sábado, 26 de julho de 2008

SOU CONTRA A POLÍTICA DE COTAS... NO PARAÍSO

Outro dia, enquanto estava andando pelo zoológico de Detroit, refleti sobre como os argumentos de algumas pessoas contra cotas pra negros nas universidades públicas são parecidos com os das pessoas contra zoológicos. Assim: animais nasceram pra ficar livres no seu habitat natural, seu espaço precisa ser preservado, ninguém deveria caçá-los. Nisso eu concordo totalmente, não há discussão. Mas, voltando ao Planeta Terra, a realidade é que os habitats das espécies foram destruídos em todo o globo, montes de animais foram extintos ou estão ameaçados de extinção, e ainda existem homens que adoram matar animais selvagens, seja por um prazer sádico que eles chamam de esporte (essa gente não pode ser minha amiga), ou porque dá dinheiro. Logo, se um rinoceronte tiver que escolher entre desaparecer completamente do mundo ou viver protegido num zoológico, pra que os filhos do bicho homem talvez aprendam como os outros bichos são lindos e queridos, o que ele iria querer? Difícil dizer.
Minha comparação entre ser a favor de zôos e de cotas parece espúria, eu sei. Mas só queria lembrar que adoro animais, e que não considero humanos de qualquer raça, cor e nacionalidade superiores a eles. A única desvantagem que vejo nos animais é que eles não aprendem a jogar pôquer, e mesmo que aprendessem, não teriam o polegar opositor pra segurar as cartas.
Mas falando sério. Ao contrário do rinoceronte, que não pode comunicar claramente ao mundo sua preferência entre estar extinto ou viver trancafiado -- e observado -- num zôo, na questão das cotas, felizmente, os negros têm voz, e a maior parte é a favor delas. Então eu também sou. Pra mim já é um bom motivo pra ser a favor que a parte discriminada seja a favor, ué. Num mundo ideal, lógico, as cotas não seriam necessárias. Os negros teriam condições iguais de ingressar numa universidade pública, já que as escolas públicas seriam tão boas quanto as particulares (que eu não considero nenhum supra-sumo), haveria mais vagas nas universidades, e, pensando bem, os vestibulares seriam abolidos. Entraria numa universidade pública quem quisesse, desde que mostrasse um mínimo de competência. Perfeito. Seria lindo mesmo. Mas enquanto isso não acontece, eu, que fiz mestrado e agora faço doutorado na UFSC, não tenho colegas negros. Dei aulas na graduação de Letras (curso “de pobre”, dizem) como parte de estágio-docência e não tive um só aluno negro. Ah, mas Santa Catarina tem poucos negros. É verdade. É o estado brasileiro com menos negros, apenas 13% da população. Esse número soa familiar... Opa, 13% é a mesma quantidade de negros que os EUA têm! E no entanto, apesar de todo o racismo e segregação que há nos EUA, a gente vê muito mais negros nas universidades, na mídia, nas telas do cinema... O Brasil tem 45% de negros e mulatos. É o país fora da África com a maior quantidade de negros. Mas as nossas universidades públicas são de dar inveja ao Estado Ariano que Hitler queria. Não só na ausência de alunos negros, mas de professores negros. Sabe quantos negros a USP tem em seu corpo docente? 0,2%. É coincidência, ou será que os negros não querem ser professores?
Na discussão das cotas, há a questão de como, num país belamente miscigenado como o nosso, poderíamos determinar quem é e quem não é negro. Não é como nos EUA onde, se você tem um pinguinho de sangue negro, você é negro. Acho que as universidades deveriam ter autonomia pra decidir essa questão. Algumas trabalham com fotos dos candidatos, outras com auto-declaração. Ah, mas aí todo branco vai se declarar negro pra entrar na universidade! Sim, claro! Em que mundo uma pessoa que diz isso vive? Naquele em que os animais vivem livres no seu habitat natural? Ou num em que mulheres negras que não alisam o cabelo são ofendidas na rua, por ousarem mostrar seu “cabelo ruim”? Inclusive, quando a gente viver num mundo em que não exista mais essa expressão de “cabelo ruim”, me avise. Enquanto vivermos num mundo em que há cremes de beleza chamados “White Beauty” pra clarear a pele, acho que muito pouco branco vai mentir que é negro. Claro, vai haver aqueles (poucos) que mentem. Mas essas pessoas são corruptas. A gente não é contra corrupção no governo? Então a gente tampouco deveria achar “esperta” a pessoa que mente pra burlar a lei e levar vantagem em tudo, certo?
Tem gente que é contra as cotas por achar que no Brasil não existe racismo. Desconfio que essa gente não seja negra. Não é negando a existência do racismo que vai se acabar com ele. Pelo contrário, pra combater o racismo ou qualquer outro problema é necessário admitir que esse problema existe. O Brasil foi o último país a abolir a escravatura, e isso aconteceu há apenas 120 anos. Pra comemorar a data escolhemos uma branca, a Princesa Izabel, ao invés de um herói negro da resistência, como o Zumbi. Essas escolhas não são por acaso.
E tem quem é contra as cotas por ser desinformado, pura e simplesmente; por achar que as cotas significam que só os negros ocuparão as cadeiras universitárias. Na maior parte das universidades, o sistema das cotas me parece totalmente justo: 50% das vagas são reservadas pra alunos vindos de escolas públicas. Isso é muito, se considerarmos que menos de 20% da população brasileira estuda em escolas particulares. Logo, a gente vê que existe uma distorção enorme: se apenas uma minoria da população vem de escolas particulares, por que a maioria dos estudantes em universidades públicas é oriundo de escolas particulares? Porque no Brasil se instituiu que 1) universidades públicas são melhores que as privadas (e são mesmo, sem dúvida. Há mais pesquisa e professores melhor preparados, porque as universidades públicas não visam o lucro, como suas colegas particulares), e 2) pessoas de classe média e alta merecem sempre o melhor. Se as escolas particulares são melhores, vamos colocar os filhos lá. Se as universidades particulares são melhores, é pra lá que eles vão. E não há nada de errado em querer o melhor pros filhos. O que é errado é pensar que vivemos num mundo com oportunidades iguais, que nós e nossos filhos cursamos as melhores escolas e universidades por mérito, porque nós trabalhamos mais e somos mais inteligentes que os pobres, então nada mais justo que nossos filhos perpetuem o sistema. Nessa lógica, fica implícito que, se os pobres -– muitos deles negros -– se esforçassem mais, eles estariam exatamente no mesmo patamar que nós. A gente nem se considera privilegiada! A gente se faz de coitadinha, vive dizendo como sofre, como o governo é malvado com a gente, como paga impostos tão altos. Deve ser legal viver nessa ilusão de que a gente não só sofre, mas tá numa posição muito melhor que a maior parte dos brasileiros (e da população mundial) porque a gente batalhou pra isso, mereceu!
O sistema de cotas reconhece que sim, existem desigualdades (que nós fingirmos não ver). E dedica 50% das vagas pra gente que vem de escolas públicas. Desses 50% (e não do total), separa-se X pra alunos negros (também vindos de escolas públicas). X porque essa porcentagem depende do número de negros em cada estado. Aqui em SC, seria 13% (e 13% dentro desses 50% dá o quê, 6%? Não vai mudar a sua vida, você ainda vai conseguir entrar na universidade, sossega!). Na Bahia, seria 80%. Inclusive, a Bahia é um ótimo exemplo de como a discriminação racial é enorme no Brasil. Não sei a porcentagem de alunos negros nas universidades públicas baianas, mas, numa população em que 80% é negra, a gente gostaria de supor que fosse o quê, pelo menos 50%?
Outro argumento contra as cotas: ah, aceitando alunos de escolas públicas, o nível da universidade vai cair. Bom, primeiro que, se você falar com alguns professores universitários, eles vão dizer que o nível já não é lá grande coisa. Não é só porque nós da classe média somos batalhadores e merecedores e por termos estudado em escolas particulares que o nosso nível seja essa maravilha, né? Eu lembro do Show do Milhão e do “Pergunte aos universitários”. Segundo que já há pesquisas mostrando o desempenho desses novos alunos beneficiados por cotas, e as notas deles costumam ser tão boas ou melhores que a dos outros alunos.
O sistema de cotas aceita que existe uma discriminação histórica que precisa ser combatida. Eu acho bem chato chegar pra um aluno negro de segundo grau de escola pública em idade pra ingressar na universidade, que não tem como pagar um cursinho pré-vestibular e nem teria como pagar uma faculdade particular, e falar pra ele: “Espere que a educação no Brasil melhore como um todo, que as escolas públicas sejam boas, que haja mais vagas nas universidades públicas. Seja paciente porque, quando esse dia chegar, você vai garantir a sua vaga”. Do alto do nosso privilégio nós, da classe média branca, falamos pra alguém sem privilégio algum esperar pacientemente. E essa é a parte liberal da classe média, que reconhece que o racismo existe e gostaria que ele deixasse de existir, desde que isso não implique um milímetro quadrado de sacrifício nosso. A parte conservadora da classe média ora diz que o racismo não existe, ora diz que, se existe, é por falta de esforço dos negros, que são muito preguiçosos, sabe? E que o mundo é assim, sempre foi assim, e não dá pra mudar. Bom, olha a novidade: dá pra mudar. Mas tem que ser por decreto. Por cotas.

43 comentários:

ro salgueiro disse...

Lola, os argumentos contra as cotas podem ser ainda mais variados. Ou simplesmente não existirem. Porque muita gente simplesmente não quer pensar ou entender que, mesmo entre os pobres, os negros são os mais pobres; que auto-estima é essencial na alta de evasão escolar e que os negros, cotidianamente, têm a auto-estima violentada. Muitas pessoas recusam-se ao exercício de olhar em volta e contar os negros presentes nos cafés, restaurantes, cinemas, espaços de convivência classe-média burguesa. Participei ativamente do processo de construção da proposta de política de cotas na minha universidade. Meu orientador de então foi o propositor. Tenho muito orgulho de ter feito parte disso.

lola aronovich disse...

Ro, pois é, um dos motivos das cotas serem inconvenientes é que elas nos lembram que o racismo existe. E muita gente prefere acreditar que não, que racismo é coisa de americano e de sul-africano. E tem o lado de a pessoa, por não ser pessoalmente racista, querer ignorar a questão da cor. Então não vai contar o número de negros num restaurante ou cinema porque, ao dar ênfase à cor, estaria sendo racista. E eu entendo esse lado. Mas uma coisa é achar que a cor não tem importância, outra é negar a existência do racismo. Algo como: "se eu não sou racista, é porque o racismo não existe. E se o racismo não existe, não precisamos de cotas". Mas o pior é que brasileiro NÃO pensa assim. Eu sempre me lembro daquela pesquisa que pergunta: "vc é racista?", e sei lá, 90% dos brasileiros responde que não, de jeito nenhum. Aí a pergunta seguinte é: "Vc conhece alguém que é racista?". E 90% responde que sim. Todos os racistas devem estar escondidos em Marte...

vb disse...

Lolinha, tudo bem?

Olha, eu não sou contra o sistema de cotas, mas sou sim, contra o sistema de cotas para NEGROS. Pra mim, o sistema de cotas deve beneficias toda e qualquer pessoa que venha do ensino público, ponto. Não importa se a cor da pele é negra, azul, ou se veio de marte, e é verde. O que está errado pra mim, é dizer que só os negros são pobres, só os negros não tem oportunidades, e isso não é verdade. Nem aqui, nem aí nos EUA. Então, eu acho que tem sim, que criar formas de ajudar quem mais precisa, porém, não vamos criterizar a raça, mas sim a condição social.

Eu sou branco (estilo saco de leite) e sempre estudei em colégio público. Consegui uma vaga em uma universidade pública e sou formado. Eu não precisei das cotas, mas se eu vejo as pessoas com quem estudei nestes colégios, poucos tiveram a oportunidade de conseguir o que eu consegui, e tenho certeza que muitos deles não teriam vontade de conseguir isso, mas outros tantos teriam, e o sistema de cotas teria sim beneficiado eles.

Um último ponto. Em toda minha vida de estudante de escola pública, devo ter estudado com no máximo uns 5 alunos negros, e olhe lá.

Masegui disse...

Eu me incluo na faixa dos que são desinformados, não sabia exatamente como era e como funcionava. Eu sempre pensei que seria um preconceito invertido.

Seus argumentos me balançaram, me deixaram meio encucado. Mas como estou na latinha nr 5, não dá pra chegar a uma conclusão. Vou ler novamente, outra hora, e pensar a respeito...

lola aronovich disse...

Oi, Vb! Então, o sistema de cotas beneficia os alunos de escolas públicas. 50% das vagas são reservadas a eles. E, dentro dessas 50%, uma parcela (que depende de estado pra estado) vai para os negros. Ninguém está dizendo que só os negros são pobres. Só que, entre os pobres, há muitos negros mais pobres ainda que brancos.
Infelizmente, Vb, mesmo entre pessoas da mesma classe social, os negros costumam levar a pior. Há pesquisas que mostram que negros ganham menos que brancos até quando estão na mesma profissão e na mesma cidade (às vezes, na mesma empresa). Na base mais baixa da pirâmide social, estão as mulheres negras. Assim como é difícil negar que, nesta sociedade, é um privilégio ser homem, também é difícil negar que é privilégio ser branco. Não quer dizer que a vida é hiper fácil pra homens brancos, só que é menos difícil, e com mais oportunidades. Eu sei que é dificíl a gente ver como é privilegiada. O Obama falou disso num discurso. Os brancos americanos são se sentem privilegiados, ou que algo foi dado de bandeja pra eles. Mas é preciso ser negro (e, em alguns casos, mulher) pra entender o que é esse privilégio. Sério, é muito complicado perceber o preconceito se vc não é o alvo desse preconceito. E ainda mais se vc é uma pessoa boa, que não discrimina ninguém.
Sobre vc ter estudado com poucos negros, de onde vc é mesmo? Tem mais: mesmo em escolas públicas, há um certo ranking. Muitas escolas públicas são consideradas de muito boa qualidade, tão boas quanto escolas particulares. E nessas escolas há menos negros que brancos, sempre.
Na minha escola (particular, de elite, internacional) eu não tive um só colega negro. A menos que a gente conte os indianos, que têm uma cor de pele linda, mas não se consideram negros. Aí na minha faculdade de Pedagogia (particular, pra classe média, média baixa) havia talvez umas 3 ou 4 negras numa classe de 50. E agora na minha universidade super concorrida, nada de negros. Parece que não vivo num país onde 45% da população é negra ou mulata...

lola aronovich disse...

Mario Sergio, vc é uma gracinha. Sempre me faz rir. Tá, quando estiver na latinha no. 0 (isso existe entre os mineiros?), leia e reflita. E me avise. Abração, e não chegue perto de um carro, por favor!

Anônimo disse...

Uma pergunta. Quem decide quem é negro e quem é branco? E o caso dos gêmeos idênticos da UnB, onde um foi considerado apto para entrar pelos sistema de cotas e passou e o outro foi considerado branco e não passou?
Sei não...
Abs e parabéns pelo blog.

Renata disse...

Oi Lola,
é sábado (o que significa que estou trabalhando, mas que não tem nada pra fazer.. então estou lendo seus posts... pode esperar vários comentários hoje :)

Sou a favor de cotas por tudo o que vc disse... mas preciso dizer que sou contra animais em zoológicos. Claro que zoo é muito mais "humano" que circo e tal, mas a situação que vc descreve nem sempre é o que acontece. Os animais não são tirados do habitat pq o mesmo está sendo destruído, para protegê-los... Isso acontece, é claro, mas muitas vezes eles são retirados do habitat simplesmente para virarem atrações nos zoos ao redor do mundo.

Isso vem acontecendo há mais de um século e não adianta dizer que há 80 anos atrás a preocupação era com os animais e seus habitáts em destruição. E acho que por mais bem tratados que sejam os animais eles ainda sofrem um monte, por mais espaço que tenham. Muitos ficam neuróticos, agressivos, enlouquecem mesmo.
Eu vi um casal de tigres num zoo da Holanda e foi isso que me fez ver o quão nocivo isso é pra eles: eles tinham um espaço bem grande, arborizado e tudo, mas andavam em círculos o dia todo, repetindo sempre o mesmo trajeto. Eu nem sei como explicar, mas eu senti uma tristeza tão grande vendo aquilo. Nunca mais olhei zoológicos com os mesmos olhos. Outra vez vi um documentário falando de um lugar pra onde eram levados os macacos, chimpanzés, orangotangos, etc. que enlouqueciam depois de um tempo nos zoos. Era praticamente uma clínica psiquiátrica para animais.
Eu acho que uma coisa é criar uma reserva onde as espécies possam viver protegidas e as pessoas possam também visitá-las quando puderem, outra é levar os animais para serem atrações em zoos, onde invariavelmente sofrerão com a adaptação ao clima, espaço reduzido, pouco convívio social, alimentação diferente, entre outras coisas.
Em resumo acho que a idéia de que os zoológicos servem pra salvar as espécies cujos habitáts estão ameaçados é um pouco ingênua, é uma ilusão.
Bom, é a minha opinião anyway... sei que tem gente que adora zoológico, mas pessoalmente sou contra.
Um abraço,

Sadie disse...

Como sempre, Lola, aí vai um post enooooorme...mas é que eu não resisto!
Sou contra o sistema de cotas. A impressão que se dá, é que o governo quer compensar sua falta de investimento na educação básica pública oferecendo vagas na universidade para alunos de baixa renda.
Cotas são as maiores demonstrações de racismo que existem e só vão aumentar a hostilidade, porque muitos outros alunos, que estudaram e se esforçaram ao máximo se sentirão injustiçados por outros estudantes que supostamente, teriam sido "postos para dentro" por esse sistema. Eu acho que, o ideal seria que, o governo apostasse todas as fichas nas escolas públicas, melhorassem a estrutura, tanto física quanto humana, para que, seus alunos pudessem concorrer de igual para igual com os alunos das escolas particulares, de maneira que, ninguém, branco ou negro, pobre ou rico, saia "favorecido" e receba privilégios. Os estudantes de baixa renda (negros, brancos, azuis, ou "multicoloridos") devem receber condições suficientes para entrarem na universidade por seus próprios méritos e não por esmola do governo. Cota cheira a populismo barato, típico de políticos ignóbeis feito o Lula, Hugo Chávez e Evo Morales, falsos pais dos descamisados. Tenho horror só de ouvir falar nesses caras ou perceber a influência nefasta da Bolsa Família, criadora de uma geração de parasitas que tem alergia só de pensar em trabalho, já que vivem de receber dinheiro do governo, sem nunca terem pego no pesado na vida, ao contrário da classe média, que bate ponto todo santo dia para ter algum conforto. Esse povo é terrível, metido a revoltadinho, que acha que os "ricos" tem de sustentá-los, como se o dinheiro deles não tivessem sido frutos do trabalho e sim, tivessem nascido de uma árvore. Esse discurso pode parecer raivoso, mas, é mais um desabafo.

Voltando ao assunto, racismo existe sim. Não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Acho que é hora de parar com esse falso moralismo. Só que, no Brasil, existe um fenômeno interessante, que é o racismo camuflado e hipócrita. O cara diz que não tem nada contra negros (ou qualquer outra minoria), que admira, acha bonito, etc, mas surta quando a filha traz para casa o namorado negro. Os amigos da garota, que tinham a mesma postura que o pai, na frente do casal, fingem tolerância, mas assim que eles saem, ficam falando mal e dizendo o quanto é inadequado uma moça branca como ela estar com um homem tão "escuro".
Nos EUA, onde racismo é mais aberto, sinto que, a iminente eleição do Obama seria uma tentativa dos americanos mostrarem ao resto do mundo que não são racistas. Mas eu não sei quem eles pensam que enganam. Eles são tão modernos e liberados que, apesar de "não serem racistas (LOL!)", não resistem na hora de fazerem uma gracinha feita a capa da New Yorker.

Um comentário meio "nada a ver", mas é que não tive oportunidade de mencionar no post adequado: eu adoro esses cremes clareadores, tipo White Beauty. Já testei de várias marcas, porque eu sou muito branca e qualquer coisa mancha minha pele. Na Ásia, eles são um fenômeno sim, mas isso não é de agora que os asiáticos querem "embranquecer". Não é exatamente um problema de "raça" (sim, eu sei que esse termo é biologicamente incorreto). Para eles, desde a antiguidade, a palidez denota aristocracia, demonstrava que a pessoa não realizava trabalhos braçais sob o sol. Não é à toa que as gueixas pintavam se pintavam de branco. Hoje em dia, pode até ser que esse desejo tenha algo a ver com a mídia, mas certamente, não se pode responsabilizá-la totalmente por essa demanda, pelo menos no que diz respeito a Ásia. E como eu sou da tendência "Pale and Proud", eu me pergunto, por que a sociedade ocidental julga os clareadores asiáticos e não encana com essa indústria de cremes bronzeadores e camas de bronzeamento artificial? Quer coisa mais patética do que ver gente com a pele laranja na "ensolarada" Inglaterra ou na "escaldante" Suécia? Pode acreditar, eu já vi irlandês estragar aquela pele quase transparente com cama de bronzeamento. Aliás, acho humilhante uma pessoa ir para um salão, feito esses que tem na Califórnia, e ficar lá esperando que alguém passe tinta de spray no seu corpo. Quando eu vejo essas Jessicas Simpsons da vida, tenho vontade de vomitar. Existe uma série de pessoas, pálidas como eu, que são induzidas pela mídia a fazer esse tipo de procedimento idiota. Em Hollywood, a maior parte das estrelas desfila seu bronzeado laranja de clínica de estética. Existem poucas, como a Nicole Kidman e Cate Blanchett que aceitam seu tom de pele da maneira que é. Você já viu a cor estranha da pele daquele jogador, Cristiano Ronaldo? O cara está ficando marrom avermelhado, igual a mogno. Isso não é bonito. E ninguém comenta. Aí vai reclamar da "brancura" das asiáticas? Que "double standard" é esse?

Lúcia disse...

Olá lola,
Interessante este post sobre cotas,aqui no Rs tivemos uma tremenda briga ,inclusive com pedidos de processos de alunos da Ufrgs contra e a favor das cotas.Os contras fizeram um alarde que a meu ver soou muito,mas muito preconceituoso, o que entrou naquela linha de "somos os merecedores",portanto essas vagas são direitos adquiridos.Já pelo lado dos á favor,uma vitória merecida e justo,lado ao qual eu me junto porque aqui como em quase todo o Brasil a elite é a mais privilegiada e raros são os estudandes que conseguem ultrapassar a linha escola publica-ensino superior oriundos das escolas publicas.

Renata disse...

Ai Sadie... nem queria entrar na discussão de cotas por concordar com o que a Lola falou e achar que ela argumenta melhor do que eu... mas...
esta lógica que você usou é algo que não concordo de jeito nenhum. Eu venho vivenciando essa polêmica há algum tempo por conta da discussão sobre a criminalização da homofobia: as pessoas criticam a lei e sugerem que irá criar mais homofobia, que a lei deveria punir a agressão contra outra pessoa, não contra um homossexual, e que isso é discriminação. O fato é que sofremos agressão justamente por sermos homossexuais, e sofremos preconceito todo dia por causa disso também. O Estado fingir que isto não existe e tratar a todos de forma igual equivale a nos tratar desigualmente entende?

É o mesmo raciocínio para os negros e cotas. O ideal de que todos devemos ser tratados de forma igual é muito bonito e eu apóio isso, mas se você vem sendo sistematicamente prejudicado por um sistem que te desfavorece isso quer dizer que você na verdade não está em condição de igualdade. E é aí que o Estado entra, porque é dever dele cuidar de todos, e favorecer os que estão em desigualdade.
Por isso temos leis especiais que protegem as mulheres, os negros, os deficientes, e quem sabe (cruzando os dedos) os LGBT.

Porque a lei Maria da Penha é considerada um avanço em termos de direitos humanos mas as outras leis que tentam proteger as minorias são mal-vistas?

Sei lá, como pessoa que sofre bastante preconceito no dia-a-dia, sempre luto contra esse raciocínio.
Um abraço,
Renata

vb disse...

Oi Lolinha, esqueci de falar, eu sou de Joinville-SC também, leitor das antigas...rs

E sim, eu me considero privilegiado também, porque apesar de sempre ter estudado em colégio público, dos que estudei os de primeiro grau foram excelentes, os de segundo realmente deixavam a desejar, mas aí eu já estudava a noite e tinha que trabalhar, então não conta muito.

Sadie disse...

Renata, eu posso estar errada, mas acho que problema nessa história toda é que, no Brasil, as pessoas são imediatistas demais, querem soluções rápidas e fáceis para os problemas da sociedade e querem criminalizar tudo como uma maneira de acelerar o processo de resolução das nossas mazelas. O interessante é que, a lei somente nunca resolveu problema nenhum. Existe lei para quase tudo e as infrações continuam. O preconceito (de qualquer tipo) é social e está arraigado a muitos anos. O que pode amenizá-lo é uma mudança na educação (não só acadêmica) e mentalidade das pessoas, uma política de tolerância gradativa, de inclusão social, desenvolvida aos poucos. Acho que as cotas são procedimentos bruscos e artificiais. Não acho que seja razoável querer banir o racismo de 300, sei lá quantos anos, do Brasil em 6 meses. É abrupto demais. Eu acho que as coisas deveriam ser feitas mais devagar para darem certo. Cota parece uma daquelas coisas que querem enfiar garganta abaixo de quem não aceita, ao passo que, as coisas não deveriam ser feitas na base da força e sim, na base da persuasão daqueles que não concordam. Mas, talvez, no fundo, a maior fonte da minha antipatia por esse projeto de cotas é por sentir o cheiro ruim do populismo do mestre Lula na conversa.
É bom ouvir sua opinião, eu acho que, essa interação, mesmo que, às vezes, sem concordância, pode enriquecer a ambas as partes. Essa é a beleza da democracia, termos liberdade para expormos as nossas opiniões.

Renata disse...

Sadie,
também gosto muito de me envolver em debates com pessoas que discordam de mim. Acho legal trocar idéias assim, desde que seja com respeito é claro! :)

Continuando a discussão então, me pergunto porque devemos pensar em termos de um ou outro nestas questões? Estes são problemas que requerem soluções de curto, médio e longo prazo, e cada uma delas é diferente.
A curto prazo é preciso que se ajude quem precisa de ajuda agora, neste instante. Como a Lola disse, não é justo que se peça para um estudante de segundo grau negro ou de escola pública que espere pelo resultado de políticas públicas para fortalecer o ensino básico e médio. Este estudante precisa de uma solução agora, assim como os gays, lésbicas e transsexuais que sofrem agressão atualmente--nós precisamos de uma solução imediata pro problema.
Espera-se que a médio e longo prazo, a luta contra o preconceito esteja intitucionalizada e que isso passe para a mentalidade da população. Daí podemos pensar em termos de igualdade de condições.
É mais ou menos o caso da bebida e direção: tomou-se uma ação imediata, para que no futuro a consciência de não beber e dirigir seja algo natural. Se vai funcionar não sei, mas acho que é importante que se dê passos em direção a isso.
E só pra adicionar: eu gosto bastante do Lula, sinto que o governo dele é voltado para as minorias sim e eu aprovo isso. Mas respeito quem não concorda com as políticas dele, estão longe de serem perfeitas afinal de contas. De qualquer modo me parece que pela primeira vez um governo está mexendo um pouco nos alicerces do país e governando de outro ponto de vista.
Um abraço,
Renata.

Masegui disse...

Ai meu Jesus Cristinho! Eu que a princípio sou contra a política de cotas, continuo sem saber o que pensar. As argumentações são boas dos dois lados e eu não tenho competência nem experiência pra discutir. Acho que vivo numa utopia e quero que tudo seja certinho.

No entanto, uma coisa posso dizer: apesar de um pouco decepcionado com o Lula, em quem voto desde 86, ele é um milhão de vezes melhor que FHC e sua corja!

Tenho dito!

Sadie disse...

Em relação ao Lula, tenho uma antipatia intensa pelo governo dele, porque, sei lá, acho que ele é o presidente mais duas caras de todos. Se a moral "pai dos pobres, mãe dos ricos", funcionava para o Vargas, no Lula ela encontrou sua perfeição. Ele é aquele tipo do político que dá o Bolsa Escola e diz que se importa muito com os "descamisados" e que, ao mesmo tempo, recebe o Eugênio Staub em todo comício e aceita Delfim Netto como aliado. Eu sei que esse tipo de procedimento é comum para qualquer político que queira ser bem sucedido, mas, isso vindo de um "porta-voz" dos trabalhadores é muita cara de pau. Do FHC a gente já sabia o que esperar, não é a mesma coisa. Sem falar que, a política externa dele é embaraçosa. O Evo simplesmente colocou a Petrobrás para fora da Bolívia. o xarope do Hugo Chávez vem para o Rio em visita oficial e esculhamba o sistema na Câmara do estado, na cara de todo mundo. Matam o brasileiro em Londres e nem o caixão o governo quer pagar. Os espanhóis mantém os brasileiros praticamente em cárcere privado nas embaixadas e nada é feito. Aliás, só o fato de estrangeiros fazerem isso com os brasileiros já demonstra o tamanho desrespeito que eles tem por nós e nossas instituições. A coisa tá tão feia que, alguns refugiados palestinos, saídos de uma cidade com muita fome, areia e guerra, pediram para voltar para o Oriente Médio, alegando que o governo não cumpriu suas promessas. Isso sem mencionar a corrupção. Depois de tudo isso, eu ainda tenho que acreditar que ele não sabia. Aliás, eu tenho é que decidir o que é pior para um país: um presidente omisso, um bestalhão marionete que desconhece tudo que ocorre ao seu redor (difícil dizer isso do Lula, a considerar sua trajetória) ou um presidente totalmente corrupto e fingido.
Hoje em dia, pode até soar como ingenuidade, mas será demais eu exigir a menor integridade de um político? Eu sei que, todos eles tem O Príncipe e A Arte da Guerra como livro de cabeceira, mas um pouquinho de moral, é demais para eles?
Sei lá, acho que esse mundo está ficando cada vez mais doido. Sou muito jovem ainda e fico pensando em que ponto nós ainda iremos chegar. Às vezes, eu sinto que, a tirar pela evolução tecnológica e pelas mudanças sociais, o homem , no seu íntimo, continua o mesmo de séculos atrás, parece que ele só está condicionado a evoluir até certo ponto. É difícil de entender como, após tanto progresso, ainda tem gente que, no século XXI, bate em mulher, odeia etnias diferentes da sua, prega violência contra homossexuais, etc. Para onde foi toda a nossa evolução? E o pior é que, a gente olha ao redor e vê que muitas coisas tendem a piorar daqui para a frente. Tô começando a sentir desespero!
Talvez, muitas das minhas opiniões tenham a ver com o fato de que nunca sofri racismo ou preconceito, porque eu me encaixo naquele padrão que a mídia tenta vender como correto: branca, magra, heterossexual, estudei em escola particular, etc. Nunca fiz parte de uma minoria e talvez seja por isso que tenho dificuldade de entender a luta diária. Sinto a maior simpatia por muitos desses grupos. Só que eu não tenho conhecimento de causa.
:)

Masegui disse...

Sadie,

Seus argumentos políticos são fracos (desculpe) porque você usa pequenos detalhes pra justificar o todo. Os erros do Lula são identicos aos erros dos políticos anteriores, mas os acertos são originais, ninguém ousou faze-los.
Sua justificativa final explica sua maneira de pensar e eu respeito sua opinião.

lola aronovich disse...

Oi, gente, ta rolando uma boa discussão por aqui, e eu gostaria de poder participar mais. Mas estou completamente sem tempo (amanhã publico um post explicando o porquê). Vou tentar responder brevemente, porque realmente não tenho tempo - e, tambem, preciso aprender a responder em menos palavras, porque é ridícula a quantidade que escrevo.

Fá, de fato, esse é um dos pontos mais difíceis da política de cotas: decidir quem é e nao é negro. Mas acho que nao é tao dificil quanto a Veja tentou mostrar com aquela reportagem dos gemeos. Ela pegou um só caso pra mostrar como as cotas nao podem dar certo. Mas a
Veja nao acredita que exista racismo no Brasil.
Acho que cada universidade deve ter autonomia pra decidir quem é negro ou nao. Algumas vao adotar a base da auto-declaracao (a pessoa declara sua raça), outras pedem uma foto, e um comitê decide. Em ambos os casos podem haver problemas, mas não suficientes pra invalidar todo um sistema.

lola aronovich disse...

Rê, realmente, misturar o negócio dos zôos com a política das cotas não têm nada a ver. Mas foi só o pensamento que eu tive. As duas questões são complicadas, e cada uma merece argumentos próprios. Sobre os zôos, creio que muitos mais animais são "resgatados" por zôos que tirados arbitrariamente do seu habitat pra virarem atracoes. É um fato que, infelizmente, há cada vez menos espaço para os animais no mundo. Seu habitat foi e continua sendo destruído. Um felino grande exige uma área de dezenas de quilômetros de território, e, com o homem destruindo tudo, esses lugares simplesmente não existem mais. Matam-se as florestas e, junto, os animais que vivem nela e dela. É horrível, mas convenhamos: não foram os zôos que promoveram essa destruição. Acho que tem dois lados muito positivos dos zoos: esse de promover a consciência ambiental, por permitir que pessoas, principalmente crianças, vejam animais que nunca teriam chance de ver, a não ser pela TV, e o de ser um porto seguro para animais. Há espécies em via de extinção, que logo só existirão nos zoos. Fora isso, um animal em cativeiro vive quase o dobro que um animal em seu habitat natural. Pode não ser o animal mais feliz do mundo, mas não sei se, com a natureza como está, ele seria feliz lá fora (tá cada vez mais difícil conseguir alimento etc). Mas eu penso: se eu fosse um urso polar, preferiria parar de existir, desaparecer da face da Terra, ou viver num zoo? Mesmo com a gente dá pra fazer perguntas filosóficas parecidas: o que é melhor, viver intensamente, livre e perigosamente durante 25 anos (o live fast, die young), ou levar uma existência mais monótona, menos aventureira, e morrer aos 80? (Pra mim, pessoalmente, isso é um no brainer, mas é que gosto da minha vidinha monótona). Claro que pros humanos não é tão 8 ou 80 assim, mas pra muitas espécies de animais, é.
Claro que seria ideal ter reservas de animais, ao invés de zoos. E muitos países criam reservas. Mas nem sempre há espaço pra isso. DEVERIA haver, mas isso é outra história. A culpa nao é dos zoos que não haja mais reservas.

lola aronovich disse...

Sadie, acho que vc está confundindo as coisas de vez em quando, como quando diz que cotas aumentam a hostilidade contra negros. Quem já é hostil a negros (ou a qualquer minoria) está contra a lei, e precisa aprender a viver em sociedade. Simples assim. E as cotas nunca disseram que querem acabar com o racismo. Isso continua, infelizmente. O que as cotas desejam é corrigir uma situação de discriminação histórica e, pra isso, elas podem ser eficientes.
Não há nada de populismo barato nas cotas. Inclusive, os EUA as adotam até hoje e fica difícil chamar políticos americanos de populistas (esse termo é geralmente reservado a políticos de esquerda). E cotas não são um privilégio, uma caridade. São um DIREITO. Assim como não dá pra ver um sistema de saúde universal como uma caridade. É um direito.
Acho também que vc tem um pouco de dificuldade em ser por no lugar do outro. Por exemplo, quando critica a bolsa família. Pra vc (e pra mim), 50, 100 reais por mês pode não fazer muita diferença. Mas esse programa não é nem pra mim nem pra vc. É pra gente que realmente precisa desse dinheiro, e pra quem 50 reais significa a diferença entre ter o que comer e passar fome. Quem chama de "esmola" é gente pra quem 50 reais não é nada. A bolsa família vem fazendo com que milhões de brasileiros, mesmo com essa parca quantia, saiam da miséria. Muita gente está deixando de ser pobre e entrando na classe média (baixa, mas já é um outro padrão de vida). Isso se dá com geração de empregos formais, esses auxílios que a classe média chama de "esmola", e cotas, que permitem que gente que nunca cursou uma faculdade tenha essa oportunidade. Agora, Sadie, sinto muito, mas nem dá pra levar a sério o seu argumento de que a bolsa família e outras assistências sociais servem pra sustentar uma cambada de vagabundos que odeia trabalhar, e que a classe média, essa sim, pega no pesado. Eu conheço muitos poucos pobres que não adorariam "pegar no pesado" pra deixar de ganhar 50 reais e integrar a classe média.
Vejo também, em muitos dos seus comentários, não só neste post como em outros, um certo conformismo. Um pensamento de "é assim que as coisas são, sempre foram e sempre serão". Sadie, vc é tão nova! Como pode pensar dessa forma? Só porque as coisas sempre foram assim não quer dizer que a gente deve cruzar os braços e deixar tudo continuar como está. Se a gente não gosta da situação, pode e deve lutar.
E sobre o White Beauty, esse creme não é feito com vc, que já é branca, como público-alvo. É feito pra mulheres que são mais escuras. E sim, a idéia é absolutamente racista. Por que alguém negro ou marrom iria clarear a pele, se estivesse feliz com a sua cor? Se a sua cor fosse vista como bela? Se todas as cores fossem aceitas? As brancas se bronzeiam porque o padrão não gosta de gente muito pálida. Isso é sinal de doença. Precisa ser branca, claro, mas com "vida". O negócio é que é preciso consumir, sempre. As brancas precisam usar maquiagem pra colocar alguma cor nos seus rostos. Mas nunca vi uma branca usar um creme chamado "Black Beauty" pra ficar negra... Ou uma branca de cabelo liso usar montes de produtos pra "encrespar" seu cabelo. Por que será, se é tudo uma questão de "opção pessoal"? Estranho que as pessoas só optem pelo padrão branco...

lola aronovich disse...

Lúcia, pra mim também esses estudantes que se manifestam contra as cotas soam muito preconceituosos. É como essa moça com o cartaz "Quer uma vaga? Passe no vestibular" que coloquei no post. Tem que ter muita coragem pra usar nariz de palhaço, né? Tadinha da classe média e da elite, tão discriminada... O duro deve ser ter que defender um sistema horroroso como esse do vestibular! Mas é isso que vc apontou, "direito adquirido". Que ninguém mexa no meu privilégio!


Rê, podem discutir entre si, aqui é espaço pra isso, desde que seja com inteligência e educação. Bom, obviamente concordo com vc. A única coisa é que sou contra qualquer lei que interfira na liberdade de expressão. Acho que os racistas, homofóbicos, machistas, enfim, todos os preconceituosos idiotas que eu odeio, devem ter todo o direito de expressar seu ódio verbalmente, assim como eu devo ter o direito de chamá-los de idiotas preconceituosos. O governo deve ter, sim, leis que combatam a discriminação. Se alguém deixar de contratar uma pessoa por ela ser gay ou negra, isso deve ser crime. Mas prender alguém porque falou algo racista ou homofóbico? Deixa a pessoa falar. Pras pessoas conscientes, uma pessoa preconceituosa não é alguém com quem se queira contato. O preconceituoso geralmente fica muito mal na fita... pior que qualquer besteira que ele tenha dito.


Vb, seu nome me soava familiar... Então, em Joinville há apenas 13% de negros. Difícil de acreditar, se a gente se basear na propaganda institucional do governo Tebaldi. DETESTO esses comerciais que mostram Joinville como um modelo de supremacia ariana. Deveriam ser proibidos. É meu dinheiro que tá promovendo esse racismo!

lola aronovich disse...

Sadie, falar de "imediatismo" parece piada. Se vc mesma diz que o Brasil é racista há 300 anos, e que nunca foi feito nada pra mudar isso, eu não consigo ver o imediatismo na política de cotas. Só posso comemorar que finalmente algum governo está fazendo alguma coisa pra corrigir essa discriminação. As coisas estão sendo feitas "devagar", como vc gosta, e até agora esse ritmo não deu nada certo. Hora de experimentar uma alternativa?
O que vc chama de populismo do Lula pra muitos eleitores é uma inovação, uma tentativa de melhora. Só porque vai contra o que vc acredita é populismo? Aliás, a idéia das cotas não é do Lula. É algo que os movimentos negros pedem há anos. É populismo dar ouvidos a uma minoria historicamente discriminada? Viva o populismo, então!

Rê, não tenho nem o que falar da sua resposta a Sadie. Assino embaixo.

vb disse...

Lolinha,

Não vejo a hora de acabar o mandato deste prefeito, e sua corja de bandidos. O problema é que o sucessor do maledeto deve ser eleito :( A eleição municipal nesse ano será umas das difíceis de se escolher, simplesmente não sei em quem votar :( Todos são ruins pra mim... mas isso deve ser assunto pra outro tópico..rs

lola aronovich disse...

Mario, não se ponha no meu lugar, nem no da Sadie. Ponha-se no lugar de um negro que estudou em escola pública, talvez começou a trabalhar com 16 anos, e ninguém da família fez mais que o primeiro grau. Na casa dele não há muitos livros, já que seus pais não têm dinheiro pra comprá-los. Esse aluno provavelmente repetiu uma ou duas séries mas, ao contrário de vários colegas, não desistiu. Continuou na escola. Agora sua única chance de fazer faculdade é cursar uma universidade pública. Ele provavelmente vai ter que trabalhar pra custear seus gastos, mas pelo menos não terá que pagar o curso. Ele não tem condições financeiras de fazer cursinho. Ah sim, cursar uma faculdade é a única chance que ele tem de, no futuro, arranjar um emprego melhor. Não dá pra achar que essa pessoa tem "igualdade de condições" pra competir como uma privilegiada como eu, por exemplo, que estudei numa ótima escola particular, fiz cursinho, tive pais que liam, e só trabalhei um tiquinho aos 16 porque gostava, não porque precisava. O meu caminho já estava traçado desde que nasci. Só algo terrível como, sei lá, virar viciada em drogas, me faria sair desse percurso até previsível. Infelizmente, o caminho do aluno também estava traçado desde que ele nasceu. Era o mesmo de seus pais. As cotas podem modificar a trajetória dele. E olha que lindo: sem afetar a minha!
Então, é o seguinte: queridos alunos de escolas particulares, fihos da classe média e alta, que se esforçaram tanto, que "pegaram no pesado", que são tão estudiosos, "cultos", inteligentes e merecedores de todos os privilégios que têm: se vcs são tão competentes, ESTÃO COM MEDO DE QUÊ?

Sadie, gostaria de rebater seus argumentos contra o Lula um por um, mas realmente estou sem tempo. Mas concordo com o Mario Sergio: são argumentos bem fracos.

lola aronovich disse...

Ué, Vb, o Carlito não tá concorrendo? Eu voto no Carlito. Já votei duas vezes, vamos pra terceira. Joinville nunca na sua história teve um governo de esquerda. Acho que já está na hora.
Eu conheço o Carlito pessoalmente e gosto muito dele não só como político, mas como pessoa.

Sadie disse...

Olha, eu só falo do que eu conheço e como já disse, é totalmente natural que uma pessoa que vive como eu sempre vivi pense da maneira que eu penso. Se eu dissesse outra coisa, seria hipocrisia. E se tem uma coisa que eu odeio é hipocrisia, ver madame fazendo doação e fingindo que se importa muito se tem gente morrendo de fome. Em nenhum momento eu fui desrespeitosa com nada nem ninguém, então não vejo motivo para me sentir mal pelas minhas opiniões. Eu só expressei aquilo que eu penso, sem nenhum tipo de apologia ou agressividade, mas se não concordam, paciência, ninguém é obrigado a nada no mundo. Também sou totalmente despretensiosa em tudo que digo e faço, nunca me fiz de dona da verdade nem disse que sabia tudo e se eu ofendi alguém, peço desculpas.
Em relação a meu conformismo, eu sou meio conformista mesmo, aliás, esse é um traço bem marcante da minha geração. Já fui daquelas pessoas que transforma qualquer experiência numa "constante fonte de questionamento", mas, sabe, perdi a paciência de questionar a sociedade cruel até na hora de comprar um pote de manteiga ou um creme leave-in para o cabelo. Isso me faz sentir paranóica, buscando um significado profundo, ou misógino, ou racista, ou gordofóbico, etc, até no rótulo do refrigerante ou em qualquer propaganda que passa na TV. Não sou alienada, mas tem vezes que eu prefiro ver as coisas sem complicação, sem ver as "entranhas" . Às vezes, você precisa sentir o prazer da superficialidade, de gostar e fazer as coisas sem razão aparente. Resolvi fazer minha vida um pouquinho mais fácil e digerir as coisas um pouco mais rapidamente. Como muita gente, já aceitei que não vou transformar o mundo no lugar mais perfeito do universo, até porque, se isso ocorresse, seria sacal, como todas as coisas perfeitas. Tento fazer minha parte, tratar bem o próximo e é só. Não sou revolucionária, nem partidária de político nenhum e percebi, por experiência própria, que aquele dizer: quando uma pessoa se engaja demais na resolução dos problemas do mundo é porque não quer ou não consegue resolver os seus próprios problemas, é totalmente verdadeiro. Agora, vou dar uma saída, afinal, é sábado à noite....

Renata disse...

uau, estava com saudades desssas discussões nos posts da Lola!

Lola,
estou com preguiça de continuar o argumento sobre zoológicos.. hauahaha to começando a labuta hoje às quatro da matina então vcs vão me perdoar por isso né? vou deixar essa pra Ju, que prometeu se manifestar aqui...
mas queria comentar sobre liberdade de expressão. Não sei se eu concordo totalmente com o que você disse, acho que não se deve ter liberdade pra propagar ódio. Eu sei que isso é meio estranho vindo de uma jornalista, mas é difícil conciliar a ideologia da minha profissão com o fato de ter que ouvir várias barbaridades homofóbicas por aí, vindas de todos os cantos, de professores, religiosos, até políticos.

Acho que a Constituição já criou um pressuposto quando proibiu qualquer forma de racismo no Brasil e o definiu como crime inafiançável. Isso quer dizer que o Estado interfere na liberdade de expressão sim em alguns casos, e isso veio junto com o advento da democracia.

Essa coisa de ter liberdade pra falar tudo que quiser é bastante americana, e na verdade, olhando para a sociedade deles não sei se tem funcionado. São o país que mais propaga ódio no mundo ocidental. Aí eles têm liberdade pra tudo, pra dizer que os gays vão pro inferno, que Aids é a praga de Deus, que os negros são inferiores e deveriam saber seu lugar na sociedade, assim como os estrangeiros e todas as outras etnias , que os muçulmanos são terroristas, que as mulheres são bitches and sluts, e todas as outras barbaridades que você com certeza você sabe.

Mas eu sei que este assunto é bastante controverso... e talvez eu esteja até puxando um pouco a brasa pro meu lado, pra questão que realmente me toca, que é a da criminalização da homofobia e o debate que tem gerado no Brasil. O negócio é que este seu argumento de liberdade de expressão é exatamente o usado pelos grupos evangélicos para barrar essa lei. Eles querem o direito de poder falar mal dos gays nos cultos deles. Como esta questão é muito pessoal pra mim, não consigo engolir. (vou usar a f* word, prepare-se...)

É foda ter que ouvir todos os dias as pessoas falando mal de gays. Eu vivenciei isso recentemente no trampo novo. Porque este é um ponto em comum pra várias pessoas? Sempre que um grupo quer socializar tem que ter algum tipo de comentário pejorativo de gays, isso cansa sabe? Ter que ouvir isso todo dia. E é algo que me afeta, me fere, não consigo ouvir e ficar tranquila, magoa.

Preconceito é uma coisa que se aprende, não se nasce com isso. Acho louvável que a nossa Constituição deixe bem claro que no Brasil não se aceita preconceito contra raça e queria que mandasse uma mensagem também para os outros tipos de preconceitos por aí. Claro que a lei por si só não erradica o preconceito, mas é a mensagem do Estado para o povo, para o Judiciário, para o Executivo, para os diversos setores públicos privados. Te garanto que o sofrimento de ouvir um xingamento derrogatório é o mesmo pra mim do que é para um negro, ambos são iguais na sua origem, a diferença está apenas nos termos.
Bom, como eu disse é uma questão bastante pessoal pra mim... mas é que é foda mesmo... um saco isso de preconceito e olha que eu nem sofro tanto quanto muito gente que conheço.

Abraços,

lola aronovich disse...

Sadie, ninguém aqui foi desrespeitoso com ninguém (eu acho), ninguém aqui é hipócrita, todos falam o que pensam, e não sei, mas o motivo de se debater não é pra fazer alguém concordar com a gente. É pra expor vários pontos de vista. Se algum desses pontos de vista soa razoável pra gente, a a gente pode mudar de opinião.
Eu só fico um pouco chateada ao ver alguém tão jovem como vc ser tão conformista, mas sim, sei que muitas pessoas da sua geração são assim. É só que, se vc não vai ser idealista (ou seja, de esquerda; idealista de direita não existe, porque pra ser idealista é preciso querer mudar o status quo) aos 19, 20 anos, vai ser quando na vida? Nunca, né? E se vc se conforma, vc está aceitando tudo que está aí. Fico desiludida em ver alguém que perdeu "a paciência de questionar a sociedade cruel" na sua idade. E não só perdeu essa paciência, essa chama, como a direcionou para criticar quem tenta fazer algo um pouquinho diferente (como, por exemplo, Chavez, Evo, Lula). É bem estranho, mas é uma opção sua, e conheço muitos jovens que fizeram essa "saída pela direita" (como diria o Leão da Montanha).
Pessoalmente, não acho que questionar tudo e ver a injustiça nas coisas me faça uma pessoa infeliz. Dá perfeitamente pra sentir esse "prazer da superficialidade" que vc menciona (embora às vezes eu pensei que vc confunda esse prazer com consumismo exacerbado) e ainda assim querer mudar o mundo. Querer não é poder. Não quer dizer que quem quer vai conseguir. E a minha idéia de um "mundo perfeito" certamente não seria a mesma de muitas outras pessoas. Mas acho, sim, que devemos lutar pelo que acreditamos. E vc vem fazendo isso, ou senão não estaria envolvida nessa discussão. Pena que vc escolheu "o lado negro da força" (ai, por que todas as minhas expressões são cinematográficas?! E racistas, ainda por cima?).

lola aronovich disse...

Rê, sei que isso da liberdade de expressão é polêmico. Mas pra mim essa liberdade é realmente importante. Sou contra isso de racismo ser crime inafiançável. Por um lado, adoraria que os racistas/homofóbicos/machistas fossem exterminados da face da Terra. Mas, por outro, como não podemos fazer isso, acho que eles devem ter o direito de falar/escrever o que quiserem. O que não significa, de forma alguma, usar a força física. Sei que é algo muito americano, assim como é a expressão "sticks and stones can break my bones, but words will never hurt me". (a sociedade americana não tem dado certo por uma série de motivos - não acho que a liberdade de experssão seja um deles). Acredito que a gente deve criar uma casca grossa pra se proteger das palavras ignorantes que os preconceituosos falam. Apesar de eu não ser negra ou gay, ouço muita idiotice por ser mulher e gorda. Mas estou acostumada. E sempre que ouço, eu contesto. Eu não fico mais calada não. E se ouço besteiras racistas e homofóbicas, eu também falo, porque isso me revolta.
Outro dia estava lendo o ótimo site que é o Shakesville, e a dona do blog (ela tem montes de colaboradores) criticou um game que está pra ser lançado, chamado Fat Princess. Bom, ela recebeu centenas de emails de gamers revoltados, e esse público, de modo geral, é jovem, masculino, e incrivelmente burro. A maior parte dos comentários vinha com palavrões, e uma ofensa frequente foi "fat lesbo bitch". Aí ela teve que explicar pra essa gente que nenhuma dessas 3 palavras é um insulto pra ela.
Sabe, é um pouco como o movimento gay ter adotado a expressão "queer", que já foi usada pra atacar gays. Se vc tem orgulho de ser gay (e vcs gays tem, e isso é louvável), por que alguém te chamar de gay seria ruim? Ok, claro que eles não apenas chamam de gay, eles dizem que vcs vão arder no inferno, que Deus mandou a Aids, que vcs querem corromper a sagrada instituição do matrimônio, que gays (homens) são perigosos perto de crianças, que são promíscuos, que homossexualismo é uma doença e vcs precisam ser curados etc etc. E eles acreditam em coisas igualmente estúpidas em relação ao papel da mulher na sociedade. Mas, francamente, a gente concorda com QUALQUER COISA que essa gente fala? Se a gente não acredita em inferno e sabe que as outras "acusações" não passam de preconceito, como isso nos afeta? Essa gente precisa de um "Other" pra atacar. É atacando um Other que eles se unem como comunidade. Mas a gente, também, ao se defender desses ataques e atacar os preconceituosos, se une como comunidade. Eu realmente penso "F**k them", sabe? Deixa que eles pensem e digam o que quiserem. Controlar o que eles dizem não vai ajudar ninguém. O que ajuda é que, invariavelmente, o preconceituoso um dia vai conhecer um gay que seja tão "normal" quanto ele, e vai começar a rever seus conceitos.
Eu acho mais produtivo que as pessoas exponham seus preconceitos, e que quem não concorda com essas barbaridades as conteste, que forçar alguém a ficar calado. Eu gosto do diálogo.
Gays são uma parcela pequena da população. O movimento de vcs é forte, mas vcs precisam de "allies and sympathizers". De minha parte, se não fosse a homofobia,
eu nem pensaria em vcs. Vcs continuariam existindo, óbvio, continuaríamos sendo amigas, mas sua sexualidade ou orientação sexual não me diria respeito, porque não é importante pra mim. Eu não dou a mínima, e gosto de diversidade. Mas é a homofobia que me revolta e me mobiliza. Não a homossexualidade.

cavaca disse...

Eu também nunca tinha pensado muito sobre isso. Nunca tive opinião formada. Mas acho um incentivo óptimo, tanto para negros como para pessoas de baixa renda que queiram cursar uma universade, porque a verdade é que pobre não tem suporte para isso. Quando terminei o colegial queria muito seguir com um curso de jornalismo, mas trabalhava para ajudar a familia e não podia deslocar da minha cidade. Muito menos pagar por um curso que é um absurdo! Tenho certeza que se eu fosse negro seria ainda pior. Que pena que não tenha nenhum negro aqui para comentar sobre isso não é? TODA A GENTE que queira fazer um curso superior deve ter direito a isso.
Um amigo meu está cursando engenharia na Universidade de Coimbra, (está exclusivamente aqui para estudar) no entanto de manhã faz um part-time num café, tem alojamento cedido pela bolsa que conseguiu, e mmuuuuito suporte de diferentes maneiras. No verão pode fazer cursos de duas semanas em outros países que a bolsa paga metade de tudo. Idependente de ser pobre, negro, ou imigrante, se quiser estudar tá tudo a sua disposição. É assim que devia ser não é? Por que, no Brasil, muita gente pobre vê a universidade como elitista, coisa de rico, e tem até medo de passar na porta. Essas pessoas acham que aquele lugar não é para elas e nem sequer alimentam seus sonhos. O preconceito destrói muita coisa dentro das pessoas, prolifera muitos complexos de inferioridade.
Ah, sobre a discussão do Evo e Chavez, eu tenho prestado atenção a isso, a gente vê na mídia que eles parecem um bando de arruaceiros não é? Aquele discurso diferente do estamos acostumados a ver e tudo o mais. Ainda não consigo compreender nada disso, mas sabe-se que os EUA não gostam nadinha deles. Muita gente no Brasil, especialmente jovem, tende a concordar com a mídia e com os EUA. Achamos que eles são os nossos grandes amigos não é? E por consequência descartamos a outra face da moeda. Eu também era assim. Mas ajudaria um post sobre essas duas figuras (Evo e Chavez) não é?

Lucas disse...

Oi Lola,

Minha opinião quanto a cotas é um pouco diferente da sua.

A maioria dos negros no Brasil se encontra nas classes mais pobres.
A maioria da população pobre não chega às universidades.
O negro não fica fora das universidades porque é negro, mas porque é pobre.

Aumentar as chances dos mais pobres de cursar uma faculdade levaria os negros a elas conseqüentemente.

É simples, uma ótima solução a curto prazo, não gera tanta polêmica, além de ser muito mais justa e gerar o mesmo resultado.

Não sei você, mas eu me sentiria ofendido se estivesse no exterior e houvessem cotas para latinos, por exemplo. É como se me dissessem que sou menos capaz.
E já vi negros com o mesmo pensamento.

Se a raça não nos diferencia em nada, cotas raciais não fazem sentido.

Devemos lutar contra qualquer tipo de preconceito, mas tentar combater o racismo com soluções que diferenciam indivíduos pela cor da pele me parece muito contraditório.

lola aronovich disse...

Cavaca, concordo com o que vc diz em relação às cotas, e fico feliz que meu postzinho tenha feito vc pensar mais no assunto. Sim, vou escrever um texto sobre Evo e Chavez... soon, espero!


Lucas, obrigada pelo comentário. Sim, existem negros que pensam como vc, e que são a favor das cotas para pobres, não para raças. Mas são a minoria. A maioria dos negros apóia as cotas também para raças. E o motivo é que, ainda que negros pertençam à mesma classe econômica que brancos pobres, negros pobres sofrem mais discriminação. Eles são ainda mais pobres, entende? E isso não se deve a falta de talento, incompetência ou nada do gênero. Isso se deve ao racismo, que faz com que as pessoas se tratem de modo diferente. Pra gente, que não é racista, é ridículo e inimaginável que a cor da pele possa influenciar no tratamento de alguém. Mas influencia sim. E o negro acaba sendo discriminado e tendo muito menos oportunidades que o branco. EM TUDO! Aqui nos EUA, há uma espécie de cotas para latinos sim (assim como para negros e várias outras minorias). Chama-se affirmative action. Hoje o governo não interfere mais e as universidades podem fazer o que quiserem. Boa parte mantem as cotas. É um pouco diferente, já que não existe vestibular, e há muitas vagas, mas toda universidade aqui é paga. As universidades costumam dar bolsas para o pessoal das minorias, latinos inclusos. Eu não acho que isso equivale a dizer “vcs latinos são menos capazes”. Acho que a mensagem é: “nós, da universidade, prezamos a diversidade, e se não distribuíssemos bolsas para as minorias, simplesmente não haveria minorias aqui no campus. Porque as minorias ganham muito menos que os brancos, e não teriam como pagar uma universidade”. Só porque a gente é contra o racismo não quer dizer que ele não exista!

Lucas disse...

Oi de novo Lola

Esse foi meu primeiro post aqui.
Sou amigo da Nita e ela me falava tanto do seu blog que eu resolvi entrar.

Gostei muito mesmo! ^^

Concordo com boa parte do que você diz. É realmente difícil pra mim imaginar o racismo na prática.

E independentemente de ser não ser a melhor solução, a política de cotas raciais é ao menos uma tentativa de mudança.

Essa questão do preconceito racial se torna ainda mais complicada quando nos lembramos que ele existe também do outro lado. Mas isso é um outro assunto.

Leila disse...

Lola,

eu nao sou a favor de cotas. mas nao que eu discorde de td q vc falou q somos privilegiados que eles merecem as cotas e q assim pode melhorar mtas coisas para essa "minoria" que na verdade é quase maioria mas anyway

Mas pense no q vc disse: por DECRETO!

Vamos lá voltar a época q nao tinhamos direito de escolher nada de falar nossa opinião de exercer nossa cidadania e decretar algo.

Karol disse...

oi meu nome é Karol e faço direito,tive uma disertação para nota,o assunto foi:sou contra a política de cotas,não sei como comentar isso, pois nunca tive enterece,apesar de ser a favor!!
karol*

Mauricio disse...

TÍTULO II
Dos Direitos e Garantias Fundamentais
CAPÍTULO I
DOS DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

Meus amigos, simples assim:
COTAS PARA NEGROS SÃO INCONSTITUCIONAIS, pois promovem a desigualdade de condições entre as raças.

Se existe uma desigualdade histórica, não é papel da CF anular uma desigualdade promovendo outra.

Para você estabelecer cotas para negros, deve existir também cotas para brancos e índios, com o MESMO NÚMERO DE VAGAS.

É uma questão simplesmente legal.

Agora cotas para as pessoas oriundas de escola pública, esta sim, é uma medida de inclusão.

Me digam, por favor, QUE PESQUISA SÉRIA É ESTA QUE DIZEM QUE OS POBRES NEGROS SÃO AINDA MAIS POBRES?

Pobre é pobre! Seja a raça que for.

Onde está esta pesquisa que diz que um negro ganha menos que um branco ocupando o mesmo cargo?

Medidas de cotas são sim populistas. Não é só porque os EUA a adotam que no Brasil ela não seja populista.

Foi como alguém aí em cima disse:
cotas para pobres já beneficiam os negros.

NÃO A LEIS RACISTAS.

SIM A LEIS DE INCLUSÃO SOCIAL.

Não se pode dizer que é a favor de uma determinada política porque seus favorecidos o são:

"...na questão das cotas, felizmente, os negros têm voz, e a maior parte é a favor delas. Então eu também sou. Pra mim já é um bom motivo pra ser a favor que a parte discriminada seja a favor, ué."

Os brancos também seriam a favor de uma cota só para eles? Não sei, mas alguém aqui poderia dizer que é a favor de cotas para brancos só porque os favorecidos os são?

Os políticos vivem votando Leis que beneficiam eles mesmos, e eles são super a favor. Só por isso eu serei favorável também?

Tá certo, fugi um pouco, porque este último exemplo não tem a ver com discriminação ou racismo.

Mas serve para ilustrar.

Claro que existe racismo no Brasil.

E de todos os tipos.

Sou branco e tenho olhos azuis e já sofri racismo na minha escola, no subúrbio da baixada, onde eu era o único branco e de olhos azuis.

E se eu sofri racismo pela mão dos negros, claro que os negros sofreram e sofrem muito desde terrível mal.

Outra coisa: quem disse que ZUMBI é um herói da resistência?

ZUMBI NÃO ERA CONTRA A ESCRAVIDÃO. ELE ERA CONTRA A ESCRAVIDÃO DELE.

Um professor de HISTÓRIA me disse que ZUMBI ERA ESCRAVAGISTA E TINHA ESCRAVOS.

Sua tribo da África era escravagista e os negros foragidos que chegavam ao Quilombo dos Palmares que eram de tribos rivais, ele ESCRAVIZAVA!

E vão me dizer agora que ele era herói? Herói fabricado, isso sim.

Mas isso a esquerda não divulga, pega mal...

Enfim, sou BRANCO, ODEIO O RACISMO, e sou CONTRA AS COTAS RACISTAS.

bia de barros disse...

Cotas foram instituídas nas universidades dos EUA pra acabar com a segregação espacial, e conseguiram
(Aleluia!)Se a mesma ação fosse tomada no Brasil contra a segregação espacial faria sentido; mas aqui ela é por renda, não por cor.

Contra o preconceito, existem várias ações afirmativas muito mais nobres e eficazes - por exemplo, exaltar personagens que 'chegaram lá' 'apesar' de sua cor, desde Nabuco a Joaquim Barbosa, e destacar a negritude de sua pele.

Façamos um exame da realidade! Meritocracia não é só elitismo; é também uma teoria incutida na raiz do preconceito. Fazer cotas raciais sobre uma infra-estrutura meritocrática é dizer: Olha que burrinho o negro, precisa de cotas pra entrar na faculdade!

Quem realmente precisa de cotas é quem não teve oportunidade, e me desculpa, mas a negritude rica sempre teve toda a oportunidade desejada e continuará tendo por esse sistema burro - que aplica o mesmo remédio a doenças diferentes (segregação espacial, meu argumento inicial).

Quer mudar alguma coisa? Comece pelo Top3 do Indice de Gini - somos tão desiguais na distribuição de renda que é um racismo afirmar que só atinge os negros. Imigrantes e refugiados pobres também foram, como são, excluídos do sistema.

Isso é uma longa discussão, mas a própria afirmação da inferioridade de uma raça em relação a outra (dando-lhe 'colher-de-chá') encobre o real preconceito no Brasil (de classe - Machado de Assis nasceu negro e morreu branco, o que prova que este determina aquele até nas pesquisas do IBGE) e não resolve o problema.

Sabe quem as cotas raciais protegem? Aqueles que querem dizer que o Brasil está mudando sem mudar nada.

Tenho dito.

bia de barros disse...

Só mais uma coisa: quer instituir cotas raciais nas universidades, institua. Mas não vai acabar com o preconceito (pelas razões culturais acima expostas) nem com a desigual distribuição de renda.

Reflita.

۩Clio - A filha da Memória۩ disse...

Este post é meio antiguinho, mas vou comentar. Eu sou completamente a favor ao sistema de cotas, tanto para alunos provenientes de escolas públicas quanto para negros. Vi que muitas pessoas são a favor de cotas para alunos de escolas públicas, mas contra cotas para negros, pois segundo eles, apenas a cota para alunos pobres de escolas públicas (independente da cor) já amenizaria a ecasses de alunos negros ingressos no Ensino Superior. Minha visão é diferente, mesmo que um negro e um branco sejam igualmente pobres, o branco sempre ira ter maiores oportunidades de garantir um emprego melhor, e subir de cargo em uma empresa, justamente pelo fato de ser branco. Minha mãe define-se como "morena" de cabelo crespo, eu também tenho as mesma características dela, e sei como é difícil conseguir um emprego justamente por ser negro, ou ter um cabelo considerado "ruim". Certa vez, minha mãe estava em busca de um emprego em uma firma, em um cargo de montar peças de chuveiros. Todo santo dia ela batia na porta da empresa perguntando se estavam admitindo, mas a resposta era sempre um sonoro NÃO! Neste mesmo dia, uma moça muito bonita, branca, andava pelo mesmo caminho que minha mãe, e comentou que havia conseguido uma vaga na mesma empresa em que minha mãe levava um não todo dia."Nossa! como você conseguiu? Eu acabei de vir de lá, e me falaram que não estavam pegando ninguém para trabalhar!". O mesmo acontece em uma entrevista de emprego, sempre escolhem o "mais clarinho", e os "mais escurinhos" ficam com os cargos mais baixos e ali ficam por vários anos, enquanto os "mais clarinhos" sobem de cargo "misteriosamente". E depois me deparo com pessoas que dizem que ser negro não impede em nada em subir na vida. Os fatos empíricos presenciados por minha mãe, derrubam qualquer ponto de vista como este. Hoje eu tenho 19 anos, eu pretendo conseguir uma vaga aqui em SP, na USP, e espero ser beneficiada pelo sistema de cotas. Se eu conseguir serei o primeiro membro na minha família que conseguiu uma vaga em uma Universidade Pública, mesmo sempre estudando em escolas públicas. Me lembro que quando estava na escola, a professora exaltava menos de meia duzia de alunos da minha escola que conseguiram entrar na USP,a muitos anos antes de estar naquela escola. O tom que ela falava denotava que ela estava referindo-se à uma espécie de figura lendária, uma lenda que talvez poderia se tornar realidade.Até hoje não sei, se as palavras dela me deram esperança ou desesperança. Resolvi correr atrás desta "lenda", e quem sabe, eu consiga desta vez. Todo este seu post se resume a um quadrinho postado em uma outra postagem sua, em que um menino branco sobe em cima de uma plataforma com a ajuda de um menino negro, mas quando o garoto negro pede ajuda para também subir na plataforma, o garoto branco diz: " Se eu consegui subir aqui sozinho, você também pode".
Tudo de bom para você Lola!

souminha disse...

Lola, eu suspeito que no trecho "Se as escolas particulares são melhores, vamos colocar os filhos lá. Se as universidades particulares são melhores, é pra lá que eles vão.", vc pretendia dizer "universidades públicas", eu acho.

O link que direciona para o blog "Síndrome de Estocolmo" não está funcionando.

Eu sempre uso seu blog como "não entendeu, lê aqui que a tia Lola desenha pra vc entender melhor".

Impossível ser mais didático que vc!

Anônimo disse...

Tudo que eu queria dizer, muito bem escrito pensado... Já li absurdos no dia de hoje em sites de notícias. Foi o discurso mais coerente.

Gabriela Toso disse...

Lola, legal ver seu ponto de vista sobre isso... Aliás, descobri seu blog faz três dias e passei boa parte deles lendo ele. Mas acho que as cotas somente para escolas públicas já são suficientes para tentar remediar o ensino ruim oferecido pelo governo. Acho - e admito que talvez esteja errada - que se a intenção das cotas é tentar fazer um pouco de justiça para quem não tem a mesma oportunidade de ensino, as cotas para estudantes de escolas públicas deveriam cobrir as diferenças raciais também. Até porque, e sei que isso é raro no Brasil, existem negros que estudaram em colégios particulares, e que têm direito a cotas - logo, um jeito mais fácil de ingressar na faculdade -, que deveriam ser dadas à quem não teve acesso ao melhor ensino. Além disso, como em algumas universidades não é necessária a comprovação de renda para ingressar na faculdade pelo vestibular com cotas, há muita gente que têm condições de sobra para estudar em uma escola particular, mas se formou em escola pública (obviamente pagando professores particulares para as matérias), e com isso até "rouba" a vaga de quem realmente é obrigado a estudar em escolas públicas por não ter renda suficiente para pagar professores particulares ou cursinho. Eu mesma conheço uns 3 que fazem essa da escola pública + professores particulares extras. Mas voltando às cotas raciais, realmente penso que a de negros não deveria ser aplicada. Acho que como uma das maiores consequências que os negros sofrem até hoje por um preconceito histórico é a renda mais baixa (mesmo que realizando o mesmo trabalho que um branco), cotas públicas cobrem essa diferença.

SeekingWisdom disse...

Ei Lola!! Descobri esse texto hoje, gostei muito, mas queria destacar alguns pontos e, mesmo sabendo que o post é das antigas, queria muito um feedback!

primeiro: motivo #128375 para amar a Lola: não considera humanos de qualquer raça, cor e nacionalidade superiores aos animais! <3 <3 <3

segundo: então, sou extremamente favorável a cotas étnicas na universidade. Já estive no lado do senso comum (achava errado as cotas discriminarem, veja só), já estive com o mesmo posicionamento seu (favorável à política de cotas e entendendo a necessidade de ela contemplar o racial), mas hoje não sei se penso assim.
Vc viu esse video do Paulo Ghiraldelli? http://www.youtube.com/watch?v=eWEr5WNu-I0
Então, gostei bastante da linha de raciocínio dele. De fato pensar cotas como política educacional ou reparo histórico não tem nada haver (quer dizer, como vou reparar algo irreparável!). O que precisa ser reparado é o racismo da sociedade não é (e em algum lugar vc diz que cotas n tem esse objetivo)?? Eu discordo, eu acho que a convivência nos meios onde históricamente o negro está excluído é o primeiro passo para combater o racismo, até porque, de fato, o número de vagas n será tão grande assim.
Outro ponto que fico bolado é sobre a cota social, dentro dessa visão de política de resstruturação de espaços públicos ela fica prejudicada - e, realmente, ela faz parte do discurso da direita que não admite que haja racismo.
Tento enxergar as cotas sociais como reserva de vagas no ensino público para quem estudou pelo ensino básico público, mas é desconfortante, tem problema nesse discurso - não gosto.
Por um lado, a reserva de vagas vira estratégia, porque a classe média ocupará as universidades privadas que precisam expandir. Nesse sentido parece lógico. Hoje temos 19% dos jovens no ensino superior, mas países desenvolvidos tem de 45 a 65%, outra realidade. Para chegarmos em algo próximo as universidades privadas precisam sim expandir muito e aí penso que a lei serve como alavanca para esse setor.
Ainda assim, me incomoda que tenhamos cedido a um discurso conservador que abre espaço para dizerem que cotas é política educacional.
Por último, uma vez que esse seu comment é de 2008, queria saber sua opinião hoje sobre liberdade de expressão, principalmente depois de testemunhar o potencial violento que um discurso de ódio pode ter. Na verdade, não sei se entendi bem sua posição sobre o assunto, uma vez que vc foi favorável a várias campanhas para remover conteúdos inapropriados da web. Ou é na web, no anonimato, o problema? Seria pedir muito um post atual sobre a liberdade de expressão e quando ela deve ser limitada? Eu acho que a lei contra o racismo representa um avanço, se a declaração universal garante a liberdade de expressão ela também garante o direito à não discriminaçao. Várias coisas são censuradas na sociedade (nudez, palavrões em programações televisivas, pornografia), entendo que o Estado não pode ficar moderando o que falamos mas isso é quando eu me restrinjo à vida privada! Na esfera pública discursos de incitação à violência devem ser aceitos?

Enfim, food for thought I guess, mas queria muito um reply!
Phillipe