segunda-feira, 29 de setembro de 2014

DOIS DEPOIMENTOS DO PAÍS QUE PROÍBE O ABORTO

Todos os dias, todos os direitos. Mural na Argentina

Ontem, 28 de setembro, foi Dia Latino-Americano e Caribenho pela Descriminalização e Legalização do Aborto. 
Uma data dessas é importante porque o aborto é legalizado na maior parte dos países do mundo, principalmente nos mais ricos, mas aqui na América Latina, Caribe e também na África -- justamente em continentes tão miseráveis, e tão religiosos --, as mulheres não têm direito sobre o próprio corpo. Brasileiro tem complexo de vira-lata, vive falando que "lá fora tudo é melhor", que aqui nada presta, mas na hora de copiar leis que funcionam no exterior (leis que não aumentam o número de abortos e que salvam a vida das mulheres que abortam), aí ele é contra. Mas só é contra até a hora que ele, ou sua esposa ou namorada, engravide sem querer
Publico hoje dois depoimentos recebidos este mês. São dois entre as dezenas de emails que recebo de mulheres desesperadas procurando ajuda para abortar. E eu me sinto muito mal por não poder ajudá-las. Eu me sinto muito mal por elas terem que se esconder, porque seriam vistas como criminosas, assassinas. Eu me sinto muito mal por várias não saírem vivas das clínicas clandestinas. 
Eu me sinto muito mal por religiosos e conservadores poderem julgar moralmente mulheres que eles sequer conhecem. E eu me sinto muito mal em viver num estado supostamente laico que se guia pela moral distorcida desses religiosos e conservadores. Moral distorcida por quê, você pode se perguntar. Porque considera que um embrião de algumas semanas ou um feto de alguns meses é infinitamente mais valioso que a mulher que o gera.
Hoje, se o aborto fosse legalizado, ele não mataria mulheres. Os "pró-vida enquanto o feto está no útero, depois apoiam a redução da maioridade penal" continuam colocando imagens de bebês de oito meses "abortados", sem a honestidade de dizer que a enorme maioria dos abortos acontece até os três primeiros meses ou que acontece sem cirurgia, só com remédio
Manifestação em SP "Somos todos
Uruguai", pela legalização da
maconha e do aborto
Seria maravilhoso se o Brasil fosse um modelo para a América Latina em matéria da liberdade das mulheres, como é o Uruguai. Quero um governo que tenha a coragem de legalizar o aborto. Enquanto isso, brasileiras seguem sofrendo e morrendo. Fiquem com esses dois relatos. 

Este, da A: 
Oi Lola, eu amo o seu blog, e hoje queria desabafar sobre algo que aconteceu comigo há dois anos. Queria explicar para algumas pessoas como é complexo o aborto e não tão preto no branco como acham.
Aconteceu assim: eu tinha um filho de um ano e na época, minha mãe tinha acabado de se separar, e eu estava desempregada com depressão em um relacionamento falido. Voltei para a casa da minha mãe para ajudá-la e aconteceu. Engravidei de novo. Lembro exatamente o dia que foi, porque não tínhamos relações sexuais frequentes, e lembro que não queria, e o pai do meu filho falou: "Cala a boca que quero desestressar do trabalho". Lógico que vão se perguntar como eu fiquei com um traste desses... Sei lá, ausência de autoestima, mais a depressão. Sabe o poço? Estava no fundo dele. 
E bem no início descobri a gravidez e começou o perrengue. Não queria aquele bebê, não tinha a menor condição financeira e principalmente emocional. O pai do meu filho ficou enrolando pra comprar o Cytotec. Tomei duas vezes [atenção: o Cytotec não deve ser tomado via oral; o comprimido deve ser colocado na vagina -- ou não] e nada aconteceu, então o desespero foi aumentando. Ele contou pra minha mãe e expliquei pra ela, sei que ela não concordava mas entendia os meus motivos. Já a solução da minha melhor amiga era eu dar a criança para outra pessoa. Tão simples, tão menos traumático... Até parece. Pode parecer egoísmo, mas é mais fácil lidar com o luto do que com o abandono. 
Até que fui na primeira clínica: era uma casa residencial, o médico com um cordão de ouro parecendo mafioso. Deitei. Ele balançou minha barriga e falou: não faço com esse tempo (eu não estava com 3 meses ainda). Eu lembro que coloquei minha roupa aos prantos, e tudo passava na minha cabeça, pensei até em me matar. Finalmente achei outra clínica. Essa mil vezes mais estruturada, com várias mulheres, cada uma com sua história, enfermeira no início de carreira, laqueadura do SUS que deu errado, falha de contraceptivo... Na fila, pensei: se der errado deve ser um sinal de Deus. Deus não veio.
Eu entrei na sala e fui sedada. Quando acordei, falaram: "Avisa quando você for operar que você se mexe muito mesmo com anestesia geral". Acho que era a culpa. Quando saí grogue, a mulher virou pra minha mãe e disse: "Não segura ela até chegar na esquina, tente sair o mais normal possível". Eu nem sei como não caí na rua. Cheguei em casa e minha mãe falou: "Queriam aumentar o preço, e mandei te tirar de lá, que eu dava um jeito de criar, não te chamaram?" Claro que não! Eles querem dinheiro, que se foda se você se arrependeu. 
Depois reparei que estava com uma marca de mão roxa no braço e outra mão na perna. Me seguraram na hora do aborto. E eu não lembro de nada. Só lembro que acordei chamando o meu filho. O pai do meu filho nem olhava pra minha cara.
Eu queria desabafar com alguém e nunca consegui. Minha mãe mudava de assunto e a amiga ficava calada. Passei uma semana chorando direto, um mês com aquelas marcas. Ninguém me acolheu, nem antes nem depois. Não ofereceram mais que o silêncio ou palavras de condenação. Ajuda? Nem sei o que é isso. 
Em dezembro ele(a) faria dois anos. Sempre penso no que aconteceu, choro escondida, quando vejo alguma matéria relacionada ao aborto lembro também. Não sei se o que fiz foi certo ou não, sei que do jeito que foi feito não foi. Se eu faria de novo? Claro que não. 
É uma marca eterna, mas defendo a legalização, nenhuma mulher merece passar pelo sofrimento que passei. Talvez se fosse legalizado, o trauma teria sido menor, ou se eu tivesse falado com algum psicólogo, eu teria desistido. Nunca vou saber. O conservadorismo não me deu essa oportunidade. 
Se eu espero o perdão de Deus? (que por acaso eu acredito). Não. Eu sei que ele sabe o que passei e o quanto sofri. Por enquanto tento me perdoar. E é isso, um assunto tão complexo não pode ser discutido com tanta superficialidade. De pré-julgamentos o mundo tá cheio. Obrigada por ler! Estou mais aliviada.

Este, da L.:
Me descobri feminista. Na faculdade, numa roda com outras colegas, nos descobrimos todas feministas e fundamos um coletivo. Como feminista, saí em marcha das vadias gritando pela legalização do aborto. Mas nunca pensei se eu mesma faria, só achava que as pessoas tinham o direito de escolher. 
Vim de uma família da classe trabalhadora. Meus pais faziam o impossível para que tivéssemos educação, e que diferente deles, pudesse ocupar uma vaga na universidade e "vencer na vida". E eu era a filha de ouro deles, enquanto adolescente ficava mais em casa que na rua e estudava muito. Porque queria uma federal. E foi com muita dificuldade e esforço que entrei numa universidade pública. Meus pais se desdobraram outra vez para me manter na faculdade, consegui uma bolsa, mas não custeava metade do que era necessário para me manter.
Quando me declarei feminista, descobri a liberdade sexual e tive dois parceiros na faculdade. Porém, há um mês descobri que estava grávida, estou na metade do curso. E não foi falta de cuidar, chegava a ser neurótica com métodos contraceptivos. E foi assim que descobri também que métodos contraceptivos falham. Camisa estoura e pílula do dia seguinte não resolve. Eu estava grávida e não tenho ideia de como lidar. 
O meu parceiro -- não tínhamos um relacionamento, éramos amigos que queriam transar -- havia acabado de iniciar um relacionamento com outra menina. E de imediato me disse que não queria um bebê, que iria atrás de médicos e clínicas. Mas ele não carregava nada em seu corpo, nenhum ser crescia sem consentimento dentro de seu ventre, então não se mostrou tão desesperado como eu. E foi assim que me deixou só procurando formas de interromper a gravidez. Eu não podia querer esse bebê, meus pais mal me sustentam e eu não trabalho, como poderia querer esse bebê?
Pesquisei na internet e descobri o aborto medicinal, com remédio, o método mais usado. Fui atrás e sendo um remédio proibido no Brasil caí em dois golpes. Tentei duas vezes e nenhuma funcionou. Fui atrás de clínicas pelo Brasil inteiro e não consegui nenhuma notícia. Eu ainda estou em busca, mas não tenho a menor ideia se será possível.
Ele não parece tão desesperado. Filho da classe média alta, tem a mãe apoiando que façamos o aborto porque não quer isso pro filho, mas juntamente com ele não encara isso como um problema dele, é um problema meu ter um feto dentro de mim. A vida dele provavelmente não vai mudar muito, por ele não faz muita diferença, porque embora ele disse que pretenda assumir -- agora que estamos sem saída -- não tem se mostrado muito presente. 
Eu tenho que lidar com o fato de que preciso sustentar a mim e uma criança, preciso conciliar isso com faculdade e um trabalho. Ele já abortou essa criança, eu tenho que lidar com o fato de que tenho um ser crescendo dentro de mim. Provavelmente vou ter que sair da república que moro, porque não dá pra dividir um bebê com outros jovens. E ainda preciso encarar meus pais e dizer que falhei. 
Eu queria querer esse bebê, queria poder amá-lo como fui amada por meus pais. Mas exatamente agora não consigo. Exatamente agora ele representa tudo que eu planejei pra minha vida e falhei. 
Se o aborto fosse legal no Brasil, eu provavelmente não estaria dormindo chorando todas as noites. Eu não estaria agora tendo que escolher entre a vida que queria seguir e a que terei que seguir. Infelizmente, por não conseguir um médico ou uma clínica, a opção que tenho é prosseguir com a gravidez. Eu achei que seria fácil interromper a gravidez, li tantos depoimentos sobre mulheres que embora pagaram muito caro, encerraram em uma clínica e com médico esse problema. 
Eu com 20 anos tenho que lidar com tudo isso. Quisera nós feministas termos alcançado essa conquista, quisera tantas mulheres não se sentirem como me sinto agora. Invadidas, sós. 

domingo, 28 de setembro de 2014

PRA MISÓGINO, FOTO ROUBADA É MAIS GOSTOSA

No post sobre as fotos íntimas vazadas de mulheres célebres (principalmente Jennifer Lawrence), muita gente deixou reflexões interessantes. 
O que faz um monte de misógino compartilhar orgulhosamente as fotos é que elas foram divulgadas contra a vontade da artista. Se as fotos fossem comerciais, se a artista tivesse recebido um cachê para posar pras câmeras, obviamente não haveria tanto interesse nas imagens. 
E vimos mais uma vez que esse tipo de comportamento (lembrando: tirar fotos nua não é crime; hackear e divulgar fotos sem o consentimento da pessoa retratada, é) serve como ameaça. Aconteceu com a Emma Watson: por seu discurso feminista na ONU, alguns misóginos ameaçaram espalhar fotos dela nua. 
Destaco três comentários:

Mallagueta Pepper: "Quando esse tipo de coisa acontece, vem um monte de homem com o mesmo mimimi de sempre. 'Ain, por que se deixou fotografar?' 'Ain, por que não teve mais cuidado?' 'Ain, por que foi confiar no sujeito?' 'Ain, mimimi, ain, mimimi...' Pois é. Agora, quando ELES são tratados com desconfiança e cautela, fazem aquele drama. 'Ain, eu não sou assim!' 'Ain, você não pode generalizar!' 'Ain, nem todo homem é cafajeste e estuprador!' 'Ain, eu sou um homem bonzinho!' 
Tipo assim, nós só podemos desconfiar dos OUTROS homens, não deles que se acham santos, puros e perfeitos. Eles não aceitam ser tratados com essa desconfiança e não querem ser vistos como estupradores em potencial. Mas ao mesmo tempo falam que a mulher é quem deve tomar cuidado e não confiar em qualquer um. Aham. Muito interessante essa lógica. Depois falam que as feministas é que são confusas e contraditórias."


Kah: "O mundo chegou num nível em que as pessoas se acham no direito de reclamar da qualidade das fotos! Não vi as fotos, mas os comentários estão de perder a fé na humanidade. Além de algumas pessoas se acharem no direito de verem as fotos DELA, reclamam da qualidade! O que tem de comentário reclamando que ela não usou maquiagem para tirar as fotos ou que a lingerie não era sexy o suficiente ou que o cabelo não estava sei lá o quê."


Patty: "Eu acho que é misoginia mesmo. Esses caras acham divertido ver as fotos e vídeos POR saber que a vítima não deseja isso. É a coisa do voyeur, o fetiche de ver uma mulher nua que não se despiu para eles. Qualquer mulher cujas fotos são expostas contra a vontade gera essa curiosidade cruel. Não tem nada a ver com fama. 
Até hoje tem gente que chega a meu blog procurando foto da Karina Veiga, e ela não era uma pessoa famosa. Outro fator é o desejo de punir uma mulher cuja sexualidade não está regulada dentro dos padrões. É só ver os comentários dizendo que as mulheres merecem que as fotos sejam expostas porque tiraram as fotos. É o raciocínio de estuprar a mulher com roupa curta."

sábado, 27 de setembro de 2014

GUEST POST: BELEZA NÃO TRAZ FELICIDADE

Recebi este relato da L.:

Oi Lola, primeiramente eu gostaria de dizer que seu blog é perfeito, me considero feminista há mais ou mesmos 3 anos, e seu blog me ajudou demais a ver o quanto eu estava errada em alguns assuntos. Gostaria de contar meu relato.
Já começo dizendo a que vim: beleza não traz felicidade. Eu sei de exemplos de modelos, atrizes, cantoras que mesmo sendo O padrão, estão tristes e deprimidas, mas eu sou uma mulher real, de classe média, que "consegui atingir a beleza". Pelo menos isso que me fizeram acreditar. 
Bem, minha infância foi normal, era uma menina comum com amigos, até que tive um surto de crescimento, e aos 10 anos já tinha peito, cintura, 1,50 e quebrados de altura. Também espinhas, e engordei um tantinho suficiente para me desesperar, não cheguei a sofrer bullying, mas fui criticada, como se meu corpo desenvolvido fosse culpa minha, e que as cantadas nojentas que eu ouvia de homens adultos fossem culpa minha também. Eu desejava ser magra como as meninas do Rebelde (que eu assistia assiduamente). Lá as meninas magras eram AS top, tinham tudo: meninos, felicidade, riqueza. A única menina obesa da história era diariamente humilhada, e no final ela encontra a aprovação e um homem e tudo fica bem outra vez.
Pulando alguns anos, agora tinha 13, meu crescimento estava estabilizado. Eu me apaixonei, normal, mas isso acabou com a minha auto-confiança até hoje: o menino não gostava de mim, me achava feia, fazia questão de falar isso sempre, mesmo os outros muitas vezes desaprovando a atitude dele comigo. Lembro-me de uma vez um menino que antes era um bully, mas tinha mudado, e ficou um menino legal e meu amigo, ele vivia me dizendo: "L., você é tão linda e inteligente, não merece sofrer assim". Mas eu não acreditava, achava que se eu fosse mais magra ele ia se apaixonar por mim, conclusão: mudei o cabelo, emagreci mais, passei a me maquiar. Consegui a aprovação de todos, menos dele, o que me destruiu na época; afinal, pra adolescente tudo é elevado a 1000. O ano acabou e ele saiu da escola e meu amor foi aos poucos diminuindo, mas as marcas ficaram.
Como moda é uma coisa que eu amo, me tornei a menina mais estilosa das minhas amigas. Tinha orgulho disso, minha beleza ia desabrochando, logo do nada a patinha feia era a linda, estilosa popular, eu tava nas nuvens, tinha até seguidoras. Mas eu não estava satisfeita ainda, eu ainda era a mesma menina insegura, só que em outra casca.
Fiquei extremamente autocrítica, em público vestia uma máscara de descolada, mas em casa ficava horas me olhando no espelho procurando defeitos em mim, sempre me colocava (e ainda me coloco) para baixo, sempre desisto das coisas.
Nunca tive um namorado, sou virgem, não porque eu quero mas porque não consigo um homem, não que isso seja o resumo da minha vida, mas eu adoraria ter um namorado que gostasse de mim. Fico aqui e ali mas não passa disso, sou dessas meninas que quando me apaixono, não consigo dizer, fico travada perto da pessoa. Fico passiva esperando o menino chegar em mim, mas nunca dá em nada, estou até a fim de um menino desde o começo do ano, ele sempre me elogia, me chama de gata, mas não gosta de mim, e eu não consigo ser eu mesma. Eu morro de medo de passar pela humilhação que eu passei aos 13 anos, cara, eu já tenho 18 anos e já devia ter superado, mas não superei.
Sempre fui meio que a líder das minhas amigas, e elas me veneram. Tenho amigas que estão no padrão como eu, até mais do que eu, e elas são mega felizes; tenho umas que não estão tão no padrão assim e são muito mais felizes do que eu, namoram, riem, transam... e eu fico lá sozinha sempre. Nunca dou o braço a torcer, minto dizendo que não namoro porque EU não quero, quero curtir a vida, entrar para a faculdade, depois pensar nisso, e elas acreditam, então me comporto como tal, vivo de aparência. 
Vivo escutando delas o quão diva eu sou, queria conseguir dizer que isso é fachada e elas são muito melhores do que eu. Às vezes elas dizem que tem inveja de mim, mas eu que invejo a felicidade delas, os relacionamentos, as transas, queria conseguir me libertar e viver isso também. Certa vez conheci uma menina num show de rock, muito legal, e muito linda, ficamos amigas, ela é gorda, e uma vez ela disse que morreria para ser como eu. Aí eu falei que não era assim, que todos temos a nossa beleza, e que ela vem em vários tamanhos, ela disse que para mim é fácil falar, pois estou no padrão.
Ano passado, com a correria do último ano da escola, comecei a comer demais. Meu peso normal sempre fica nos 50 kg no máximo, e tenho 1,64 de altura, mas eu cheguei aos 55 kg, fiquei desesperada. Sei que 55 kg ainda é magra, mas com minha insegurança, achava que logo estaria com 200 kg, decidi cortar TUDO que fosse calórico. 
Logo eu voltei ao meu peso, mas eu sentia falta das guloseimas, quando um dia catei um biscoito e coloquei na boca foi divino, mas antes de engolir veio a culpa, e eu cuspi o biscoito, até que eu fiz isso no biscoito inteiro, mastigava e cuspia. Faço isso até hoje, não chega a ser um transtorno alimentar, pois eu como normalmente, mas durante a semana compro biscoito e chocolate, mastigo e cuspo no banheiro, assim eu me mantenho magra, e fico com o prazer de comer. Eu sei que é um comportamento estranho, mas sinceramente é uma alegria para mim não precisar mais evitar os alimentos que eu amo.
Lola, de verdade, eu gostaria de poder berrar a todas as mulheres do mundo que beleza não traz felicidade, que ela não faz a pessoa nem melhor nem pior do que ninguém. Charme, inteligência, bondade, auto-confiança, isso vem de dentro, e não de roupas bonitas tamanho 36. No mundo real a beleza está no espírito, a mídia diz o tempo todo que a beleza está nos cabelos lisos e na barriga sequinha, mas não está, a maioria as mulheres não têm isso e estão felizes e realizadas.

Meus comentários: L., obrigada pelo carinho, mas tome cuidado. Você fala demais em peso, e isso de comer doces e cuspi-los pode sim ser o início de um transtorno alimentar como a bulimia. Quem sou eu pra dar conselhos sobre comida pra alguém? Mas o ideal seria que você comesse os doces moderadamente, sem culpa. Não creio que alguns biscoitos por dia farão você engordar.
Sei que algumas leitoras e leitores vão te criticar, porque você é muito jovem e ainda não aprendeu a lidar com a rejeição. Sabe, acho que todo mundo, sem exceção, já gostou de alguém que não lhe deu bola, ou que nem sabia que a gente existia. Faz parte das nossas experiências, ainda mais quando a gente tem 13 ou 18 anos. 
E claro que a rejeição mexe com a gente, mas é besteira permitir que ela nos defina. Que só porque aquele carinha não me quis, nenhum vai me querer. Sei que o que você passou aos 13 anos tá fresquinho na sua mente (afinal, foi só cinco anos atrás), mas acredite: quando você chegar aos 25, amadurecer, tiver outras experiências, esse menino que te rejeitou será apenas uma vaga memória. E quando você chegar a minha idade (47), você nem vai se lembrar que ele existiu. Ou talvez eu que tenha amnésia. 
Então fale com os rapazes, dê em cima daqueles que você estiver a fim, e não se preocupe tanto se vai ou não terminar em namoro. Deixe rolar. E não faça nada que você não queira. Não se deixe pressionar. Tá cheio de gente que nunca namorou e é virgem aos 18, 20, 25, 30 anos... Não tem nada de errado nisso. O ruim é travar quando você tá perto de alguém. Tente não se preocupar tanto se você vai agradar. Muitas vezes é isso que nos faz travar -- essa preocupação excessiva em saber se você está agradando, o que ele ou ela está achando de você. 
Tente focar em você: o que você está achando daquela pessoa, daquela interação com ela?
E sobre beleza não trazer felicidade, é mais comum felicidade trazer beleza.