Vou publicar dois guest posts que se contradizem um pouco entre si. Ambos estão relacionados à violência doméstica.
A.
Eu cresci ouvindo que todo mundo (pai, mãe, irmãos mais velhos) pode bater em criança porque é para o bem dela. Porque criança que não apanha não foi educada e não terá limites. Que bater é uma prova de amor.
Cresci ouvindo sobre as "vantagens", aliás, a "necessidade", de bater em criança para educá-la. Só que nunca ouvi que bater em criança está relacionado com violência doméstica.
E tampouco ouvi que mulher pode bater em homem, ou em outra mulher. Mulher tem que ser fina. Mulher só pode bater em criança, e isso se for a mãe. E, claro, isso nem é bater, é educar.
Ouvi muito que em mulher não se bate nem com uma flor. Mas também ouço "um tapinha não dói", e a surrada frase do Nelson Rodrigues, "Não é toda mulher que gosta de apanhar, só as normais". E, mesmo que a frase não diga, desde criança eu sabia que, nesse ditado, estava implícito que quem bate (pra dar prazer pra mulher, claro) é o homem.
Acabar com a violência doméstica é deixar de bater em criança, mulher, homem, idoso, animal de estimação, o que for. Não há desculpa, não há exceção válida.
B.
Sou feminista, mas muito antes de me dar este rótulo, nunca aceitei nenhuma violência de nenhum tipo vinda de qualquer homem que fosse.
Cresci ouvindo, como um valor social considerado do bem, que homem não pode bater em mulher e nem em criança porque é muito mais forte. Homem pode bater em homem. Mulher pode bater em mulher. Mulher pode bater em criança. Mulher pode bater em homem.
É a primeira vez que paro pra rever estes conceitos que agora me parecem tão estúpidos, mas ecoam na minha maneira de me relacionar de uma forma assutadora e que eu não queria. Cada vez mais percebo o quanto qualquer tipo de violência é inaceitável e desnecessário, e o tanto que eu tenho que me vigiar para não ser violenta em nenhuma instância, com ninguém.
Exercício difícil. Eu fui uma mulher daquelas que se chamam de barraqueira, mas num sentido ruim isso é apenas uma pessoa agressiva. Quando alguma coisa me irrita muito sinto uma raiva indescritível que me faz ser violenta verbalmente e muitas vezes fisicamente.
Meu companheiro aceita isso porque sou barraqueira. Ele não sente que sofre violência doméstica porque isso é coisa de homem frouxo. E porque eu sempre tenho uma desculpa: estou cansada, preocupada, você me provoca, etc.
Isso não acontece com frequência, mas a última vez me vi batendo no ombro dele com muita raiva e o xingando com muito palavrão, e depois me justificando que ele recebeu estes tabefes porque insistiu num assunto que estava me irritando.
Mas quando minha amiga apareceu na minha casa machucada porque a companheira dela a agrediu, eu disse a ela: não importa o que você fez, não existe justificativa pra uma pessoa invadir o corpo da outra dessa forma.
E que medida foi essa que me impediu de ver que era exatamente isso que eu fazia, sem que me doesse nenhuma parte da minha consciência? O que me faz pensar que no meu relacionamento esta mesma atitude merecia outro nome? Agora sim me vejo como agressora, e digo que na minha casa temos uma história de violência doméstica. Mesmo que o machismo permita que esta violência seja cometida e que autorize a ser uma pessoa violenta por baixo de um título de mulher barraqueira. Que eu saiba contar até dez e me livrar desse comportamento repulsivo porque a luta agora é interna, companheira!
A.Eu cresci ouvindo que todo mundo (pai, mãe, irmãos mais velhos) pode bater em criança porque é para o bem dela. Porque criança que não apanha não foi educada e não terá limites. Que bater é uma prova de amor.
Cresci ouvindo sobre as "vantagens", aliás, a "necessidade", de bater em criança para educá-la. Só que nunca ouvi que bater em criança está relacionado com violência doméstica. E tampouco ouvi que mulher pode bater em homem, ou em outra mulher. Mulher tem que ser fina. Mulher só pode bater em criança, e isso se for a mãe. E, claro, isso nem é bater, é educar.
Ouvi muito que em mulher não se bate nem com uma flor. Mas também ouço "um tapinha não dói", e a surrada frase do Nelson Rodrigues, "Não é toda mulher que gosta de apanhar, só as normais". E, mesmo que a frase não diga, desde criança eu sabia que, nesse ditado, estava implícito que quem bate (pra dar prazer pra mulher, claro) é o homem.
Acabar com a violência doméstica é deixar de bater em criança, mulher, homem, idoso, animal de estimação, o que for. Não há desculpa, não há exceção válida.
B.
Sou feminista, mas muito antes de me dar este rótulo, nunca aceitei nenhuma violência de nenhum tipo vinda de qualquer homem que fosse.
Cresci ouvindo, como um valor social considerado do bem, que homem não pode bater em mulher e nem em criança porque é muito mais forte. Homem pode bater em homem. Mulher pode bater em mulher. Mulher pode bater em criança. Mulher pode bater em homem. É a primeira vez que paro pra rever estes conceitos que agora me parecem tão estúpidos, mas ecoam na minha maneira de me relacionar de uma forma assutadora e que eu não queria. Cada vez mais percebo o quanto qualquer tipo de violência é inaceitável e desnecessário, e o tanto que eu tenho que me vigiar para não ser violenta em nenhuma instância, com ninguém.
Exercício difícil. Eu fui uma mulher daquelas que se chamam de barraqueira, mas num sentido ruim isso é apenas uma pessoa agressiva. Quando alguma coisa me irrita muito sinto uma raiva indescritível que me faz ser violenta verbalmente e muitas vezes fisicamente.
Meu companheiro aceita isso porque sou barraqueira. Ele não sente que sofre violência doméstica porque isso é coisa de homem frouxo. E porque eu sempre tenho uma desculpa: estou cansada, preocupada, você me provoca, etc.
Isso não acontece com frequência, mas a última vez me vi batendo no ombro dele com muita raiva e o xingando com muito palavrão, e depois me justificando que ele recebeu estes tabefes porque insistiu num assunto que estava me irritando.
Mas quando minha amiga apareceu na minha casa machucada porque a companheira dela a agrediu, eu disse a ela: não importa o que você fez, não existe justificativa pra uma pessoa invadir o corpo da outra dessa forma. E que medida foi essa que me impediu de ver que era exatamente isso que eu fazia, sem que me doesse nenhuma parte da minha consciência? O que me faz pensar que no meu relacionamento esta mesma atitude merecia outro nome? Agora sim me vejo como agressora, e digo que na minha casa temos uma história de violência doméstica. Mesmo que o machismo permita que esta violência seja cometida e que autorize a ser uma pessoa violenta por baixo de um título de mulher barraqueira. Que eu saiba contar até dez e me livrar desse comportamento repulsivo porque a luta agora é interna, companheira!



































































