terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

DE OBRAS CANÔNICAS FECHADAS PRA DISCUSSÃO JÁ BASTA A BÍBLIA

Uma canção como Atirei o pau no gato nunca deveria ter existido.

Ainda não falei sobre a polêmica em torno de Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato. Tenho uma opinião puramente leiga, pois nunca li o livro, não sou especialista em literatura brasileira, nem professora de ensino fundamental. Mas, antes de mais nada, qual é a polêmica, ou como diz uma amiga minha, qual é o pó? O pó é que a obra é racista, e bastou falar em colocar uma mísera notinha de rodapé explicando o racismo pro mundo cair abaixo: Censura! Esses comunas querem fazer uma fogueira de livros! E juro que até agora não vi ninguém falando em censurar Lobato, apenas querendo discutir o que fazer com uma obra dessas numa sala de aula.
A comparação mais óbvia nessa polêmica em torno de Lobato é com Huckleberry Finn, do Mark Twain. É um clássico absoluto, estudado nas escolas americanas direto, mas, gico, tá cheio de problemas, porque um dos personagens principais é um escravo foragido. Por conta do uso ilimitado da palavra nigger (que aparece 219 vezes) o romance está sempre na lista dos “banned books” (livros banidos) dos EUA. Funciona assim: pais denunciam uma obra como inadequada para estar no catálogo de uma biblioteca ou escola, e muitas vezes ela acaba sendo retirada (obviamente os mais banidos no momento são os da série Harry Potter e Crepúsculo). Vi que vão lançar uma edição trocando a detestável N-word por slave (escravo), o que é meio esquisito. Acho que as professoras têm mais é que conversar com os alunos e mostrar que aquele tipo de comportamento e linguagem, tão comum na época, hoje é visto como inaceitável -– uma prova de que o mundo evoluiu um pouquinho, ficou menos intolerante.
Eu tinha mais ou menos essa opinião acerca de Caçadas de Pedrinho até ler a maravilhosa carta da escritora Ana Maria Gonçalvez pro Ziraldo. Fiquei chocada. Não imaginava que o Lobato era tão racista assim, a ponto de lamentar que a Ku Klux Klan não existisse no Brasil. E fiquei com muita raiva dele, pra ser franca. Depois de conhecer seu projeto eugenista, será impossível olhar pros seus livros com os mesmos olhos. Lógico que a obra deveria ser independente de seu autor, mas não é. O jeito como você encara Polanski vai afetar o jeito que você vê seus filmes -- pô, vai afetar até sua decisão de ver ou não os filmes!
Só que
tem outra coisa, no caso do Lobato: naquela época um monte de gente era eugenista. A ciência como um todo era eugenista. É bobeira achar que só os nazistas malvados é que acreditavam nisso de melhorar a espécie. Eles copiaram essa ideia dos cientistas britânicos e americanos! Então, assim, racionalmente eu sei que não deveria me chocar por Lobato ter sido eugenista. Mas choquei. E, se eu fosse professora primária e tivesse a opção de escolher os livros que estudar com a minha turma, não usaria Lobato (o Alex escreveu um post interessante sobre isso).
Pensei agora em O Nascimento de uma Nação. Conhecem? É um grande filme de 1915, um épico fabuloso do Griffith, o pai do cinema americano. Foi o filme mais lucrativo de todo o período silencioso, aclamado por crítica e público. E o filme é lindo e inovador, com excelente fotografia, montagem, direção, atuações (tem a Lilian Gish), enfim, um filmaço. Com um pequeno, minúsculo detalhe: deve ser o filme mais racista que já vi na vida. Os heróis do filme são homens da Ku Klux Klan (inclusive um primeiro título foi The Clansman, e a organização racista usou o filme para recrutar novos filiados durante mais de meio século, como propaganda mesmo). Os negros que aparecem no filme (todos atores brancos com o rosto pintado de negro) são violentos e sexuais, um perigo pras donzelas brancas, naquele velho clichê que as mulheres brancas precisam dos homens brancos para salvá-las dos homens negros. E aí? Como passar o filme hoje nos EUA? Não há a menor dúvida de que ele seja descaradamente racista. É como se fosse a versão americana de O Triunfo da Vontade (da Leni Riefenstahl falando bem dos nazistas, num filme tecnicamente perfeito, mas, ahn, sabe, nazista).
Não consigo vislumbrar alguém fazer um festival de cinema popular e incluir Nascimento. Quando morei em Detroit, vi que as empresas promoviam alguns festivais de cinema em praças nos fins de semana. Teve um mês (fevereiro) que era da História Negra, então passaram alguns filmes com essa temática, como A Cor Púrpura e Tempo de Glória. Imagina se alguém pensaria em passar Nascimento de uma Nação! Nunca. Ainda mais numa cidade com 80% de população negra. Mas seria realmente muito ofensivo em qualquer lugar. E aí, o que você faz? Você esquece um dos filmes mais marcantes do cinema por ele ser racista? Você passa o filme, mas fala e escreve que ele representa uma época que, graças a zeus, não existe mais? E os pais, deveriam mostrar Nascimento pros filhos? Poderia ser passado nas escolas? Como os alunos, professores e funcionários negros se sentiriam ao ver um filme que louva a Ku Klux Klan? Nascimento é tão canônico pro cinema americano quanto Sítio do Picapau Amarelo é pra literatura infanto-juvenil. A diferença é que os americanos começaram a debater a (in)adequação de Nascimento décadas antes da gente fazer o mesmo com Lobato. E é muito complicado decidir como agir.
Mas um primeiro passo que parece óbvio, mas não é, é simplesmente admitir que essas obras são, sim, racistas. E parar de reclamar do "politicamente correto" que quer censurar obras tão importantes. Se ser politicamente correto é querer discutir e, por que não?, condenar obras que ficaram toda uma vida sem serem contestadas, então, sim, sem dúvida, eu sou politicamente correta. E o que quer o pessoal que usa o politicamente correto como palavrão? Continuar no seu direito inalienável de ofender as minorias? É essa gente que quer censura. Essa gente que defende que, só porque um troço faz parte da "tradição", não deve ser discutido. Sabe, não é por que o Sítio do Picapau Amarelo embalou a sua infância e que você não é racista porque até tem um amigo negro que gostou do livro que a obra não seja racista. Então eu pergunto: quem não quer o debate? Quem está censurando quem?

105 comentários:

Lucas disse...

Oi Lola!

Tópico complicado mesmo...
Todo autor é fruto de seu tempo e seu meio, e isso se reflete em sua obra.
Isso invalida totalmente a obra em si? Na maioria dos casos, creio que não.
A obra do Lobato é racista, mas não é sobre o racismo. É algo rico em muitos outros aspectos, mas que é racista!

Então acho que seria mais interessante e produtivo agregar isso ao se analisar a obra, explicando aos leitores e demonstrando essa faceta do autor, o que poderia ser enriquecedor para mostrar e analisar como o racismo está presente em todo lugar.
Imagina, notas de rodapé chamando atenção para certas passagens, explicando claramente o tema do racismo?

Acho que a época de varrer as coisas pra baixo do tapete já passou. Trazer essas questões à luz é a melhor forma de superá-las, acredito.

Um beijão!

aiaiai disse...

A discussão e o debate são sempre levantados por quem é Politicamente Correto. Os que não são, querem apenas manter tudo "como sempre foi".

No caso de monteiro lobato, a coisa é ridícula porque os que querem manter tudo "como sempre foi" acusam os Politicamente corretos de quererem censurar o "grande escritor brasileiro". Mas a gente não quer isso. O que o MEC propos e eu concordo totalmente, é que os livros de Lobato não façam parte do curriculo de crianças do ensino fundamental...e, caso o professor queira muito, que seja usada uma edição com uma nota explicativa sobre o racismo.

No final, foi boa a grita dos idiotas que querem manter "tudo como sempre foi" porque a gente acabou descobrindo que o lobato era mesmo racista. Ele não usa aquelas palavras porque eram normais na época, ele usa porque ele acreditava mesmo na inferioridade dos negros.

Aos comentaristas que virão:

antes de me atacar, ou à Lola, pense bem: se você tivesse um filho ou filha negra de 9 anos, gostaria que ele/ela lesse um livro que a chamasse de macaca, burra, fedorenta, carvão, etc???

aiaiai disse...

O Lucas,

Ninguém está propondo varrer para debaixo do tapete. Estamos propondo respeitar as crianças do ensino fundamental não as expondo a uma linguagem que elas não estão preparadas ainda para entender como "racismo do passado".

Maria Clara M. disse...

Concordo em gênero, número e grau com o Lucas.

Não obstante a complexidade do tema, sempre é melhor discutir o assunto a fingir que isso nunca aconteceu.
Se pensarmos nos termos atuais, é claro que a obra como um todo é racista (embora eu não considere racista o trecho que está sendo apontado como grande vilão).
Entretanto, à época que o livro foi escrito, boa parte do que era mostrado era considerado normal.
Enfim, melhor seria discutir o contexto histórico e cultural da época, a progressão dos direitos humanos etc.
O livro passaria de propaganda da intolerância a instrumento de ensino fomentador de idéias mais humanistas.
Se simplesmente apagássemos todas as obras que atentam contra os valores vigentes, perderíamos valorosos instrumentos históricos e privaríamos uma série de pessoas da oportunidade de analisar opiniões e um contexto histórico e social diverso.

Lord Anderson disse...

Complicado, mas muito importante.

Como muitos, eu li Lobato na infância e tinha uma visão saudosista da obra.

Mas depois de ver a historia do presidente Negro, e essas cartas, vc repara o quanto a lembrança emocional é parcial.

Estremamente importante a discursão.
Qualquer obra esta sujeita a discursão e analise a todo momento.

Afinal ,a sociedade não é estanque. Está sempre em mudança, sempre se reciclando e revendo seus valores.

Não fosse isso, ainda teriamos a escravidão legalizada.

Maria Clara M. disse...

aiaiai, também não acho correto proibir o uso na fase de ensino fundamental, posto que o livro é voltado para essa faixa etária, nem creio que o livro deva vir obrigatoriamente com uma nota de rodapé, bastando que as escolas públicas sejam obrigadas a adotar, se necessário, tais edições.

Os livros utilizados nas escolas sempre são objetos de provas e discussões em sala de aula.

Assim, creio que seria mais interessante instigar alunos e professores ao debate ao invés de simplesmente anexar uma nota de rodapé, já que não há a mínima garantia de que essa será lida.

Lucas disse...

aiaiai

Sim, não foi uma crítica ou coisa assim. Foi só um comentário geral em relação àqueles que prefere ignorar essas coisas, como o pessoal do "sempre foi assim" que alguém citou acima.

Não achei que fosse a opinião da Lola não.

Lord Anderson disse...

E Lola, sobre o titulo que vc usou.

Ora, se tem um livro cujas interpretações são discutido é a Biblia.

Basta ver como cada grupo religioso interpreta de maneira diferente os mesmo trechos.

Então nem a Biblia é fechada a constantes questionamento e reinterpretações.

O mesmo deveria valer p/ qualquer obra.

Maria Clara M. disse...

Além disso, li O Sítio do Picapau Amarelos justamente nessa fase do ensino fundamental e, sinceramente, não creio que as obras tivessem o mesmo apelo para mim após essa fase.
Sei lá, me parece meio injusto proibir às crianças o acesso a um livro cuja leitura não causará o mesmo encanto em idades mais avançadas.

Anônimo disse...

IDIOTA É VC AI AI AI.Se eu concordo eu sou o bom,se discordo,o mau.Certamente só existem duas linhas de pensamento,sabidona?Achar exagerado não significa que minha pessoa desgoste de negros.Mas se querem patrulhar a obra de Monteiro Lobato,também deveriam fazê-lo com inúmeras obras que supostamente depreciam minorias.A lista é loooga.

Maycon disse...

Pois é, bem complicado essa questão, Lola.

Nunca tive contato com a obra do monteiro lobato quando criança e hoje eu agradeço..rs

Mas não sou assim tanto a favor assim de proibir. Acho que tem que assumir, sair do armário e dizer que a obra era racista e contextualizar. E não com uma notinha de rodapé.

Não sou educador, mas acho que a obra poderia ser trabalhado junto com conteúdos de matérias como História. Só que isso é um trabalho para um Educador de verdade. Se for para não fazer um trabalho legais é melhor que não levem o livro para aula. Digo isso pq eu como negro levei muito tempo pra lidar com muitas questões. A aparência , por exemplo. E terei sido muito pior se tivesse contato com essa obra sem um trabalho sério de desconstrução de estigamas

Daniela disse...

Também sou a favor de discutir sobre qualquer texto/livro/obra, e concordo com o MEC que a obra não é adequada para ensino fundamental, exceto se for para o professor capacitado discutir sobre racismo.

Porém, agora existe uma matéria 'nova' no currículo do ensino fundamental que é a história africana (ou algo assim), então, nessa matéria, com esses professores que estão preparados para assuntos desse tipo, o livro de Lobato pode ser aproveitado para mostrar como éramos muito racistas, e como ele é inadequado para os tempos de hoje, além de explicar sobre o próprio racismo em si etc.

aiaiai disse...

Quem acha que deve expor crianças ao racismo do lobato, por favor, façam um exercício básico:

peguem o livro em questão "caçadas de pedrinho" e leiam para uma turma de crianças do ensino fundamental, até 10 anos de idade. Depois tentem explicar para as crianças negras dessa turma que ela não são "macacos, carvão, burro, fedorentos, etc". Além disso, tentem evitar que as crianças brancas usem isso como bulling nas negras. Daí, vocês voltem aqui e nos contem sobre essa interessante experiência.

Eu tentei ler os livros de lobato para o meu filho e desisti. E olha que ele é branco.

lola aronovich disse...

Gente, fechei a possibilidade dos comentários anônimos por um tempo. Quando o negócio se acalmar eu abro de novo. Infelizmente, evitar comentários anônimos impede que gente legal, mas que queira comentar sem se identificar, se manifeste. E isso é importante nos casos de posts sobre abuso sexual e aborto, por exemplo. Mas ultimamente os malefícios de permitir anônimos têm sido maiores que os benefícios. No post de ontem sobre os masculinitas eu ri pra caramba, achei egrançado mesmo, e acho que ilustrou muito bem o tema do post. O problema é que esses caras muito, muito burros e mal-educados continuam vindo e deixando seus comentários típicos ("Assassinas!" ou "Vão dar o c*, suas feminazis!") em todos os posts, o tempo todo. E o primeiro "Assassinas!" pode ser divertido, mas os 150 que vem depois, não. Aí é só poluição intencional pra matar qualquer discussão. E é tentativa de marcar território. Pra mim é estranho: um anônimo querer marcar território?


Lord, o título do post sobre o livro sagrado foi irônico. Até pq não sei até que ponto a bíblia é uma obra canônica...

Eduardo Marques disse...

Quando eu li Monteiro Lobato pela primeira vez, antes dos dez anos, eu pensei "meu Deus, o que é isso? Como é que podem me deixar pegar este livro na biblioteca? Será que ninguém está vendo que estou lendo um livro politicamente incorreto? TEM UMA CRIANÇA LENDO UM LIVRO POLITICAMENTE INCORRETO AQUI!! SOCORRO!!!".

Os livros dele são crus, sem pudores ou eufemismos da realidade. Não sei como não levantaram essa discussão antes. Acho que não devem ser censurados, mas devem ser lidos com cuidado e com acompanhamento. Não é uma formação adequada para as crianças de hoje.

Erato disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lord Anderson disse...

"Até pq não sei até que ponto a bíblia é uma obra canônica..."

Bom ponto.

Mas se canonica se ligar a ideia do "sempre foi assim" e "tradição" ta valendo.

Nola disse...

Acho bizarro que esse parecer do MEC tenha tido tanta atenção + acusações de censura. Pra esse parecer o problema está resolvido com uma nota de rodapé, quer coisa mais light que isso?

Deve ser pq reconhecer que alguma parte de vc é racista, ou que vc gosta de algo racista, dói no fundo do seu coração livre de preconceitos :p

Acorda Brasil, todo mundo tem seus esteriótipos racias, socias e geográficos. Reconhecer é o primeiro passo.

Maria Clara M. disse...

Gente, o ensino fundamental vai até a 9ª série.
Vocês honestamente acham que um adolescente de 14 anos não vai ter discernimento para analisar a obra.

Além disso, vocês supõem que um aluno do ensino médio vai se interessar pela obra da mesma forma que um do ensino fundamental.

Sei lá, censurar dessa forma me parece tão idiossincrático e arbitrário quanto a censura da ditadura.

Lord Anderson disse...

Erato. quando eu vi as primeiras noticias tb achei que era um projeto de censura e que isso é burrice.

Mas basta procurar mais informações que censura nunca foi pensada.

Ninguem falou em proibir o livro, criminalizar sua venda, queimar na praça, etc.

Pediram apenas que o aspecto do racismo não fosse ignorado e sim descutido e não recomendado p/ uma faixa etaria em especifico.

É uma analise com novos olhares, não uma perseguição.

Maria Clara M. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Maria Clara M. disse...

Eu sei, Anderson (troquei o nick "Erato" por este), não estou rebatendo essa proposta, mas as de proibição que estão sendo aventadas por demais comentaristas.

Amer H. disse...

Mark Twain tinha uma opinião muito sábia sobre a censura:

"Censura é proibir um homem de comer um bife, porque um bebê não pode mastigar o mesmo."

Uma obra literária é um produto de sua época. Huckleberry Finn, por exemplo, se passa em um período tão horrendo da história, que o personagem Jim é chamado pela palavra "Nigger" e tem de aceitar que o "nome" que lhe foi dado.

O autor, Mark Twain, era racista? Não sei, acho mais provável que fosse Satanista dadas algumas coisas que lí a seu respeito. O negócio é que ele tinha um senso de humor muito agressivo e ácido e ao criar tal personagem, ele quis demonstrar o quanto a sociedade em que vivia era terrível, onde um homem recebia como nome o insulto racial que era usado para se referir a ele.

Que bem traria censurar a obra e mudar o "nigger" pra "slave"? Apenas taparia o sol com a peneira e daria AO POVO RACISTA DE VERDADE um argumento paratentar dizer que a época da escravidão Americana não foi tão ruim quanto dizem.

No tocante a obra de Monteiro Lobato, nada posso falar, pois nunca a lí. Mas se o sujeito era racista, qual o motivo em censurar sua obra? Sim, vamos destrincha-la, debater cada motivação do autor e o que o levou a escrever cada parágrafo.

Mas que bem traria censurar a obra? Fingir que nosso mundo é um pouco mais cor de rosa? O politicamente nunca trouxe nada de bom ao mundo, só diminuiu a liberdade daqueles que trabalham com processo criativo.

Sinceramente, o problema do racismo não some quando se troca "nigger" por "N-Word" ou "Slave". A coisa é que com o passar do tempo, o termo "aceitável" se torna a ofensa e a discussão começa de novo.

Lord Anderson disse...

Nisso concordamos, Maria.

Mas é bom que o debate seja estimulado.

E o exemplo dado pelo aiaiai é excelente.

L. Archilla disse...

Gente, não dá pra entrar no debate supondo que alguém queira proibir as obras. Não é o que está em discussão. Mantenhamos o foco, por favor...

Amer H. disse...

"O politicamente correto nunca trouxe nada de bom ao mundo, só diminuiu a liberdade daqueles que trabalham com processo criativo."

Foi isso que quis dizer no comentário anterior. Comi uma palavra sem querer.

Amer H. disse...

Archilla, a censura não tá em discussão aqui, mas é o que muita gente quer que seja aplicado a esses livros. Acho que aqui é um bom lugar para se debater a respeito.

Maria Clara M. disse...

Sim, o exemplo que a aiaiai deu foi excelente, contudo, acho que um pai negro não deve esconder dos filhos o preconceito que eles sofreram, mas contextualizar e explicar o absurdo disso.

E um pequeno adendo, em momento algum o Monteiro Lobato chama Tia Nastácia de macaca, mas apenas compra sua agilidade com a do animal utilizando-se de uma metáfora. (Meio que me irrita essa interpretação de que essa frase é racista).

Adriana disse...

Oi Lola,

Me sinto muito à vontade para falar desse assunto, porque adoro o Sitio do Pica-Pau Amarelo. Comecei a ler Monteiro Lobato aos 9 anos e sou absolutamente apaixonada por esses livros, que reli muitas vezes mais durante minha vida. Alias, fiquei surpresa que você nao os tenha lido quando era criança. Sao realmente obras-prinas de literatura infanto-juvenil. Com Lobato aprendi a amar a leitura, nao é pouca coisa.

E essa coisa do racismo sempre me chocou. Desde quando tinha 9 anos, as (inumeras) passagens racistas de seus livros me incomodavam profundamente. Por viver em um ambiente familiar esclarecido, conseguia abstrair e separar isso do resto do texto. Mas, como disse, o incômodo era profundo e criava um paradoxo na minha cabeça: como um escritor tao talentoso e sabio podia ser racista?? Racismo é coisa de gente burra. Minha cabeça de 9 anos nao entendia, e a minha de 33 fica boba com essa reaçao de escritores e intelectuais em defesa do "patrimônio cultural" que representa a obra de Lobato e contra o "politicamente corretp".

Sera que esse pessoal sabe realmente do que esta falando? Quando foi a ultima vez que leram livros de Lobato? Eu peguei alguns de minha coleçao para reler recentemente. "Caçadas de Pedrinho", sinto informa-los, nao é nem de longe o livro que mais conta passagens racistas. O campeao é sem duvida "Memorias da Emilia". Tanto trechos elogiando crianças louras como o supra-sumo da evoluçao humana, algo somente comparavel aos anjos do céu, como passagens absolutamente odiosas falando da cor da Tia Nastacia. Tem um trecho em que Emilia esta com raiva dela que é uma aberraçao de racismo e que sempre me horrorizou: "Deus que te marcou, alguma coisa em ti achou. Quando ele preteja uma criatura é por castigo" (!!!) Entre outros adjetivos extremamente ofensivos.

Tem como ser a favor de uma coisa dessas? Claro que nao. Ao mesmo tempo, a obra de Lobato certamente enriqueceu bastante a minha vida e eu nunca poderia ser a favor de negar isso a outras crianças. So que é necessario colocar em contexto, ou melhor: usar isso como uma oportunidade para combater o racismo (esse mesmo que uma parte da elite branca brasileira diz nao existir).

Evidentemente, sou contra recolherem ou censurarem o livro. Alias, acho que isso nunca foi cogitado, a ideia era incluir notas explicativas contextualizando e condenando as passagens mais explicitas. Eu, que trabalho justamente na industria editorial, sou totalmente a favor dessa medida. Uma iniciativa que, sinceramente, ja deveria ter sido tomada ha muito tempo pelo proprio editor (Ed. Brasiliense) das obras infantis de Lobato. Me espanto que nao tenha ainda sido feito, e acredito que isso possa ter a ver com a questao dos direitos morais do autor.

Maria Clara M. disse...

L. Archilla, o que aqui se discute não é a censura da obra como um todo, mas a proibição de seu uso no ensino fundamental, algo que considero danoso, posto que ensino fundamental alcança até a 9ª série.

Ademais, como alguém bem pontuou por aqui, a obra poderia ser utilizada nas disciplinas de história africana.

Fabio Salvador disse...

SOBRE A PROIBIÇÃO DE LIVROS
Sou contrário, totalmente, a qualquer restrição. Tem gente que se choca com a disponibilidade de "Minha Luta" nas livrarias, algo que acho perfeitamente normal: como eu poderia passar a vida sabendo da existência do livro sem lê-lo? É um besteirol imenso, mas eu li.
Agora, claro, crianças não têm o senso crítico para avaliar as coisas assim, com distanciamento, e é evidente que eu não quero que a minha filha saia da escola achando normal, por exemplo, ver o negro como inferior. Se o pai e a mãe querem ensinar besteira pros filhos, não se pode impedir (nem tem como), mas a escola... pô!

SOBRE OS LIVROS EM SI
Confesso que essa onda de revisão e crítica das obras de escritores consagrados me lava a alma. Porque como eu fui muito precoce, e me tornei mais consciente muito cedo, ficava incrivelmente chocado com o que lia na minha infância.
Nos livros infantis, frequentemente apareciam cenas como um oprimido tentando se libertar, e o "herói", de uma classe opressora qualquer, vencendo, pra grande glória do status quo. Era irritante, revoltante. Crianças tomando surras e isso passando como um fato normal e corriqueiro. Uma série de barbaridades validadas porque... afinal, é assim que as coisas têm que ser, porque está nessa grande obra desse escritor que é o máximo.
Se não me engano, era o Pato Donald, se não for me digam, que dava umas surras de vara nos sobrinhos. E aquilo era normal. Eu sempre achei muito perturbador.
Ou aqueles caubóis arrastando índios presos à sela do cavalo.
Nunca engoli bem essas coisas.

SOBRE BIRTH OF A NATION
É um grande filme, sem dúvida. Eu tenho uma cópia, e assisti recentemente.
Só quero corrigir uma coisinha que a Lola disse: a relação entre o filme e a Klu Klux Klan é bem mais intensa.

Foi assim: acabada a Guerra Civil Americana, surgiram grupos, no Sul, querendo "dar o troco", dentre eles a KKK. Só que ela consistia em bandos de fazendeiros violentos, grosseiros e usando roupas de tipos variados, comentendo violências contra a população negra e os defensores da abolição. O movimento não chegou a ser muito forte, foi perseguido pela polícia, seus membros foram envelhecendo, e a onda foi morrendo na praia.

Daí, em 1915, Griffith lançou este filme. Ele chegou a ter a "consultoria histórica" de ex-membros da Klan, muito velhinhos, mas tirou sua licença poética, criando várias coisas como as cruzes queimadas, as roupas e capuzes brancos, e toda uma simbologia ritualística que não existia.

O filme foi um grande sucesso, e na verdade, provocou um boom de "imitadores" que acharam a idéia genial. Embora hoje diga-se que o filme contribuiu para o fortalecimento da KKK, na verdade, ele provocou o renascimento de um movimento que estava morto, e só não esquecido, porque seus últimos membros ainda teimavam em continuar vivos, muito velhinhos.

A KKK que surgiu a partir do filme é essa, cuja imagem hoje nos é consagrada. E ela de fato conseguiu crescer e ser bem maior e mais organizada do que a simples confraria de bandoleiros dos anos imediatamente posteriores à guerra. E ela tinha força política, era grande. Nos anos 1930, chegou a existir um partido nazista nos EUA, cuja base era a Klan.

O que nos ensina uma lição importante: grupos de ódio morrem, mas não estamos imunes à possibilidade de ver um deles renascer, do nada, por causa de um simples filme exibido a uma audiência ignorante. Ou de um simples livro, dado a crianças.

aiaiai disse...

maria clara disse:

"Eu sei, Anderson (troquei o nick "Erato" por este), não estou rebatendo essa proposta, mas as de proibição que estão sendo aventadas por demais comentaristas."

por favor, indique quem foi o comentarista que aventou a proibição das obras de monteiro lobato?

qt a sua questão da idade, o livro do monteiro lobato não interessa em nada a crianças com mais de 10 anos. Eu tenho um filho e sei bem o que interessa ou não em termos de literatura às várias faixas etárias.

Então, esse livro nunca foi recomendado para os 8º e 9º anos. Ele era usado mais rotineiramente nos 5º, 6º e 7º anos.

Leia, você e outros comentaristas que não leram ainda, o parecer do MEC. Tá disponível em vários sites, um link é este http://migre.me/3VqxT

Amer,

A gente já sabe que vc não gosta do politicamente correto porque faz parte do "do movimento libertário das pesssoas preconceituosas" do qual eu e o Thiago Beleza somos traidores com muito orgulho kkkkkkkkkkkkkkkk

Para quem não lembra segue o link do post no qual o Thiago fala disso

http://migre.me/3VqEi

Maria Clara M. disse...

Nossa, Adriana,
agora que você as salientou, recordei essas passagens de "Memórias de Emília" e sinceramente, não lembro de ter sequer pensado sobre elas, pois sempre as considerei bobagens da "torneirinha de asneiras" da Emília.
Mas talvez eu, no fundo no fundo, tenha as tomado como naturais, pois minha avó, que é extremamente racista, sempre foi uma figura muito importante na minha criação.
Bom, mas isso é algo que eu só posso resolver na minha análise.

Maria Clara M. disse...

aiaiai, eu me referia à proibição do livro no ensino fundamental e você mesma propôs isso no seguinte trecho:

"O que o MEC propos e eu concordo totalmente, é que os livros de Lobato não façam parte do curriculo de crianças do ensino fundamental...e, caso o professor queira muito, que seja usada uma edição com uma nota explicativa sobre o racismo."

No tocante à faixa etária indicada, é justamente como você disse, ela é indicada para crianças de 10 à 12 anos, faixa etária costumeiramente abrangida pelo ensino fundamental, que abarca o 1° ao 9° ano.

Como já foi comentado também nesse tópico, alguns leram a obra nessa faixa etária e foram capazes de discernir as nuances racistas das obras.

Logo, por que as crianças de hoje não seriam capazes do mesmo?

Por isso mesmo creio que a obra deve ser discutida e analisada pelos professores, e não proibida em sala de aula.

Ademais, se um professor não tem a capacidade de discutir uma obra literária infanto juvenil basilar, não deveria estar sequer ensinando português e literatura para crianças.

aiaiai disse...

Aos que estão propondo que isso seja discutido nas aulas de História Africana, sinto informar que embora a lei seja de 2003, ainda hoje não foi implementada e são pouquíssimas as escolas que oferecem essa disciplina.

Gostaria ainda de convidar aos ilustres comentaristas que acham que é fácil "contextualizar" o racismo da emília para dar uma - umazinha só - aula de português em uma escola pública.

Luiz disse...

Até que Lobato é lido para crianças depois dos 4 ou 5 anos. Antes elas nem conseguem acompanhar estórias tão longas.
O que é estória rápida e que os pais compram por primeiro são Rapunzel e etc.
Já falei Rapunzel pq aí tem um início complicado de que um pai resolver soubar uma vizinha e que é "bruxa" mas mantêm seus jardins bem cuidados. Sem falar do resto da trama que discrimina os diferentes. Todas as histórias que se conta para crianças deveriam ser revistas. Eu já dou dicas para minha filha que têm hoje, 7 anos.
Fizeram um filme pouco comentado sobre "João e o pé de feijão" onde há também discriminação pelos diferentes, permintindo-se até rouba-los. No filme "A verdadeira história de João e o pé de feijão" http://www.youtube.com/watch?v=rsHn8VSbaHc foi mostrado as consequencias da ação pretérita.

aiaiai disse...

Maria clara,

você não sabe ler, amor. O trecho que vc coloca do meu comentário não diz que eu concordo em proibir o livro... tá doida???
Vá ler o parecer antes de comentar bobagem.

Maria Clara M. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lucas disse...

Aparentemente não precisamos de trolls e anônimos pra suprir a cota diária de agressividade desnecessária.

Maria Clara M. disse...

Desculpe, aiaiai, eu que me expressei mal.
Você realmente não defende a proibição total do livro, mas tão somente sua exclusão dos currículos das séries do ensino fundamental, salvo se a edição contiver nota explicativa que analise e discuta as questões de preconceito racial nele presente.
Contudo, ao meu ver, isso é um tipo de proibição.

Maycon disse...

Maria Clara disse:

"E um pequeno adendo, em momento algum o Monteiro Lobato chama Tia Nastácia de macaca, mas apenas compra sua agilidade com a do animal utilizando-se de uma metáfora. (Meio que me irrita essa interpretação de que essa frase é racista)."

Pois eu me sinto muito incomodado com essa comparação. Pelo fato de a associação entre negros e macacos tem um peso simbólico muito grande.
Qual negro nunca teve alguma vez suas características comparado a um macaco levante a mão?
Eu já.

e aiaiai, concordo com você. é muito complicado contextualizar essa questão por conta da realidade das escolar brasileiras. Sou a favor dela, mas , no momento, não acho que seja possível realizar esse trabalho.

Fabio Salvador disse...

Só duas coisas:

já disseram, usando meu comentário como evidência, que crianças são capazes de discernir o racismo embutido em Monteiro Lobato. Eu afirmo que não é. As crianças não são todas iguais, e embora eu conseguisse separar as coisas muito bem aos 7 anos, a maior parte das crianças dentro da minha própria família não o conseguem.


E "contextualizar" algo numa sala com crianças é realmente impossível. O professor já gasta boa parte de sua energia simplesmente mantendo os alunos "mentlamente dentro" da aula.

O cara começaria a explicar a coisa toda, complexo e tudo mais... e o Juquinha já puxou o cabelo da Aninha, que já está correndo atrás do Pedrinho, que jogou bolinha de papel no Joãozinho...

Fabio Salvador disse...

Assuntos muito complexos já são difíceis de explicar para ADULTOS com pouca instrução, e isso eu posso dizer com toda certeza: quem não é ACOSTUMADO a fazer grandes e prolongados esforços mentais focados em um problema só, simplesmente não acompanha explicações e debates mais complexos.

Ally disse...

Oi Lola.
Gostei mto do post, é bem polêmico.
Eu sempre li as histórias do Sítio, muitas vezes, eram meus favoritos no fundamental.
São livros sobre infância com brincadeiras, aventuras e IMAGINAÇÃO coisa q hj em dia as crianças não tem mais pq td é virtual.
Naquela época os ngros eram tratados somente como subalternos, o que é errado obviamente, mas não deixa de acontecer até hj em mtas situações.
Apesar disso os personagens negros apesar de sua posição "secundária" ou "inferior" os personagens são tratados com carinho pelas crianças.
Histórias que incentivam crianças a brincar, fantasiar, tratam os negros, mesmo no contexto da escravidão, com consideração não deveria ser banido, mto pelo contrário, deveria ser INCENTIVADO.

mauriciopiccini disse...

Até tento seguir o raciocínio do "aiaiai", mas se é preciso

'explicar para as crianças negras dessa turma que ela não são "macacos, carvão, burro, fedorentos, etc".',

há um problema de autoimagem anterior à leitura do livro e distinto da obra em si.

As crianças deveriam saber que não são "macacos, carvão, burro, fedorentos" etc. Ninguém deveria ter de explicar para elas.

Como comentei no outro post, é problema de como as pessoas entendem uma obra literária. A obra não é "real", o narrador não é "real" e a Emília não é exemplo para ninguém.

Helô disse...

Lola,

Eu leio sempre o seu blog, mas é a primeira vez que comento. Eu sou de exatas, então provavelmente não serei tão bem articulada quanto a maioria do pessoal que escreve aqui.

Eu cresci com os livros do Sítio do PicaPau Amarelo. E não foi só uma simples leitura. Eles colaboraram para a minha formação. Se a minha memória não me falha, quem quase sempre fazia os comentários racistas era a Emília. Mas a coisa era escrita de uma forma tal que ficava bem claro que este tipo de comentário era característico de uma pessoa malcriada e mesquinha. A Emília não era maldosa só com a Tia Nastácia. Sobrava para todo mundo!!!

A Tia Nastácia tinha papel de destaque ao longo de todos os livros (se não me engano são doze volumes). Em alguns momentos ela era a protagonista. Uma mulher, negra, protagonista em plena década de 1930?! Ele pode ser racista para os padrões de agora, mas acho que para a época, com menos de 50 anos de abolição da escravatratura, era bem avançado.

Aproveitando a oportunidade, eu não lí o restante dos comentários, mas é uma pena que os livros do Monteiro Lobato só tenham voltado ao centro das atenções por causa do racismo. Seria tão mais bacana se as pessoas prestassem atenção a todas as personagens femininas importantes dentro da história. A Dona Benta, que era uma mulher independente, intelectualizada e proprietária de terras. Tinha Nastácia, que foi quem fez a Emília e o Visconde de Sabugosa e várias vezes fazia o papel de mãe da Narizinho. A Narizinho, que era uma menina muito esperta e corajosa. E mesmo a Emília, que é a personagem de quem menos gosto, era corasoja e independente. Todos os personagens masculinos da história gravitam em torno dos femininos.

Tomara que os livros que poderiam servir como um ótimo modelo para as meninas (pelo menos comigo foi assim) não passe para as próximas gerações como racista.

Abraços!

Oliveira disse...

O único livro, não didático, que deveria ser obrigatório nas escolas é: A Revolução do Bichos, do George Orwell, que mostra como gente desclassificada se locupleta do poder com a desculpa que vai mudar tudo em benefício do povo e depois fica pior que os seus antecessores. Vide o caso do aumento de salário atual da Dilma X antigos.
A Revolução dos bichos faria crianças melhores e menos bobas.

PS A vírgula desta frase a seguir, copiada ipsis litteris do seu post, está errada."Essa gente que defende que, só porque um troço faz parte da "tradição", não deve ser discutido." Uma professora (doutora de universidade) não saber acentuar também é preocupante.

Maria Clara M. disse...

Helô, você descreveu exatamente, e de forma muito mais diplomática, tudo que eu sinto em relação à obra.

Quanto à Emilia, achei que suas observações fossem claras para todos os leitores e conhecedores do "Sítio", vejo, contudo, que me enganei.

Jaquee Ribeiro disse...

Opa, não imaginava que Lobato fosse racista! Na verdade quando li grande parte de seus livros à anos atrás ainda era criança e não notei esse teor racista que tanto criticaram, não fez diferença nenhuma e não aprendi a ser racista com seus livros. Bem, agora definitivamente Lobato caiu bastante no meu conceito.
Mas acho que o correto mesmo seria discutir e não santificar uma obra só porque é um clássico infanto-juvenil. Aliás esse é um bom assunto para discutir em sala de aula, saber opiniões a esse respeito vou falar com minha professora.
Até mais.

Helô disse...

Eu sei que a Wikipédia não é uma referência válida, mas é uma introdução boa. E como eu não consegui elaborar de forma melhor:

"A extrema bondade de tia Nastácia dava-lhe, no contexto do Sítio do Picapau Amarelo, o verdadeiro ar de brasilidade, junto a uma Dona Benta de formação cultural européia. Enquanto esta falava de Hans Staden, e apresentava aos netos a Mitologia Grega, foi pela boca de tia Nastácia que dezenas de Histórias do folclore brasileiro foram sendo narradas, com deleite, aos meninos do Sítio. Por seus lábios, personagens menosprezados do rico fabulário popular encontraram meios de chegar aos leitores mirins do Brasil, e tia Nastácia tornou-se o centro das atenções, em "Histórias de tia Nastácia" - um dos livros da série. Tia Nastácia é a personagem que representa a sabedoria popular, a sabedoria do povo.

Negra, de beiços grandes, assustada e medrosa, uma cozinheira de mão cheia. Sem os seus quitutes, a vida no Sítio não teria "sabor"… Tia Nastácia é famosa por causa de seus deliciosos bolinhos, de modo que, segundo o livro O Saci:

"… _quem comia uma vez os seus bolinhos de polvilho não podia nem sequer sentir o cheiro de bolos feitos por outras cozinheiras (…)".

O problema é quando a prezada cozinheira mostra anseios de levar o porco Rabicó para o forno, e só não fez isso pois o pobre poltrão é salvo da panela por Narizinho.

Supersticiosa, a tudo esconjura com um "cruz-credo". Ou, como resumiu Emília, num raro elogio:

_Tia Nastácia é uma danada!"

Um autor racista daria um livro inteiro a uma personagem negra?

E por último, supersimplificações do tipo "Monteiro Lobato é racista = não gosto mais" são sempre complicadas... Ghandi começu a prestar atenção ao mundo ao seu redor quando teve contato com a Teosofia, e a Helena Blavatsky acreditava na superioridade da raça ariana. Eu não estou fazendo apologia ao racismo, nem concordo com a Blavatsky, mas a gente não pode interpretar as coisas sempre da forma mais fácil.

Ághata disse...

Fabio Salvador, concordo totalmente com você. Eu tive o mesmo problema.

Sempre gostei muito de ler. E sai pegando livros na doida na biblioteca. O resultado? Li livros homofóbicos, sexissistas, racistas, com desvirtuamento de valores e narração de violências pesadas (estupro, abuso sexual). E isso claro que me fez mal. Até porque eu não tinha noção de muitas coisas ainda. Lembro de um livro homofóbico em que as mães e a diretora da escola se esforçavam para separar duas garotas e tudo acabava bem porque elas arranjavam namorados. Na minha cabeça aquilo era um absurdo, mas eu nem sabia que existiam lésbicas! Nem sabia explicar o que era absurdo! Será que era coisa da minha cabeça...?.

Eu Não sei. Eu Não sinto nenhum apego a coisa velha. Eu adoro Sangue Novo. Eu gosto de pegar um livro, ler e ter o prazer de ler algo instrutivo e que abra a minha mente. Eu tenho horror dos problemas que nossa sociedade apresenta e sei que boa parte deles só serão atenuados com gerações novas e com cultura novas. E esse apego ao passado, aos valores distorcidos que pareciam tão "lindos" na nossa infância alienada só atravanca com isso.

Eu pretendo adotar crianças. Provavelmente, elas serão negras. Você acha mesmo que eu vou dar Monteiro Lobato pra elas lerem? Ou qualquer outra obra cujo conteúdo seja duvidoso? Pra mim, Lobato e sua literatura está morta e enterrada. Há muitos livros novos melhores para entreterem, educarem e passarem valores para minhas futuras crianças.

Agora, os pais querem dar livrinhos deste calibre porque acham eles bons? Que façam isso. Livre arbítrio deles.

Mas, acho um abuso que a lista de livros obrigatórios ou indicados pelo MEC tenham obras claramente ofensivas a segmentos de nossa população. Como se a educação brasileira já não estivesse numa situação precária sem precisar de Lobato na lista de leitura obrigatória.

Terei prazer em não comprar o livro e dizer pra minha filhinha "Hoje, você pode cabular a aula pra jogar Vídeo game"!

Ághata disse...

Ah, Oliveira, concordo totalmente com você! A Revolução dos Bichos de Geroge Orwell é uma excelente leitura.
Apenas acho que as nossas interpretações da obra são um tanto quanto díspares.

Helô, não está em discussão se Monteiro Lobato era ou não racista (se você der uma olhada nas cartas dele e no que ele pensava dos negros, é, você verá que ele era, mas não importa), o problema é se os livros dele são potencialmente ofensivos à auto estima de crianças negras.

Laurinha (Mulher modernex) disse...

Pois é, Lola, atualmente está acontecendo uma coisa lamentável, todo mundo quer ter opinião sobre tudo, mas nem busca se informar antes.
Escutam o galo cantar e já querem dar palpite.
Não queriam censurar o Lobato, queriam colocar uma nota de rodapé. Mas não sei se por má fé, pra criar polêmica ou por pressa, contam a história pela metade e todo mundo quer palpitar.
É como no caso do casamento entre homossexuais. Ignorantes como Bolsonaro ficam gritando aos quatro cantos que padres e pastores vão ser obrigados a casar homossexuais no religioso, quando não é nada disso.
E aí o povo critica, se revolta, com uma coisa que não tem nada a ver com religião.

Amer H. disse...

Basicamente, você tá me chamando de racista, senhora "Aiaiai"? É isso?

Se eu me oponho a mudança de uma obra que representa o período em que foi escrita, de modo que se adeque melhor ao que é aceito hoje, eu sou racista, preconceituoso, homofóbico e tudo mais?

Pode explicar pra mim, que sou racista e burro demais pra entender, UM motivo pelo qual o movimento do politicamente correto é válido?

Pois a meu ver, ele não elimina o preconceito. Se você proíbe as pessoas de falarem "nigger", aos poucos, o termo "n-word" se torna o ofensivo e deve então ser trocado por outra palavra. O preconceito, o ódio e a intolerância se mantém, só os termos são adequados ao preconceito vigente.

Preconceito sempre vai existir, infelizmente. Negros, Asiáticos, Judeus e todas as demais etnias podem ser tão preconceituosas e racistas quanto Brancos, é uma tendência do ser humano. Não sei como erradicar este tipo de pensamento e tornar grupos étnicos tolerantes uns aos outros, mas acho que é este tipo de mudança social que deveria ser estudada e não a necessidade de criar novas palavras que "não ofendam a ninguém."

Aliás, escutei em um programa de rádio (Americano, não escuto rádio Nacional, acho chato), a história de um taxista Jamaicano que trabalhava em Nova York. Um de seus clientes o chamou de "Afro Americano" e o taxista não gostou, por ser Jamaicano.

O passageiro tentou explicar com todas as letras, que o termo aceito para se referir a "pessoas como ele" era Afro Americano, ao que o taxista respondeu "Não sou Africano nem Americano! Sou um Jamaicano e se não quer me ofender, deveria se referia a mim como tal!"

Também já ví história de anões que não gostam de serem chamados de "pessoas Pequenas", o termo que é considerado adequado a eles.
Alguns anões declaram que ao serem chamados assim, é como se fossem considerados "menores" que as outras pessoas, não fisicamente, mas como menos capazes, com menos garra e espírito.

Já lí e ouvi muitas dessas histórias, e todas sempre me fizeram questionar a validade do Politicamente Correto. Definitivamente não endosso que um sujeito branco chame um negro por um termo racial ao encontrá-lo... mas proibir a palavra ou tentar convencer o racista a não usá-la, irá mudar sua forma de pensar?

Laurinha (Mulher modernex) disse...

E só pra constar, Lobato também era um machista de marca maior.
Ele escreveu o prefácio do romance Éramos seis, de Maria José Dupre (que em algumas capas aparece como Sra. Leandro Dupré, rsrs, porque achava mais respeitável uma autora indicar que era casada, era a senhora de alguém) e é uma pérola atrás da outra.
Ele a elogia o tempo todo mas deixando claro o tempo todo a surpresa que uma mulher tenha sido capaz de escrever um livro que o tenha prendido do início ao final, porque mulheres só servem pra fazer biscoitos, palavras dele, rsrs.

Amer H. disse...

Quanto a censura de livros (ou filmes, ou músicas, ou o que for), sou a favor da liberdade de expressão, algo que infelizmente não é defendido em nosso país.

Liberdade de Expressão é aquilo que dá direito A TODOS de expressarem suas idéias e crenças. Graças a ela, a Lola pode escrever seu blog, eu posso escrever o meu e claro, alguns cretinos racistas e intolerantes podem escrever o que pensam também.

Viver em uma democracia é o que nos dá o direito de expressar nossas idéias e o preço que pagamos, é ter de ouvir idéias que nem sempre batem com as nossas. Achar que certas idéias, não importa o quão extremas sejam, devam ser censuradas ou proibídas, não é exatamente a melhor maneira de honrar o movimento democrático em que vivemos.

milla.rosachoque disse...
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Ághata disse...

É, Laurinha.

Yo tenho abuso de Lobato desde que fiquei sabendo que ele esculhambou injustamente as obras de Anita Malfatti. Depois que fui saber do racismo explícito das obras dele.

Ághata disse...

É, talvez a liberdade de expressão não seja devidamente defendida. O que anda sendo bem defendido é o direito hereditário de ofender e hostilizar o outro ad infinitum.

Helô disse...

Aghata, aí é que está. Esta poderia ser uma ótima oportunidade de discutir em sala de aula. Assim como a Tia Nstácia é chamada negra beiçuda, a Dona Benta é chamada de velha coroca, entre outras belezuras. Um educador competente, seja professor ou pai, saberá tirar proveito desta passagem para mostrar as crianças negras ou não, como este tipo de ofensa é condenável e como uma criança negra (ou de outra minoria) pode aprender a se "blindar" contra este tipo de coisa (a gente tem que tentar mudar a sociedade, mas também tem que ensinar as pessoas a se defenderem).

Quanto ao seu comentário, não é porque uma coisa é antiga que ela pode ser descartada. Ainda que mereça discussão e haja imperfeições, certas coisas são atemporais. Dentro da cultura brasileira, Monteiro Lobato é uma delas.

Eu nem vou citar Harry Potter, porque ele é um caldeirão de referências aos clássicos. Mas para você que gosta de video-games, as referências em The Sims, por exemplo, vão de Sheakespeare aos filmes de horror da década de 20, passando pela Inquisição Espanhola e Pink Floyd. Não dá para jogar o passado fora, ele faz parte da gente.

Amer H. disse...

Ághata, o ser humano VAI hostilizar e ofender o outro, não importa como.

Sou branco, homem e classe média. Em teoria, sou "privilegiado" e nunca deveria sofrer nenhum tipo de abuso verbal.

Pois bem, fui chamado de bicha, balofo, retardado, "branco azedo" e mais um quilo de coisas a minha vida toda.

Se eu fosse diferente do que sou, outras palavras mais adequadas seriam usadas pra me xingar. Assim é a vida.

O que devemos tentar mudar é o COMPORTAMENTO das pessoas, não eliminar palavras do vocabulário. As palavras mudam seu sentido com o passar do tempo. Se você pesquisar, verá que muitos daqueles que são considerados palavrões hoje em dia, eram palavras aceitáveis antigamente e que tiveram seu sentido deturpado com o passar do tempo.

lola aronovich disse...
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lola aronovich disse...

Amer, a discussão não é exatamente sobre liberdade de expressão. Eu sou 100% a favor de liberdade de expressão. Acho até que blogs e publicações nazistas deveriam ter o direito de existir. Até os masculinistas! Mas eu defender o direito do Minha Luta existir é diferente de levar o Minha Luta pra dentro de uma sala de aula com crianças, né? No momento em que vc leva um livro pra escola pra ser estudado, de certa forma vc está legitimando esse livro. Mesmo que vc o critique, ele foi escolhido no lugar de milhares de outros. Ele já ganha um certo poder, uma certa importância. E se ainda por cima não haverá crítica (porque vários profs. não têm esse preparo, e porque as crianças podem ser novas demais pra perceber algo errado), então o negócio passa a ser mais perigoso, mais danoso.


Helô, desculpe, não sei se foi vc ou outra pessoa que disse, e agora estou sem tempo pra procurar. Mas alguém disse que o fato de Lobato dar destaque pra uma mulher negra nos anos 1930 já sugere que ele não é racista. Eu discordo. A primeira coisa que vem a minha cabeça é E o Vento Levou. A personagem da empregada-escrava de Scarlett tem bastante destaque, é um personagem de quem gostamos (ao contrário das outras escravas, essas mentirosas e incompetentes, ali mostradas), a atriz ganhou Oscar e tal. E no entanto... Alguém diria que a representação da negra em E o Vento Levou (no filme e no romance da Margart Mitchell – eu li quando era adolescente, e tem mais de 1100 páginas) não é racista? Hoje o racismo (e tb o machismo: Scarlet é estuprada pelo marido e acorda na manhã seguinte feliz e apaixonada) de E o Vento Levou é evidente. Na época do filme, 1939, ninguém notou. Durante décadas ninguém notou, ou pelo menos ninguém que tivesse como ser ouvido. E hoje isso é meio indiscutível. Eu continuo adorando o filme de paixão. Mas não gostaria que ele fosse visto por crianças numa sala de aula.

Mariane disse...
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Mariane disse...
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lola aronovich disse...

Jáder, digamos assim: eu acho o masculinismo ridículo e deplorável, nada mais que uma piada de mau gosto. É só mais uma forma de criar male bonding através de misoginia e machismo. Não levo a sério. O que não quer dizer que eu ache que só as mulheres sofrem neste mundo. Eu nunca disse isso. Pelo contrário. O que vivo dizendo é que o machismo afeta todo mundo, mulheres e homens. Faz mal pra todos. Pior pras mulheres, lógico, mas tem mil e uma situações em que prejudica tb os homens (aliás, ontem mesmo recebi um ótimo email de um leitor sobre isso. Vou publicá-lo num guest post em março). Machismo é uma camisa de força que restringe a liberdade – inclusive a liberdade masculina. Muitas das coisas pelas quais os masculinistas “lutam” (não sei se dá pra chamar assim o que eles fazem) e pelas quais culpam as mulheres e, especialmente, as feministas, são consequência do machismo. Por exemplo: homem não fazer exame de próstata e por isso morrer de câncer. A culpa é das feministas ou dos carinhas que vivem fazendo mil e uma piadas homofóbicas sobre o tal exame?

Mariane disse...

Lola , por que excluiu ? Foi mal ? :(

Marcelle disse...

Oi gente,

Sei que é mais facil falar do que fazer, mas esse problema tem soluçao simples:

1) Nao apenas esse livro do Lobato, mas todos os livros pra criança deveriam vir sim com notas explicativas sobre questoes como racismo, machismo, etc. levantadas por esses livros.

Eu lembro qdo tinha uns 10 anos, ja era rata de biblioteca, na epoca e havia uns livros com 'questoes para pensar' no fim. Pelo menos pra mim funcionou para eu ver o livro de um ponto de vista mais critico -- e sim, uma criança de 10 anos pode ser critica!

2) Os professores que vao lidar com crianças precisam receber treinamento especifico sobre essas questoes. Eles sao profissionais que precisam saber identificar o racismo (ou sexismo) no material que escolherem usar em sala de aula, para tomar uma decisao informada sobre usar ou nao o livro e, se decidir por usa-lo, saber conduzir a discussao para tentar minar o racismo presente na atitude das criancas (Pq sinceramente, nao sao os livros que introduzem o racismo na sala de aula. Ele chega la muito antes das crianças aprenderem a ler!) usando esses livros.

Com essas duas medidas, o problema esta resolvido. Sem ter que banir livro nenhum, sem ter que fazer alteracoes no texto dos livros (como querem fazer aqui nos EUA) em si e sem ficar botando autor X ou Y em pedestal ou na fogueira.

Isabel disse...

Juro que não entendo o chilique que a maioria das pessoas deu quando esse assunto veio à tona (ou melhor, entendo sim: tudo que aconteceu no ano passado serviu para dizer que o Lula queria acabar com a liberdade de expressão).

Eu concordo que é melhor usar esse livro para discutir o racismo do que simplesmente bani-lo. Mas algumas crianças são pequenas demais para isso (não entendo nada de pedagogia, não sou professora, mas é uma coisa óbvia: algumas coisas são complexas demais para a cabecinha das crianças).

O caso do Monteiro Lobato é especialmente mais complicado porque milhares de crianças usam as expressões que saem da boca da Emília. Isso pode não fazer mal algum a quem fala, mas coloque-se no lugar de uma criança ouvindo que é macaca, fedorenta, etc. Vejam esse texto: http://www.idelberavelar.com/archives/2010/11/nao_e_sobre_voce_que_devemos_falar_por_ana_maria_goncalves.php
Chega um momento em que uma criança diz que as outras têm nojo dela por ser negra. Tem como não ficar comovida com isso?

Óbvio que os tempos são outros. Então seria uma ofensa tão grande à obra do Lobato colocar uma nota explicando justamente isso? Afinal, colocaram uma explicando que caçar onças não é legal hoje em dia. A proposta é exatamente contextualizar a obra. Como eu disse, concordo que ela não deveria ser lida por crianças muito pequenas. Mas haverá liberdade para os professores decidirem isso.

Assim como a Lola, o prestígio que eu tinha pelo Lobato caiu muito depois de eu saber disso. Óbvio que eu entendo a sociedade em que ele foi criado e que isso era plenamente normal e louvável no século XIX. Mas eu lembro de ter ficado chocada, ainda criança, quando Lobato se referiu à tia Nastácia como "preta de estimação". A impressão que tive naquela hora foi que ele a igualou a um animal. E desde então

Priskka disse...

Meus caros,

a nota de rodapé é fundamental. Tanto como instrumento informativo quanto provocador de um debate mais profundo. Notas de rodapé não tem nada de censura, pelo contrário. São uma benção. Eu só consegui ler e entender a Divina Comédia de Dante graças a elas. E mesmo assim não foi fácil. Tem livros que simplesmente precisam de uma contextualização para serem compreendidos.

E precisamos levar em consideração o fato de que Lobato é adotado não só nas 'boas' escolas nas quais a classe média estuda. Meu pai dá aula de português na rede pública e outro dia analisou com os alunos a letra da música 'Planeta Terra', de Guilherme Arantes. Foi indagado por um aluno risonho: "mas água não tem nada a ver com florestas nem com natureza! Que q água tem a ver com terra"? E isso foi um menino de quinta série que perguntou, vejam bem.

Se nas 'boas' escolas o livro de Lobato servirá de prato cheio às crianças que gostam de usar apelidos, imaginem nas escolas onde as crianças só vão para poder comer a merenda?

Aplaudo o MEC pela iniciativa e espero que isso seja apenas a ponta do Iceberg e muitos outros livros passem por revisões e debates semelhantes. E estou pensando além de questões ligadas a machismo ou racismo. Algumas obras mais 'difíceis' seriam muito melhor aproveitadas com boas notas de rodapé.

Flávia disse...

Lola,
A ignorância é o primeiro passo para o preconceito. A criança e o adolescente geralmente têm preconceitos com aquilo que não conhecem profundamente ou então com ideias pré-concebidas transmitidas por um adulto.
Omitir o racismo de outras épocas é desconectar o presente do passado e de certa forma esvaziar até mesmo as lutas contra o preconceito racial.
Sou professora de história e acho vital que se apresente aos alunos o racismo em "locais" inesperados, como por exemplo uma obra infantil. Dessa forma, o aluno pode perceber como uma ideologia permeia a sociedade como um todo e a importância da reflexão.
Aliás, esse debate não deve promover a censura da obra, mas estimular o debate dentro da sala de aula.

Flávia disse...

Ah, outra coisa!
Trabalho com uma professora negra bastante combativa em relação ao preconceito racial (alguém que já sofreu na pele o racismo) e ela em uma discussão sobre esse tema achou pavoroso o fato de censurar Monteiro Lobato, aliás, algo até anacrônico.
Mas o debate está aberto...

Amer H. disse...

Bom Lola, vamos concordar que Mein Kempf e Sitio do Pica Pau Amarelo são duas obras completamente diferentes e que devem ser analisadas em ambientes diferentes.

Mas seja qual for o livro ou ambiente (escola, universidade ou o que for), é preciso sempre ser dado o contexto da época em que o livro foi escrito. Se em um livro, um escravo é chamado de "nigger Jim", cabe ao professor explicar que a época da história era tão absurdamente racista, que tal nome era considerado adequado.

Da mesma forma, se um professor passa a obra de Monteiro Lobato aos seus alunos, cabe a ele explicar que na época em que foi escrita, a descrição que Lobato dava de Tia Anastácia era o mais próximo que um homem branco conseguia chegar da tolerância racial.

Ambos os casos, quando devidamente explicados, podem levar os alunos a reflexão e acredito que esta é uma das melhores coisas que um professor pode fazer por seus alunos: estimulá-los a pensar.

Aí entramos na questão da crítica as obras, no qual concordo 200% com você. Nada é sagrado, nada deve ser colocado em um pedestal e TUDO deve ser analisado e criticado (ou elogiado, por que não) de acordo com seu conteúdo.

Mas o que me preocupa, é que sempre existem pessoas que acham que obras literárias devem ser adaptadas e que seu conteúdo "ofensivo" deve ser removido, para que a sensibilidade moderna não seja afetada pela mesma.

E acho isso um absurdo. Negar o passado e higienizá-lo com os costumes do presente não traz nada de bom.

Quanto ao preparo dos professores e a escolha do material didático, eu também concordo com você, deve haver discernimento da parte do educador. Um professor da 4º série deve ter o bom senso de não passar Mein Kempf ou Kafka para a gurizada de dez anos ler... mas infelizmente nem todos o têm.

É necessário que haja uma reforma COMPLETA na educação nacional. Este é o verdadeiro problema que enfrentamos. Novamente, editar livros para que melhor se adequem aos valores atuais, não resolve o problema real, apenas dá uma solução provisória que não traz benefício algum.

Amer H. disse...

Priskka, crianças não precisam de ajuda pra aprenderem a xingar umas as outras. Cresci em uma casa onde ninguém falava palavrões e isso não impediu que meu vocabulário se desenvolvesse...

Se uma criança aprendeu um termo mais "colorido" lendo Monteiro Lobato, pelo menos ela leu um livro com algum valor no processo. Se não fosse isso, ela aprenderia o mesmo termo em seu dia a dia, com amigos ou outros adultos na rua.

Mariane disse...

Lola , não foi com a intenção de apoiar censura , apenas que prefiro não ler mais esses escritores.

Maria Clara M. disse...

Maycon, reli o trecho da obra e devo me desculpar, realmente a frase que compara a agilidade de Tia Nastácia à uma macaca é racista (A frase é a seguinte: "Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão")

Ainda na mesma obra o autor diz que a humanidade, por proferir inúmeras bobagens, realmente se assemelha aos macacos.

Enfim, lendo os comentários mudei um pouco minha opinião.

Realmente seria interessante a introdução de notas que contextualizassem a obra e condenasse o racismo nela apresentado (da mesma forma que alguém citou que na edição atual há notas condenando a caçada de onças).

Apesar disso, não creio que as obras do Lobato devam sair do currículo do ensino fundamental.

Omitir o racismo de outras épocas não irá diminuir o racismo vigente.
Pelo contrário, devemos sempre ter referências da atrocidade que é o preconceito racial.

E continuo a achar que com orientação adequada as crianças serão capazes de entender que aquilo não é mais aceito ou tolerado pela sociedade.

Li boa parte da série do "Sítio do Pica-Pau Amarelo" quando criança e a maior parte das lembranças que guardo da obra são boas.

Infelizmente o tratamento dispensado à Tia Nastácia e aos demais serviçais é preconceituoso, mas seria muito mais interessante explicar às crianças o contexto histórico da época do que privá-las das outras inúmeras benesses que a leitura da obra trariam.

Seria muito triste que uma obra nacional tão icônica seja marginalizada por ser fruto de uma época em que tais preconceitos ainda eram considerados normais.

Isabel disse...

putz, agora que vi: meu comentário saiu cortado. Disse que desde então nunca mais vi a obra do Lobato com os mesmos olhos. Reconheço sua grandeza e sua importância para a literatura nacional e para minha própria formação, mas eu fiquei muito desapontado com ele. Se eu fosse mãe, não sei se ficaria confortável ao ler essas passagens para uma criança.

Acho que o link pro blog do Idelber também saiu errado: http://bit.ly/dlMWDB

Depoimento de uma criança de 6 anos:
‘Só porque eu sou preta elas falam que não tomo banho. Ficam me xingando de preta cor de carvão. Ela me xingou de preta fedida. Eu contei à professora e ela não fez nada''

[Por que não querem brincar com ela]‘‘Porque sou preta. A gente estava brincando de mamãe. A Catarina branca falou: eu não vou ser tia dela (da própria criança que está narrando). A Camila, que é branca, não tem nojo de mim''. A pesquisadora pergunta: ‘‘E as outras crianças têm nojo de você?'' Responde a garota: ‘‘Têm''.

Depois de ler isso, todo mundo ainda acha que as crianças têm sempre discernimento pra entender que isso é errado? Ou que todos os professores estão aptos para discutir o racismo de maneira construtiva com crianças?

Tudo que o MEC quer é exatamente contextualizar a obra. Explicar que reduzir os negros era a forma de justificar a escravidão. Que quando a escravidão acabou, não houve nenhuma política governamental para reparar isso. E, é claro, que Lobato é exatamente dessa época. Hoje em dia, dizer tais coisas não apenas é inaceitável, como também é crime.

Pronto. A escolha de utilizar ou não esse livro é do Professor.

lola aronovich disse...

Mariane, imagine, não excluí absolutamente nenhum comentário hoje neste post (desde que desabilitei os comentários anônimos), apenas uns 2 ou 3 que vieram repetidos. O seu era um deles. Espero que eu não tenha errado e apagado os dois de uma vez! Ish, agora que eu vi que vc já tinha apagado um deles, e como eu apaguei o outro... Mil desculpas! É uma novidade pra mim, mas desde a semana passada estou lendo os comentário diretamente num espaço interno do Blogger chamado “comments”. Ok, a explicação é duh, mas juro que não sabia que dava pra ler os comentários ali. Pensei que só no post, no espaço de comentários mesmo. A vantagem de ler coments neste espaço é que fica muito mais fácil deletá-los. É só clicar num quadradinho e depois apertar spam ou apagar pra todos que eu cliquei. Agora não há nenhuma necessidade de fazer isso, mas quando os trolls dominavam o blog (até ontem), essa ferramenta era uma mão na roda.


Maria Clara, fico muito feliz que vc tenha mudado um pouquinho de opinião após ler os comentários (alguns até bastante hostis, pensando bem). E vc continuou vindo aqui, escrevendo, ouvindo, e reviu sua opinião. Gostei de ver!

Helô disse...

Desculpe, mas como a minha capacidade de argumentação acaba aqui, eu vou continuar contando a minha experiência pessoal.

A minha mãe cresceu assistindo a adaptação do Sítio produzida pela Globo na década de 1970. Ela lia os livros para mim enquanto eu estava em fase pré-escolar e quando eu aprendi a ler sozinha, lia por minha conta. A minha avó me fazia copiar alguns capítulos do livro para treinar a escrita.

A convivência intensa com a obra de Monteiro Lobato na infãncia fez de mim uma pessoa apaixonada pela leitura, me trouxe modelos femininos positivos, me deu base para formar uma cultura geral razoável (já que os livros abordam variados assuntos). Eu não cresci uma pessoa racista e nem xingando pessoas na rua (só motoristas que invadem a faixa de pedestres :oP).

Assim como a minha mãe fez comigo, eu pretendo fazer com os meus filhos. E eu tenho pena das crianças que, por conta de um aspecto negativo, que pode ser bem trabalhado, serão privadas do universo riquíssimo dos livros do Monteiro Lobato.

Eu e meu marido temos problemas de peso e meus filhos provavelmente terão que se cuidar a vida toda. Mas ao invés de banir os gibis da Mônica da minha casa, por causa dos comentários preconceituosos do Cebolinha e do Cascão, prefiro ensinar meus filhos construirem uma auto-estima sólida e a não perpetuar este tipo de comportamento horroroso. E dar umas coelhadas, se for o caso. ;o)

Isabel disse...

Não lembro agora quem colou alguns trechos em que a Dona Benta era enaltecida pela sua sabedoria e a tia Nastácia, pelos seus dotes culinários e pelo conhecimento do folclore brasileiro.

É como a Lola disse: não é porque uma obra dá destaque a um negro que isso é necessariamente negativo.

E eu falo isso sem condenar ninguém, pois faz pouco tempo que me dei conta disso. Quando alguém comenta sobre a contribuição dos negros para a cultura brasileira, normalmente as respostas são: feijoada e samba. O resto, o conhecimento científico, o progresso econômico, tudo veio pelas mãos dos brancos. Assim como dona Benta é quem possui o conhecimento formal, racional, e tia Nastácia é a pobre ignorante supersticiosa. Aliás, esse era exatamente o chamado "fardo do homem branco": levar o conhecimento às outras raças mais atrasadas.

Pra quem acha que é mimimi politicamente correto, vamos lembrar do contexto: o século XIX foi marcado pela eugenia, pelo colonialismo e pelo positivismo. Explicando de maneira bem grosseira, significava que a ciência é o grau mais alto de "evolução" (por falta de palavra melhor) do conhecimento humano. Na outra ponta, estavam os mitos populares e o folclore.

Sem pesquisar muito, não sei dizer se Lobato era adepto do positivismo ou se a intenção dele era essa. Mas será que este tipo de literatura não contribuiu nem um pouquinho para reafirmar essas idéias? Pensem quantas vezes nós dizemos isso sem nos dar conta de como diminuimos o papel dos negros na construção do país. Será que suas únicas contribuições foram o folclore, a culinária e a música?

É importante dizer que eu sou adulta, universitária, sempre estudei em bons colégios e tive a sorte de ter alguns professores que me ajudaram, ao longo da minha vida, a ser capaz de perceber essas coisas. Mas eu pertenço à classe média. Será que todas as crianças teriam as mesmas oportunidades de aprendizado que eu tive? Quantas pessoas chegam à idade adulta sem conhecer os processos históricos que legitimam até hoje o racismo?

Já é difícil para um adulto instruído entender isso, imaginem para uma criança.

Amer H. disse...

Helô, discordo um pouco de sua opinião sobre Turma da Mônica. Não vejo um preconceito da parte do Cebolinha e do Cascão, pelo contrário, é a brincadeira que os três têm.

Ou você nunca reparou que, quando um menino (ou menina) pequeno tem cisma e provoca outra criança, as vezes é porque gosta dela? Parece clichê, mas acontece.

E em muitas histórias, quando a Mônica se mostra triste de verdade, é o Cebolinha quem dá colo pra ela.

Em uma edição, a Mônica está triste, pois é a única menina do bairro que não tem "ninguém". A Magali namora o Quinzinho, a maria Cascuda tem o Cascão, a Aninha tem o Titi e assim vai.

No fim da história, a Mônica está toda triste, por achar que nunca vai ter ninguém, é quando o Cebolinha aparece e diz "Bom, eu ainda estou aqui." e a Mônica percebe que sim, ela tem alguem que gosta dela incondicionalmente.

A mim parece que o Cebolinha enche o saco da Mônica pra conseguir a atenção dela e a Mônica também gosta da atenção do menino, é a brincadeira dos dois, que são muito novos pra admitirem (inclusive pra sí mesmos) que não vivem um sem o outro. Se a Mônica ficasse tão brava assim, não usaria um coelhinho macio pra bater nele, não é?

Isabel disse...

Eu quis dizer: "não é porque uma obra dá destaque a um negro que isso é necessariamente positivo"

Ai, tô escrevendo tudo errado hoje. Desculpa, galera

Vitor Ferreira disse...

Lola, ao muitos comentarios e nao li todos, mas eu tambem creio que nao eh dificil de supor que Lobato tenha tido diversos outros preconceitos. Era uma epoca que nao existia feminismo, o movimento gay ainda nao "incomodava", nao havia globalizacao e o trafego de pessoas e informacoes nao impactava, etc., entao ele so demonstrava os preconceitos que eram mais explicitos na epoca. Mas se olhar bem deve-se achar muito mais embutido nas obras dele.

Pablita disse...

Cresci lendo Lobato por influência de meu pai.

No primeiro comentário já foi colocado que "todo autor [eu estenderia para artista] é fruto de seu tempo..."

Concordo plenamente com essa afirmação. No tempo de Lobato se tolerava uma postura preconceituosa. Hoje podemos dizer que não concordamos com ela, apesar de sabermos que ainda existe.

Acho que a forma correta de abordar a questão em sala de aula é aproveitando o texto para trazer à tona questões que nos separam ideologicamente da época do autor.

Na época da polêmica sobre 'Caçadas de Pedrinho' o "Entre Aspas", programa da Globonews, entrevistou Marisa Lajolo, pesquisadora de literatura infantil e da obra de Monteiro Lobato (UNICAMP)e o Presidente da Câmara de Educação Básica do CNE (Conselho Nacional de Educação) Francisco Cordão. Foi um debate interessante. Fica a dica: http://globonews.globo.com/Jornalismo/GN/0,,MUL1628408-17665-309,00.html

Tem um conto de Lobato, 'Negrinha', que eu acho simplesmente lindo. Todas as vezes que releio, fico com os olhos cheios d'água. Fala sobre a crueldade disfarçada de bondade cristã: uma senhora sem filhos que "cria" uma órfã negra na base dos cascudos... Vejo esse texto (publicado em 1920) como denúncia e não como propaganda racista.

Contextualizando: sou negra, sofri bullying quando ainda não tinha nome, sou arquiteta e estudante de Letras. Sempre me pertubou como meus colegas me tratavam na escola com apelidos que estavam bem longe de terem saído de uma obra de Lobato.

Como sempre, Lola, você traz bons temas para discussões. Parabéns novamente pelo blog.

Patrick disse...

É interessante anotar que muita gente se apaixonou por Monteiro Lobato a partir das suas adaptações televisivas, que são versões de sua obra muito bem filtradas pelo "politicamente correto". E todo mundo gostou.

maria disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Adwilhans disse...

Penso que as posições pessoais do Lobato acerca do racismo, reveladas com base em correspondências que ele trocou, são irrelevantes para a avaliação de sua obra. Servem, no entanto, para considerações históricas, biográficas, mas não para validar/invalidar os vários livros que escreveu.
Lobato é um dos principais escritores brasileiros e, até onde sei, o mais cultuado em se tratando de literatura infantil. Sua obra é vasta e profícua, com grande incentivo à imaginação e criatividade, e faz um importante resgate do folclore nacional, algo praticamente esquecido atualmente.
Como nenhuma obra é isenta de crítica, a de Lobato apresenta problemas para os padrões atuais de adequação social, especialmente na forma como retrata os negros, notadamente tia Nastácia. Porém, essa possível deficiência só é perceptível descontextualizando seus escritos, isto é, analisando-os com a visão de mundo predominante na atualidade.
Essa questão, aliás, da descontextualização de obras já foi tema de uma breve porém interessante discussão que houve aqui no blog; o que corriqueiramente se chama de "contextualizar", isto é, trazer algo para um contexto, eu chamo de "descontextualizar", ou seja, tirar algo do contexto em que foi produzido.
Assim é com a obra de Lobato: tirando-a de seu contexto, apresenta-se como odiosamente racista. Contextualizada, dá uma noção sobre como o racismo permeava as relações humanas em um período não tão remoto da sociedade brasileira e pode, sim, ser muito bem utilizado em sala de aula por professores razoavelmente preparados.
Aí é que começam os problemas: nossos professores estão preparados para a tarefa? O tamanho das turmas nas escolas públicas inviabiliza o debate? As notas de rodapé seriam suficientes de per si, sendo que crianças leitoras normalmente as ignoram?
Tenho mais dúvidas que certezas. A única certeza que tenho, contudo, é que os livros são muito divertidos e foram importantes na minha formação como leitor. Vou, certamente, apresentá-los à minha filha, atualmente com dois anos e oito meses, quando o momento certo chegar, e tentarei participar do processo de compreensão dos vários conteúdos, até porque sou descendente direto de negros (todo o lado paterno de minha família é formado por negros e cafusos) e não quero que ela tenha uma visão distorcida do que foi e também do que ainda é o preconceito racial; mas não quero, em hipótese alguma, que lhe seja privada a oportunidade de conhecer textos tão interessantes e genuinamente brasileiros como os de Lobato.
Fica ainda um pensamento: alguma obra, de qualquer autor, escaparia à pinçação de trechos que "comprovam" racismo, sexismo, misoginia, xenofobia, etc, etc? Quando criança, eu adorava assistir a desenhos como "Corrida Maluca", nem por isso saio por aí trapaceando como o Dick Vigarista...

=Maíra= disse...

Lola, eu não tive tempo de ler os comentários, mas deixo a minha opinião: eu acho que discutir é sempre a solução. Ler Lobato, contextualizar o eugenismo para as crianças e promover uma discussão escancarada sobre o racismo é algo que pode ser feito. Abrir uma discussão sobre como o preconceito dói pode ser extremamente produtivo e até mesmo mudar a mentalidade de crinaças em formação. Quanto mais cedo discutirmos o preconceito (seja via Lobato, via novela das 8, via publicidade, etc), mais chance temos de erradicá-lo. Acho que podemos usar uma linguagem simples e lançar mão de analogias contemporâneas para explicar o eugenismo, por exemplo e, a partir da própria vivência das crinaças, demonstrar como é horrível chamar alguém de "macaca", "fedida", etc.

Fora isso, acho importante, sim, vir uma nota de rodapé, tarja, etc, avisando que o livro é racista. Mas também não podemos reduzir o livro só a esse aspecto, poque acho importante discutir aspectos relacionados à cosntrução ficcional da obra, aspectos estéticos, de construção de linguagem, etc, sem deixar de atentar, é claro, para a questão do racismo.
Abraços!

Oliveira disse...

"Apenas acho que as nossas interpretações da obra são um tanto quanto díspares".

Aghata:

A Revolucãoo dos Bichos só tem uma interpretação, que foi a que eu coloquei. Até a Lola sabe disso.

Eu gostaria muito de saber qual seria essa sua interpretação.

Obrigado!

Helô disse...

Amer, obrigada pela atenção da resposta! Mas eu estava sendo ligeiramente irônica. No caso específico da Mônica e do Cebolinha tão claro que eles são "apaixonadinhos" que o Maurício de Sousa levou isso para as revistas da Turma da Mônica jovem.

Eu não estou minimizando a questão do racismo. Eu acho que ele tem que ser discutido, compreendido e combatido. Mas tão ou mais importante do que banir obras que possam ser nocivas à auto-estima de crianças negras/ deficientes físicas ou de grupos que sofrem discriminação é encontrar formas de reforçar a auto-estima dessas crianças e ensiná-las a se defender. E eu não estou falando de ensinar um comportamento agressivo.

Amer H. disse...

Patrick, as pessoas gostaram das versões televisivas da obra de Monteiro Lobato unicamente porque... bem, é muito mais fácil assistir televisão do que ler um livro.

Mesmo que a obra contivesse aquilo que hoje é considerado inadequado nos livros, ainda teria conquistado muita gente, simplesmente por poupá-las de pegar o livro e ler.

Ou você não conhece pessoas que adoram tecer comentários imensos sobre a obra de Stephen King (ou qualquer outro autor) sem nunca ter lido um de seus livros, baseando-se apenas nas adaptações cinematográficas de sua obra?

E garanto que se compararmos a versão dos anos 80 do Sítio, com a de 2000, muita gente encontrará "conteúdo inadequado" na primeira, pois o conceito do que é aceitável ou não para a sociedade muda com o tempo.

E temos de lembrar também, que filmes e televisão, por serem mídias principalmente visuais, passam por uma censura mais dura que livros.

A versão literária de "It" tem uma cena de sexo entre crianças, a mesma não apareceu em sua versão televisiva.

Uma cena deste tipo NUNCA seria aprovada para uma produção televisiva em horário nobre, mas a flexibilidade da mídia escrita permitiu o uso de tal cena.

Devemos considerar que o livro é "imoral, podre e deve ser censurado" por isso?

EneidaMelo disse...

Nessa questão, concordei totalmente com o que o Fábio Salvador disse (12:41 e 12:43). As crianças não são iguais. Não é porque você percebeu ou acha que teria tido capacidade de entender, que todas terão. Muitas crianças nem estão prestando a atenção que deveriam. Várias só escutam o que querem. Muitos adultos também.

Ally, acho que você está no mundo das nuvens. Nessa hora, tem que ter empatia. Se colocar no lugar de uma criança negra que lê o trecho que a Adriana selecionou: "Deus que te marcou, alguma coisa em ti achou. Quando ele preteja uma criatura é por castigo".

mauriciopiccini, tente entender que, sim, muitas crianças negras têm problemas de auto-estima por serem discriminadas, e isso pode vir a piorar lendo um livro que ratifica essa imagem ruim. Boa parte das crianças não sabe distinguir tão bem o que é real e o que não é.

EneidaMelo disse...

Helô, há outras interpretações sobre o livro Histórias de Tia Nastácia:

"Assim, essa personagem [Tia Nastácia] tem seu espaço demarcado pela sua condição de negra e doméstica. E é através da boneca Emília, para muitos pesquisadores a porta-voz das ideologias lobatianas, que, em momentos de discussão e desentendimento, desrespeita a velha cozinheira, bem como a cultura de que é portadora, como sucede em algumas passagens de Histórias de Tia Nastácia, como se pode verificar nas citações seguintes:

Pois cá comigo – disse Emília – só aturo estas histórias como estudos da ignorância e burrice do povo. Prazer não sinto nenhum. Não são engraçadas, não têm humorismo. Parecem-me muito grosseiras e até bárbaras – coisa mesmo de negra beiçuda, como Tia Nastácia. Não gosto, não gosto, e não gosto ! (Monteiro Lobato, 1957, p. 30)

Bem se vê que é preta e beiçuda! Não tem a menor filosofia, esta diaba. Sina é o seu nariz, sabe? Todos os viventes têm o mesmo direito à vida, e para mim matar um carneirinho é crime ainda maior do que matar um homem. (...) A boneca botou-lhe a língua. (Idem, p.132). "

"os personagens do Sítio não prestigiam muito as histórias de Tia Nastácia. Após cada história contada pela cozinheira, há comentário dos personagens. A maior parte destes comentários falam da pobreza e da ingenuidade da imaginação popular. Todos criticam as histórias de tia Nastácia, principalmente Emília, que as considera bobagens de negra velha."

"Caminho mais sugestivo do que este parece ser discutir como se coloca a questão da representação do negro no livro Histórias de Tia Nastácia, publicada em 1937, é uma antologia de contos populares contados em uma moldura narrativa familiar à obra de Lobato: Tia Nastácia desfia histórias para os demais moradores do sítio que, na posição de ouvintes, comentam as histórias que ouvem. À medida que o livro prossegue, as relações entre Tia Nastácia e seus ouvintes vão se tornando mais tensas quanto mais cresce a insatisfação da platéia com as histórias narradas, às quais ninguém poupa críticas: 'Eu ( ...) acho muito ingênua esta história de rei e princesa e botas encantadas, disse Narizinho. Depois que li Peter Pan, fiquei exigente. Estou de acordo com a Emília. (p.13)'"

Ághata disse...

Não entendo porque as pessoas continuando achando que excluir o livro dos indicados pelo MEc por ser inapropriado para crianças negras é censurar o livro. Todos os livros infantis que não constam na lista foram censurados por acaso...?

Ah, detalhe, não adianta dizer que 'não viu nada demais na obra' ou que 'não se sentiu ofendido' com ela que uma criança negra vai sentir o mesmo.
E eu achando que racismo ofendia a todos.

Oi, Oliveira. Então, você disse que a obra "mostra como gente desclassificada se locupleta do poder com a desculpa que vai mudar tudo em benefício do povo e depois fica pior que os seus antecessores" - nisso eu concordo. Só acho que, como suas posições políticas são diferentes da minha, uma análise da obra mais aprofundada mostraria diferenças de interpretação.

Veja que a intenção da revolução era garantir direitos iguais para todos, mas quem fica no poder, acaba fazendo um governo que divide os animais em classes com mais ou menos direitos, explorando alguns, formando uma guarda que servia apenas para manter os animais em seus devidos locais, alienando os mais jovens para servirem a seu propósito e por aí vai.

Acredito que você projete nos porcos a imagem de um governo de esquerda, enquanto eu projeto um governo de direita que, dizendo que garantirá o bem de todos, cria normas para privilegiar poucos.

EneidaMelo disse...

"Da mesma forma, se um professor passa a obra de Monteiro Lobato aos seus alunos, cabe a ele explicar que na época em que foi escrita, a descrição que Lobato dava de Tia Anastácia era o mais próximo que um homem branco conseguia chegar da tolerância racial."

Nossa, Amer! Lobato não era tolerante! Você ainda não entendeu isso?

Monteiro Lobato reclamou que o Brasil não tinha uma Ku Klux Klan!

Monteiro Lobato disse que sem uma organização destas para manter os negros em seu lugar, um país nunca poderia ser altivo!

Monteiro Lobato reclamou que tentou publicar um de seus livros numa época em que não se linchavam mais os negros nos EUA.

Não tem nada próximo de tolerância nisso.

Ághata disse...

Ah, Eneida, eu ia até tocar no assunto, mas excelente seu comentário.

Acho que folclore popular e a forma como nossa sociedade a vê atualmente já mereceria um post a parte.

Melhor forma de ter acesso ao folclore popular é ouvindo ela da boca do povo, mas se não há esta possibilidade para alguns, melhor adquirir livros próprios sobre.

Me lembro de quando era criança e meu pai foi fazer uma gravação de várias histórias e contos populares para um amigo que estava escrevendo um livro conversando com algumas pessoas que conheciam folclore.
Quando o rapaz escreveu o livro, não estava contando as histórias, apenas as destrinchava, como medos, crendices e coisas que as pessoas contavam por causa disso ou daquilo. Esta visão arrogante dos contos populares é o que impera mesmo, infelizmente.
Nossa, eu tive uma decepção quando li... [yo que quando era criança tinha medo de boitatá e cumadre fulôzinha e não de bicho papão]

Ághata disse...

[ironia mode on]
...é, a cada comentário que eu leio, consigo ver como realmente a obra de Lobato não influenciou o racismo de ninguém!
[off]

Amer H. disse...

Ok Eneida, bom ponto que você levantou.

Mas então, cabe ao professor explicar quem era o autor, suas crenças e como isso afetou sua obra. Mais ainda, é importante mostrar que houve uma época em que era perfeitamente normal um homem esperar que negros fossem linchados.

Sim, crianças são diferentes, algumas poderão se ofender e se magoar, enquanto outras não. Mas ABSOLUTAMENTE TUDO que existe no mundo pode ofender ou magoar alguém e censura não é o caminho, nunca é.

A obra de Monteiro Lobato, em minha opinião, deve ser mantida no currículo de escolas. Mas novas questões devem ser abertas sobre ela, de modo que seja avaliada de uma forma mais moderna e menos tolerante com os racismos do passado.

Cortar a mesma das salas de aula tira uma excelente oportunidade para reflexão por parte dos alunos.

maria disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Adwilhans disse...

Lendo os comentários lembrei de uma palestra a que assisti quando estava na sexta ou sétima série, na qual o diretor da escola (pública, de bairro) criticava o desenho "Popeye". A analogia feita era de um fracote que, massacrado por um brutamontes, usava uma ervinha esperta para ficar fortão e dar o troco. Esse desenho foi criado para estimular crianças a comerem espinafre, mas segundo essa análise podia induzi-las a usarem drogas...
Penso que essa palestra foi muito mais útil para mim do que se eu tivesse simplesmente sido proibido de assistir Popeye, e creio que a mesma lógica deve orientar a leitura de Lobato - análise do conteúdo, destacando possíveis más referências, e por aí vai.
Não é impedindo o acesso ao Lobato que se combate o racismo, a meu ver.

Iseedeadpeople disse...

Li 02 livros de Lobato aos 8, 9 anos de idade. Fiquei muito incomodada com a maneira q Tia Nastácia era tratada, mas não sabia exatamente explicar o que me incomodava. Não tive vontade de ler mais nenhum ¬¬

Afeee, agora não ser indicado por escolas = censura???? Quanta imaginação desse povo!

Oliveira disse...

Entendi seu ponto de vista Ághata, mas o livro não foi escrito com essa intenção. Por isso a Lola não gosta dele.

Obrigado pela resposta!

Ághata disse...

Nada, Oliveira, é sempre um prazer debater numa boa assim.

Fabio Salvador disse...

Pegando um gancho na história do Popeye...

... um dos filmes que marcaram o fim da minha infância foi "A Vingança dos Nerds", que nos mostrava que era possível aos impopulares, fracotes e CDFs da turma, virar a mesa usando, contra a força uma boa dose de inteligência e tendências psicóticas.


E aí foi a festa.

Luíza disse...

Li vários livros de Lobato quando criança e o mais importante para mim foi "História do mundo para crianças". Quanta coisa aprendi ali, nossa! Na posição de criança da periferia, sem acesso a boas escolas e sem pais instruídos, um livro desse ter caído na minha mão foi uma das melhores coisas que me aconteceram. Minha visão do mundo, como criança, mudou. E não me senti excluída, apesar de ser negra. O modo como tratavam a tia Nastácia era visto por mim, mesmo sendo criança, como um contexto de uma época em que isso acontecia. Nem imaginava que era uma posição pessoal do autor. Achava que ele situava suas histórias num espaço e tempo onde aquele tipo de atitude era normal, apesar de eu ler com plena convicção de não ser.

Na verdade, não vejo as escolas adotarem Lobato. E gostaria que adotassem.