quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

GUEST POST: ATÉ AS DEPUTADAS "FEMININAS, NÃO FEMINISTAS" SOFREM NO CONGRESSO

Publico hoje este ótimo texto de Talita Victor, assessora técnica da Liderança do PSOL na Câmara e militante da Frente de Mulheres do DF e Entorno.

Muitas devem já ter se perguntado: “Por onde andam os fundamentalistas do Congresso Nacional? O que estão planejando para 2017? ”
Bom, daqui do front no DF, percebemos que neste início de ano, eles organizaram uma ou outra manifestação antiaborto em frente ao Supremo Tribunal Federal; fizeram algazarra em audiências públicas na comissão do “Escola sem Partido” (PL 7180/2014); pediram a nomeação de Ives Gandra para o STF (mas venceu o jardineiro paraguaio); e o mais importante, NÃO votaram em Bolsonaro para Presidência da Câmara.
Enquanto a chamada “agenda econômica” segue a todo vapor, sobretudo com as Reformas da Previdência e Trabalhista, seguimos aguardando (desconfiadas) o retorno dos trabalhos da Comissão Especial do Nascituro (PEC 58/2011) e a divulgação do relatório da SUG 15/2014 no Senado -- que está com o Senador Magno Malta (PR-ES), e sabemos que será pelo arquivamento da matéria.
Explicando:
- PEC 58/2011 visa garantir direitos do nascituro (inviolabilidade da vida desde a concepção) na Constituição Federal (é sempre importante lembrar que a PEC em questão não fala nada sobre nascituro e, terminado o prazo para emendas na última semana, nenhuma foi apresentada com esse teor. Contudo, conforme alardearam no fim do ano passado, o relator Deputado Jorge Tadeu Mualen [DEM-SP] deve apresentar em seu parecer a emenda que constitucionaliza a inviolabilidade da vida “desde a concepção”); 
- SUG 15/2014 visa regular a interrupção voluntária da gravidez no Sistema Único de Saúde.
Ainda ontem, na toada do março que se aproxima, lideranças da bancada feminina na Câmara (bancada feminina não é o mesmo que bancada feminista, mas é o conjunto de mulheres deputadas federais, de todos os partidos, que se organizam por meio da Secretaria da Mulher [Procuradoria e Coordenação da Bancada] e, em geral, conseguem acordos para atuarem em defesa de proposições que combatam a violência e promovam ampliação da representatividade da mulher na política) aprovaram três projetos.
O primeiro foi o importante PL 3792/2015 (Maria do Rosário PT-RS e outros da CPI de combate ao tráfico de crianças e adolescentes), que cria um sistema de garantias para crianças e adolescentes que sejam testemunhas ou vítimas de violência. A relatora foi Laura Carneiro (PMDB-RJ). Em princípio, tentou-se estender esse protocolo de escuta especializada e depoimento especial às mulheres não adolescentes vítimas de violência.
O contexto em que a bancada feminina decidiu por isso foi maio de 2016, quando o caso de estupro coletivo no Rio de Janeiro, que teve ampla repercussão nacional e internacional, pautou o debate sobre cultura do estupro. Mas não foi possível. O machismo as impediu. Por um lado, é mesmo implicância com tudo o que diz respeito aos direitos das mulheres. Mas elas cederam porque mais de 70% das vítimas de estupro são meninas.
Ah! Mesmo assim, meia dúzia de bolsonaros e policiais votaram contra a matéria por entenderem que o projeto cria privilégios para “bandidos menores de idade”.
O quarto projeto que a bancada de mulheres na Câmara quer aprovar, e está há três anos tentando pautar em Plenário, é o PL 7371/2014, oriundo da CPI Mista de Enfrentamento à Violência contra a Mulher.
Esse projeto cria um fundo nacional para políticas de enfrentamento à violência contra a mulher que, além de contar com dotações do Orçamento da União, tem rendimentos do próprio fundo, doações e recursos provenientes de acordos ou convênios firmados com entidades públicas ou privadas, nacionais, internacionais ou estrangeiras.
Ofereço um doce a quem adivinhar o que os fundamentalistas leram em todas as linhas desse projeto. Isso mesmo! Para eles, isso é apenas “dinheiro de ONG estrangeira e países abortistas para financiar o aborto no Brasil”.
E o que fizeram os deputados da bancada “pró vida e pró família” enquanto pensávamos que pudessem estar “dormindo no ponto”? Apresentaram emendas absurdas, obstruíram e, finalmente, trouxeram da Casa Civil de Padilha a “solução”.
Ontem, em reunião com deputadas da bancada feminina, a maioria da base desse (des)governo, apresentou um texto substitutivo que, em síntese:
1) prevê destinação de R$ 40 milhões da loteria e outros R$ 40 milhões da arrecadação de multas e juros de mora incidentes sobre tributos administrados pela Receita Federal;
2) cria mecanismos de transparência da gestão dos recursos;
3) proíbe expressamente a destinação de recursos desse fundo para quaisquer “serviços, equipamentos ou atividades que envolvam, direta ou indiretamente, o aborto provocado, incluindo os casos especificados no art. 128 do Decreto Lei 2.848/1940” (Previsões de aborto não criminalizado pelo Código Penal);
4) cria uma comissão composta de ao menos dez representantes de entidades de defesa da “vida nascitura” para monitorar o fundo.
Sobre a reunião de ontem, entre bancada feminina e bancada fundamentalista, participaram algo em torno de 15 deputadas e 6 deputados. Sim, é costume da bancada “pró vida e pró família” se fazer representar apenas por homens e instrumentalizar vez por outra duas ou três mulheres.
Havia ali deputadas do PMDB, DEM, PSD, PP, PRB, PPS, PC do B, PT, que se alternavam entre apelos, sugestões, relatos de vida.
Pediam que não fizessem esse tipo de barganha com a pauta feminina; que elas não tinham a intenção de mencionar aborto no projeto, porque esse tema não as unifica; que o “aborto legal” quem faz é o SUS e o fundo deveria ser gerido pela SPM e não pelo Ministério da Saúde; que mulheres morriam vítimas de feminicídio enquanto discutiam naquela sala, que mulheres eram estupradas e agredidas enquanto falavam friamente de uma consequência cruel dessa violência (aborto). Uma deputada amazonense, evangélica, perguntou a eles se pensavam que “mulheres faziam aborto por prazer”.
Muitas chegaram a dizer que se sentiam violentadas com aquela proposta deles e da Casa Civil. Uma paraense disse que não acreditava que aquilo tinha o aval de Michel, um defensor das mulheres, na visão dela.
Falaram de suas histórias como mães, de seus partos, dos filhos que perderam, das agressões que já sofreram ou presenciaram na família. Uma deputada negra, também evangélica, também da base de Temer, que chegou a conhecer a violência das ruas, quase foi aos prantos diante daqueles senhores.
Uma das mais empenhadas no diálogo, liderança fluminense, chegou a tentar um acordo de cima do muro, sugerindo que deixassem no relatório (o relator é o Pastor Eurico PSB-PE) apenas uma previsão de que não se aplicariam recursos do fundo em ações proibidas por lei. Nada adiantou.
Eles seguiam intransigentes e tão somente se limitavam a ensiná-las significado de “profilaxia da gravidez”, que anencefalia não estava no 128 do Código Penal, que o legislador de 1940 estava certo, que o 5069 é muito bom mesmo. Chegaram a ameaçá-las, em tom de sugestão, dizendo que proporiam comissão externa para investigar o Hospital Perola Byington, em São Paulo.
Um deles teve o despautério de afirmar que se alguém ali podia falar de violência contra a mulher, esse alguém seria ele, e não por ser um homem violento, pois tinha certeza que não, mas por ter visto a mãe apanhar do pai. Argh!
Aos poucos os ânimos foram se arrefecendo. A reunião foi se esvaziando. Algumas saíram cabisbaixas, outras furiosas, outras ainda tentando mediar...
É, companheiras, esse é um jogo muito violento também para as que se entendem apenas “femininas”. Eles puseram os paus na mesa.
Várias deputadas ali pareciam não compreender a raiz que estava em disputa. Mas eles não. Eles sabiam muito bem o que Putin faz na Rússia com a despenalização da violência doméstica. Eles sabem o que significa o decreto de Trump, que reedita Reagan na Conferência Internacional das Nações Unidas sobre a população, na Cidade do México em 1984.
Elas podem não entender dessa forma, podem não querer falar de aborto. Mas eles sabem que negar o direito de escolha, negar serviços públicos a mulheres que abortam é, sim, uma violência cínica e institucional contra as mulheres. 
Por isso, aqueles homens não querem deixá-las aprovar o PL 7371/2014.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

OS ENCANTOS DO CHILE

Vou falar um pouquinho da viagem que Silvio e eu fizemos em janeiro, pra Santiago e Buenos Aires. É mais pra registro meu, pra que eu me lembre. E já nem me lembro muito porque tem duas semanas que voltamos. Como talvez fique um post grande demais, melhor falar só de Santiago, por enquanto. Depois dedico outro post a Buenos Aires. 
Os Andes vistos do avião (provavelmente com photoshop, porque o ar não estava limpinho assim)
Belo prédio que encontramos
sem querer (clique p/ampliar)
Nunca tinha estado no Chile, que é muito bonito. Mas é caro. Chegamos e já trocamos cem reais no aeroporto. A cotação do aeroporto obviamente é ruim (em Buenos Aires não é!), então deu apenas 17 mil pesos chilenos. E sabe o que deu pra fazer com esses 17 mil (cem reais)? Praticamente nada: torramos em seis empanadas meio mixurucas, uma garrafinha d'água, um copo de suco, e dois sorvetes. Não tô exagerando! Gente, cem reais!
Na cidade, conseguimos uma cotação melhor. Cem reais foram trocados por 20 mil pesos. 
Acontece que 20 mil pesos se vão com uma rapidez estonteante. Só pra ter uma ideia, é raríssimo algo que custe menos de mil pesos (R$ 5). Tirando um ou outro item no supermercado, só encontrei duas coisas que custavam 500 pesos (R$ 2,50): garrafinha d'água vendida na rua (alguns vendiam por 600 pesos) e jogar xadrez na Plaza de Armas. Silvinho jogou bastante.
No domingo que estivemos lá (ficamos uma semana), no começo da noite, na mesma Plaza de Armas, assisti a uma competição de dança que tem sempre. É muito bacana ver pessoas de todas as idades e tipos físicos dançando alegremente a cueca, dança típica chilena (quer aprender?). Me lembrou o pessoal dançando tango na rua em Montevidéu.
Privatizando um banco em Santiago
Fizemos duas excursões pagas (pela Aguiastour, agência da Juliana, uma moça de Fortaleza que mora em Santiago; ela nos forneceu o transfer de chegada, do aeroporto a Santiago, como cortesia; na volta, cobrou 18 mil pesos). 
Subindo as escadas do ex-Congresso Nacional do Chile, no centro de Santiago. O novo fica em Valparaíso, desde 1990. Ao fundo, nosso guia Pedro
Em ambas o nosso guia foi Pedro, um chileno muito simpático e atencioso (minha única queixa: ele gosta do Pinochet! Não pode! Mas devo acrescentar que ele foi super gentil e até me disse como era bonito ver um casal tão carinhoso um com o outro como eu e Silvinho, ainda mais depois de tantos anos -- estamos indo pro 27o), que nos deu um atendimento todo personalizado. 
A tour pelo centro custou 20 mil pesos por pessoa e foi legal, embora eu prefira algo com mais informações e explicações históricas. 
No entanto, o tour para Vina del Mar e Valparaíso, que dura o dia todo (27 mil pesos por pessoa), mais do que vale a pena! 
Nesta excursão, Pedro nos levou de carro junto com uma jovem e querida família de Fortaleza. Primeiro paramos em duas vinícolas. Não tenho grande interesse nisso, porque nem bebo, mas os lugares eram bonitos (e eu acho que nunca vi lhamas e galos tão de perto). 
Contatos imediatos com o Oceano Pacífico
Vina del Mar é linda e charmosa, e tem toda a pinta de um lugar rico. Foi emocionante botar o meu pezinho pela primeira vez na vida no Oceano Pacífico. É gelado. Toda a água que cheguei perto no Chile (isso inclui a piscina do apartamento que alugamos) era gelada. E olha que é verão! 
Pedro disse que eles estão acostumados com água gelada, então entram no mar sem grandes problemas, mas disse também que ninguém fica muito tempo na água de 11 graus (uma das vantagens de viajar pro exterior é valorizar o Brasil -- tem praia melhor no mundo que as nossas aqui do Nordeste?). 
Todo mundo tira foto desse relógio de flores dado pelos suíços aos chilenos, para comemorar a Copa do Mundo de 1962. Fica em Vina del Mar
Um dos pontos altos dessa excursão foi parar no meio do caminho entre Vina e Valparaíso pra ver os leões marinhos. Eles são divinos! Ficam numa plataforma abandonada brincando e se esbaldando ao sol pra todo turista babar. 
E nós turistas somos muito babões -- aplaudíamos a cada vez que um leão marinho tinha que escalar de novo a plataforma (a cada 3 minutos, pelos meus cálculos). E fazíamos "Ahhh!" cada vez que um leão marinho derrubava outro. Eu não ficava tão hipnotizada por bichinhos desde os esquilinhos em Detroit.
Em Valparaíso comemos e fomos a dois museus, um que era a casa de Pablo Neruda, La Sebastiana (não entramos, o ingresso estava caro, 6 mil pesos, e não tínhamos muito tempo), e outro, que era um museu da marinha. Lá estava a cápsula usada para salvar os mineiros soterrados. Mas eu fiquei fascinada mesmo foi com essa bomba com milhares de explosivos -- que, dizia a plaquinha, precisava ser acionada manualmente (devia ser a última missão de algum pobre marujo).
Ficamos num apartamento muito bom, muito bem localizado, central, uma quitinete que alugamos via Airbnb por R$ 800 (por uma semana). Tinha piscina, mas já falei das águas geladas do Chile? Eu tentei entrar uma vez e nunca mais.
Os sorvetes chilenos não têm comparação com os argentinos. O mais maravilhoso no Chile são as frutas. Elas estão à venda em cada esquina, e são todas perfeitas. Quando que eu vou comer morangos daquele jeito de novo? E nectarinas, e pêssegos, e peras? (o maridão se empaturrou também de framboesas e blueberries e pomelo). A gente acabou não indo a nenhum restaurante de comida peruana (que é o hit da culinária no Chile). 
E nem provamos o pastel de choclo (milho), que o Pedro recomendou. Aliás, só descobri no último dia que não era pastel, era um tipo de escondidinho (a empanada mais típica deles é a de pino, que nada mais é que carne moída, cebola e azeitona -- muito gostosa). 
Outra recomendação do Pedro foi visitar o Patronato, um bairro que vende roupas a preços populares. Fomos andando e comprei duas blusas por 3 mil pesos cada (R$ 15). 
O ar em Santiago não estava nada bom. Eles sempre têm problemas com incêndios, mas parece que este foi o pior dos últimos cinquenta anos. Uma névoa cobria a cidade, e os móveis amanheciam com cinzas. 
Gostei muito do que vi no Chile. As pessoas são simpáticas e pude praticar meu portunhol à vontade. Acabamos gastando um total de R$ 1.510 lá (sem contar o apê que alugamos ou as passagens aéreas). Não sei se voltaremos, porque é longe. Pra gente que mora em Fortaleza, equivale basicamente a cruzar o continente (ah, e uma coisa revoltante: no aeroporto de Santiago não tem um único bebedouro! As pessoas são obrigadas a comprar água. Leve sua garrafinha cheia).
Antes de ir pro Chile, fizemos escala no Rio. Mas era uma escala longa, umas 14 horas, tempo demais pra mofar num aeroporto. 
Não sei se vocês lembram que eu estava ansiosa procurando um motel (muito mais barato que hotel) perto do Galeão, mas é difícil encontrar isso na internet. Na última hora, um aluno querido que sabe tudo de turismo sugeriu uma suíte, via Airbnb, que fica na Ilha do Governador. 
E foi lá que nos hospedamos, na bela casa da Heidy, a poucos minutos do aeroporto, por R$ 109. E, de bônus, desfrutamos da companhia dos seus dois cachorrinhos adoráveis. Fica a dica.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

GUEST POST: ELE NUNCA ME BATEU

Candida Maria Ferreira da Silva é assistente social, teóloga, especialista em Infância e Violência Doméstica pela UFF, e palestrante (email: candida215@hotmail.com). Ela tem uma página no FB sobre o tema.
Diante da estatística de que 40% das mulheres que sofrem violência doméstica são evangélicas, não há como negar que temas como religião e gênero devem ser analisados em conjunto. No entanto, Candida explica: "Esse artigo nasceu inicialmente com objetivo de atingir mulheres evangélicas e /ou católicas, visto estarmos nos dedicando a estudar e trabalhar com a temática da violência doméstica nesse grupo especifico. Mas o texto pode lembrar sua amiga, sua parente, até você mesma, em relações heterossexuais ou homoafetivas. E, também homens podem passar por relacionamentos abusivos. Estima-se que 14% de homens passam por violência doméstica, da qual a principal é a violência psicológica.

Eis o post de Candida: 

Talvez você tenha ouvido essa frase de uma amiga, de uma parente, da mulher que congrega na sua igreja ou quem sabe você mesma tenha dito esta frase: “Ele nunca me bateu”. Mas, você já perdeu as contas das vezes que ele fez com que você se sentisse inútil e burra.
No início sempre é tudo tão lindo. Resposta às orações. O rapaz, o homem de Deus, dedicado na igreja, frequentador assíduo das atividades eclesiásticas, a família se alegra, a igreja e o pastor também. E você não se contém de felicidade com a sua “benção”. Por isso, quando ele briga com você por causa de suas amigas e amigos, você não se importa; afinal, são demonstrações de ciúmes, coisa que passa. Então ele reclama da sua roupa, do seu cabelo, do batom que você usa. Bobagem, zelo de um homem sério nas coisas de Deus. 
Se você é extrovertida com seu grupo na igreja, ele começa sutilmente a mudar isso em você, afinal você namora com ele, é um namoro sério, agora você ficou noiva. O compromisso é sério. Talvez ele não diga nada, mas a cara emburrada no final da programação e no caminho de casa faz com que você não queira de forma alguma “magoá-lo” e para a felicidade de vocês... você muda.
Então vocês casam. Tudo tão perfeito. Lua de mel, primeiros meses de casados. Se você trabalha fora, ele reclama do seu trabalho, quer a casa arrumada, mas ajuda pouco ou não ajuda em nada. Você engordou, ele faz questão de mostrar isso. Agora você não tem mais tempo para sua família, afinal você está casada, precisa dar conta da casa, dele e de suas “obrigações de esposa”, e é claro das obrigações eclesiásticas, principalmente o acompanhando.
Se você reclama, enfrenta, ele lembra o quanto te ama, que ele assumiu um compromisso com você, casou com você, afinal, você devia ser grata a ele -- de tantas moças na igreja, ele escolheu você! E que você nunca deve esquecer que o cabeça da família é ele. Isso é bíblico. Você lhe deve submissão.
Com o tempo ele se torna mais agressivo. Nunca te bateu. Mas já te espancou com palavras. Tudo em casa que dá errado é por sua culpa. Sumiu algo? Foi você. Algo está fora do lugar? Foi você.
Você levanta da cama e não recebe um bom dia. Recebe reclamações sobre a casa, a comida ou qualquer outra coisa. Quem vai imaginar que aquele homem agradável, de orações belíssimas, grande líder, pregador, cantor, um “varão de Deus”, é um tirano que lhe tortura dia e noite, há anos, psicologicamente, a tal ponto que você passou a acreditar que realmente é aquela mulher sem valor algum que ele tanto diz.
Você não tem coragem de pedir oração. O que vão pensar dele? Vai conversar com o pastor e ele diz: “irmã, tem que orar mais. É o temperamento do seu marido. Ser mais dócil, mais meiga”. Ou: “A irmã tem que rever seu comportamento, se ele reclama é porque tem algum fundamento”.
E você já fez todas as orações. Todos os jejuns. E dizem para você orar mais e suportar a “sua cruz”, “o sofrimento como Jesus”. Ser mansa e abnegada e o Senhor a recompensará.
Você já se tornou depressiva, já explodiu em doenças psicossomáticas. Tem ansiedade e pânico. A família que vê de longe acha que está tudo bem. Casamento perfeito. E todo mundo acha tudo tão perfeito, que você começa a achar que está maluca, que realmente você é o problema e continua a cair no seu poço de culpa e depressão.
Não, você não está louca! Você é vítima da mais covarde e silenciosa violência doméstica existente: a psicológica. Não deixa marcas no corpo. Deixa marcas na alma. Você deixou de ser você para ser uma marionete manipulada.
Então, você acorda. Quer sair daquilo. Ele ameaça seus filhos, vai sumir com eles e você nunca mais os verá. Ele não sabe viver sem você. Ele não tem para onde ir. Você é tudo na vida dele. Ele vai se matar. 
Ou: você é incapaz de viver sem ele. E você fica por causa dos filhos. E você fica por causa dele, coitado! E você fica por medo de ficar sozinha.
E no entanto, ele nunca te bateu.