sábado, 23 de agosto de 2014

GUEST POST: O FEMINISMO ME MOSTROU QUE SOU VÍTIMA CONSTANTE DA VIOLÊNCIA

Relato da L.:

Bom, o primeiro abuso do qual me lembro foi quando eu tinha uns 3 anos. Estava na casa da minha avó e fui pra varanda fazer algo da qual eu não me lembro, meu tio-avô (hoje já falecido) estava sentado em uma cadeira e me chamou pra sentar em seu colo e eu fui. Eu estava de saia e ele começou a me acariciar por cima da calcinha, achei aquilo muito esquisito e sabia que não era certo... porém não sabia muito o que fazer, uma vez que aquilo não me causava dor, além do mais fica aquela confusão "ele é meu tio, então não me faria mal".
Só fui admitir pra mim que havia sido abusada com uns 13 anos.
No segundo abuso do qual me lembro eu tinha uns 5 ou 6 anos. Estava doente e minha mãe me levou ao pediatra. Eu estava só de calcinha e ele estava me examinando (com minha mãe na sala), mas o consultório dele era no 2o andar e a recepção era no 1o. Minha mãe desceu rapidamente pra fazer algo e nesse meio tempo ele abaixou minha calcinha e me acariciou.
Fato que relatei imediatamente à minha mãe, então ela soube que já haviam três queixas contra ele (como ele continuava exercendo?). Ela o confrontou e ele negou. Minha mãe me diz que preferiu não levar a situação adiante pra não me expor (hoje me pergunto se ela não tinha medo dos julgamentos, por ter me deixado sozinha na sala).
O 3o abuso do qual me lembro eu tinha 13 e estava na 7a série, o professor de informática cismava em ter uns contatos que  eu achava abusivos, beijo no rosto, toques que eu achava inapropriados. 
Os outros abusos foram os clássicos de todas as mulheres: passadas de mão por parte de desconhecidos nas ruas, cantadas agressivas. Ano passado um homem se masturbou ao meu lado no ônibus e me encarando ainda por cima, me senti muito indignada e impotente. E se ele me agredisse fisicamente caso eu gritasse? Ele estava bem de pé ao meu lado (eu estava sentada), de forma que o pênis dele estava próximo ao meu rosto.
Na cara de pau ele enfiou a mão por dentro da calça (daqueles materiais tipo nylon) e começou a se masturbar. O máximo que fiz foi pedir ao senhor que estava do meu lado pra trocar de lugar, expliquei a situação e o velhinho, coitado, ficou todo constrangido e indignado.
Cheguei em casa e chorei. O pior foi ter que ouvir meu namorado na época perguntando "Você gostou?". 
Esse mesmo ex-namorado inclusive já me agrediu no meio da rua, ele estava bêbado e um porre, querendo chamar atenção. Diante da minha negativa quando pediu um beijo, ele me agarrou à força de frente pra ele, eu estava com uma saia curta, e como ele é bem mais alto que eu enquanto ele me agarrava ele meio que me suspendia e assim minha saia levantava, mostrando minha bunda. Bem atrás da gente tinha um bar lotado, então eu falei "Cara, além de vc estar me machucando as pessoas estão vendo minha bunda", e ele me respondeu "foda-se". 
Tive que beijá-lo mesmo forçada e assim ele me soltou e fomos andando pra casa. Quando chegamos exatamente em frente ao bar ao qual me referi ele apontou o dedo bem no meu rosto o empurrando e falou "Nunca mais me trate do jeito como vc estava me tratando, porra!" (por eu não querer beijá-lo quando estava bêbado), todo mundo olhando, me senti um lixo. Chegando em frente de casa ele não me permitia entrar, segurava meu braço muito forte (fiquei com marcas roxas). Comecei a chorar de medo dele me bater, medo do meu pai ver e rolar uma tragédia.
Ele me chamava de ridícula, dizia que eu estava me fazendo de vítima. Só me soltou quando ameacei gritar. Entrei pro quarto e ele foi atrás de mim, quando eu disse que ele era um babaca e que eu contaria pra todo mundo o que ele havia feito ele me empurrou e eu bati contra a parede. Só aí gritei pelo meu irmão que foi pra cima dele com tudo, felizmente não rolou mais nada, ele pediu desculpas ao meu irmão e tal.
Se eu fosse contar todos os abusos que sofri na vida apenas por ser mulher ficaria aqui por horas. Engraçado que nunca fiz o tipo de mulher delicada e que abaixa a cabeça, mas é extremamente difícil reagir nessas situações... inclusive por isso me sentia mais envergonhada. Apenas recentemente descobri que todos esses casos pelos quais passei tinham origem na mesma coisa, graças a esse blog inclusive.
Fico pensando em quantas mulheres não se sentem culpadas por esse tipo de coisa. Eu mesma me culpei por um tempo antes de entender. Eu pensava "não é possível que esse tanto de coisa já tenha acontecido comigo, será que eu faço alguma coisa que desperte isso nos homens?". O feminismo me fez entender que a culpa não era e não é minha. Durante muito tempo (até uns 15 anos ) fiquei com medo de homens. Eu já até namorava, mas quando minha mãe mandava eu ir à rua pra comprar algo eu detestava ir sozinha porque sabia que ia ser assediada. Entrar em birosca pra comprar refrigerante então era um pesadelo, pois esses lugares normalmente ficam abarrotados de homens bêbados.
O pior é que quando eu falava pra minha mãe "Ah não vou não, lá tem muito homem", ela me mandava parar de besteira. Mas não era besteira, ao longo da minha vida fui assediada moral e sexualmente apenas por homens. O pior é que isso me traz problemas sexuais. Comecei a namorar meu atual namorado há quatro meses e me gabava pra esse meu namorado que eu raramente negava sexo pros meus ex namorados, como se isso fosse louvável! Durante esse meu namoro com ele comecei a negar e isso começou a me angustiar. Até que percebi que não negava sexo pros meus ex namorados simplesmente porque pensava que aquilo fosse minha obrigação. Não negava, mas fazia sem vontade. E só agora que aprendi a dizer não, admiti isso pra mim.
Engraçado ver que nenhum dos meus agressores eram pessoas de todo ruins. São sujeitos considerados normais pela sociedade. Ontem vi uma estatística na qual se dizia que uma entre cada duas mulheres já sofreu agressões apenas por serem mulheres. Pensei "impossível", pois acho que duas entre duas mulheres já passaram por essas situações, elas apenas não sabem ou não admitem que foram agredidas.
O feminismo clareou minhas ideias quanto a isso tudo, me mostrou que não sou única. Serei feminista enquanto não puder sair às ruas sem ser agredida.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

PRIMEIRO POST SOBRE AS ELEIÇÕES 2014

Pessoas queridas, estou sem tempo e com um pouquinho de preguiça (mais sem tempo mesmo!) para escrever um post hoje, mas sei que estou devendo um texto sobre as eleições 2014. 
Felizmente, alguém que não conheço fez uma excelente página no Facebook chamada "Vote numa feminista", que divulga e apoia candidatas feministas para os cargos de deputada estadual e federal. Como a enorme maioria de feministas é de esquerda, seus partidos também são de esquerda. Tenho recebido alguns textos de candidatas feministas, e planejo publicá-los em breve. A gente está cansada de saber que é essencial aumentar o número de mulheres no Congresso (que hoje não chega nem a 10%). 
Eu já votei muito em homem e tem um monte de candidato homem em que eu votaria sem pestanejar. Mas não dá mais. Hoje, pra cargos legislativos, só voto em mulher. E, óbvio, mulher de esquerda, feminista. Nunca votaria em alguém só por ela ser mulher, mas é inaceitável que nossa representatividade seja tão baixa. Então, como feminista, um dos meus critérios para a escolha de candidatas é que seja mulher, de um partido de esquerda, e que tenha uma agenda feminista. 
Quando, quem sabe, um dia alcançarmos 50% das cadeiras no Congresso (será que veremos isso durante as nossas vidas?), eu posso voltar a votar em homem. Até lá, só mulher (cis e trans, claro). Um dos problemas é que muitos estados sequer tem candidata mulher pro senado...
Pra cargos executivos, eu voto no partido, não na pessoa. Porque um governador ou presidentx não vai governar só. Inclusive, terá que fazer muitas alianças (a maior parte indesejáveis). Quem não faz aliança, não governa. Aliás, nem consegue chegar ao poder. 
Teremos uma disputa presidencial dura e concorrida. Sempre acreditei que haveria segundo turno. É besteira pensar que não: se Lula que é Lula (ou seja, o político mais carismático e comunicativo que o Brasil já teve, um ícone) precisou de dois turnos pra ser eleito e reeleito, por que Dilma que é Dilma (sem carisma algum, convenhamos) conseguiria se reeleger no primeiro turno? Não conseguiria antes, quando concorria principalmente com Aécio e Eduardo Campos, e não conseguirá agora.
Marina já entrou na disputa com o dobro das intenções de voto de Campos. Tem quem ache que os 21% da primeira pesquisa são por causa da comoção com a morte do seu parceiro de chapa. Eu não acho. Acho que ela só tende a crescer. Minha intuição, que não vale grande coisa, me diz que o segundo turno será entre Marina e Dilma. Ainda acho que Dilma ganha, mas Marina será uma adversária muito mais difícil que Aécio (Lula também acha; e pros que pensam que haverá segundo turno entre Marina e Aécio, é muito wishful thinking).
Não vou ser capaz de encontrar o gráfico agora, mas nunca um candidato que esteve na faixa dos 20 a 25% em julho (quatro meses antes do pleito) conseguiu vencer no segundo turno e se eleger presidente. Ok, nunca diga nunca: aconteceu uma vez, em 93. Lula liderava as pesquisas com 38% dos votos (mesmo patamar de Dilma em julho), seguido por FHC, com 23%. E, como todos sabem, FHC levou aquela eleição. Mas o que aconteceu para que o quadro se alterasse tão drasticamente? Simples: o Plano Real. Duvido que tenhamos uma reviravolta como aquela. Se Aécio chegar ao segundo turno, ele -- que tinha 23% em julho, e tem menos ainda em agosto -- perde. 
Eduardo Campos em SC comemora
filiação de Bornhausen ao PSB
Minha opinião sobre Marina é mais ou menos a mesma que em 2010. Não a considero um Collor da vida, uma incógnita, como foi o candidato do minúsculo PRN em 89. O PSB é um partido sério (embora eu tenha descoberto recentemente, embasbacada, que os coronéis de SC, os Bornhausen, estão agora concorrendo pelo partido socialista!). 
Admiro bastante a Marina como pessoa. Mas não confio (ou não conheço) suas propostas. Concordo muito com este artigo, que diz: "Marina é mais forte eleitoralmente quanto mais difusa for. Marina é forte quando é um espectro". Quanto menos se souber de Marina, melhor pra quem vota nela.
Mas Marina não é a mesma de 2010. Hoje ela tem um eleitorado consolidado e é vista pela população como uma alternativa ao confronto bipartidário entre PT e PSDB, uma autêntica terceira via. E, pra dificultar a vida da situação, o problema é que Dilma não é a mesma de 2010. Quatro anos atrás, havia entusiasmo em eleger a primeira presidenta. Hoje...
Luciana Genro, do PSOL, é uma opção para quem quer fazer um voto de protesto, mas não é uma opção com qualquer chance de vitória. Quem vota nela precisa começar a pensar em quem vai votar no final de outubro: Dilma ou Marina (ou, cada vez mais zebra, Dilma ou Aécio)? 
Luciana publicou esta semana um texto interessante, dizendo que Marina é a segunda via do PSDB. Concordo com tudo que ela disse, exceto esta parte: "Não que a direita não aceite Dilma. Ela conviveu muito bem com Lula e com Dilma". Ahn, por mais que a direita não tenha nenhum amor por partidos de extrema esquerda, como PSTU e PSOL, não há nada que a direita odeie mais que o PT. Se a direita "aceitasse" tão bem o PT, não estaria desesperada para tirá-lo do poder. Há onze anos.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

GUEST POST: ESTOU BEM COM MEU CORPO

A L. me enviou este relato:

Lola, querida, obrigada por fazer este blog maravilhoso! Lendo alguns posts sobre gordofobia e aceitação do corpo, não pude deixar de me manifestar, já que me identifiquei muito. Se você sentir que é uma boa história e que vai ajudar outras meninas a lidarem bem com o próprio corpo, publique no blog, só que de forma anônima...
Sempre estive pelo menos sete quilos acima do peso "ideal" para minha altura, sempre fui gordinha e por muito tempo não lidei bem com isso. O de sempre -- usei roupas largas para me esconder, evitei comer em público, evitei me relacionar com homens. Sei o tanto que é ruim ser complexada com seu próprio corpo.
Mas agora não acredito mais que seja um problema -- e acho que uma das coisas que me ajudaram a lidar bem com isso foi seu blog. Olha, sempre, sempre estive acima do peso, MAS sempre fui completamente viciada em exercícios físicos. Mês passado fiz uma pequena cirurgia para tirar um cisto e tive que ficar quinze dias sem me exercitar -- quase pirei. Fico deprê, não consigo dormir nem estudar e tive a TPM mais absurda da minha vida. Quando pude voltar a correr, senti nos primeiros quinze minutos aquela maravilhosa onda de endorfina que o exercício propicia, e dormi a melhor noite de sono do mês.
Por muito tempo nadei, e também fiz academia, pilates, localizada... A academia me irritava muito. Os instrutores, em vez de me encorajarem, sempre me desacreditavam, como se pelo fato de eu ser gordinha, eu nem devia estar ali. E eu era uma das pessoas mais frequentes da academia!
Mas meu peso nunca foi de mudar muito: perdia seis quilos, depois recuperava três, mesmo me matando de malhar e fazendo dietas péssimas. Depois, percebi que meu corpo era assim mesmo e desencanei de perder peso. Faz já uns cinco anos que eu corro por prazer, estou treinando com uns amigos para fazer meia maratona. Correr é uma terapia para mim, apesar de eu ser meio lerda, continuo persistindo e tentando melhorar.
Há uns dois anos eu estava fazendo pilates, natação e musculação com a corrida, mas estava meio enjoada, achando pouco exercício e querendo explodir a academia. Me sugeriram que eu fizesse Krav Magá, uma luta de defesa pessoal. Uma moça postou umas dicas ótimas de Krav Magá aí no blog, achei super válido. O Krav Magá é uma atividade muito igualitária: contempla adultos, crianças, idosos, homens, mulheres (muito popular entre as mulheres) com todo tipo de corpo, altura e peso. 
O Krav Magá é completo e não quer te deixar "saradx", ou com um corpo esteticamente "perfeito". Como diz meu professor, lá a gente não faz abdominal para ficar com barriga de tanquinho, mas para levantar bem rápido quando cai no chão, e a gente não faz flexão para ficar com o braço malhado, mas para fortalecer o corpo. Diz também que a gente deve alcançar nossos limites e respeitá-los, e como qualquer um, independente do sexo e da idade (infelizmente, principalmente mulheres e homossexuais -- estes são os relatos mais frequentes de agressão), jamais deve aceitar alguma agressão física ou moral. 
Todos os anos, eles oferecem um minicurso simples e prático de defesa pessoal para mulheres, conscientes dos frequentes casos de agressão. Acho importante -- praticamente obriguei minhas amigas a fazerem, coitadas. Mas agora elas sabem o que fazer se algum cara puxa o cabelo delas na balada ou numa tentativa de estupro.
O pilates também é um exercício assim, que ajuda o corpo a funcionar melhor, mas não é tão pesado quanto o Krav Magá.
Enfim, com o exercício pesado é impossível não emagrecer. Mas perdi somente uns quatro quilos em dois anos de Krav magá, apesar do meu corpo ter se fortalecido e minha autoestima ter melhorado muito. Mas meu corpo não mudou tanto. Minha bunda, que já era enorme, aumentou, minha coxa engrossou e minha barriga só perdeu um pouco de gordura, mas além de perder um pouco de celulite, não mudou muito. 
O importante é: estou me sentindo muito bem com esse corpo que consegue fazer quarenta flexões. Este corpo que vai saber reagir se alguém tentar me agredir. Este corpo que tem níveis normais de colesterol e está super em dia consigo mesmo.
O que estou dizendo é -- para mim não é mais importante ser magra ou pesar o "ideal" ou caber numa calça 38, nada disso vale muito no final. O legal é você ficar bem com seu corpo e com sua mente, se divertir com seu corpo, se orgulhar dele. Os benefícios são apenas uma consequência.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

UM MASCU FELIZ NO CASAMENTO

"Mulheres que vencem são mulheres obedientes", jura esta igreja. A esposa do mascu abaixo é uma dessas "vencedoras"

Relato mascu (tudo sic), tirado recentemente de um fórum deles: 
"Sou casado e sou feliz casado. Em minha opinião, acho muito importante convencer a esposa (e, mais importante ainda, convencer a si mesmo) de que não precisa estar casado. Deve-se estar casado porque quer. O popular desapego.
Eu mostro que não preciso dela, faço boa parte das tarefas domésticas, saio com os amigos para tomar cerveja, jogar bola, paintball, viajo sozinho de vez em quando para mergulhar e ano passado fui escalar uma montanha no equador só com amigos.
Creio que seja importante ter uma vida própria.
Eu também não traio, mas GPs [garotas de programa] eu nunca abandonei (não considero traição, em minha opinião, é um 'pornô interativo').
Mas eu gosto da vida de casado. Minha esposa é bastante companheira, me ajuda muito, gosta de videogame, ajuda nas contas (apesar de eu ganhar duas vezes o que ela ganha), não é de gastar e nunca foi de balada.
Eu acho que a Real no casamento consiste em não deixar a esposa acreditar que tem tudo sob controle. Não deixar ela engordar, te prender em casa, ficar fazendo compras com tua grana. Graças a deus comigo isso não acontece. Aliás, graças à real eu acho."

Meu comentário: Ao contrário dos fóruns mascus nos EUA, em que boa parte dos membros é mais velha e divorciada (muitos se tornam misóginos após a separação), os mascus brazucas, apesar de não serem adolescentes (calculo sua média de idade em 25 anos), são, em sua grande maioria, solteiros (e moram com os pais). Nas raríssimas vezes em que aparece algum mascu casado e conta como é sua relação, tudo que eu consigo pensar é: "Alguém salve a esposa desse ser!"
Em geral, os mascus acham que, ao adotar um modelo machista e patriarcal de vida, descobriram a pólvora. No que esse relato é diferente da vida de um homem de classe média nos anos 1950? Ok, tirando paintball e videogame, que eu acho que não existiam. E tem duas outras diferenças também: ele fazer "boa parte das tarefas domésticas" (não porque ele acha que é seu dever, longe disso, mas pra mostrar que não precisa da mulher), e ela trabalhar fora. 
De resto, a mentalidade é igual: é importante que o homem tenha sua vida própria, uma vida não doméstica, longe do casamento. Agora, imagina se a esposa dele tiver uma vida própria? Pelo jeito, ela não pode tomar cerveja com amigas (e amigos, pode ter amigos?), nem jogar bola (a sociedade toda é estruturada pra que mulher só pratique exercícios físicos, não atividades esportivas que fomentem amizades). Imagina ela viajar sozinha, o escândalo que seria? E se ela procurasse garotos de programa, tudo bem também? Afinal, é só um "pornô interativo", não é traição. 
O companheirismo é o mais importante, certo? Eu nunca me esqueço do que li num blog mascu, anos atrás, sobre a fantasia que um deles tinha acerca da namorada perfeita: uma gatona que, quando não estivesse fazendo sexo ou limpando a casa, assistisse partidas de futebol e jogasse videogame com ele. Mas, pra apimentar a relação, ela deveria se fantasiar de macaca, jogar pedrinhas na janela dele, à noite, e juntos os dois (ambos vestidos de macacos) sairiam pra assustar pessoas. Viram como é fácil agradar um homem? E a mulherada reclama!
O maior esforço que o mascu tem nesse casamento relatado acima é não deixar que a esposa engorde. Desse jeito, deve ser fácil gostar da vida de casado. Queria ouvir a opinião dela, que provavelmente tem que ficar trancada em casa enquanto o marido -- que a lembra constantemente que não precisa estar casado -- vai brincar de paintball e escalar montanhas. 
Isso quando ele não está ocupado demais saindo com garotas de programa. Com sorte, elas exigem que ele use camisinha. Mas duvido que a esposa, aquela vencedora obediente, faça essa exigência. 

terça-feira, 19 de agosto de 2014

GUEST POST: MEUS PROBLEMAS POR SER GAY

O L. me enviou este relato gigantesco. Tentei cortar algumas partes e não consegui. 
Só cortei o final, porque quis transformar isso num final feliz (ele ainda narrava alguns problemas com depressão depois do final que escolhi). Eu não costumo manipular textos assim, decidir quando terminar, mas neste caso, eu insisto: quero um final feliz pro L. Um final que é apenas um começo para que ele possa realizar todos os seus sonhos. 
(A pedidos, incluí na caixa de comentários o final do relato do L.).

Eu não sei se estou certo em escrever isso para você, pois você é uma escritora feminista e o seu blog é sobre o feminismo. No entanto eu meio que sinto que a minha história e o que tenho para dizer tenha um pouco de feminismo. Talvez possa ajudar alguém ou eu possa ser ajudado.
Fui um bebê prematuro. Por esta razão tive muitas complicações na minha infância que não me permitiram que eu fosse muito ativo ou tivesse muitos amigos. Passei por algumas cirurgias cardíacas e meus problemas foram resolvidos. Meu pai dizia que eu tinha nascido velho. Entrei meio atrasado na escola, mas fui uma daquelas crianças que aprendeu a ler e escrever em casa com a mãe e por isso fui encaixado com as crianças da minha da idade. Eu era bastante tímido e inocente e foi mais ou menos nessa época que eu percebi que eu era “diferente”. Eu era bastante “feminino”, entre aspas para destacar que para mim feminino e masculino são imposições sociais de comportamento que certo gênero deve ter. 
Acho que a situação mais crítica que encontrei foi quando achei uma boneca e comecei a cuidar dela, quando alguns amigos da rua me encontraram brincando eu fui ridicularizado, muito além do que já era. Para me “redimir” me forçaram a destruir a boneca. Eu percebia que eu gostava mais das “coisas de menina” do que de menino.
As pessoas foram tentando me mudar, retirando de mim as coisas que eu gostava. Houve bullying, brigas de família, gente dizendo que eu era gay a torto e a direito. Eles tinham razão: eu sou gay. Não estou dizendo que todo garoto “afeminado” é gay, sei que é apenas mais uma imposição dos papéis de gênero. 
Quando tinha 11 anos e mudei de cidade e escola ficou óbvio para mim mesmo a minha sexualidade. Eu tinha me apaixonado por um garoto na escola. Amor platônico por um menino que sequer olhava para mim. Eu então comecei a entrar conflito comigo mesmo. Mas não era porque eu não me sentia confortável sendo afeminado e gay, era porque eu já era inteligente e consciente o bastante para saber todas as consequências que isso iria ter na vida das pessoas a minha volta. 
Sabendo tudo o que a minha família e os meus pais tinham feito por mim ao longo da minha vida era muito difícil aceitar que eu não iria ser “homem”, que eu não iria dar netos para os meus pais e que eu iria ver as pessoas olharem para mim de uma maneira pior do que elas já me percebiam. Eu comecei a pensar em suicídio constantemente. Nessa fase eu acho que se não fosse uma menina que encontrei ao acaso na escola, que é minha amiga até hoje, eu provavelmente teria feito o pior.
Ela era minha defensora e naquela época lembro que conheci o namorado dela, um cara super legal. Ele teve um pouco de ciúmes no início porque eu era carinhoso com ela e ela comigo. Logo ele entendeu que era apenas amizade e também ficou meu amigo. Com os dois eu aprendi a gostar de anime, mangá, vídeo game e cultura japonesa em geral. Acho que eu me identifiquei com esse mundo porque ele era considerado “estranho” na época e ainda não era moda. Eles eram o meu refúgi. Minha vida se resumia a estudar, ficar com eles ou sozinho no meu mundo de fantasia ou chorando me lamentando no meu quarto por ainda não conseguir aceitar que eu era gay.
Dois anos depois que os conheci chegou a irmã da minha amiga que morava em outra cidade. Namorei com ela, um relacionamento estranho. Ela era lésbica e eu gay e os dois estavam tentando não ser o que eram. Em certo momento acho que nos apaixonamos, mas sexualmente não dávamos certo. No início foi divertido e ficamos bastante tempo beijando, nos descobrindo. Mas depois de mais dois anos tentamos evoluir sexualmente e realmente não deu certo. Eu me lembro que a minha primeira vez foi horrível.
Não era nada do que estava nas minhas fantasias e eu não conseguia parar de pensar em homens, não conseguia sequer olhar para ela direito. Depois disso nós terminamos e cada um seguiu seu rumo. Após um tempo comecei a sair do armário para os meus amigos, ainda não conseguia sair para a minha família. Na maioria do tempo eu estava rodeado por garotas, até por medo de eu gostar dos meninos. Foi assim até o meu ensino médio terminar. Uma época complicada demais na qual eu deixei de lado a minha sexualidade para me preocupar com o monstro do vestibular.
Foi também estranho porque muitas pessoas da minha escola, principalmente os meninos que faziam bullying comigo e chegaram a destruir meus cadernos e rabiscar coisas nas minhas cadeiras, acabaram me procurando pedindo ajuda nos estudos. Acabei não dando as costas para ninguém, vendo uma oportunidade de deixar aquelas pessoas me entenderem melhor e de ajudar os outros. 
Em um determinado momento, no último ano do ensino médio, depois de um dia estressante, a minha mãe me perguntou se eu era gay e eu respondi que sim. 
Começou uma época difícil. Minha mãe não me aceitava e eu encontrava dificuldades extremas de me encaixar na comunidade gay, que de início para mim pareceu se basear apenas em sexo. Isso ia contra os meus ideais. Sempre sonhei em encontrar um cara para casar e ter uma família. Mas tudo o que eu encontrava eram caras sedentos por sexo e tinha dificuldade até mesmo para encontrar amigos gays, pois não sabia onde ir. 
Acabei passando por um namoro ruim que não terminou bem, por experiências que me machucaram sentimentalmente e fisicamente. Fui apaixonado por um cara que era bastante violento na cama. Por me sentir tão sozinho, eu acabei ficando com ele, pois era o único que demonstrava carinho e vontade de ter um relacionamento mais longo. Quando começamos a fazer amor ele foi carinhoso e cuidadoso comigo. No entanto depois de um tempo ele começou a não respeitar os meus limites ao ponto de eu deixar de sentir prazer para apenas sentir dor. Me forcei a ficar com ele mas aquilo estava me fazendo muito mal. 
Logo após terminar com ele, eu consegui passar no vestibular em uma federal da vida para o curso de sistemas de informação. Eu achei que as coisas iriam melhorar. A minha imaginação de que eu iria encontrar pessoas como eu, com mentes mais abertas, foi quebrada logo de cara. O curso tinha uma aura machista, cheio de mascus na sala, de alunos a professores.
Não foi no meu curso, mas nos cursos de umas amigas que encontrei muitas coisas interessantes. Peguei várias matérias nos cursos de Letras e História que ajudaram a abrir a minha mente. Não consegui abandonar a computação e fiz isso por meus pais. Eles estavam orgulhosos por eu estar cursando algo “masculino”. 
Entre cá e lá eu acabei enfrentando muitos preconceitos. Do mundo gay, do mundo heterossexual, no meu curso e em outros cursos. Me senti isolado nos quatro anos de faculdade, como se não pertencesse a nada, porque não gosto de me comportar como dizem que devo me comportar. Sempre mantive os meus sonhos simples de encontrar um emprego para sobreviver, um cara para casar e ter algo que eu possa chamar de família e esses ideais pareciam entrar em conflito com muita coisa.
Eu me sinto confortável sendo gay. Não entendo porque a sociedade tem que tornar isso um problema para mim. Meu problema não é a minha sexualidade, eu tenho sonhos, objetivos, os meus problemas são as pedras no caminho que tenho que mover para chegar até lá.
Ainda na faculdade tive problemas no meu primeiro emprego, que abandonei pelo ambiente machista. Meio sem rumo e com pouco dinheiro, ainda morando na casa dos meus pais,  comecei a me afastar demais das pessoas por estar depressivo. Parecia que eu estava deixando voltar aquela "lamentação" de ser gay e a pensar em suicídio. Mas não porque eu era gay, mas por ser o que sou como pessoa e parecer nunca me encaixar em nada direito.
Ano passado foi meu penúltimo ano na faculdade. Acabei desastrosamente me apaixonando pelo meu melhor amigo no meu curso por ele ser tímido e carinhoso comigo e a minha santa carência bater na porta. Ele sendo hétero, pouco podia fazer por mim. Acabei assumindo o meu amor por ele, o que gerou uma resposta inesperada. Ele disse que ficaria comigo se ele conseguisse ficar com outro cara, e que ele queria tentar ser gay, mas acabamos deixando de lado porque natureza sexual é algo que não é modificado. Tenho a impressão que não iria dar certo e iria terminar em um cenário pior, como no meu primeiro namoro.
Foi no ponto que eu estava pronto para desistir da faculdade, talvez da minha vida, que um designer japonês famoso veio ao Brasil. Como fã dele gastei meu ultimo dinheiro apenas para tentar falar com ele. No fim eu acabei em uma viagem meio louca e consegui muito mais do que eu queria. Esse encontro foi como uma mágica que me colocou para andar no meu caminho de novo. Consegui encontrar e conversar com ele. Ele disse que eu não podia perder a minha empolgação. 
Essa experiência de gastar o meu último dinheiro para ir a uma cidade estranha me fez perceber que eu consigo mudar a minha vida se eu quiser. Foi como dissipar a nuvem negra que estava por cima dos meus sonhos, e parar de me martirizar por não me encaixar. Senti que eu não preciso me encaixar em nada, é só seguir em frente que com certeza em algum momento vou conseguir realizar isso.
Depois de uma longa batalha com a minha mãe ela passou a me aceitar e até a me apoiar. Nesse ponto o meu irmão e alguns primos já sabiam. Até que foi anunciado a vinda de Lady Gaga. Estava sem grana para ir nas cidades do show e quando se trata dela eu sou fã desde antes das pessoas saberem que ela existia direito e ela era apenas uma nova iorquina maluca cantando em bares, boates gays e fazendo striptease para pagar o aluguel.
Eu então decidi pedir de presente de aniversário para o meu pai a viagem para o show. Impressionantemente ele se colocou à disposição não só para pagar, mas ir junto. Foram meu irmão, ele, minha mãe e eu. O ingresso foi o mais caro, apenas para mim e e meu irmão. Não estávamos em condições financeiras para pagar mais que isso. Ficamos na fila para pegar a “Monster Pit” e conseguimos, com os nossos pais nos ajudando. Um lugar bem pertinho do palco. Para mim as estrelas daquele dia tinham sido os meus pais, por estarem comigo em uma situação na qual eu jamais tinha imaginado que estariam.