter bebido. Não fale de como sua vida foi revirada porque o álcool te fez fazer coisas ruins. Ache uma maneira de se responsabilizar pela sua própria conduta.  
Agora em relação à sentença. Quando li o relatório do oficial de justiça, não pude acreditar, consumida pela raiva, a qual, no fim, foi substituída por profunda tristeza. Minhas declarações foram reduzidas ao ponto da distorção e tiradas de contexto. Lutei duro durante esse julgamento e não terei o resultado minimizado por um oficial de justiça que tentou avaliar minha situação atual e meus desejos em uma conversa de quinze minutos, a maioria dos quais passados respondendo questões sobre o sistema jurídico. O contexto também é importante. Brock tinha ainda que soltar uma declaração e eu não havia lido seus comentários.
Minha vida está em suspenso por mais de um ano, um ano de raiva, angústia e incerteza, até que um júri composto por meus pares soltou um veredito que validou as injustiças por mim sofridas. Se Brock tivesse admitido culpa e remorso e oferecido um acordo no começo, eu teria considerado uma sentença mais branda, respeitando sua honestidade, grata por poder seguir nossas vidas. Ao contrário, ele correu o risco de trazer o caso a julgamento, piorou a situação e me forçou a reviver o sofrimento, enquanto detalhes sobre minha vida pessoal e sobre a violência sexual eram brutalmente dissecados perante o público. Ele empurrou a mim e à minha família para um ano de sofrimento inexplicável e desnecessário e deve sofrer as consequências de desafiar seu crime, de duvidar da minha dor, de fazer-nos esperar tanto por justiça.
Eu disse ao oficial de justiça que não queria que Brock apodrecesse na cadeia. Eu não disse que ele não merece estar atrás das grades. A recomendação do oficial de justiça de um ano ou menos na cadeia local é uma zombaria em relação à seriedade do cometido por ele, uma ofensa a mim e a todas as mulheres. Passa a mensagem que um estranho pode te penetrar sem consentimento e ele vai receber menos do que é definido como a pena mínima. Eu também disse ao oficial que o que eu realmente queria era que Brock entendesse e admitisse o que fez de errado.
Infelizmente, após ler a declaração do réu, estou extremamente desapontada e sinto como se ele tivesse falhado em demonstrar remorsos sinceros ou responsabilidades sobre sua conduta. Respeitei totalmente seu direito a um julgamento, mas, mesmo após doze jurados lhe terem condenado por três crimes, tudo o que ele pode admitir foi ter ingerido álcool. Alguém que não consegue assumir responsabilidades por suas ações não merece uma sentença mais branda. É profundamente ofensivo que ele tente diluir o estupro com uma sugestão de promiscuidade. Por definição, estupro não é a ausência de promiscuidade, estupro é a ausência de consentimento, e me perturba profundamente que ele nem mesmo consiga ver essa diferença.
O oficial de justiça alega que o réu é jovem e não tem condenações prévias. Em minha opinião, ele tem idade suficiente para saber que o que ele fez é errado. Nesse país, quem tem dezoito anos pode ser enviado à guerra. Quando se tem dezenove, é suficientemente velho para pagar as consequências de tentar estuprar alguém. Ele é jovem, mas suficientemente maduro para saber o que é certo.
Como se trata de uma primeira infração, eu consigo ver por onde vem a atração pela leniência. Por outro lado, enquanto sociedade, não podemos perdoar os primeiros ataques sexuais ou estupros cometidos com dedos. Não faz sentido. A seriedade de um estupro tem que ser comunicada claramente, não devemos criar uma cultura que sugere aprendermos que estupro é errado por meio de tentativa e erro. As consequências da violência sexual têm que ser suficientemente severas para que as pessoas exerçam bons julgamentos mesmo quando alcoolizadas, suficientemente severas para serem preventivas. 
O oficial de justiça levou em consideração o fato de que Brock perdeu uma bolsa de estudos para atletas conseguida a duras penas. Quão rápido Brock nada não diminui a severidade do que aconteceu comigo, e não deveria diminuir a severidade de sua punição. Se um infrator de primeira viagem oriundo de uma classe social desprivilegiada fosse acusado de três crimes e demonstrasse nenhuma responsabilidade pelas suas ações a não ser ter bebido, qual seria a sentença dele? O fato de que Brock era um astro do esporte em uma universidade prestigiosa não deve servir como direito à leniência, mas como oportunidade para enviar uma mensagem cultural forte de que violência sexual é ilegal independentemente de classe social.
O oficial de justiça declarou que este caso, quando comparado com outros crimes da mesma natureza, pode ser considerado menos grave devido ao grau de intoxicação do réu. Pareceu grave. É tudo o que tenho a dizer.
O que Brock tem feito para demonstrar que ele merece escapar dessa? Ele só pediu desculpas por ter bebido e ainda precisa definir o que fez comigo como estupro. Ele tem me vitimizado continuamente, sem parar. Ele foi considerado culpado de três crimes e é hora que ele aceite as consequências de seus atos. Ele não será liberado silenciosamente.
Ele terá um registro como estuprador para sempre. Isso nunca expira. Como o que ele fez comigo nunca expira, não vai embora depois de um determinado número de anos. Fica comigo, é parte da minha identidade, mudou para sempre a maneira como lido comigo mesma, a maneira como viverei o resto da minha vida.
Para concluir, gostaria de dizer obrigada. A todos, desde a estagiária que fez mingau de aveia para mim quando acordei aquela manhã no hospital até as enfermeiras que me acalmaram, incluindo o detetive que me ouviu e nunca me julgou, meus advogados que ficaram obstinadamente a meu lado, meu terapeuta que me ensinou a encontrar coragem na vulnerabilidade, minha chefe por ser gentil e compreensiva, meus pais incríveis que me ensinam a transformar dor em força, minha avó que levava chocolate à corte para me dar, meus amigos que me lembram como ser feliz, meu namorado que é paciente e amoroso, minha irmã invencível que é a outra metade do meu coração, e [a promotora do caso] Alaleh, minha ídola, que lutou incansavelmente e nunca duvidou de mim. Obrigada a todos e a todas envolvidas no julgamento, pelo tempo e pela atenção. Obrigada a todas as garotas de todo o país que escreveram cartas para o meu promotor repassar pra mim, tantos desconhecidos que se preocuparam e se importaram comigo.
Mais importante de tudo, obrigado aos dois homens que me salvaram, os quais ainda preciso conhecer. Eu durmo com duas bicicletas que desenhei pregadas sobre minha cama para me lembrar que há heróis nessa história. Que estamos tomando conta um do outro. Ter conhecido todas essas pessoas, ter sentido sua proteção e seu amor, é algo que nunca esquecerei.
E, finalmente, para as garotas em toda parte, estou com vocês. Nas noites em que se sentirem sozinhas, estou com vocês. Quando as pessoas duvidarem de vocês ou as ignorarem, estou com vocês. Lutei todos os dias por vocês. Portanto, nunca deixem de lutar, eu acredito em vocês. 
Como disse Anne Lamott, "faróis não correm por toda a ilha procurando barcos para salvar; eles apenas ficam lá, brilhando". Embora eu não consiga salvar todos os barcos, espero que, ao falar hoje, vocês tenham absorvido um pouco de luz, um pequeno saber que vocês não podem ser silenciadas, uma pequena satisfação de que a justiça foi servida, uma pequena segurança de que estamos chegando a algum lugar e uma grande, grande certeza de que vocês são importantes, inquestionavelmente, vocês são intocáveis, vocês são lindas, vocês devem ser valorizadas, respeitadas, inegavelmente, todos os minutos de todos os dias, vocês são poderosas e ninguém pode tirar isso de vocês. Para as garotas em toda parte, estou com vocês. Obrigada.