terça-feira, 2 de setembro de 2014

NUNCA VIU UMA MULHER NUA?

É muito difícil entender que o problema não é tirar fotos nua, nem guardar as fotos no seu computador, nem mandar fotos nua pro namorado, e sim ter as fotos vazadas? A imagem pertence àquela pessoa de quem a foto foi tirada. Não pode ser publicada ou divulgada sem sua autorização. 
Neste caso das fotos de Jennifer Lawrence, parece que foram hackers mesmo. Houve um problema técnico com alguns aplicativos (não entendo nada disso, tô chutando) e teve quem aproveitou pra burlar o sistema, pegar as fotos e colocá-las em porcarias como o 4chan para ganhar bitcoins.
Em 2011 fotos de Scarlett Johansson vazaram após hackearem seu telefone celular. Foi o mesmo ano em que 36 fotos de Carolina Dieckmann foram copiadas de seu computador pessoal e espalhadas na internet. Este caso gerou uma lei com o nome da atriz.
Mas é simples: quem deve ser julgado e condenado no caso? O cara que rouba imagens alheias e as espalha, ou a pessoa que tira fotos só para si, ou para seu restrito círculo de amizades?
Tente ver do lado de quem você fica. Não só neste caso, mas no de tantos outros. Eu me lembro, com muita vergonha, de ter ficado do lado do McDonald's e ridicularizado uma velhinha que teve queimaduras graves com um café muito quente. Tá, todo mundo riu da velhinha, mas e daí? Foi o que uma grande corporação e seu gigantesco aparato midiático nos instruíram a fazer. E a gente obedece cegamente?
Portanto, antes de julgar moralmente e tachar de exibicionista uma mulher (qualquer uma) que tirou fotos nuas para si mesma (ou para quem ela quis compartilhar), pense: a privacidade de cada pessoa não vale nada? Você gostaria que suas fotos, seus emails, suas direct messages no Twitter, estivessem à disposição de todos?
Eu pessoalmente nem entendo toda a comoção, o escândalo, a vontade de ver as tais fotos. É só uma mulher nua! (como disse Amanda Palmer ao se despir no palco para protestar contra um tabloide sensacionalista). Tem gente que parece que nunca viu uma mulher nua...

GUEST POST: CONCURSOS PÚBLICOS MANTÊM EXIGÊNCIA DE EXAMES GINECOLÒGICOS

Kátia Monteiro é jornalista e museóloga com MBA em Gestão Educacional. Tornou-se vegetariana e ativista pelos direitos animais, tendo ocupado o cargo de diretora de marketing da ONG União Defensora dos Animais – Bicho Feliz durante o período de 1999 a 2002. É também criadora do blog Folha Holística.

Há muitos anos fico indignada quando leio os editais dos concursos públicos e vejo a injustiça e desigualdade de direitos entre os candidatos do sexo feminino e masculino, apresentada na forma como as mulheres são obrigadas a se submeterem a uma verdadeira bateria de exames, especialmente ginecológicos, enquanto que os homens são liberados dos exames que lhes causem constrangimento ou firam sua masculinidade. Estas exigências nos concursos públicos são um brutal desrespeito aos direitos das mulheres e a sua dignidade. 
Embora tenha gerado uma grande polêmica, os atestados de virgindade exigidos nos concursos da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo e da Polícia Civil da Bahia, não são os únicos empecilhos para o ingresso das mulheres no funcionalismo público. Lógico que atestado de virgindade é revoltante e humilhante, mas os exames ginecológicos também podem ser constrangedores para mulheres que apresentem problemas físicos e psicológicos. Um exemplo disto são aquelas que apresentam uma disfunção chamada vaginismo. Para quem não conhece, o vaginismo é considerado um distúrbio de disfunção sexual, que causa espasmos involuntários da vagina, impedindo a mulher de manter uma relação sexual, bem como não conseguem se submeter a exames ginecológicos invasivos como o papanicolau, entre outros.  
Imaginem uma mulher com vaginismo tendo que pegar um atestado de “portadora de vaginismo” e depois ter que entregar no Serviço Médico o maldito documento. Quanto sofrimento e humilhação desnecessários! Outro exemplo são as mulheres que foram vítimas de estupro e que ainda estão em recuperação física e psicológica, mas gostariam de participar de concursos públicos. Imaginem também esta mulher tendo que submeter-se a inúmeros exames ginecológicos impostos por um determinado concurso, sendo que ainda não sente-se preparada para ser examinada novamente, depois de passar por exame de corpo de delito, entre outros inúmeros exames invasivos, necessários para provar que foi estuprada. 
No edital do concurso da Universidade Federal da Bahia, constava que todos os candidatos deveriam apresentar os seguintes exames: hemograma completo; glicemia de jejum; TGO; TGP; Gama GT; VDRL; Uréia; Creatinina; AgHbs, Anti-Hbc, Anti-Hcv, sumário de urina, exame oftalmológico completo. Porém, as  candidatas do sexo feminino foram obrigadas a fazer também o preventivo ginecológico e a ultrassonografia pélvica, e, para as candidatas acima de quarenta anos, ECG e mamografia. Entretanto, para os candidatos do sexo masculino acima de quarenta anos, não exigiram o toque retal e apenas solicitaram um simples exame de sangue chamado PSA, que serve para ajudar a detectar a presença de câncer de próstata. Mas o PSA não é suficiente para certificar que um homem tem esta doença.
De acordo com o Núcleo de Promoção e Defesa dos Direitos da Mulher da Defensoria Pública, existe uma diferença dos exames exigidos em concursos de acordo com o sexo do candidato. Em entrevista ao G1, a defensora pública, Ana Paula Lewin, afirma que "Para os homens, não é exigido nenhum exame equiparado. Por mais que o edital siga a lei do concurso, a gente entende que isso viola o direito fundamental da mulher. Mais uma vez ela não é tratada de forma equiparada ao homem".
Para aqueles que defendem a realização dos exames ginecológicos nestes concursos, alegando que são para o nosso bem, e que o governo é “bonzinho” se preocupando com a nossa saúde, digo que, se o governo realmente se preocupasse com a nossa saúde, teríamos mais hospitais públicos com infra-estrutura adequada para atender a população. Não é preciso ser muito sagaz para saber que estes exames realizados nos concursos públicos são apenas mecanismos de detecção de patologias, que são as responsáveis pela permanência precária das mulheres no ambiente de trabalho, podendo resultar em sucessivos licenciamentos e aposentadorias precoces. 
Li diversas matérias sobre a indignação e repúdio de algumas instituições contra a exigência do atestado de virgindade, e que também não concordam com a obrigatoriedade dos exames ginecológicos. Rita de Cássia Vivas, advogada de Direito do Trabalho, declarou que a exigência destes exames é "inconstitucional" por ferir a intimidade, a privacidade e a dignidade da pessoa, garantidas pela Constituição, bem como o direito de igualdade. Porém, o que me intriga é porque houve apenas a manifestação de repúdio, me corrijam se eu estiver errada, mas não foi feito nada de efetivo para proibir de uma vez esta inconsistência nos concursos públicos no nosso país, mesmo depois de todos concordarem que é inconstitucional. 
A seccional baiana da Ordem dos Advogados do Brasil, através da Comissão de Proteção aos Direitos da Mulher, emitiu "nota de repúdio" contra os itens 11.12.2.2 e 11.12.2.1 do edital do concurso público para a Polícia Civil da Bahia realizado em 2013, no qual determinava que as candidatas virgens, apresentassem atestado médico, comprovando virgindade para que fossem dispensadas dos exames invasivos. Na nota de repúdio emitida pela OAB consta a seguinte declaração: "Essa exigência nos dias atuais é extremamente abusiva e desarrazoada em virtude da grave violação ao inciso III do Art. 1º da Constituição Federal de 1988, que consagra o princípio da dignidade da pessoa humana, bem como ao Art. 5º do citado diploma legal, que dispõe sobre o princípio da igualdade e o direito à intimidade, vida privada, honra e imagem". 
Em relação à polêmica envolvendo o concurso público da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo, que também exigiu o atestado de virgindade das candidatas que não possuem vida sexual ativa, na matéria do G1 a Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República declarou ser contra qualquer exigência que invada a privacidade da mulher e resulte em discriminação: “A mulher tem o direito de escolher se quer fazer um exame que em nada interferirá em sua vida profissional”. 
Sobre a irracionalidade inerente à exigência destes exames para as concursadas, acrescento a Lei nº 9.799, de 26 de maio de 1999, que Insere na Consolidação das Leis do Trabalho regras sobre o acesso da mulher ao mercado de trabalho e dá outras providências. No Art. 373A: "Ressalvadas as disposições legais destinadas a corrigir as distorções que afetam o acesso da mulher ao mercado de trabalho e certas especificidades estabelecidas nos acordos trabalhistas, é vedado no inciso V -- impedir o acesso ou adotar critérios subjetivos para deferimento de inscrição ou aprovação em concursos, em empresas privadas, em razão de sexo, idade, cor, situação familiar ou estado de gravidez".
Diante de todas as evidências, defendo que os concursos públicos que exigem certificação de virgindade e exames ginecológicos discriminatórios devem ser avaliados e proibidos de fazer estas exigências, e não apenas receberem declarações de repúdio. É necessário que diversas entidades ligadas à defesa dos direitos das mulheres e dos direitos humanos se unam para exigir que os concursos públicos no Brasil sejam impedidos de obrigar as candidatas a terem que apresentar exames ginecológicos, que não têm qualquer conexão e utilidade para a carreira profissional. Como sou otimista, acredito que em breve esta besteira será proibida e as mulheres poderão participar de concursos públicos sem a necessidade de serem submetidas à humilhação e desrespeito. 

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

A ÁRDUA TAREFA DE NÃO SER ESTUPRADA

Outro dia vi um reaça criticando o feminismo na base do "Se feministas realmente se importassem com as mulheres, fariam campanha para que todas andassem armadas". 
Já ouvi isso antes, várias vezes, aliás. Reaças têm fetiche por armas de fogo. Reaças pensam que armas de fogo reduzem a criminalidade (se isso fosse verdade, os EUA, o país mais armado do mundo, com impressionantes 90 de cada 100 cidadãos tendo uma arma, não seria também o país com o maior número de presos). E reaças parecem ignorar totalmente as estatísticas de que mais de 70% dos estupros são cometidos por conhecidos da vítima (namorado, parente, mui amigo, chefe etc). 
Aquele clichê do estuprador como um homem mascarado numa rua deserta à noite -- contra quem, talvez, andar armada poderia funcionar, se ele também não estivesse armado, ou se de repente ele não conseguisse tirar a sua arma e te matar) é isso mesmo, um clichê. 
Deixe-me contar uma historinha real. Ano passado, uma analista política e sobrevivente de estupro, Zerlina Maxwell, foi a um programa de direita da Fox (de Sean Hannity).
Hannity, como um bom reaça, quer que as mulheres usem armas de fogo para se proteger contra estupros. Ela rebateu: “Acho que deveríamos dizer aos homens para não estuprar. Você está falando de estupro como se fosse o ato de um criminoso sem rosto e sem nome, quando muitas vezes é de alguém que você conhece e confia. Se você treinar homens a não crescerem virando estupradores, você previne estupros”. 
Como resposta, ela recebeu o tratamento dedicado às mulheres (aquele que os caras que negam a cultura de estupro fingem não ver): um monte de ameaças de estupro. Tipo esta: “Você precisa ser estuprada por um grupo para ter alguma razão, sua vadia estúpida”. Porque, né, o que muitos caras adoram fazer ao ouvir uma mulher dizendo "Temos que ensinar os homens (que são, afinal, os responsáveis por 98% dos estupros) a não estuprar"? Dizer que ela merece ser estuprada, lógico. Faz todo o sentido.
Há poucos dias, foi divulgada uma nova invenção: um esmalte que muda de cor ao detectar as chamadas "drogas de estupro" (não custa lembra que o álcool é também uma droga de estupro, e muito eficaz). 
Já havia outro produto parecido
No início, pelo pouco que acompanhei, a recepção foi positiva. Mas rapidamente várias feministas e ativistas pelo fim do estupro se posicionaram contra. Uma delas disse: "O problema não é se uma mulher sabia que havia drogas na sua bebida, mas o fato de alguém ter posto drogas na sua bebida". 
Este site pergunta: a invenção é anti-estupro ou anti-mulher? E começa assim (minha tradução): "Estude defesa pessoal. Use calcinha anti-estupro. Não ande sozinha. Fique nas áreas iluminadas. Não vista uma saia ou vestido. Não beba. Podemos acrescentar agora 'pinte suas unhas' à lista dos conselhos recentes dados às mulheres sobre a prevenção ao estupro. A mensagem, em todos os casos, é que as mulheres são responsáveis pela sua própria segurança". 
É verdade. Imagine que você saia, vá a uma festa, alguém põe uma droga na sua bebida quando você está desatenta, e você acaba sendo estuprada. Agora quem gosta de culpar a vítima vai não apenas perguntar "Por que você saiu? Por que você bebeu? Por que você foi desatenta?", como também: "Por que você não estava usando o esmalte anti-estupro?"
Esmalte para prevenir estupro parece uma ótima ideia, mas não tenho certeza se vc vai conseguir que homens o usem 

É parecido a um dos problemas dos vagões de trem e metrô exclusivos para mulheres (pra mim, o maior problema é mesmo a segregação -- eu não quero um mundo separado entre mulheres e homens), para assim podermos escapar de "encoxadores": se uma mulher usar um vagão comum, misto, e não aquele exclusivo para mulheres, e for bolinada no transporte, alguém pode perguntar: "Por que você estava usando o vagão misto? Você estava pedindo!" 
Exigir que uma mulher use esmalte anti-estupro, ou ande em vagões exclusivos, ou porte uma arma, é fugir do problema. O problema não é a mulher que é estuprada, é quem estupra. E aí reaças partem de um pressuposto bem distante do da maior parte das feministas, porque acham que quem estupra são uns poucos monstros, e que bastaria matar todos para acabar com isso. Só que não são uns poucos homens que estupram, são muitos. E eles não são monstros, são homens comuns. Não são extraterrestres, são pessoas nascidas e criadas na mesma cultura que a gente. 
Pense: o tipo de cara que põe droga na bebida de uma garota para depois poder estuprá-la provavelmente não é o mesmo tipo de cara que sai procurando mulheres sozinhas na rua à noite. O tipo mascarado não é o mesmo cara que encoxa mulheres no transporte público. O colega que assedia e finalmente estupra não é o tipo mascarado. O mascu sancto que escreve atrocidades como esta abaixo certamente não tem qualquer vida social, e, no entanto, também pensa como um tipo de estuprador:
Há também um outro problema, de ordem ética, com a invenção -- que, deve ser dito, foi de quatro alunos homens de uma universidade americana. É ético querer lucrar com uma praga social como o estupro?
O que eu considero mais problemático de tudo é que a invenção seja vista como empoderadora pras mulheres. Ahn, empoderador mesmo seria se uma garota pudesse fazer tudo que um garoto faz (sair pra se divertir, por exemplo) sem correr o risco de ser estuprada. 
Calcinha anti-estupro
Eu pessoalmente não vejo problema se uma mulher, individualmente, fizer uso do esmalte. Assim como acho ótimo que meninas façam artes marciais e, sempre que possível, reajam (não a um assalto, mas a um estupro). Assim como já discutimos andar com armas brancas. Mas, como movimento, o feminismo deve sempre apontar que a responsabilidade em evitar estupros não é das mulheres. É de quem estupra. Spray de pimenta, esmalte que detecta drogas, calcinhas anti-estupro, apitos -- tudo isso é paliativo. Pode livrar uma mulher de um estupro, mas não acaba com a pandemia de estupros que existe no mundo. 
Que existam tantos conselhos e produtos ensinando as mulheres a não serem estupradas (como se isso funcionasse -- aprendemos tudo desde crianças, e mesmo assim, milhões de mulheres seguem sendo estupradas), é um dos indícios da cultura de estupro. O verdadeiro combate, o que realmente pode levar ao fim do estupro, é ensinar as pessoas a não estuprarem, ponto. Ensinar que não é não (não é joguinho), que o corpo de uma pessoa não é público, que não é a roupa de uma mulher que vai indicar se ela está ou não a fim, que ninguém é dono de alguém. 
A árdua tarefa de combater o estupro deve ser de toda a sociedade. 

domingo, 31 de agosto de 2014

LOLINHA SAUDÁVEL E CURSO DE EXTENSÃO

Faz uma semana que comi meu último chocolate! 
Talvez não seja o último da minha vida, mas gostaria que fosse o último por muito tempo. Faz anos que não fico tantos dias sem chocolate. E, pra ser sincera, tirando a quinta-feira, quando me deu uma compulsão (mas resisti), o resto da semana foi bastante tranquilo.
Além de tentar eliminar esse vício, comecei a fazer sucos toda manhã. O maridão, que ama sucos, tá adorando. Eu só bebo água, então tomar suco é um pouco de sacrifício. Mas os sucos que venho fazendo (vários com couve, limão, gengibre e maçã -- considerados os mais aptos a desintoxicar o fígado) não são ruins. Eu e o maridão tomamos sem açúcar ou adoçante, e sem coar. Numa boa.
Esta foi minha primeira semana pra uma vida mais saudável. Como já falei algumas vezes, fui diagnosticada com esteatose (gordura no fígado) dois anos atrás. De lá pra cá, fiz quase nada pra tentar reverter a situação. Mas agora vai! Preciso também fazer exercícios. Semana passada re-inaugurei a esteira aqui de casa. Só tive tempo pra andar um pouquinho na segunda e terça. 
E esta semana que começa agora será um inferno, cheia de compromissos e reuniões. Ah, pra aquecer, antes de pisar na esteira, faço Radio Taiso. Conhecem? Eu nunca tinha ouvido falar antes de um sansei, jogador de xadrez amigo do maridão, me contar. Creio que os japoneses, que têm a maior expectativa de vida do mundo, podem nos dar algumas lições sobre ser saudável.
Este post é só pra falar da minha nova vida (Lolinha, versão saudável -- ok, isso é injusto, já que na verdade sempre fui saudável, até chegar aos 45 anos) e também pra convidar o pessoal de Fortaleza a participar do meu curso de extensão, que começa na terça, dia 2. Eu ofereci o curso no semestre passado e foi muito bacana. 
Agora vou começar uma segunda parte, mas não precisa ter feito a primeira antes. É só que usarei textos e filmes diferentes. 
O curso é "Discutindo Gênero através do cinema e literatura", é grátis, e aberto a toda comunidade. Será na UFC (campus Benfica, Centro de Humanidades I), mas você não precisa ser alunx da universidade (mas, pra quem é estudante, vale certificado). É quinzenal (uma terça a cada duas semanas, das 11:30 às 13:30). Para se inscrever, é só me mandar um email: lolaescreva@gmail.com
Agora é só fazer tudo que tenho que fazer até amanhã...

NÃO ÉRAMOS FELIZES

Parece que esta era a única felicidade para muitas avós

O post sobre os tempos da vovó rendeu comentários tão fantásticos que vou publicá-los em duas vezes, porque foi impossível escolher apenas uns poucos. 

Lei do Divórcio é sancionada no
Brasil em 1977: conquista feminista
"Minha mãe andou dizendo que antigamente é que era bom. Mas assim que eu contei que se tivesse nascido na época em que ela disse que queria nascer ela ainda teria que ser casada com meu pai, porque não existia divórcio e nem poderia trabalhar fora sem a permissão dele... bom, digamos que isso foi o suficiente pra ela ver o quanto as coisas são melhores pra gente agora nesta época." (Anônimo)

"Só diz que antes era melhor quem nunca conversou com a própria avó, fato. A minha, como a maioria, apanhou, foi sexualmente abusada, foi proibida de trabalhar... e foi muito guerreira, brigando com o portuga doido que era meu avo pra minha mãe poder fazer faculdade (ele queria proibir, porque achava que mulher não tinha que estudar). 
Cresci ouvindo as histórias dela. E por ter crescido vendo tudo isso, minha mãe se tornou militante feminista nos anos 80. Pude ver como a vida dela (com uma carreira, um relacionamento mais equilibrado com meu pai, mais autoestima) foi muito melhor que a da minha avó. Qualquer mulher que observar esses exemplos na própria família vai ver que precisa SIM do feminismo." (Maria Fernanda Lamim)

"Meus avôs se separaram na década de 70, depois de mais de 25 anos casados. Minha avó sofreu muito com ele, apanhava, sofria humilhações etc. No fim foi meu avô quem pediu a separação. E todos os filhos, 5 mulheres e 3 homens, na época jovens de 20 e poucos anos, se revoltaram com a minha avó. A coitada vivia e continuou vivendo uma vida miserável, porque os filhos não aceitaram a separação. Meu avô foi morar longe e não escutava as barbaridades ditas pelos filhos. 
Depois de alguns anos minha avó arrumou um namorado e queria se casar de novo. Quem disse que os filhos permitiram? Fizeram um escândalo e proibiram minha avó de encontrar o pretendente. Hoje minha avó é uma mulher extremamente amargurada. Hoje os filhos se arrependem muito de não ter deixado seguir o relacionamento, porque ninguém tem tempo de cuidar dela. Às vezes não são apenas os maridos que destroem a vida das mulheres, alguns filhos contribuem também." (Anônimo)

"Minha mãe conta que quando a minha avó se casou com o meu avô, na noite de núpcias, minha avó não sangrou. Então meu avó a levou numa delegacia para que fosse comprovada a virgindade dela. Ela tinha o hímen complacente. Precisou passar por uma espécie de exame de corpo de delito para atestar que era pura. Já imaginaram a humilhação?
Meu avô era policial em SP, minha avó costurava camisas para as lojas do Brás. Ela estudou até a terceira série.
Minha mãe é a mais velha de sete irmãos, ela conta que cada vez que a minha avó engravidava, ela ficava louca de raiva. De ter mais um filho com o meu avô. Brigavam o tempo todo. Meu avô bebia. Os filhos apartavam o pai com faca, revólver. Numa briga com a minha avó ele deu um tiro, pegou na parede do quarto onde eu estava, dentro do carrinho de bebê.
Foi assim desde que me entendo por gente. Ele já aposentado, mal parava em casa, vivia nos botecos até cair. Quando queria, pegava um trem ou ônibus e ia visitar parentes no RS, ficava fora por meses.
Minha avó foi uma pessoa amargurada. Ela renasceu quando entrou para um grupo da terceira idade. Meu avô, já doente, não conseguiu impedir que ela frequentasse o grupo, mas desmerecia tudo que ela fazia lá. Lá ela teve amigas, viajou muito, aprendeu a fazer ótimas fotografias, fez teatro e descobriu um dom: fazia poesias.
Ela descobriu um câncer intestinal, operou, mas ainda no hospital optou por não se alimentar. Ela não queria voltar para casa. Apesar do médico garantir que nem quimio ela ia precisar, só da possibilidade dela ficar presa em casa com o meu avô, ela desistiu de viver. Foi preciso por sonda alimentar, ela não comia. Mas aí era tarde. Ela morreu há 6 anos. Meu avô, ano passado.
Pra ela a vida de antigamente não foi nada boa.
Eu prefiro a vida hoje. Eu posso estudar, trabalhar, votar, posso casar ou não, me separar, posso falar. Preciso lutar por tudo isso. Foi e é preciso lutar por tudo isso.
Por outro lado, minha sogra admira uma conhecida dela, senhora bem idosa que tem nas palavras dela 'uma pele linda, quase sem rugas'. Por que? Porque diz que o marido foi muito bom pra ela, não deixou faltar nada em casa, ela nunca precisou trabalhar, nem 'passar nervoso', por isso está tão conservada. Já minha cunhada de 27 anos, sonha com o dia que conhecer um homem rico pra não precisar trabalhar, já que ela acha que mulher não tinha que trabalhar fora.
São opiniões completamente diferentes, mas eu ainda penso que graças à luta das mulheres hoje temos a escolha, podemos decidir.
Finalizo com um exemplo da minha mãe: uma vez, numa viagem de férias com meus pais e tios, paramos em Joinville. Entramos numa loja linda de roupas bordadas. Minha mãe e minha tia viram um roupão de banho lindo, todo bordado. Minha mãe escolheu o dela, fez o cheque e pagou (ela, hoje aposentada, trabalhou em banco). Minha tia é esposa de médico, nunca trabalhou fora, mas sempre estava lá com a casa impecável, as roupas brancas do meu tio um brinco, os filhos bem cuidados. 
Ela pegou o roupão que tinha gostado e pediu pro meu tio comprar, ele disse não. Eles têm muito dinheiro, mas mesmo assim, ele disse não. Nunca vou esquecer o rosto dela, o jeito que ela se encolheu e devolveu a peça.
Desculpem... eu prefiro o hoje e sonho com um amanhã melhor." (Freda)

"Isso me lembra a avó de uma colega de trabalho. Ela dizia que a mulher tinha que ser uma puta na cama para satisfazer o homem. Minha colega então perguntou-lhe que, sendo assim, ela deve ter tido muitos orgasmos. E ela perguntou: o que era isso? Minha colega, então, ensinou-lhe como consegui-los. E foi assim, depois de viúva, ela experimentou o orgasmo pela masturbação. Se o avô dela fosse mais carinhoso com a esposa e 'puto', como ela era com ele, ela poderia conhecer esse tal de orgasmo há muito mais tempo.
Muito fácil rotular uma mulher que não sente prazer na cama como frígida. Pudera, ser tratada mal não é afrodisíaco nenhum e só faz tremer de raiva e/ou frustração." (Hammandah)

"Vejo várias pessoas falando que 'também existiam mulheres felizes antigamente', mas a maioria dos exemplos aqui é de mulheres que sofreram nas mãos dos maridos machistas. 
A minha avó materna, por exemplo, foi uma delas. Ela morreu quando eu era muito nova, então quem me contou a história dela foi a minha mãe, por isso não tem muitos detalhes. Mas os danos causados por um marido machista estão lá, sim. 
Meu avô era muito rígido com os filhos, as meninas nunca podiam fazer o que os meninos podiam. Ele costumava beber, chegar em casa alterado e bater muito nas crianças. Pelo que minha mãe contou, um dia ele tentou agredir a minha avó. Ela estava na cozinha, pegou um pedaço de madeira em brasa, bateu nele com toda a força e fez com que ele caísse de uma escada pequena que tinha na casa. Meu avô não sofreu nada muito grave, mas depois disso, ele nunca mais tentou bater na minha avó. Não sei se ele a agrediu antes, provavelmente sim, mas eu não quis perguntar para a minha mãe.
Por causa dos gastos com álcool e outras dívidas, meu avô perdeu tudo o que a família tinha, inclusive a casa. Precisaram morar de favor por muito tempo. Minha avó ajudava com as despesas ganhando dinheiro com costura e cozinhando para fora, mas era uma vida muito difícil...
Meu avô morreu muito antes de eu nascer, não sei como a minha avó viveu desde a morte dele, provavelmente melhor, mas tendo que batalhar muito para criar 6 filhos. 
Não consigo imaginar como alguém pode dizer que viver dessa maneira pode ter sido 'bom."

"Minha tia-avó também passou um casamento muito difícil, o marido dela viajava e demorava muito tempo para voltar. Ela não trabalhava, mesmo sendo uma das melhores alunas da escola. Eu ainda me lembro que quando ela teve sua primeira menstruação nem sabia o que era aquilo, de tanto tabu acerca disso, mas foram as amigas dela da escola que a tranquilizaram e explicaram para ela. O marido morreu até cedo para os padrões da época, e quando apareceu outro homem querendo se relacionar com ela, ela nem quis saber, disse que nunca vai se casar de novo e que não quer saber mais de homem." (Anônimo)

"Minha amiga tem uma avó relativamente jovem -- teve a mãe dela jovem, a mãe dela foi mãe adolescente. O avô da minha amiga era um bêbado, que batia nos filhos e na mulher, mas daqueles que no fim da vida se arrependeu. A avó da minha amiga virou viúva relativamente cedo (uns 60 anos).
Num dia de semana, seis horas, a avó da minha amiga acorda ela de manhã, segurando o pãozinho do café. As duas se sentaram à mesa sozinhas. E a avó dela confessou que conheceu um senhor num clube de dança, e, meio tímida, comentou que tinha acabado de ter o primeiro orgasmo da vida dela. Ela passou a noite fora conhecendo um prazer do qual ela nunca tinha experimentado.
Isso mudou a vida dela. Ela rejuvenesceu uns 20 anos do dia pra noite. Deixou o cabelo bonito, comprou roupas novas e lindas que ela sempre quis ter, e foi lá ser feliz com o namorado novo, aproveitando uma coisa que ela nunca tinha aproveitado antes.
Foi uma história bonitinha.
Minha avó não quer mais homem nem pintado de ouro. Vários senhores já foram até que bem desrespeitosos dizendo que ela 'tava inteirona', meu avô já chegou na casa dela, tirou toda a roupa ('Mari, ele ficou pe-la-di-nho!') e ela expulsou ele sem pensar duas vezes. O negócio dela é ficar sozinha e aproveitar o tempo com as coisas que ela ama. E eu apoio, apesar dela não cozinhar mais aqueles doces incríveis nas festas de família, que, segundo ela, eram 'pura encheção de saco', hahahaha" (Normalidaderealidade)