sexta-feira, 22 de setembro de 2017

"O DESESPERO DE SER CHAMADA DE MACHISTA E NÃO SABER O QUE DIZER"

A T. me enviou esta dúvida: 

Estou te mandando email porque preciso da opinião de uma profissional, hahaha.
Seguinte, sou de São Paulo, fazendo intercâmbio aqui na Nova Zelândia. Convivendo com o pessoal daqui comecei com umas neuras que me fizeram questionar a autenticidade da minha visão feminista. A Nova Zelândia é um país, teoricamente, muito menos sexista que o Brasil (o culto ao corpo não é tão forte, homem não mexe com mulher na rua e afins)... Aqui às vezes há até uma cobrança pra que a mulher aja como o homem. 
Há uma certa imposição pra que ela seja livre, que tome a frente quando se interessa por alguém, que tenha um bom emprego e seja independente financeiramente. Acredito que haja uma certa hipocrisia aí, porque em uma festa da empresa em que eu trabalho, o pessoal, meio alegre com todo o vinho de graça, começou uma discussão de que homem nunca vai ser igual mulher e mulher nunca pode ser igual homem e que faz parte da sociedade muitas vezes dar um emprego pra uma mulher levando em consideração também se ela tiver um belo par de peitos. 
Fiquei chocada, me perguntando: "Tá, e cadê essa sociedade não-machista da qual vcs tanto se gabam, hein queridinhos?" Mas não estava a fim de discutir com babaca me julgando, só levantei e fui embora pra minha casa. Um cara daqui acabou indo comigo e tal, ele também já tava meio alto e ficava me secando o tempo todo. A gente acabou ficando, mas só isso, porque eu falei que não tava a fim de companhia naquela noite. 
A gente nem trocou telefone nem nada, ele voltou pra casa, a gente nem se viu no trabalho no dia seguinte, mas à noite ele me adicionou no facebook, pediu desculpas por estar sendo tão direto e me chamou pra tomar um drink. Aceitei de boa, ficamos no bar conversando até tarde mas nada rolou até ele tomar a iniciativa. 
Ele me convidou pra ir pra casa dele e eu fui. Depois ele me perguntou se essa história de o homem ser o "decision maker" [tomador das decisões] era bem consolidada no Brasil, porque ele esperava que eu tomasse a iniciativa, que eu sugerisse que a gente dormisse junto e afins e não que ele tivesse que sugerir as coisas, tentar me beijar e o escambau e eu apenas seguir o fluxo... Fiquei pensando nisso porque me deixou muito confusa. 
Será que eu sou machista por curtir um cara que, depois de várias trocas de olhares, me agarre na balada e não o contrário? Será que eu sou machista por esperar ele fazer a sugestão "Que tal irmos em tal lugar?", eu curtir a ideia e aceitar? Até que ponto eu não sentir a necessidade de dizer "Fulano vamos ali, fulano faz isso, fulano eu quero isso, fulano blá blá blá..." e curtir quando os caras dão sugestões e curtem uma conversa pra gente chegar num consenso é apenas uma opção minha e não um sintoma de sexismo da minha parte? 
Me mande suas reflexões, Lola, porque estou cansada de questionar minha autenticidade. Minha atitude em relação à abordagem dos homens e o fato de eu ser uma cientista, trabalhando em uma empresa onde a maioria é homem e eu insisto em ser vaidosa, usando maquiagem todo dia, com roupas bem femininas, pra eles são sintomas de uma mocinha machista.
Help!

Meus comentários: Querida T., não se preocupe tanto, e não se cobre tanto. Não, você não é machista por insistir em ser vaidosa. Você não é machista se de vez em quando querer que um rapaz tome a iniciativa da paquera contigo. Não tenho nem certeza se você é machista se quiser que todos os caras tomem a iniciativa, mas aí é uma camisa de força: você se acostuma a não poder iniciar a paquera, e isso é bem ruim.
Não preciso nem falar que um monte de homens são super hipócritas no que se refere à criticar a falta de iniciativa das mulheres, né? Eles dizem querer que a gente tome a frente e inicie a paquera, mas, quando fazemos isso, nos chamam de vadia pra baixo. E pelo jeito isso acontece em todo lugar, até na Nova Zelândia!
Agora me lembrei da minha juventude. Era eu quem queria sexo sem compromisso, sem a menor vontade de ter um relacionamento romântico. Eu procurava homens que queriam isso também, e não é o que todo mundo diz, que são os homens que querem sexo sem compromisso, enquanto a mulherada tá louca pra casar? Então. Nos primeiros encontros tudo bem, parecia que eu e meu amante realmente queríamos a mesma coisa. 
Mas logo logo ele passava a se sentir usado, a perguntar "É só isso?", a querer sair mais, e mais publicamente. Eu percebi que aquele papo de "homem só quer sexo sem compromisso" era só isso -- papo.
E parece que a gente coleciona exemplos desse tipo, não? 

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

FOI A DIREITA QUE CRIOU O POLITICAMENTE CORRETO

Publico hoje uma entrevista que dei a um grande jornal em junho. Como o jornal não utilizou a entrevista, e como ela levou um tempinho pra responder, e como ficou bacana, talvez vocês queiram lê-la.

Pergunta: Você concorda com o termo “politicamente correto” (PC)? O que é ser politicamente correto?
É mais fácil falar sobre o que é ser politicamente incorreto: é um eufemismo para ser abertamente preconceituoso. Politicamente incorreto virou sinônimo de “Senta que vamos voltar no tempo e defender os discursos mais retrógrados possíveis”. Quando leio que um livro, filme, peça, humor, autor, qualquer coisa, é politicamente incorreto, já sei que vou ouvir opiniões machistas, racistas e homofóbicas, seguidas por um revisionismo histórico que coloca o homem branco hétero como o verdadeiro alvo de preconceito e discriminação através dos tempos. Nunca falha.
Não conheço muita gente que se assuma politicamente correta, pois o termo é usado para acusar, insultar. O “politicamente” já é bastante suspeito, faz parecer que a pessoa está tentando ser correta, mesmo sem sê-lo, ou seja, está sendo falsa. Já os politicamente incorretos batem no peito e se vangloriam da sua incorreção com grande orgulho. Eles pintam a si mesmos como revolucionários transgressores e pintam os politicamente corretos como carolas moralistas, o que é uma enorme ironia.
Quando surgiu? Houve alguma transformação no seu significado desde então?
A expressão como vem sendo usada hoje tem cerca de um quarto de século. Nos anos 1960, o termo já era utilizado por pessoas de esquerda, na maior parte das vezes ironicamente, contra exageros dogmáticos dos próprios movimentos. Foram os think tanks da direita americana que se apropriaram da expressão no início dos anos 90 para condenar o fervor com que as universidades tratavam certas lutas. A direita passou a chamar ativistas de intolerantes, os “novos fascistas", e adotou o termo “pc” como um projeto da esquerda para controlar corações e mentes -- algo que precisava ser urgentemente combatido. 
O divertido, além das teorias da conspiração, é que, para a direita, só um lado é político, só um lado é ideológico. Ideologia e doutrinação nunca é o que eles fazem, é o que fazem contra eles. Podemos traçar um paralelo entre a criação do termo “politicamente correto” com a mais recente “ideologia de gênero”, também uma “ideologia” criada pela direita para vilanizar toda uma linha de pensamento e área de pesquisa que visa desconstruir e questionar questões de gênero. A direita tem a mania de transformar problematizações em conspirações, questionamentos em censura.
Ele é real? Está presente nos dias de hoje? Em que situações?
Não gosto do termo “pc” porque ele é sempre pejorativo, foi criado para ser pejorativo. Mas existe na esquerda a preocupação de pensar a linguagem para que ela seja mais inclusiva, para que ela deixe de ofender grupos historicamente oprimidos. A linguagem é uma construção social em constante mudança. Termos são incorporados, abandonados, modificados, todo santo dia. A gente tem força e poder para mudar a forma como nos comunicamos. A gente pode deixar de usar um tipo de vocábulo porque ele é ofensivo a um grupo, só que isso exige reflexão, criatividade, e esforço. 
Se eu posso, através da escolha das minhas palavras, impedir que um grupo continue sendo marginalizado, eu vou tentar tomar mais cuidado. Por exemplo, faz apenas alguns anos que aprendi que o correto é dizer “homossexualidade”, e não “homossexualismo”, porque o sufixo -ismo neste caso pode remeter à doença, e porque não dizemos “heterossexualismo”, e sim “heterossexualidade”. Patinei nas primeiras vezes, mas aprendi. 
Outro exemplo é que podemos usar insultos “politicamente corretos” contra mulheres, usando ofensas unissex, digamos, e não aquelas que se referem a sua sexualidade (vagaba, piranha, vaca, galinha, vadia, mal comida etc) ou a sua aparência (mocreia, dragão, baranga). Afinal, “piranho” e “barango” não existem, são termos que só existem para ofender mulheres. Não estou subtraindo da língua a necessidade de ofender (que é real). Mas podemos escolher melhor os insultos para que eles não sejam machistas e homofóbicos. Não é fácil, porque tantos dos nossos palavrões são machistas ou capacitistas (chamar alguém de “retardado”, por exemplo), mas é possível.
Virou moda dizer que parte dos ataques a questões sociais sensíveis surgiu como reação à “ditadura do PC”: esse discurso se sustenta?
Claro que não. Não existe “ditadura do PC”. Existe o que a direita vê como uma conspiração dos “globalistas” ou dos “multiculturalistas” ou dos “marxistas culturais” em censurar o pensamento preconceituoso que os próprios conservadores veem como de direita. As pessoas sempre foram preconceituosas, e continuam sendo. 
Não há reação nenhuma nisso, muito menos transgressão. Os conservadores só deram um nome mais bonito para os seus preconceitos, “politicamente incorreto”. Mas o humor que fazem é idêntico ao que seus tataravôs faziam. Não tem nada de moderno. Como diz Laerte em um de seus muitos quadrinhos geniais, o politicamente incorreto é o consolo do prisioneiro. Quem está enclausurado nos seus preconceitos nunca será verdadeiramente livre. Reação é deixar de ser preconceituoso.
Trump é tido por muitos como politicamente incorreto. Temos algo parecido no Brasil? Qual é o perigo de se posicionar assim? O que seria um exemplo de discurso PC?
Num debate presidencial, Trump disse que o grande problema dos EUA era o politicamente correto. E disse depois que sua vitória foi uma reação contra os excessos do politicamente correto. Aqui no Brasil temos Jair Bolsonaro, o “nosso” Trump, que sempre xinga grupos historicamente oprimidos e ativistas que lutam por esses grupos. O perigo desse discurso é espalhar ignorância. Bolsonaro disse numa entrevista à atriz e ativista LGBT Ellen Page, por exemplo, que o número de gays havia aumentado no mundo (o que já é uma mentira) e que o motivo era que mais mulheres trabalhavam fora de casa, e assim não tinham tempo de educar corretamente os filhos. Quer dizer, essa besteira repercute internacionalmente, é vergonhoso. 
Já há estudos que mostram que só ter candidatos “politicamente incorretos” (ou abertamente preconceituosos), ainda que eles não ganhem (e Bolsonaro nunca será presidente, pode anotar), já aumenta o bullying nas escolas e a hostilidade na internet. Um seguidor dessas criaturas reacionárias observa atentamente seus ídolos e conclui que, se um candidato a presidente pode elogiar um torturador ou dizer para uma mulher que ela “não merece ser estuprada” (como se alguém merecesse), então ele, um mero anônimo nas redes sociais, também pode.
O discurso politicamente correto está presente também nas redes sociais? De que forma?
Não acho que esteja presente, mas muita gente hoje pensa um pouco antes de falar, para não repetir velhos preconceitos. É um aprendizado. Você aprende que deve dizer “a travesti”, não “o travesti”, e nunca “traveco”. Não é preciso ser exatamente um gênio para não chamar uma feminista de feminazi. Mas outras coisas são mais sutis e demandam reflexão. Tipo: chamar uma mulher de “histérica”. Se você sabe que essa expressão sempre foi designada para atacar mulheres, se você sabe que a palavra vem de “hister”, que significa útero, se você sabe que mulheres através dos tempos foram/são desqualificadas por serem vistas como irracionais e descontroladas, talvez você aposente o termo. Talvez não. É uma escolha, não uma imposição.
Ser politicamente correto aprimora ou empobrece a qualidade do seu discurso?
Pensar antes de falar pode ser estressante e difícil, mas aprimora o nosso discurso. Repetir preconceitos milenares sem pensar é que é empobrecedor. O mundo seria mesmo tão horrível, como juram alguns conservadores que acham que o politicamente correto está indo longe demais, se não pudéssemos mais chamar uma gorda de baleia, um gay de viado, um negro de macaco? Quer dizer, poder, pode, mas você pode ser chamado de babaca se usar esses termos cotidianamente na sua linguagem. 
Como ativista, já ouvi inúmeras vezes de quem se opõe ao meu ativismo que o politicamente correto é a pior praga da humanidade. Não é a fome, a guerra, a violência, a cultura do estupro (que eles sequer acham que existe) -- terrível mesmo é o politicamente correto. Mas devo dizer que nos últimos anos o termo “politicamente correto” tem caído em desuso, a meu ver. 
Hoje os que se opõem a quem combate preconceitos nos chamam pejorativamente de SJW, ou Social Justice Warrior (guerreiro da justiça social). E, novamente, para esses conservadores, o problema não é o machismo, o racismo ou a homofobia. O problema é quem luta contra o machismo, o racismo, a homofobia. Eles parecem crer que, se a gente não falasse mais em racismo, ele simplesmente desapareceria, como num passe de mágica.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

UMA DAS HISTÓRIAS MAIS BONITAS QUE JÁ CRIARAM

Publico hoje um texto da Elis, que é filha de um professor e pesquisador de quem gosto muito. Foi ele quem me enviou o texto. "Babão" não é adjetivo suficiente para definir o orgulho que ele sente da filha, que tem apenas 11 anos e já faz parte do coletivo feminista da sua escola.

A mãe fala para o garotinho que não tinha mais de 7 anos: 
- Filho, vem cá, quero te contar uma história.
O garoto vai até a mãe e senta ao seu lado, então fala:
- Pode contar, mãe.
Depois de alguns segundos a mãe começa:
- Era uma vez há não muito tempo, e em um lugar não tão distante, duas garotas, uma se chamava Camz e a outra Lolo.
Camz era uma latina de cabelos longos e olhos castanhos, mas não eram castanhos comuns, eram castanhos que se pareciam com chocolate, e seus olhos levavam qualquer um que olhasse para outra dimensão, uma dimensão onde as pessoas eram felizes, e ninguém julgava ninguém.
Lolo era americana com cabelos longos e seus olhos eram verdes, não verdes comuns e sim verdes que pareciam esmeraldas, verdes que te deixavam hipnotizado só de olhar.
Essas duas garotas se amavam, porém não podiam se amar...
Elas tentavam deixar o amor escondido, e só demonstrá-lo longe de todos, em um lugar que ninguém as julgasse.
Só que elas não conseguiam deixar esse amor tão escondido, então toda vez que se viam e que não estavam sozinhas trocavam olhares, frases com segundas intenções, e de vez em quando algumas poucas carícias.
Elas queriam esconder aquilo que todos já suspeitavam...
Depois de muito tempo vivendo às escondidas Camz falou:
- Eu ainda te amo tanto quanto no dia em que nos conhecemos, mas se você não quiser assumir esse amor não posso mais ficar com você, não posso pois não aguento mais ter que fingir não te amar, ter que fingir que não somos nada mais do que amigas, e em certas vezes ter que fingir que estou com outra pessoa, apenas não aguento mais.
Enquanto falava chorava, e a outra garota começava a fazer a mesma coisa.
Depois de pegar fôlego Lolo falou:
- Eu te amo, e eu te entendo, eu também não aguento mais isso.
Nesse ponto a outra garota começou a sorrir com o pensamento de que talvez seu amor aceitasse expor o namoro das duas, porém não demorou muito para seu sorriso cair e virar mais lágrimas que desciam pelo seu rosto sem qualquer consentimento, quando Lolo falou:
- Mas eu não posso falar para todo mundo, você sabe que eu não posso, você sabe que as pessoas ao seu redor não teriam problemas com isso, mas as pessoas ao meu redor, não aceitariam, não falariam mais comigo, fingiriam que eu não existo, que eu fui um erro em suas vidas, você sabe disso.
- Sim, eu sei disso, mas alguma hora, você querendo ou não, eles vão descobrir, uma hora querendo ou não, eles vão fazer tudo isso que você disse, com você ao meu lado ou não.
A de olhos castanhos felizes (que nessa hora não estavam nem um pouco felizes) respondeu aos prantos.
- Não! Eles não vão descobrir sem que eu queira, eles não podem!
- Sim, eles podem, e sim, eles vão.
As duas a esse ponto já tinham chorado tanto que poderiam ter formado um rio.
- Lolo, você pode não acreditar mas isso vai acontecer em algum momento, e se não acontecer, você vai ter que viver a vida toda embaixo das cobertas, fingindo ser alguém que não é, fingindo gostar de pessoas que você não gosta, e fingindo não gostar das pessoas que você gosta.
A discussão ficou assim por algum tempo, até que a latina disse:
- Eu não posso mais! Eu não posso mais! Nós terminamos! E não é por falta de amor por você, e sim por um pouco de amor a mim mesma! Mas sempre saiba de uma coisa, eu te amo, e provavelmente vou te amar sem importar o tempo ou o lugar.
Depois disso ela saiu de casa deixando a de olhos verdes no sofá chorando.
Tinham se passado alguns meses desde que as duas tinham terminado, alguns meses desde que as duas não se viam, alguns meses desde que as duas não se falavam.
Camz não estava bem, e muito menos feliz, porém conseguia fazer tudo em sua vida sem muitos problemas.
Lolo, por sua vez, não conseguia fazer nada direito, a não ser chorar à noite ao lembrar dos seus momentos felizes com seu amor.
Um dia as duas se encontraram em um café, ou quem sabe foi na rua, isso não importa, o que importa é que uma percebeu o estado da outra, as duas perceberam seu próprio estado, e então uma falou para outra, mas como se quisesse falar para si mesma:
- Eu... Eu te amo...
Depois disso as duas se beijaram como nunca tinham se beijado antes, se beijaram como se quisessem mostrar todo o amor que tinham uma pela outra.
Elas ficaram algum tempo desse jeito, até o ar faltar dos pulmões, e quando faltou Lolo falou:
- Vai na minha casa hoje, pois vou contar a minha família sobre nós, vou contar sobre mim.
A outra apenas confirmou sua presença, pois não sabia o que dizer.
Um pouco mais tarde as duas estavam com a  família de Lolo em um jantar.
O jantar acabou, e então a americana falou, a de olhos verdes contou, a garota que amava Camz anunciou e Lolo se libertou.
A latina se emocionou, a de olhos chocolate internamente dançou, a garota que amava Lolo amou e Camz a mão de Lolo segurou.
Por outro lado...
A família se chocou, os de olhos de cores misturadas indagaram, os seus "amigos" enjoaram, e aqueles que a amavam não julgaram.
- FIM, falou a mãe com algumas lágrimas rolando pelo rosto.
- Mãe, essa história é muito bonita! De onde você tirou?
- É baseado em uma história que muitas pessoas acreditam ser real e muitas acreditam ser apenas imaginação...
- E você acredita no quê?
- Eu acho que é real, meu filho...
- Mas e se não for?
- Meu filho, se não for, é uma das história de amor mais bonitas que já criaram...

terça-feira, 19 de setembro de 2017

ARROGÂNCIA, A QUALIDADE MENOS FEMININA DE TODAS

Faz pouco tempo, Leonardo do Masterchef recebeu ataques racistas. 
Ele não ganhou o prêmio do programa (quem ganhou foi Michele, a primeira negra a vencer a competição), e o público de modo geral não gostava dele, pois o achava arrogante. Mas, na ocasião dos ataques, ele disse algo muito relevante: que o que é visto como arrogância num negro, ou numa mulher, passa como auto-confiança e amor próprio num branco. 
Isso não é novidade, mas precisa ser lembrado a todo momento. O modo que a sociedade vê os "donos do mundo" é muito diferente de como vê pessoas de grupos historicamente oprimidos. Um comercial da Pantene feito nas Filipinas quatro anos atrás ilustrava bem isso. Enquanto um homem branco era visto como "chefe" (boss), uma mulher fazendo exatamente a mesma coisa que ele recebia o rótulo de "mandona" (bossy). Afinal, pra homens é natural mandar, é o que se espera deles. Já pras mulheres, o "natural", ainda para uma grande parcela do mundo, é obedecer. 
E nós mulheres internalizamos esses rótulos, essas diferenças de tratamento. Como aponta Gerda Lerner no seu formidável A Criação do Patriarcado (tratei dele aqui), as mulheres participam no processo de sua subordinação porque internalizam a ideia de sua inferioridade. Aprendemos a acreditar que precisamos de um homem protetor (a tal fábula do príncipe encantado que nós, frágeis princesas, ouvimos desde pequenas), e que isso está ligado a afeto. Existe uma chantagem emocional de perda de afeto da parte dos homens às mulheres que se rebelam. Quantas vezes não escutamos que "Se você se comportar assim, homem nenhum vai gostar de você" (ou: "papai não vai gostar mais de você")?
Desta forma, associando humildade e submissão a afeto e aprovação masculina (a única que importa, segundo nos informam), aprendemos a nos sabotar. Damos mais valor ao que um homem fala ou escreve (mesmo que seja sobre feminismo). Nos cobramos demais. Temos síndrome de impostora. Acreditamos que não somos boas o suficiente, que somos uma fraude, mesmo que sejamos brilhantes ou meramente "boas o suficiente" (que é o que basta, não? Pros homens costuma ser).  
Ano passado vi uma palestra na UFC da sempre brilhante Rosana Pinheiro Machado, antropóloga e professora visitante da USP. Ela lembrou que é comum um palestrante homem abrir sua fala com uma piada, enquanto as palestrantes mulheres (nas raras ocasiões em que somos convidadas, porque ainda tá cheio de mesa por aí só com homem branco) quase sempre começam uma palestra pedindo desculpas. 
Não acredita? Basta observar como mulheres reagem a elogios. Muitas ficam coradas, negam veementemente, se auto-depreciam. Recomendo este esquete hilário (em inglês) da Amy Schumer, em que amigas se encontram na rua e se elogiam, e cada uma responde com "Você tá bêbada? Vai se f*der! Eu tô é parecendo uma vaca!"
E é isso que se espera da gente: não podemos nos achar ótimas (nem no que fazemos há anos), não podemos aceitar elogios. Em maio a @FeministaJones fez um experimento social: decidiu agradecer (sem recusar) os elogios que recebia dos homens. Eles não gostaram nem um pouco -- como assim, você sabe que é linda?! Você nem é tudo isso não! Ou: é só isso que você tem a dizer? Só "obrigada"?! Ingrata!
(Não é nenhuma surpresa que homens aceitam mais elogios. De acordo com um estudo, elogios de homem pra homem foram aceitos 40% das vezes; elogios de mulher pra mulher só foram aceitos 22% das vezes). 
Não aceitamos elogios porque não queremos ser vistas como convencidas. Tudo bem um homem ser convencido. Isso conta como auto-confiança, como parte da sua força masculina. E o fato dos caras serem tão arrogantes que acham que manjam de todo e qualquer assunto e que podem homexplicá-lo a nós é uma velha estratégia de manter o poder. Como diz Rebecca Solnit, 
“É algo que nos deixa bem treinadas em duvidar de nós mesmas e a limitar nossas próprias possibilidades –- assim como treina os homens a ter essa atitude de autoconfiança total sem nenhuma base na realidade”. 
E Solnit adverte: devemos tomar cuidado para que a “autoconfiança esmagadora” de alguns homens não atropele as nossas “frágeis certezas”. “A credibilidade é uma ferramenta básica de sobrevivência”, diz ela. 
Esta sabotagem que o mundo e várias vezes nós mesmas cometemos contra as mulheres (contra nós mesmas!) rende frutos. Não pedimos aumento de salário (uma pesquisa na Austrália constatou que pedimos sim, o problema é que temos 25% menos de chance de ganhar esse aumento). Não procuramos uma vaga de emprego se não tivermos todas as qualificações exigidas (os homens não estão nem aí, eles mandam o currículo). 
Somos humildes, não contamos vantagem, não nos orgulhamos das nossas conquistas. Assim ajudamos a manter um sistema que é totalmente desfavorável a nós.
(É importante registrar que, mesmo que a gente não se auto-sabotasse, continuaria sendo sabotada pelo sistema. Mas é fundamental que a gente desconstrua os preconceitos que aprendemos e que tantas vezes nos prendem). 
Concordo totalmente com o que afirma Gerda Lerner: “Talvez o maior desafio para as mulheres pensadoras é o desafio de deixar o desejo por segurança e aprovação e ir para a qualidade 'menos feminina' de todas –- arrogância intelectual, o atrevimento supremo de quem quer reordenar o mundo. O atrevimento dos deuses, dos homens que fazem o sistema”.
É por isso que eu gosto tanto daquela cena da Hora Mais Escura (filme de 2012 de Kathryn Bigelow, questionável porque justifica a tortura da CIA) em que a agente do FBI, única mulher no recinto, esquecida num canto da sala de reunião, responde desta forma à pergunta “Quem é você?” que um fodão lhe faz: “Eu sou a motherfucker que encontrou este lugar, sir” (onde Bin Laden se refugiava). Muito melhor que continuar invisível!
Não vou negar que a autoconfiança em excesso pode produzir idiotas arrogantes (é só observar alguns homens pra ver o que acontece). Mas duvidar de nós mesmas o tempo todo pode ser paralisante. Precisamos deixar a modéstia de lado e nos impor.