quarta-feira, 23 de agosto de 2017

"VCS CHAMAM TODO MUNDO DE NAZISTA"

Este cartum resume bem uma situação curiosa.
Os caras que chamam feministas de feminazis são os primeiros a reclamar que nós, feministas e outras pessoas que lutam contra preconceitos de forma geral, chamamos quem discordamos de nazistas. Até quando o cara que chamamos de nazista se diz nazista e segura uma bandeira nazista. 
Reaças nem ficam corados ao usar termos como feminazi, gayzista, gaystapo, mesmo sabendo que feministas e homossexuais foram perseguidos pelo regime nazista. 
Essa galera não é exatamente coerente ou chegada a argumentos, é?

terça-feira, 22 de agosto de 2017

"TODOS AJUDARAM A DEIXAR MEU OLHO ROXO", DIZ PROFESSORA AGREDIDA

Semana passada, na pequena cidade catarinense de Indaial, próxima à Blumenau, a professora Marcia Friggi foi agredida por um aluno de 15 anos. 
Marcia, que é professora há 12 anos, era ACT (contratada em caráter temporário) e foi chamada para lecionar numa unidade de Ensino de Jovens e Adultos (EJA). Ela não conhecia a turma, nem o aluno em questão. O estudante estava com o livro sobre as pernas e ela lhe pediu educadamente que pusesse o livro sobre a mesa. 
"Como eles costumam usar muito celular e fone de ouvido, a nossa grande luta é para que nos escutem, porque eles ficam em sala de aula usando WhatsApp e escutando música", disse a professora em entrevista (e o Escola sem Partido jura que professores comunas se valem dessa "audiência cativa" para doutrinar alunos"!). 
O aluno respondeu que colocava o livro onde quisesse, e ela disse: "Não é bem assim". Ele respondeu: "Vai se f*", e ela o mandou à diretoria. Ele jogou o livro na cabeça de Marcia. Na sala da direção, Marcia relatou o que havia acontecido, o aluno a acusou de estar mentindo, ela disse que toda a turma era testemunha, e então o aluno a agrediu (novamente!) com tapas e um soco. 
Ela fez boletim de ocorrência, exame de corpo de delito, e teve que ir a um hospital. 
Depois, escreveu um post na sua página no FB: ""Estou dilacerada por ter sido agredida fisicamente. Estou dilacerada por saber que não sou a única, talvez não seja a última. Estou dilacerada por já ter sofrido agressão verbal, por ver meus colegas sofrerem. Estou dilacerada porque me sinto em desamparo, como estão desamparados todos os professores brasileiros. Estamos, há anos, sendo colocados em condição de desamparo pelos governos. A sociedade nos desamparou. A vida".
Marcia incluiu várias fotos em sua postagem, que já teve dezenas de milhares de compartilhamentos. Pelo menos assim a turma que chama tudo de mimimi, vitimismo e invenção não vai poder dizer que seu relato devastador é "fanfic". 
Reaças condenam Marcia
Em entrevista, Marcia declarou: "A situação está bem difícil para os professores. Escutar palavrão é uma coisa comum, não fui a única, acontece todos os dias. Agressão física é mais rara, graças a Deus. Mas, infelizmente, aconteceu". Perguntada sobre o que iria fazer, ela respondeu: "Eu sou uma mulher muito forte, muito guerreira, se eu tiver que ser voz do magistério brasileiro, que está muito abandonado, eu vou ser, até o meu último dia. Inclusive a mídia está nos abandonando, a sociedade, o governo, as famílias, todos têm culpa. Todos ajudaram a deixar meu olho roxo". 
Para os reaças, esse tipo de resposta é inaceitável. A professora -- aliás, todas nós que somos professoras -- deveria querer pena de morte pro guri de 15 anos, ou, no mínimo, cadeia. Se não defendemos a redução da maioridade penal, de acordo com a lógica da direita, é porque pedimos pra ser atacadas. E o quê é isso de culpar todo mundo?! Para os reaças, este (como todos os casos) é um caso isolado, e o único culpado é o aluno, ninguém mais. Bom, talvez seja culpa também dos pais esquerdistas frouxos que não sabem educar os filhos e desse pessoal que defende direitos humanos e do governo do PT. Mas dos reaças, jamais! 
Eles rapidamente foram vasculhar a vida pregressa de Marcia para se certificar que ela não era uma deles. Porque, se fosse uma "batedora de panela", se tivesse posts e mais posts xingando Lula e chamando candidato de extrema direita de "mito", aí o tratamento seria bem outro. Mas não. Eles encontraram um post de Marcia chamando a jovem que jogou um ovo na cara de Bolsonaro de "sua lindeza". Com isso, justificam a agressão que ela recebeu do aluno. 
Marcia, que merece toda a nossa solidariedade, tem total razão ao lembrar que os professores brasileiros estão desamparados. Não são apenas estudantes mal educados que estão agredindo professores. Há todo um sistema para isso, desde a inércia da sociedade, que aceita que professores sejam tão mal pagos e desvalorizados, a um processo de institucionalização da perseguição. 
Por exemplo: também em SC, na semana passada, a justiça mandou afastar dois educadores populares do MST, do campus Abelardo Luz, do Instituto Federal Catarinense. A faculdade foi criada no governo Dilma por demandas do MST, dos agricultores familiares e camponeses. Acusação para busca e apreensão de computadores e equipamentos e do afastamento de Ricardo Scopel Velho e Maicon Fontaine é "imposição ideológica e política". 
A nota do MST diz: "A perseguição e a ameaça feita aos companheiros é mais um caso de perseguição e criminalização de movimentos sociais! É um caso de Escola Sem Partido que não teve aprovação, mas está cada dia mais vigente nas escolas públicas como um todo, também no Instituto Federal. Por meio dessas decisões os dois estão afastados da função pública, ou seja, o o objetivo é perseguir, demitir e criminalizar! Não podemos aceitar esse absurdo!”.
Ainda em SC, a professora Marlene de Fáveri, da faculdade de História da Udesc, está sendo processada por uma aluna olavette que, patrocinada pelo Escola sem Partido, acusa Marlene de "perseguição ideológica", pela estudante ser cristã. Marlene desistiu de orientar a aluna no mestrado -- como é seu direito -- depois de ver as inúmeras barbaridades anti-feministas que a reacinha diz em suas redes sociais. 
Ano passado, uma deputada cristã de Brasília pediu "providências legais" contra um professor. Seu crime hediondo? Solicitar aos seus alunos do segundo ano do ensino médio um trabalho sobre homofobia. Porque, sabe como é, falar contra homofobia equivale à doutrinação e à "apologia ao homossexualismo". 
Em julho, o deputado estadual Flávio Bolsonaro, aquele que não aguentou a pressão e desmaiou num debate quando foi candidato a prefeito do Rio, exigiu o afastamento do professor Pedro Mara, que leciona Sociologia para alunos do Ensino Médio e é diretor do Ciep 210, em Belford Roxo, no Rio. O motivo da perseguição? Pedro tem uma tatuagem de uma folha de maconha no antebraço. E, na sua vida particular, é militante da esquerda. Coisas inadmissíveis para um professor!
Bolso Pai, o "mito", já vem perseguindo professores (de preferência professoras, porque misóginos covardes agem com mais eficiência ao atacar mulheres) há tempos. Se alguém duvida, veja o que ele fez com a professora e pesquisadora Tatiana Lionço em 2012. A forma preferencial para perseguir é pedir aos alunos que filmem "professoras comunistas" "doutrinando" os estudantes, e depois o próprio deputado e sua equipe se encarregam de jogar esses vídeos nas redes sociais para que seus milhões de seguidores façam o resto do serviço. 
Clique para ampliar e ver as opiniões de seguidores de Bolso sobre professoras
Ao contrário dos mascus, não tenho como afirmar que o adolescente que agrediu a professora Marcia era um deles, ou seja, um neonazista misógino. 
Provavelmente não era. Pode ser apenas mais um machista que só é capaz de resolver conflitos através da violência. Mas ele certamente não é o único que quer sair por aí agredindo professoras. Tem muito deputado, muita lei da mordaça, muita criatura deplorável nas redes sociais, fazendo a mesma coisa.  

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

OS HOMENS EXPLICAM TUDO PRA GENTE

Saiu agora no Brasil pela editora Cultrix, com tradução de Isa Mara Lando, o livro clássico (e recente, de 2014) da escritora e feminista americana Rebecca Solnit, Os Homens Explicam Tudo pra Mim.
Solnit começa narrando um caso instigante, mas nada incomum para as mulheres: numa festa a que ela foi com uma amiga, um homem rico se pôs a discorrer, “com aquele olhar presunçoso que eu conheço tão bem nos homens quando começam a falar e falar, com os olhos fixos no horizonte nebuloso e distante da sua própria autoridade”, sobre um livro que ela havia escrito. Apesar da amiga tentar interrompê-lo várias vezes para alertar que aquele era o livro dela, o Sr. Muito Importante demorou até parar de explicar para a autora tudo que ela deveria saber sobre o livro.
Esse é um comportamento bastante clichê. Não que mulheres não possam ser paternalistas e condescendentes. Mas é uma atitude tipicamente masculina. Perco a conta de quantos homens vem todos os dias explicar o que é feminismo pra mim, que sou feminista há quatro décadas e mantenho um dos maiores blogs feministas do Brasil há quase uma. 
Versão portuguesa
do livro
Essa atitude de muitos (não todos!) homens, que talvez na maioria das vezes sequer seja proposital (eu sou otimista desse jeito), tem o poder de impedir as mulheres de falar e de serem ouvidas quando ousam falar, de mostrar às mulheres, principalmente às jovens (como é feito com o assédio sexual nas ruas), que o mundo não pertence a elas. Como diz Solnit, “É algo que nos deixa bem treinadas em duvidar de nós mesmas e a limitar nossas próprias possibilidades -– assim como treina os homens a ter essa atitude de autoconfiança total sem nenhuma base na realidade”. 
Solnit também narra um outro episódio em que um tradutor zombou dela, num jantar, quando ela disse (e ela já havia publicado um artigo sobre isso) que um grupo, o Women Strike for Peace, foi importante em derrubar o HUAC (comitê responsável pelo macartismo, período vergonhoso de "caça às bruxas" nos EUA), em 1961. Lógico que ela estava certa, mas o sujeito falou a besteira com tanta autoridade que, quando ela voltou ao seu quarto, teve que checar a internet para se certificar. É divertido porque ela deixa um recado pra ele no livro: “Cara, se você está lendo isto, saiba que você é uma espinha inflamada no rosto da humanidade e um obstáculo à civilização. Sinta vergonha”.
A propósito, não foi Solnit que criou o termo mansplaining (que eu ousei traduzir para homexplicanismo). O termo foi inspirado pela publicação de seu ensaio, mas não veio dela. Ela nem usa muito a palavra, porque passa a ideia de que essa é uma falha inerente dos homens. Em 2012 o termo já estava sendo usado na grande mídia dos EUA, e continua até hoje. 
E, como Solnit aponta em outro ensaio do livro, “#SimTodasAsMulheres”, as palavras são importantes. Na década de 1960, termos como violência doméstica, assédio sexual, estupro marital e cultura do estupro, entre outros, sequer existiam. Como podemos denunciar um problema que não conseguimos nomear? Para Solnit, dar nome às coisas foi uma das conquistas do feminismo. E ela, assim como eu, também é otimista. Para ela, não há volta: o feminismo veio para mudar o mundo.
Pessoas queridas, quero falar mais ainda deste livro sensacional, até porque o que comentei aqui refere-se basicamente ao primeiro capítulo. Mas é o seguinte. Pedi à editora três exemplares (um pra mim, outro pra biblioteca da UFC), e ela os mandou pra mim. Portanto, tenho um exemplar aqui prontinho pra ser enviado pra você. Quero fazer um sorteio, algo que não faço há muito tempo e que, pra falar a verdade, não deu certo da outra vez que fiz, porque a pessoa que ganhou não apareceu para me mandar o endereço pra que eu pudesse mandar o livro pra ela.
Este livro aqui
Espero que funcione desta vez! Pra participar do sorteio, é só você comentar com um nome ou avatar (não pode ser anônimo!) neste post. Pode comentar mais de uma vez, mas só um comentário será válido. Ainda esta semana eu usarei um site que sorteia um número para escolher um dos comentários. Aí a pessoa que ganhou me envia o endereço por email e eu envio o livro pra ela. Simples!
Vamulá, participem! É só comentar usando algum tipo de nome. 
“Nenhum homem jamais se desculpou por querer me explicar, erroneamente, coisas que eu sei e ele não sabe” -- Rebecca Solnit. 

domingo, 20 de agosto de 2017

GORDAS NÃO PODEM TER VOZ, DECRETAM MICRÓBIOS

"Gordas não devem falar, mas nós sim temos algo a dizer", gritam vermes

Sexta à noite dei uma palestra sobre educação e gênero na semana de boas vindas de Letras da UFC. Correu tudo ótimo. 
E ontem minha fantástica colega Andreia escreveu um tuíte com uma das fotos que tirou (nem reparei que ela havia tirado fotos!). Eu dei RT. Isso foi suficiente pros reacinhas de sempre atacarem. 
Até aí, normal. Super acostumada. Mas o que me chamou a atenção foi o tuíte deste cara, que eu nem lembro de já ter ouvido falar mas já tava bloqueado:
A tese do sujeito é que, se uma mulher é gorda (homem tudo bem), ela não pode falar. Deve ficar em silêncio eterno. Não adianta nada fazer doutorado, pesquisar certos temas e palestrar sobre eles, porque ela já está desqualificada. Por ser gorda, ou feia. Afinal, a única missão de uma mulher na vida é ser linda
(e ser mãe. Ontem o Ines Bolso, que na realidade se chama Fabiano e não é um moleque, mas um rapaz de quase 27 anos, escreveu vários tuítes afirmando que sou infeliz e frustrada não por não ser mãe, mas por não ser avó! Essa sim foi uma novidade! Na imaginação limitada do troll, uma mulher de 50 anos deve estar cozinhando bolo de cenoura pros netos, não ficar no Twitter. A noção que eles têm de como deve ser o comportamento das avós realmente estacionou na década de 50). 
Isso de gorda não ter valor não é lá um pensamento muito original. Meninas gordas provavelmente ouvem isso na 4a ou 5a série. E é o que se vê todos os dias nas redes sociais -- se você é gorda, não merece existir. Mas o incrível é que isso é repetido por gente que jura que gordofobia não existe. Ué? Desqualificar ou tentar silenciar uma gorda não é gordofobia? É o quê, então? Piada?
O organizador da marcha nazista
de Charlottesville disse que a
ativista Heather Heyer mereceu
ser morta porque era uma
comunista gorda. Diante das
reações, alegou que foi hackeado
ou que estava sob medicamentos
quando escreveu isso
Aí mascus leram o tuíte e acharam que eu fiquei revoltada (gente: miséria e guerras me revoltam. Saber que 8 bilionários têm o mesmo patrimônio que a metade das pessoas mais pobres do mundo me revolta. Vocês só me fazem rir) porque o cara me chamou de gorda. Como se ser chamada de gorda me ofendesse ou como se eu não fosse chamada de gorda trezentas vezes por dia. Não, gênios. O que me fez erguer a sobrancelha foi a segunda parte do tuíte -- que ser gorda significa que você não pode falar.
Bom, se não são milhares de ameaças de morte que me calam, certamente não vai ser a opinião de reacinhas que não devem ter espelho em casa que vai me silenciar. Porque, sei lá, só o privilégio masculino pra fazer com que caras que não são nada bonitos se coloquem num pedestal e se sintam aptos a julgar a aparência de toda e qualquer mulher.
Mas eu sei que essas falas fascistas afetam meninas. 
Recebo emails de garotas de 12 anos que sofrem bullying na escola (e nas redes sociais) por sua aparência estar fora do padrão. E isso acaba com a autoestima delas. Eu vejo nas palestras que dou um monte de moças que vem falar depois dizendo que não querem usar microfone, que detestam falar em público -- isso as corajosas que levantam a mão ou se inscrevem pra falar. Porque a maioria já incorporou que não têm direito de fala. 
Meninas, mulheres, saibam que esta é uma estratégia de silenciamento. A sociedade nos ensina desde que somos bebês que o que mais vale pra gente é a aparência, estar dentro de um padrão inatingível para a maior parte das mulheres. Também nos ensina que dependemos da aprovação masculina, que a opinião de um homem vale mais do que a de uma mulher, e que o afeto que receberemos ou deixaremos de receber está ligado a esta aprovação (se somos feministas, não somos dóceis ou submissas, então não somos merecedoras de afeto). Que nossa função é decorativa -- abrir a boca só atrapalha. À medida que crescemos, vamos entendendo que os tempos mudaram, que queremos e precisamos ter voz, que não nos inscrevemos num eterno concurso de miss universo, que dá pra se medir sucesso de muitas formas. 
Mas toda vez que vamos falar em público (o que inclui se manifestar nas redes sociais), principalmente se formos dizer o que eles não querem ouvir, virão pessoas que já ficaram pra trás, que já perderam, nos lembrar que não podemos ter voz porque não somos bonitas. E quem determina quem é ou não bonita são eles, lógico. E mesmo que você fosse modelo de beleza, pode ter certeza que eles encontrariam inúmeros defeitos na sua aparência porque no fundo eles não querem que você fale. 
Sugiro olhar pra esses caras que nos xingam -- com lupa ou microscópio, porque, apesar de serem muitos, eles são minúsculos, insignificantes -- e olhar pra gente. Nós somos lindas. Somos mulheres que lutamos, que não nos conformamos, que não nos deixamos silenciar. Quem realmente não deve ser escutado: uma gorda que palestra ou um covarde qualquer que acha que gorda não pode palestrar, porque é gorda? 
Uma opinião do tipo "Se não me causar uma ereção, ela não merece viver" é o que desqualifica qualquer cara. Nada do que um sujeito desses falar antes ou depois merece ser levado em consideração. E ele sabe disso. Por isso esperneia. 

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

MULAMBA, O VIDEOCLIPE MARAVILHOSO DE UMA BANDA ESPETACULAR

Conheci o trabalho da banda Mulamba ano passado, após alguém me enviar o link para uma música (e um vídeo) fantástica, a "P.U.T.A."
Esse vídeo viralizou e consolidou o sucesso do grupo curitibano só de mulheres, que está chegando ao seu segundo ano juntas. 
Esta semana recebi um email da cineasta Virginia de Ferrante, que me pediu para assistir um videoclipe feito por ela com a banda Mulamba. 
Ela disse: "Meus trabalhos no audiovisual sempre foram ligados à temática feminina (mesmo na época em que eu nem sabia direito o que era isso) e neste projeto visamos não só ter um produto final bonito, mas o processo também foi altamente transformador para todas as mulheres envolvidas. Realizamos uma espécie de experiência social na forma de documentário e mesclamos com videodança. Sinto que o objetivo de fazer mulheres se sentirem representadas foi alcançado quando recebo retornos muito emocionantes de quem assiste".
O videoclipe é uma experiência arrebatadora. Única. Que trabalho maravihoso que essas mulheres fizeram! Peço para que vocês vejam, revejam, deem like, e compartilhem. É um modelo de empoderamento e sororidade. Todas estão de parabéns!
Publico aqui um texto pessoal da Virginia. 
Era fevereiro quando a Caro Pisco me pediu ajuda para desenvolver um roteiro. 
Eu, intrometida que sou, me escalei para não só escrever mas também dirigir o primeiro clip dessa nova banda que tinha me arrepiado com suas músicas e verdade. Elas toparam e depois de muita conversa chegamos à conclusão que esse projeto tinha que ser sobre as mulheres reais e que o processo dele tinha que ser tão transformador quanto seu resultado.
Como tudo que é transformaDOR tem dor no meio, a banda toda aceitou o desafio de estar com várias outras mulheres desconhecidas para uma experiência de auto-conhecimento que gerou um imenso movimento de sororidade e troca.
Nesse dia, eu olhava para a equipe, que chorava só de ver a cena acontecendo. Junto disso um outro cara, que é uma das pessoas mais competentes que eu conheço, disse sim mais uma vez para um pedido meu, sem grana mas cheio de energia: criar uma máscara, em low poly, que tivesse a inspiração em um útero. Máscara a qual seria usada por uma bailarina foda que traria à vida uma personagem que iria quebrar/ queimar padrões, representar a força das mulheres e usar a arte para transmitir algo semelhante com a parte documental do clip. 
Se não bastasse isso ainda conheci e revi muita gente talentosa se doando pelo projeto e tive a sorte gigante de ao fim da linha ter uma pessoa sensível o bastante para saber recortar e montar o filme. [Vejam o making of do clipe].
Não foi difícil me inspirar para escrever e criar com uma letra dessas, com os sons do cello, da bateria e as vozes dessas mulheres poderosíssimas e eu tenho muito que agradecer por terem acreditado que eu conseguiria fazer jus à música transformando-a em imagem. 
É muito emocionante e recompensador poder juntar artes e chegar em um resultado maior, é muito bom fazer algo em que se acredita e também é muito bom voltar a confiar um pouquinho em si própria. 
Me perguntaram: e o que mudou para você esse projeto? Esse clip é um fechamento de ciclo. Fechamento de um caminho longo e dolorido que foram os últimos anos com a vontade de desistir de tudo e zero autoconfiança que eu poderia fazer ou terminar qualquer coisa decente. 
É lógico que eu tenho mil críticas a fazer, afinal, sou eu e autoestima não é o meu forte, por mais que pareça. Mas quero poder pegar todo esse reconhecimento que este trabalho está tendo para seguir em frente, acreditando que é possível se comunicar com outras pessoas por meio do audiovisual.
Obrigada MUITO todo mundo que está compartilhando, elogiando e se identificando. 
E aqui publico um informativo sobre o clipe e a banda:
Histórias reais e videodança compõem clipe visceral de “Mulamba”, música que originou o nome da banda curitibana
Em vídeo intenso, diretora Virginia de Ferrante une documentário e ficção para trazer à tona discussões como sororidade e empoderamento
Transformar a dor em força e se libertar: essa é a mensagem transmitida pelo clipe do single “Mulamba”. A composição, que inspirou o nome da banda Mulamba, resultou em um clipe intenso ao mesclar documentário e videodança. Repleta de sensibilidade, a obra é um manifesto pela sororidade e empoderamento, com roteiro e direção da cineasta Virginia de Ferrante e montagem de Ana Carolina Vedovato. 
Realizado de forma independente, o clipe contou com uma rede de parcerias entre mulheres. “A gente vem de uma sociedade que massacra o feminino e esta música nos fez entender que falamos sobre muitas agonias vividas por mulheres. Foi um processo de reencontrar-se e reconhecer-se, lembrando de memórias doloridas e prosseguindo na caminhada. É como se tudo tivesse feito sentido e agora veio o alívio. Foi uma experiência transformadora para quem participou, desde a equipe até as mulheres que aceitaram se abrir conosco”, afirma a cantora Cacau de Sá, que compôs a letra em conjunto com a vocalista Amanda Pacífico.
Com o intuito de proporcionar vivências reais, o clipe tem a presença de várias mulheres que contaram suas histórias em uma dinâmica conduzida pela psicóloga Lari Tomass. Os relatos foram preservados e apenas as imagens são apresentadas ao público, revelando expressões corporais que se transformam ao longo da narrativa. Também são exibidos momentos de conexão entre as seis integrantes da banda e as mulheres participantes.
Em paralelo, a atriz Nayara Santos interpreta uma personagem fictícia, uma espécie de entidade que representa a própria figura da “Mulamba”. Com o rosto coberto por uma máscara em formato de útero, a protagonista destrói objetos simbólicos num processo de libertação. A escolha dos elementos também é fruto de uma pesquisa feita com mulheres que relataram situações de opressão ao longo de suas vidas.
“A personagem é a encenação de uma força interior que todas nós temos para suportar momentos difíceis. Nesse contexto, a máscara é uma ‘proteção’ para aguentar esses momentos e, ao final, ela deixa o escudo para mostrar que não precisa mais usar uma defesa. Ao mesmo tempo em que ela se liberta, as mulheres que contaram suas histórias também estão dançando e libertadas, culminando em uma simbiose”, explica Virginia.
Sobre a Mulamba
Unindo influências que vão do rock à música erudita, Mulamba representa um grito de vozes silenciadas. Desconstrução e letras impactantes marcam o trabalho da banda curitibana, que traduz suas mensagens por meio de uma linguagem poética e performances irreverentes.
Formada em dezembro de 2015, Mulamba é composta por Amanda Pacífico (voz), Cacau de Sá (voz), Caro Pisco (bateria), Fer Koppe (violoncelo), Naíra Debértolis (baixo) e Nat Fragoso (guitarra). O sexteto conquistou visibilidade após a repercussão do vídeo de “P.U.T.A”, gravado em parceria com a HAI studio.
A banda foi considerada destaque no Vento Festival 2017, um dos principais festivais independentes do Brasil, ao lado de nomes como Francisco, el hombre. Em julho, foi lançado o videoclipe da música "Mulamba" e, ainda este ano, o álbum de estreia será gravado no Red Bull Station, em parceria com o Vento Festival.
Vida longa à Mulamba! E a todas as mulheres que sobrevivemos e lutamos!