quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

E A DITADURA NÃO DEIXOU SAUDADE

Esta é a segunda parte do relato do Giovanni sobre a ditadura militar (1964-1985). Leia a primeira parte antes, por favor. Novamente, Gio sugere trechos de duas canções do Chico que viraram marcos da época, “Apesar de Você” e “Vai Passar”.

Apesar de você
amanhã há de ser outro dia.
Eu pergunto a você onde vai se esconder
Da enorme euforia?
Como vai proibir
Quando o galo insistir em cantar?
Água nova brotando
E a gente se amando sem parar.

Não havia tempo para a saudade. Havia que se tomar um outro rumo, pela restituição dos direitos políticos. O pouco de democracia que ainda restava foi utilizado, e a oposição ao regime, aglutinada no único partido não-situacionista ainda possível, o MDB, conseguiu vencer as eleições de 1974, fazendo maioria no congresso nacional. Porém, a ditadura não se abalou e tomou duas medidas. Primeiro, estabeleceu a figura do “senador biônico”, indicado pelo governo. Não bastasse isso, ainda fechou o congresso nacional, apoiado por setores do próprio congresso, a exemplo de Marco Maciel, hoje senador (pra nossa vergonha) por Pernambuco, e ex vice-presidente de FHC...
A concentração de operários nas regiões metropolitanas do país, em especial São Paulo, começou a garantir um novo movimento dos trabalhadores. Na zona da mata de Pernambuco (de novo), houve movimentação de canavieiros (quem nunca viu o trabalho desses pode apreciar o trabalho de um formigueiro, que é bastante semelhante). Apesar dos esforços da ditadura militar, não foi possível acabar com todos que se opunham ao regime, e a população em geral passou a perceber as agruras do regime de exceção. Meu pai tinha uma cantina no antigo prédio da faculdade de administração da UFPE, na mesma rua que ficava o Diretório Central dos Estudantes da universidade. Houve uma manifestação monstruosa de estudantes, violentamente reprimida. No outro dia a rua estava tomada por policiais e militares a cada dois metros. Não esqueço nunca a cara de desespero de minha mãe recomendando que eu e minha irmã (9 e 11 anos, à época) não comentássemos nada sobre o que tinha acontecido no dia anterior. Havia vários movimentos sendo gestados, um pelo fim do regime, outro pelo retorno daqueles que não mais podiam confraternizar com seus entes, estivessem no desterro ou nos cárceres. Ao mesmo tempo eram criadas nova formas de luta, a luta contra a carestia, os boicotes das donas de casa. Os operários de uma fábrica, por seu sindicato, avisaram que iriam fazer alguma coisa, e em maio de 1978 eclodiu a greve na Scania. Mesmo presos, os dirigentes do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo conseguiram conquistas salariais importantes, dando início a uma onda de greves que varreu o país. Simultaneamente, os estudantes lançavam a reconstrução da UNE e UBES. A sucessão de vitórias foi espantosa, a lei da anistia conseguiu “A volta do Irmão do Henfil (Betinho), com tanta gente que partiu num rabo de foguete”, e o bipartidarismo deu lugar a um regime em que os partidos podiam se organizar, salvo aqueles realmente proibidos, os comunistas e socialistas.
Mas nem tudo eram flores. Apesar da “abertura, gradual e ‘segura’”, alguns elementos da velha ditadura ainda permaneciam. A liberdade conquistada era vigiada, e a Lei de Segurança Nacional ainda se mantinha. Em 1983, por exemplo, eu (15 anos, à época) e um grupo de estudantes da Escola Técnica Federal disputávamos o Centro Cívico da escola (os grêmios haviam sido banidos). Fomos ameaçados pelo diretor de enquadramento na referida Lei e de responder processo perante o Departamento de Polícia de Ordem Política e Social (DOPS). Também o voto era pouco, não se podia votar em presidente da República, nem em prefeitos das capitais e das cidades tidas como “estratégicas”, sendo essas prefeituras meros departamentos, e o prefeito nomeado por ato do Governador, ou do Presidente, como qualquer outro cargo comissionado.

Vai passar nessa avenida um samba popular
Cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai se arrepiar
Ao lembrar que aqui passaram sambas imortais
Que aqui sangraram pelos nossos pés
Que aqui sambaram nossos ancestrais

Veio então a luta pelas eleições diretas em todos os níveis. A Globo noticiou um comício monstro na Praça da Sé, em São Paulo, como “comemorações do aniversário de São Paulo”, mas mesmo assim os comícios se multiplicaram Brasil adentro, com todos os participantes vestidos de amarelo (se vestisse vermelho poderia ser preso). Nem o amarelo da campanha era permitido na escola em que eu estudava: fomos novamente ameaçados no caso de qualquer manifestação ocorrida no interior da ETFPE. Mas não nos dobramos. Apesar das ameaças, e da amargura de ver a emenda das “Diretas Já” ser rejeitada (embora tenha obtido maioria, insuficiente, dos votos no Congresso Nacional), na última eleição congressual da ditadura, Tancredo Neves sagrou-se campeão. E a história se reestabeleceu no solo brasileiro.

Neste novo blog do Daniel há links para dois ótimos textos sobre as mulheres que combateram a ditatura, aqui e aqui (este muito chocante, uma entrevista com a pré-candidata à presidência pelo PT Dilma Roussef sobre as torturas que sofreu).

9 comentários:

Masegui disse...

Eu estou enganado ou é isso mesmo que a foto mostra: a menininha se recusando a cumprimentar o Fig? :)

princesa disse...

Adorei a foto da garotinha!

Tina Lopes disse...

Eu lembro de quando mudou o presidente, de um general pra outro. Acho que foi o Geisel passando a vez pro Figueiredo. Perguntei pro meu pai o que ia mudar, e ele suspirou, "nada, nem o uniforme desses ***" (não lembro o xingamento).

cavaca disse...

lola kd vc? Anda perdendendo tempo com aquela coisa de tese não é? Entendo.

lola aronovich disse...

Oi, pessoal! Amanhã cedo publico um post explicando o meu sumiço. Agora tá tarde, e vou só começar a responder as dezenas de comentários atrasados...


Mario Sergio, é isso mesmo: a menina se recusa a apertar a mão desse nosso presidente que disse que preferia cavalo à gente. Minha heroína!


Princesa, eu tb. Ótima foto, não? Vi num blog alguém tentando localizar a menina hoje, quase 40 anos depois... (pq acho que a foto é de 79/80).

lola aronovich disse...

Tina, eu não lembro do Geisel prassando a vez pro Figueiredo! Mas eu admito que desgostava bem menos do Figueiredo que do Geisel, e certamente que do Médici!


Cavaca, amanhã tem post sobre o meu sumiço! Mas é, nem me fala, eu tenho que perder tempo nessa coisa de tese...

Anônimo disse...

Lola, eu nem leio pois sinto calafrios só de imaginar a tristeza deste período. Não consigo ler mais nada a respeito.


Olha, eu nunca comentei antes no seu blog mas tenho um segredo pra te contar: sempre "linko" algo do seu blog e coloco no perfil do meu orkut. É a campanha " Lola escreveu um livro a partir de suas crônicas do blog" ....hihihihi!
Beijos

Mari Biddle
marizelia_biddle@yahoo.com.br

lola aronovich disse...

Oi, Marizelia! Obrigada por comentar e por divulgar meu bloguinho. Isso ajuda muito. Apareça sempre, e comente quando tiver vontade.

Ana disse...

Eu tenho lembranças bizarras, não do AI_5, mas das consequências dele, inclusive escrevi sobre isso no meu blog...:-/

Beijos