sexta-feira, 28 de novembro de 2014

GUEST POST: MACHISMO INDIGNANTE NA USP SÃO CARLOS

Protesto na Medicina da USP na última terça

A R. me enviou este relato sobre mais um caso grave de machismo e acobertamento de práticas abusivas na universidade:

Já leio seu blog há muito tempo, uns 3 anos ou mais, já deixei alguns comentários e aqui aprendi a ser feminista e a enxergar o quanto a sociedade oprime e pune as mulheres pelo simples fato de terem os cromossomos XX.
Bem, escrevo pois tem-se falado muito dos casos de abuso na medicina da USP. Hoje no seu blog li sobre abusos na Poli. E me pergunto quando começarão a falar sobre os abusos na USP São Carlos. [Já falei de alguns aqui e aqui].
Alunos da USP São Carlos usam
boneca inflável para hostilizar
feministas
Essa é uma mistura de desabafo com depoimento de fatos reais, que eu vivi ou vi.
Nasci numa cidade pequena, e no começo deste século entrei na USP São Carlos, para um curso de exatas num campus de exatas. Ou seja, a maioria esmagadora de pessoas nos campi daqui é de homens. Acho que o cúmulo do desrespeito aconteceu em 2013, em dois casos: um durante a calourada e outro, umas semanas depois, quando houve uma tentativa de "estupro" de um estudante. Já te explico o porquê das aspas. Essa tentativa de estupro gerou revolta na vitima, que entrou atirando no alojamento meses depois, em agosto do ano passado.
 
Hino da Medicina
da USP de Ribeirão
Preto (clique)
Bem, o caso da calourada foi bem discutido. A calourada aqui era tenebrosa. Escrevi um guest post para o antigo site da Nadia Lapa. Repare nos hinos: "És a vergonha do Brasil oh depravada / Mulher da biologia está sempre no cio". 
Voltemos ao caso do garoto estuprado. Ele não foi estuprado de fato, mas ele SE SENTIU estuprado com uma prática muito comum aqui: o tchutchu. Os caras fazem uma roda em torno da vítima, baixam as calças e esfregam seus orgãos genitais na pessoa, saltando e gritando tchutchu. Segue um video, trigger warning, tanto pro video quanto pra lista do rapaz. Mas se você tiver estômago vale a pena ver que tem meninas junto. O problema é muito grave.
A vítima do tchutchu é homem, ex-aluno do curso de Fisica, e sentiu-se intimidado, abusado, violado. É nojento o que os caras fazem. Ele foi escolhido por ser tímido e ter "jeito de viado", ia gostar de "tomar uma surra de pinto mole". Mas eles fazem isso com meninas TODA hora. A comissão que foi designada para tratar do caso do tchutchu ignorou o apelo do moço, achou que todo mundo já passou por esse tipo de constrangimento na graduação, não sendo caso de sindicância. 
Agora, imagina com mulheres. Eu já fui vítima de tchutchu durante a graduação. Na época eu nem ligava! Olha que horror, eu achava legal... Me achava gostosa! Só que eles só fazem isso com as "nojentas", e eu era do time das "gordas nojentas". Não há denúncia, porque não é "nada de mais". E quando há (na verdade, o único caso que ouvi foi o do moço), ninguém fez coisa alguma. 
Hoje trabalho num laboratório importante da universidade. Quando cheguei fiz uma besteira enorme: saí com um cara do laboratório. Conclusão: todos sabem que ele me "comeu", inclusive como e quantas vezes. Isso já faz anos, e ainda passam por mim dando risadinhas quando ele está perto. Claro, este é um problema da sociedade, não da universidade. Porém este tipo de assédio causa a evasão de muitas mulheres, tanto da graduação quanto da pós, e mesmo pesquisadoras. 
O caso na USP São Carlos é muito grave. Aqui é a escola dazelite, nem tem lugar pra estacionar de tanto carro. Todos os filhinhos da sociedade tem um, se você andar por aí, vai achar que está numa concessionaria. Eles vão viajar com bolsa do Ciências Sem Fronteiras e reclamam da bolsa de 73 reais do Bolsa Família que a pessoa pobre recebe. 
É a direita da direita, em que mulheres não merecem estar aqui e se você está, tem que achar um privilégio quando eles "te comem". As piadas são do tipo: "Lá vem a seno e a cosseno, soma e eleva ao quadrado e não dá uma gostosa". Isso aconteceu numa turma de engenharia, com apenas duas meninas "feias". 
É indignante.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

GUEST POST: "QUE BIXETE VOCÊ JÁ COMEU?"

Um guest post da PoliGen, o grupo de estudos de gênero da Politécnica da USP. Sim, não só há cada vez mais mulheres nas engenharias, como cada vez mais mulheres feministas.

Que banheiros públicos não têm paredes brancas, nós sabemos. Na Escola Politécnica (USP), seus sanitários são ocupados por vários assuntos, de perguntas contra ou a favor da greve, até desenhos, os mais variados possíveis. Mesmo perguntas filosóficas já encontramos: ¨Você já existiu hoje?¨, em um feminino da elétrica. Infelizmente, nem tudo é engraçado ou reflexivo nesse ambiente; chegou ao nosso conhecimento mais uma forma de desrespeito e ataque às mulheres: a violência de listá-las, classificando-as segundo seus atributos físicos, inclusive citando supostos fatos de suas vidas sexuais.
Em vários banheiros, o mesmo cenário se repete: contornando desenhos pornográficos que beiram a agressão sexual, perguntas sobre as estudantes e outras pessoas do sexo feminino que frequentam o ambiente politécnico -- “Você comeria a …?”, “E as bixetes 2014?”, “Quais as bixetes mais gostosas?” -- são seguidas de citação nominal das meninas. E a agressão não para por aí. São inclusas informações e comentários, do tipo com quem a moça em questão se relacionou ou não (inclusive detalhes sexuais), se seu corpo é aceito pelo machista que a citou (se ele acha sua bunda quadrada, por exemplo).
Mais do que qualquer banalidade descrita nessas paredes, essa listagem tem um cunho machista e ultrajante, porque objetifica a mulher, a reduz a um mero corpo que existe para o bel-prazer masculino. Além disso, há a característica humilhante dessa atitude -- a menina se torna referência fácil para comentários entre os homens, difamação essa que transborda o banheiro, afinal, as conversas estão na sala de aula, nos grupos de estudo, nos centros acadêmicos, enfim, nos locais comuns que as mulheres frequentam.
Novamente o ambiente politécnico se coloca como sexista e opressor. Não é difícil lembrar de vários outros casos -- várias provas de vários Integrapoli's*, a Barraca do Tapa**, e, para além de eventos, o próprio dia a dia, com piadas e outras provocações vexatórias, inclusive por parte dos professores. 
Nem mesmo o hábito de fazer listas é algo novo -- um grupo de homens, principalmente da Engenharia Mecânica, faz até mesmo uma tabela eletrônica há algum tempo, também citando nominalmente as meninas, dando detalhes de suas vidas sexuais (quais parceiros conhecidos elas já tiveram) e as classificando (para casar, só sexo, só sexo anal, etc).
Vale lembrar que, há cerca de um ano, houve uma tentativa de estupro no prédio da produção, sendo sua sindicância abafada e o caso “esquecido”. Essa ocorrência trouxe debates superficiais sobre segurança no campus pautados na hipótese de que o agressor não pertencia à comunidade politécnica (ou mesmo uspiana), e a questão da violência de gênero não foi de fato levantada. 
A verdade é que, como está comprovado atrás de cada porta de banheiro, o machismo existe dentro da faculdade, em suas salas de aula, em seus banheiros e dentro da cabeça de muitas e muitos. E o  machismo que faz os autores das pichações se sentirem no poder para objetificar as mulheres é o mesmo machismo que faz com que mulheres sejam estupradas todos os dias.

* O Integrapoli é uma tradicional gincana da Escola Politécnica que ocorre todos os anos, com objetivo de promover a integração entre estudantes. Ela consiste de várias provas, muitas delas de caráter machista e opressor, que variam ao longo dos anos mas mantém esse mesmo tom. Exemplos de algumas provas já ocorridas: "construir uma metralhadora de elásticos a ser testada em uma bixete de biquíni ao vivo"; "gravar um vídeo com um 'cumshot surprise' (vídeos em que um aluno ejacula em uma mulher sem o consentimento dela)"; "bixete colocando uma camisinha com a boca em uma banana"; "bixete de menor biquíni".
É importante dizer que essa gincana se apresenta como uma grande oportunidade de bixetes e bixos se integrarem aos seus CA's, o que aumenta a pressão sobre as bixetes para submetê-las às provas, pressão essa que se manifesta explicitamente ou não, seguindo a mesma lógica de sempre: naturalizar as opressões ("é só uma brincadeira").
** A Barraca do Tapa era uma tradicional barraca da festa junina da Poli. A ideia da barraca era que uma mulher pagasse para dar um tapa na cara de algum homem da barraca. Para incentivá-las a participar, os homens da barraca lançavam às mulheres que passavam expressões como "gorda nojenta", “preta fedida”, “puta”, dentre muitos outros termos, explicitando o caráter totalmente opressor da "brincadeira".

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

"FIZ CIRURGIA BARIÁTRICA E NÃO ESTOU BEM"

Relato da A.:

Primeiramente, gostaria de dizer o quanto admiro a sua luta no feminismo. E admiro mais ainda a sua humildade em rever seus conceitos e práticas e admitir que errou, como todos erramos muitas vezes, como vc fez no post "Praticamos nossos preconceitos contra quem?"
Vou deixar o meu relato, porque acredito que possa ajudar as pessoas que passaram ou pensam em passar pelo mesmo que eu passei.
Hoje eu tenho 23 anos e, há 8 meses, passei por uma cirurgia bariátrica.
Sempre fui gordinha. Venho de família italiana com mulheres muito obesas. Tenho só duas primas magras, consideradas as mais maravilhosas do mundo pela família, e sempre fui marginalizada e discriminada dentro da minha própria casa, comparada com essas primas e ridicularizada. Só os meus pais não tinham esse comportamento comigo e, por medo de me magoar, hoje vejo que foram até displicentes com a questão da minha obesidade.
Fato é que, aos 22 anos, depois de uma depressão severa e passando pela fase do TCC, cheguei aos 107 quilos. Para os meus 1,62m, estava MUITO acima do peso. Depois dos 17 anos, quando passei a viver sozinha em São Paulo, a obesidade deixou de ser uma grande questão pra mim, talvez por isso eu tenha engordado tanto. Hoje eu percebo que ainda era uma grande questão, mas que eu fazia questão de negar. Vivia bem, me aceitava bem, fingia não ouvir os xingamentos, não sentir o preconceito, mas isso só na superfície. Quando contei às minhas amigas que faria a cirurgia, elas ficaram chocadas e me dizem isso até hoje, porque elas me achavam a gordinha mais incrível do mundo, com a autoestima lá em cima, pegando os caras e etc. 
Bom, fiz a cirurgia e já eliminei 35 quilos, estou quase magra. Minha cirurgia correu muito bem, até os médicos ficaram impressionados. E eu estava muito ciente da minha decisão (demorei 2 anos pra decidir, de fato), então a cabeça estava boa. Passava bem, comia muito pouco e tranquilamente e não tinha grandes problemas. 
Fato é que, de dois meses pra cá, as coisas não estão tão tranquilas assim. Por fatores que ainda não sabemos se físicos ou psicológicos (grandes chances de que sejam psicológicos) passei a ter fortes dores sempre que como, nunca mais tive prazer em sentar pra comer, eliminei quase tudo do meu cardápio. Atualmente, a única coisa que me faz bem é sopa. Passei duas semanas sem comer praticamente nada. Andava emagrecendo 2 quilos por semana, desenvolvi uma anemia fortíssima e tenho que tomar remédio na veia por sete semanas, no hospital, mais injeções muito doloridas para tentar controlar. 
Na semana passada, por causa dos medicamentos, descobri que tinha ganhado 200 gramas, quase morri. Aí sim não queria comer. Sempre que alguém chega pra me fazer um elogio, respondo dizendo que "Não, imagina, ainda faltam 20 quilos". Dez extremamente desnecessários, segundo o meu médico. Meu maior medo é não atingir essa meta que eu mesma me impus, ser tachada como um fracasso por todo mundo, depois de ter feito tudo isso. Mas essa foi a única decisão na minha vida que eu tomei por mim, sem pensar em ninguém. Nesses últimos dias, tenho andado deprimida, a falta de comida faz abaixar as taxas de serotonina e todos os hormônios responsáveis por fazer com que a gente se sinta bem e feliz. Tenho um corpo ótimo, posso comprar todas as roupas que eu sempre quis e isso me deixa feliz.
Mas me entristece não poder apreciar um hambúrguer com os meus amigos no final de semana, me entristece vomitar no meio da rua por comer quatro macarrões e largar o prato todo na mesa, me entristecem as dores e a distorção que eu vejo no espelho. Meus amigos do interior vieram me visitar no final de semana e disseram que nunca me viram tão pra baixo. Isso é muito triste. Me entristece, principalmente, por ser feminista. Por passar a vida lutando contra o discurso machista dominante e no fim me ver tragada por ele. Me entristece continuar sendo tratada como lixo por homens machistas e por essa sociedade misógina.
No fim, o que eu queria dizer é que eu não me arrependo de ter tomado essa decisão por mim. Mas que nem tudo é mar de rosas. Queria dizer pra quem se sente bem com o seu corpo, sendo gordinha ou magrinha, que siga assim. Aos poucos, nós vamos quebrar esse paradigma. Nenhum direito de minoria é conquistado senão com muita luta e com muita lágrima, mas um dia vem.

Meus comentários: Querida A., acho que entendo o que você está sentindo. E creio que não é incomum com quem faz cirurgia de redução do estômago. Por um lado, é realmente muito tentador pra quem sempre foi gordx, pra quem já fez de tudo pra emagrecer, se submeter a uma cirurgia dessas e conseguir realmente perder peso. Por outro, toda a sua relação com a comida muda, e há riscos de óbito (entre 0,5% e 1%). Sem falar que há muitos casos em que a pessoa reganha o peso.
A última vez que fui ver minha gastro (que é muito boazinha, ao contrário da minha ginecologista; a gastro nunca me dá bronca ou faz previsões alarmistas), ela perguntou se eu gostaria de colocar uma banda gástrica (anel) durante uns seis meses. Eu respondi que não, que preferiria tentar emagrecer adotando hábitos mais saudáveis. Tenho o dobro da sua idade, A., e, infelizmente, agora a obesidade começou a pesar. Depois de décadas sem qualquer problema, agora estou com gordura no fígado, princípio de diabetes, e alguma restrição de mobilidade (subir e descer degraus de ônibus, por exemplo, é um sufoco). Esteticamente, já me acostumei a ser gorda. Mas tenho que emagrecer por causa da saúde. Sem neuroses, sem pressa. 
Tô tentando. Desde agosto, incorporei o tal suco verde a minha dieta. Todo dia eu faço um suco muito bom (maridão adora) no liquidificador, com montes de frutas e verduras. Não coo nem coloco açúcar ou adoçante. Pra quem não tomava café da manhã (meu caso), o suco está mudando meu pique. É uma refeição e me passa uma sensação de saciedade. Às vezes tenho uma recaída com chocolate (tipo essas duas últimas semanas), e ainda não estou me exercitando. Mas certamente me alimento melhor. 
Como não me peso, não tenho ideia se já emagreci ou não. O que me interessa é ver se minha taxa de glicose (que tinha passado pra 120 pela primeira vez na vida) baixou. Vou fazer novos exames de sangue em breve, e ficarei revoltadíssima se os índices não tiverem baixado. Putz, todo o chocolate que deixei de comer não causa alteração?
Enfim, euestou revoltada. Porque fui super saudável, apesar de gorda, durante grande parte da minha vida. E foi só ficar mais velhinha que, puf, surgiram vários problemas. O que eu queria era poder continuar comendo o que eu gosto, ser saudável como sempre fui, e viver até os 150 anos. Só! É pedir demais?
Boa sorte, A.! Não fique obcecada com seu peso. Ignore os homens machistas, e preocupe-se apenas com a sua saúde.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

PELO FIM DE TODAS AS VIOLÊNCIAS CONTRA A MULHER

Comecei este blog em janeiro de 2008. Já já completa sete anos de vida, uma infinidade em termos de internet. Logo de cara, escrevi um texto que fez muita gente se identificar. O nome era "Toda mulher tem uma história de horror pra contar". 
Claro, não era, nem é, toda mulher, porque não se deve generalizar, e não há toda mulher pra nada. Existem mulheres que tiveram o privilégio de nunca sofrer qualquer tipo de violência, mas convenhamos: é uma raridade. Quando criei essa frase forte do "toda mulher tem uma história de horror pra contar", estava pensando mais em violência sexual. Eu, como tantas mulheres, escapei por pouco de ter sido estuprada. Sei que não foi nada pessoal. Sei que não foi nada que eu fiz. Foi apenas por eu ser mulher. 
A primeira vez foi quando eu era uma menina de 12 ou 13 anos passando férias em Búzios com minha família. Eu estava num cinema improvisado pertinho da casa que alugávamos quando uma mulher simpática veio até mim e me apontou um senhor e disse que ele era muito rico e generoso e que, se eu saísse com ele, ele me presentearia com carro, casa, dinheiro... Só me dei conta da gravidade da situação ao chegar em casa, contar pro meu amado pai, e meu pai sair correndo, furioso, chamar a polícia, fazer um escândalo. 
Na outra vez eu já tinha 15 ou 16 anos e, também em Búzios, fui transar com um rapaz bonito mais ou menos da minha idade, numa casa vazia em que ele tinha a chave. Transamos. Ele se levantou, alguém voltou pra cama, tocou no meu braço, a pele fria. Eu vi um vulto no corredor e imediatamente perguntei, revoltada: "Quem é você?". Sem esperar a resposta, me levantei, peguei minhas roupas, me vesti no banheiro, e saí. Já não havia ninguém na casa, pelo menos não à vista. O carinha com quem transei achou que, se eu transava com ele, transaria com qualquer um, e por isso convidou o primo. 
Na terceira vez eu tinha 19 ou 20 anos, e resolvi ir ao cinema sozinha, à noite, em SP, porque ninguém queria ir comigo num dia da semana ver um filme de quatro horas, Era uma Vez na América (grande épico do Sergio Leone que, aliás, contém uma terrível cena de estupro). Dentro do cinema, na Praça Roosevelt, três homens, um de cada vez, vieram se sentar ao meu lado. Porque acharam que mulher sozinha é mulher disponível. Eu tive que mudar de lugar três vezes para que os marmanjos se convencessem que eu realmente havia ido ao cinema -- olha que incrível -- ver um filme. 
Mas tudo bem, vi o filme, peguei um ônibus, e desci na Av. Angélica. Eu morava em Higienópolis, bairro nobre de SP, na Rua Sergipe. Quando estava quase em frente ao meu prédio, fui agarrada por trás. Caí no chão. E me levantei rapidamente e fui com tudo pra cima do cara, que saiu correndo. E eu fui correndo atrás, gritando, indignada. Não o alcancei. Nem sei o que teria feito se o alcançasse. Contei pro meu pai, liguei pra polícia. Nada.
Na quarta vez eu tinha acabado de fazer 23 anos e estava em Fortaleza, fazendo pesquisa de mercado pro Ibope. Numa rara noite que saí com a única colega da equipe, fomos a um barzinho. Lá conversei com três rapazes, universitários de classe média. Uma conversa bacana sem a menor conotação sexual. Minha amiga ficou com alguém, e esses rapazes se ofereceram para me levar pro hotel onde eu estava hospedada. Aceitei. Era tarde, eu tinha que acordar cedo no dia seguinte, e eles eram legais. Só que eles, sem me consultar, pararam na garagem do prédio de um deles, e insistiram pra que eu subisse pra tomar alguma coisa. 
Tipo, eles viram que eu não bebo (papeamos um tempão no bar, e eu só tomando água sem gás), viram que eu não estava minimamente interessada neles, mas acharam que, pela carona, eu teria que participar de uma suruba. Não desci do carro, e disse calmamente que eu queria ir pro hotel. Eles insistiram muito que seria só por um tempinho. Diante de mais negativas minhas, eles inventaram que eu deveria subir pra pegar algo que um deles havia esquecido no apartamento. Eu disse que, se eles não me levassem pro hotel, eu iria sair do carro e pedir um táxi (era pré-celular). Eles finalmente me levaram pro hotel. E ficaram bravíssimos! 
Foram praticamente essas as minhas histórias de horror. Pouca coisa, se comparadas aos guest posts que publico aqui
E hoje recebo, em média, uma ameaça de morte, ou de estupro, ou de desmembramento, ou de tortura, por semana. Faz uns três anos. Não recebo essas ameaças por causa dos meus faiscantes olhos verdes. É só por ser mulher mesmo. E por ousar ter um blog feminista. 
E, como ironia trágica, esses mesmos energúmenos que me ameaçam toda semana ainda dizem que ninguém nunca iria me estuprar, porque eu -- que aprendi a me achar linda -- seria feia e gorda demais pra ser estuprada. Torturada e morta, tudo bem. Mas estupro, né, estupro é puro desejo sexual e não tem nada a ver com poder e humilhação, logo, apenas top models são estupradas, como estamos cansadas de saber
Não estou sozinha nas minhas (leves) histórias de horror. Uma em cada três mulheres no mundo experimenta ou já experimentou algum tipo de agressão física ou sexual de seu parceiro. Ou seja, uma em cada três mulheres é vítima de violência conjugal, segundo a Organização Mundial de Saúde. E essas mulheres são sortudas, jura a sociedade, porque elas têm um marido. Um homem que as protegerá... de outros homens. 
Hoje, 25 de novembro, é Dia Internacional pelo Fim da Violência Contra a Mulher. Muitas organizações promovem dezesseis dias de ativismo. Começa hoje e acaba lá pelo dia 10 de dezembro. A campanha, quero dizer. Porque a violência contra a mulher, infelizmente, ainda está muito longe de acabar. 
E há inúmeras formas de violência. Há os feminicídios, que matam em média, só no Brasil, quinze mulheres todos os dias. Há a violência doméstica. Há a violência obstétrica. Há a violência do aborto ilegal, clandestino, do Estado que deveria ser laico mas que se nega a reconhecer a autonomia do corpo feminino. Há a pornografia da revanche. Há a violência psicológica, a violência moral. Luto, lutamos, pelo fim de todas essas violências. 
Comecei o post falando do blog, e quero terminar falando dele também. Não sei se já contei isso aqui. O maridão é lindo e fantástico e maravilhoso, mas ele fica nervoso de vez em quando. Obviamente que ele só encosta em mim pra me dar carinho, ou não estaríamos juntos há 24 anos. Porém, no início do blog, às vezes, na sua falta de autocontrole, ele gritava comigo. E eu achava normal. 
Até que uma leitora, não lembro qual, porque são tantas, e todas tão especiais, comentou que gritar também era um tipo de violência. E eu concordei. Eu e o maridão conversamos, e ele aceitou que sim, gritar, levantar a voz, com raiva, era violência. E desde então, nunca mais ele gritou comigo.
Deve fazer uns seis anos.