segunda-feira, 6 de novembro de 2017

EU, FEMINISTA, SÓ VI A MISOGINIA DE 1984 AGORA

Tive de reler o romance porque um aluno de mestrado está dando duas (excelentes) aulas sobre 1984 (objeto de análise da sua dissertação) numa disciplina minha sobre adaptação fílmica. 
Não sei quando li o livro antes, se foi na minha adolescência (em torno de 1984!) ou aos 20 anos, mas o que me chamou a atenção, relendo-o agora, três décadas depois, é como ele é misógino. (Sei que quase reli o romance novamente em 2002, quando o publicitário Washington Olivetto foi sequestrado durante dois meses e deram 1984 pra ele ler no cativeiro. E eu pensei, na época: existe livro mais deprê e opressivo pra se ler quando está preso do que esse?).
Realmente, o que me assustou mais hoje (além das passagens de tortura, que são o que há de mais marcante), mais do que o regime ditatorial do Grande Irmão, foi a misoginia do protagonista, que diz explicitamente odiar mulheres. Bom, só porque um personagem de um livro ou filme é machista ou racista ou homofóbico, isso não torna a obra necessariamente machista ou racista ou homofóbica. Pode ser uma crítica aos preconceitos, certo? 
Tipo o conto “Meninas em Guerra”, do nigeriano Chinua Achebe. O protagonista Reginald tem uma péssima opinião das mulheres, acha-as aproveitadoras, acha ridícula a vontade delas de participar da guerra de independência do país -– Biafra, no caso –-, acha que elas só pensam em si e são promíscuas e condenáveis. Seu ódio a elas apenas é atenuado pela sua decisão de “salvar” Glagys, a moça que lhe inspira todos esses pensamentos (mulher, fuja do cara que quer te salvar!). Só que, no final, Gladys prova que o protagonista misógino estava totalmente errado. E o último trecho, de Reginald ajoelhado, desesperado, gritando, mostra que ele aprendeu a lição.
A capa mais pulp fiction
 de 1984 já feita
Mas em 1984 (escrito em 1948, e publicado no ano seguinte), durante mais de um terço do livro, Winston é praticamente o único personagem que temos. Somos levados a nos identificar com ele, a torcer para que ele se rebele contra as opressões. Porém, como se identificar com um cara que diz, no primeiro encontro com Julia, que suas impressões iniciais sobre ela eram “Odiava te ver. Queria te estuprar e te matar depois. Duas semanas atrás eu pensei seriamente em esmagar sua cabeça com um paralelepípedo”? (E ela ri! Moça, se um homem te diz isso num primeiro encontro, mesmo que seja pra demonstrar sobre como mudou de opinião a seu respeito, bom, torço para que não haja um segundo encontro).
Suzanna Hamilton como Julia
no filme 1984 de Michael Radford,
lançado em 1984
Antes de conhecê-la intimamente, o protagonista tem “alucinações vívidas e belas” sobre Julia. A narração nos conta as fantasias de Winston: “Ele iria açoitá-la até a morte com um cassetete de borracha. Ele a amarraria nua numa estaca e a encheria de flechas como São Sebastião. Ele a estupraria e a cortaria no momento do orgasmo. Ele notou por que ele a odiava. Ele a odiava porque ela era jovem e bonita e assexuada, porque ele queria ir pra cama com ela e nunca iria, porque ao redor da sua doce e maleável cintura, que parecia pedir para que você a agarrasse com seu braço, havia apenas uma faixa escarlate, um odioso e agressivo símbolo de castidade”.
Eis o nosso protagonista, nosso projeto de herói.
Fui digitar “misogyny in Orwell's 1984” (misoginia no 1984 de Orwell), pensando, com muita ingenuidade, que fosse uma impressão só minha (“Vocês veem machismo em tudo!”), mas não, tá cheio de coisa. E o problema não é só com Winston, mas com Orwell. As descrições são mais ou menos assim: “Era a Sra. Parsons, a mulher do vizinho no mesmo andar”. Quer dizer, a Sra. Parsons é vizinha de Winston, mas o narrador a vê apenas como “a mulher do vizinho” (ela só existe em relação a um homem).
Sei o que você vai dizer. Mas dizer que o romance é um “produto de seu tempo” não é uma boa justificativa. Segundo Noah Berlatsky, que vê Julia como o estereótipo da Manic Pixie Dream Girl, o maravilhoso Langston Hughes também era um “produto de seu tempo”, e ele escrevia contra o racismo. As protagonistas de Charles Dickens eram “doces demais e insossas”, mas as de George Eliot não eram. Quer dizer, Theodore Dreiser também era um “produto de seu tempo”, e ele escreveu o incrível Sister Carrie em 1900, meio século antes de Orwell.
A ideia deste post começou
com uns tuítes
(obrigada a todas as
envolvidxs -- são muitos!)
Segundo Berlatsky, a defesa do “é um produto de seu tempo” implica que somos moralmente muito mais iluminados hoje que antigamente, que preconceitos são coisa do passado, e que as melhorias sociais ocorrem progressiva e naturalmente (uma leitora, quando comentei no Twitter sobre não ter reparado na misoginia de 1984 há três décadas, comentou num tuíte: “Hoje em dia somos muito mais esclarecidas do que antigamente”, o que me lembrou da sentença mais irônica do fantástico conto “The Life You Save May be Your Own”, traduzido pelo meu orientador de doutorado José Roberto O'Shea como “Salve sua própria vida”. Um vagabundo diz que tudo bem dormir dentro de um carro, já que os monges de antigamente dormiam nos seus caixões, e aí uma velhinha caipira e analfabeta responde: “Eles não eram tão avançados como a gente”).
Contexto histórico é importante, lógico. Berlatsky dá um ótimo exemplo: “Seria ridículo dispensar Jane Austen como sexista porque suas personagens mulheres procuram homens para conseguir segurança financeira em vez de aprenderem a se tornar presidentas de empresas. Mas um contexto histórico importante é que desigualdades de raça, gênero e classe (para citar apenas três) têm estado aqui durante muito tempo, e continuam aqui. Quando os criadores tocam nesses temas, bem ou mal, eles estão falando conosco. É mais respeitoso argumentar com eles do que fingir que evoluímos para além da necessidade de ouvi-los”.
Contexto histórico: camiseta bem
misógina referente a 1984 à venda
no século 21: "Faça com Julia"
Para o autor, “Em vez de defender [escritores antigos que foram preconceituosos], o argumento do 'produto de seu tempo' ameaça torná-los irrelevantes. Se, afinal, o passado era tão diferente do presente, se sabemos muito mais hoje do que então, se somos moralmente tão superiores, o que esses escritores podem nos ensinar? Se progredimos tanto além de Orwell na nossa compreensão de igualdade e liberdade e justiça e humanidade, então por que deveríamos ler 1984, que pretende discutir temas como igualdade e liberdade e justiça e humanidade?”
A resposta é que “ainda devemos ler Orwell não apesar do sexismo, mas em parte por causa dele. […] Prestar atenção no sexismo de Orwell é uma forma de prestar atenção no nosso sexismo; faz 1984 mais relevante, não menos”.
Parece que Orwell na sua vida pessoal tinha de fato uma quedinha pela misoginia, e isso evidentemente transparece em sua obra. O escritor britânico (1903-1950) que se definia como “socialista democrático”, costumava dizer, por exemplo: “Uma das provas mais contundentes da genialidade de Joseph Conrad é que as mulheres não gostam de seus livros”. Sem falar que Orwell nunca pronunciou o termo “feminista” sem que fosse em tom jocoso
Em A Vitória de Orwell, livro de Christopher Hitchens, há um capítulo chamado "Orwell e as feministas: dificuldades com as mulheres". Hitchens afirma que não só em 1984, mas em boa parte de sua obra, Orwell descreve as mulheres como incapazes e tediosas, boas apenas para se fazer sexo (e Orwell se ressente da necessidade de ter mulheres). Citando Beddoe, Hitchens concorda que as mulheres nos romances de Orwell são "megeras ou simplórias, vamps ou desmazeladas, ou então (exceto a Julia de 1984) cobiçosas e conformistas”. Esse desdém contra o feminino, lembra Hitchens, atinge até Mimosa, a "égua branca, vaidosa e fútil" da Revolução dos Bichos, que se vende por fitas e torrões de açúcar. 
Voltando a 1984, eu gosto bastante de Julia. Ela é um sopro de ar quando aparece no livro, depois da perspectiva depressiva e derrotista de Winston. Ela é sexualmente independente, é ela quem toma a iniciativa, ela que sabe como burlar o sistema para manter seus encontros sexuais. Imagina quantos homens ela deve ter seduzido ao simplesmente lhes passar um bilhetinho escrito “Eu te amo” (homens são tão fáceis!). 
Winston vê Julia como depravada, e diz a ela: “Quanto mais homens você teve, mais eu te amo. Você entende isso? Odeio pureza, odeio bondade! Não quero que virtude exista em qualquer lugar. Quero que todo mundo seja corrupto até os ossos”. Para o protagonista, Julia precisa sempre servir a um propósito.
Peça teatral
Não sabemos muito sobre Julia, já que a narração, mesmo em terceira pessoa, se centra apenas no que Winston pensa (o que pode ser interessante num sentido: talvez Julia não esteja transando exclusivamente com Winston naquele período?). O narrador não lê os pensamentos de Julia. Sabemos, através do protagonista, que Julia não está interessada em derrubar o sistema, apesar de detestá-lo. Sua rebelião é só para satisfazer seus desejos sexuais. 
Como Winston diz pra ela, “Você só é rebelde da cintura para baixo!” E daí?, você pode perguntar. A revolução sexual não deixa de ser uma revolução, pô!
Dependendo da sua visão, você pode achar que Julia age muito mais que Winston -- que pensa muito, odeia muito, mas faz pouco. Mas não é assim que o romance a vê, e sim como fútil e traidora (quanto tempo ela demorou para "trair" Winston durante a tortura? Só sabemos a versão de O'Brien).
Adoro a parte em que Winston e Julia se encontram com a "resistência", liderada por O'Brien. Até um momento atrás eles nem tinham certeza se existia uma resistência, mas, ao conversar com O´Brien, respondem a uma série de perguntas ridículas (eu estaria fora dessa revolução, sinto muito). Aliás, não são os dois que respondem, é só Winston, que fala por ele e por Julia, ou pelo menos é isso que ele e O'Brien acreditam. 
O'Brien quer saber se eles dariam suas vidas pela resistência, se matariam, se cometeriam atos de sabotagem que poderiam causar a morte de dezenas de inocentes, se encorajariam a prostituição, se disseminariam doenças venéreas, se jogariam ácido no rosto de uma criança, se se suicidariam... E pra tudo Winston responde "Sim", sem pestanejar. Mas quando O'Brien pergunta se eles estariam prontos para se separarem e nunca mais se verem de novo, Julia interrompe e grita "Não!" Winston demora pra responder, e não sabe qual palavra sairá da sua boca. Finalmente ele diz não. Quem ama mais nesse relacionamento?
E olha que bem antes dessa parte, Julia já havia conquistado o coração de Winston ao roubar cosméticos e se maquiar para ele. Ao vê-la maquiada, ele sente que ela ficou muito mais bonita e, “acima de tudo, mais feminina”. E ela diz a ele: “Você sabe o que mais eu vou fazer? Vou conseguir um vestido de uma mulher de verdade de algum lugar e usá-lo em vez dessa porcaria de calça. Vou usar meias de seda e sapatos de salto alto! Neste quarto, eu serei uma mulher, não uma camarada do Partido”.
Ai, ai, Julia... Tudo bem você quiser usar vestido e se pintar, mas fazer isso só por um homem? Achar que só mulheres que são “femininas” são de verdade? Esta talvez seja a maior qualidade que Winston (e Orwell) concede a Julia -- ela querer ser feminina e vaidosa para agradar os homens.
Comercial "Repressão" Boticário, 2008
Segundo o carinha de “Seu livro preferido fede” (amei o título, embora não concorde que 1984 sucks), essa presunção de que a maquiagem faz falta no mundo (me lembrou o comercial do Boticário, certamente inspirado em 1984), aliada à certeza de Winston de que a vida era melhor antes, faz gerar uma tese para Orwell:
“Precisamos do capitalismo para fazer o mundo melhor porque o capitalismo permite às mulheres que pintem seus rostos a ponto de não se tornarem reconhecíveis -- e é isso o que as torna realmente desejáveis. Na realidade, é isso que as torna mulheres de verdade”. 
No entanto, Margaret Atwood, que escreveu uma distopia tão boa e talvez ainda mais relevante pros dias atuais do que 1984 (em janeiro, 1984 foi o livro mais vendido na Amazon depois que uma conselheira de Trump utilizou a frase “fatos alternativos”, os conhecidos “fake news” do presidente que nem as piores distopias podiam imaginar, e que se parecem muito com o “newspeak” de Orwell), O Conto da Aia, ama Orwell. 
Ela leu 1984 na adolescência e se identificou com Winston e com seu desejo de manter um diário e escrever secretamente. Mas, quando começou a escrever O Conto da Aia, aos 44 anos, no ano real de 1984, Atwood já tinha reparado que a maioria das distopias haviam sido escritas por homens e mostravam o ponto de vista masculino. E então ela escreveu O Conto da Aia pensando em algo como "O Mundo segundo Julia"! 
Em The Orwell Mystique: A study in male ideology (A mística orwelliana: um estudo em ideologia masculina), a professora e feminista radical Daphne Patai foi uma das primeiras a apontar a misoginia do escritor. Ao observar uma obsessão com a masculinidade na obra dele, Patai pergunta: se a visão de Orwell sobre as mulheres era tão negativa, como ele podia ser um defensor da liberdade? Simples: liberdade pra quem, cara pálida?
Julia no seu momento "dois minutos
de ódio", numa versão teatral
Patai acha o estilo de escrita de Orwell manipulador e dominante. E ela escreveu isso há mais de trinta anos. Ou seja, quando eu li 1984 pela primeira vez, e não me choquei com a misoginia, já tinha feminista falando nisso. E o pior: eu já era feminista! Como deixei de ver o que estava tão nítido diante dos meus olhos? Eu mudei? 1984 mudou? O mundo mudou? Todas as anteriores?

37 comentários:

donadio disse...

"Como deixei de ver o que estava tão nítido diante dos meus olhos?"

Talvez você também seja uma mulher do seu tempo, Lola...

(Eu também li 1984 quando adolescente (quando ainda faltava mais de uma década para 1984, o ano). E também não reparei na misoginia. Acho que ainda não era uma preocupação minha; acho que naquela época a repressão sexual aqui no Brasil ainda era um problema sério (estou falando de uma época em que O Último Tango em Paris ainda não podia passar nos cinemas, e as mulheres só podiam comprar anticoncepcionais com receita médica e se fossem casadas), acho que a situação política da época era muito diferente - a gente tinha, como Winston, que tomar cuidado com o que falava. Mas a verdade é que eu simplesmente não lembrava mais dos trechos que você cita. A memória é seletiva, talvez?)

Luise Mior disse...

Puts, não tinha notado a misoginia do protagonista quando li 1984, e eu também já era feminista na época! Talvez porque não se fala sobre a misoginia mas sim sobre o sistema opressor da época. Mas penso que não devamos mesmo deixar de ler o livro mas sim apontar isso. E o protagonista sempre me pareceu muito pouco engajado em resistir à opressão, enquanto Júlia sim, ainda que apenas sexualmente. Enfim... Valeu querida Lola pelo apontamento! Tenha uma excelente semana.

Anônimo disse...

Quero saber se ele vai falar sobre a analogia às tiranias comunistas, motivo principal do enredo do livro

Anônimo disse...

Mais um caso.
Ex aluno mata menina de 16 anos por ter sido rejeitado>
https://g1.globo.com/goias/noticia/jovem-entra-em-escola-e-mata-adolescente-em-alexania-diz-delegada.ghtml
esta semana outra estudante foi estuprada e morta de forma barbara quando ofereceu carona>Outro dia um outro macho lunático invadiu um escola atirando, ou dia mais tacou fogo em uma creche com crianças e professoras.

Quando vão se dar conta que homens são doenças sociais que devem serem contidos?

Sofia disse...

Amei essa análise! E obrigada por falar dessa distopia escrita por uma mulher, vou dar uma olhada nela dp \o/

Anônimo disse...

Tinha que ser mesmo um anticomunista para ser um misógino.

jean canesqui disse...

"Talvez você também seja uma mulher do seu tempo, Lola..."
A provocação foi bem pertinente. Acredito que não devemos ignorar essa questão. Lovecraft era racista e xenofobo, teve sua repulsa abrandada com o tempo, Monteiro lobato, eugenista racista que mais maduro fez sua meia culpa.
Penso que não se deve entender um artista apenas como vítima, apocalíptica ou integrada, da coletividade, mas como individualidade que emerge dela.
Orwell teve sua identidade forjada dentro um aparato cultural em que ser misógino assim como racista, na guerra cultural, possuía hegemonia na mentalidade.
Apesar de ser igualitário quanto às classes sociais e inimigo da opressão de Estado, ele acabou se orientando no conforto de ser homem, valorizado pela propagada inferioridade feminina. Como muitos, ou faltou-lhe referências intelectuais e empíricas de um poder feminino ou preferiu ser econômico no esforço da autocrítica.
Quando vemos um artista um escritor de renome, projetamos nele certas expectativas do nosso tempo. Se ele é um progressista, esperamos ver nele a vanguarda de hoje, o que cheira a anacronismo.
Como você Lola e outras feministas que leram o livro tempos atrás e não viram misoginia devido à ausência de certos instrumentos intelectuais que hoje possuem, o mesmo ocorre aos autores em relação a filosofia de suas obras. Alguém pode ser crítico sobre uma espoliação social e ignorar outras questões ou aderir a uma posição considerada viciosa na atualidade.
Penso que a grande questão é o quanto a posição sobre um tema pode ser cobrada como uma decisão moral consciente, com um arcabouço razoável para uma massa crítica sobre a matéria.
Orwell era deliberadamente misógino? Militava claramente pela misoginia ou apenas se privou de qualquer esforço crítico e foi no fluxo de uma ideia predominante do seu tempo?

Larissa Oliveira disse...

Tem muitas outras partes extremamente machista que, mais que apenas do Winston, vem do autor. Mas apesar de tudo, gosto de Júlia. Ela é independente, segura, sexualmente livre, corajosa, tem muito mais atitude que o protagonista. Não sei dizer se era da intensão do Orwell que essas coisas soassem como qualidade, mas aconteceu. Mas isso também faz do livro uma grande obra. Qualquer obra que levante um debate, levante questões desse tipo,mesmo depois de anos, vale a pena ler. Grande beijo, Lola! E obrigada pelo artigo.

Cristiano Machado disse...

Eu sempre me intrigo com o argumento de "homens (ou mulheres) do seu tempo"

houveram gênios da ciência completamente equivocados em suas relações com as mulheres, existiram filósofos brilhantes que sustentaram por anos argumentos nazistas, e por aí vai...

Que não estamos num linha evolutiva plena como supunham os positivistas, é mais do que óbvio, mas por outro lado, é preciso compreender que cada "gênio" em seu tempo, não era brilhante em todas as áreas do pensamento, e assim, caras como o Orwel, que a Lola critica (brilhantemente) continuam sendo relevantíssimos hoje, apensar de termos a percepção de que não tinham qualquer projeção positiva no que se refere aos direitos das mulheres.

Acredito que a obra não se torna irrelevante, mas, como qualquer clássico, passa agora a ter mais uma camada de analise, a qual, admito, muito possível por ser homem hétero cis, nunca tinha me questionado...

Obrigado pela analise, lerei novamente atento a essa questão, e como sempre digo, "Mais um ÍDOLO que cai, estamos nos tornando melhores, portanto"

Beijo no seu <3 Lola

Anônimo disse...

"Eis o nosso protagonista, nosso projeto de herói."

Chamar Wiston, mesmo de projeto de herói, é total incondizente com o enredo. Wiston é imoral, egoísta, odioso, hipócrita, enfim, um crápula. Se fosse lhe dado poder suficiente ele ergueria um regime totalitário igual ou similar ao que ele mesmo vive. Não há heróis em 1984. Como na vida real, somos todos os vilões. E é aí que reside a força da obra.

E por favor, a intenção do autor pouco importa para uma obra. Deixe que ela fale por si só. Misógina ou não.

donadio disse...

Se progredimos tanto além de Orwell na nossa compreensão de igualdade e liberdade e justiça e humanidade, então por que deveríamos ler 1984, que pretende discutir temas como igualdade e liberdade e justiça e humanidade?”

Por que a estória é boa, bem contada, bem escrita? Por que é parte de uma tradição artística, que é a nossa, e não lê-la nos tornaria menos capazes de entender o que vem depois (por exemplo, como situar O Conto da Aia nessa tradição sem entender sua relação com 1984?) e o que veio antes (entendemos de verdade Thomas Morus se não soubermos que 1984 é uma de suas consequências)?

Eu tenho bastante certeza de que progredimos bastante "na nossa compreensão de igualdade e liberdade e justiça e humanidade" de Homero pra cá, e não sei se podemos passar sem a Ilíada - muito embora essa seja uma estória não só misógina, como também escravocrata.

(Por outro lado, 1984 é uma obra menor, sob vários aspectos. A Revolução dos Bichos é melhor e mais importante, além de ser um livro menos deprê de ler enquanto a gente está sequestrado...)

Antonio Luiz M. C. Costa disse...

Eu vejo uma relação entre as desconfiança de Orwell em relação ao comunismo e ao feminismo. No Reino Unido, depois de obter o voto feminino nos anos 1920, o feminismo liberal das sufragistas havia praticamente saído de cena. Nos anos 1930 e 1940, o feminismo visível era fundamentalmente marxista e o marxismo visível era fundamentalmente stalinista. Julia é um tanto a caricatura de uma militante comunista/feminista dos anos 1930.

Há no anarquismo uma vertente patriarcal e conservadora, que idealiza uma sociedade de pais de família livres do Estado, que no fundo seria uma federação de microestados totalitários dirigidos por homens. Talvez Orwell também tenha herdado um pouco desse modo de pensar que vem de Proudhon e também do conservadorismo estético de utopistas pré-rafaelitas como William Morris. Há muitas passagens em 1984 que me soam curiosamente conservadoras, como quando resmunga contra o sistema decimal apenas porque meio litro de cerveja é um pouquinho menos que uma pinta britânica.

À parte isso, há uma contradição mais geral na obra de Orwell: o ódio genérico ao poder e a simpatia abstrata pelos oprimidos sempre vêm acompanhados de um desprezo incontido pelos oprimidos concretos. Isso salta à vista em "1984", a cada vez que ele se refere aos "proles" e seus gostos, tanto quanto às mulheres. E também em relação aos povos colonizados: há um texto famoso e possivelmente autobiográfico sobre sua própria experiência como membro da polícia colonial na Birmânia, "Shooting an Elephant", no qual critica o colonialismo, mas ao mesmo tempo confessa ter ódio dos birmaneses, "essas pequenas bestas malignas que não me deixam fazer meu trabalho" e vontade de "meter uma baioneta nas tripas de um monge budista".



Anônimo disse...

Lola, espero que você viva mais 50 anos, no mínimo, pois você ainda tem muito caminho pela frente.

Anônimo disse...

Não deu pra entender por esse texto confuso se a moça era assexual e casta, logo não dava pro protagonista e por isso ele a odiava ou se ela era uma sedutora lasciva ultra sexualizada com o único interesse de realizar seus desejos sexuais.

Anônimo disse...

a) Lola sou sua admiradora gostaria de sugerir um post sobre Manuela d Avila ela anunciou sua candidatura a presidencia da republica.

b) Lola sugiro tb um sobre a novela Outro lado do paraiso eles estao abordando relacionamento abusivo

Marcia disse...

Representação, Lola, é o debate da representação da mulher na cultura que mudou nossa forma de ver a literatura, o cinema e as demais artes.
Quando fui apresentada ao feminismo em meados da década de 1990 não havia a internet com tantos espaços de discussão sobre representações da vida. Agora há, e acho que cada vez mais estamos atentas para esse fato: o que se diz sobre as mulheres, as mulheres que nós somos, as mulheres que gostaríamos de ser.

Em tempo, dois sites maravilhosos com escritoras feministas jovens fazendo debate sobre representação e mulheres na cultura pop que todo mundo deveria conhecer:
http://nodeoito.com/herois-romanticos-que-eu-nao-queria-na-minha-vida/

http://collant.com.br/

Cindy disse...

Mas não é tipo um olhar que o personagem tem naquele contexto? Que ele é condicionado a pensar daquela forma, que provavelmente todos são condicionados a pensar assim?
Assim como hoje pensamos (não todos, mas em geral) como é natural a exposição do corpo da mulher, mas achamos uma afronta à moral quando o do homem é exposto.
E todos os pensamentos que entendemos como naturais.
Seriam como naturais para o personagem por conta do que ele vive. É um reflexo.
Não?

Anônimo disse...

O personagem só é a realidade do mundo comunista. O feminismo ali tem o seu papel: o homem vai odiar a mulher.

Anônimo disse...

Lola numa parte do texto vc disse que o protagonista via Julia assexuada e depois diz que ela teria tido vários encontros sexuais.Fiquei na duvida sobre se ela era liberada sexualmente ou casta.

Anônimo disse...

Grande revolução sexual dar aos machos exatamente o que eles querem: agradá-los e servi-los sexualmente, sendo fodida, sendo possuída por eles. Só que nunca que isso é uma revolução.

Anônimo disse...

Novidade nenhuma que você não viu misoginia nisso até agora, Lola, seu feminismo é moderado e liberal, nunca chega às raízes do problema e se recusa insistentemente em enxergar a realidade do patriarcado, a realidade dos homens.

Anônimo disse...

“Nossa “sociedade”, se não for desviada de seu percurso atual e se A Bomba não cair sobre ela, vai trepar e se foder até a morte.” Valerie Solanas

Anônimo disse...

Os homens já odeiam as mulheres, anônimo. Não vem aqui fazer propaganda capitalista em cima de ignorância, inverdades, mentiras e terrorismo tonto como você deve ter costume de fazer por aí. Aqui não cola.

lola aronovich disse...

Bom, anon das 19:13, o post é mais pra quem já leu o livro ou conhece a história. Mas vamulá: todos os personagens do livro precisam fingir o tempo todo porque são vigiados 24 hs por dia (Big Brother is watching you, o que torna a trama muito atual nesses tempos de internet em que as grandes corporações sabem tudo que falamos e compramos). Qualquer deslize e eles podem ser torturados e mortos, desaparecer como se jamais tivessem existido. Então uma das estratégias de Julia para fingir ser servil ao sistema é fazer parte de ligas de castidade. Ela usa uma faixa vermelha na cintura pra mostrar que é casta, já que sexo sem fins de reprodução é visto como algo bem subversivo. Só que, na vida secreta dela, Julia tem encontros sexuais há anos. Ela que procura os parceiros, ela que arruma os encontros, os lugares, tudo. Quando Winston vê Julia no dia a dia, pensa que ela é casta, e a odeia também por isso, por saber que nunca a terá. Uma das linhas que mais gosto em todo o livro é "Winston teve dificuldade em se concentrar pelo resto da tarde". Isso é depois que ele recebe o bilhetinho escrito "Eu te amo" de Julia!



Bocejos pra vc, mascutroll das 20:10 e 20:16 tentando se passar por feminista radical...

Anônimo disse...

20:10, 20:16 e 20:23, lolinha. O mesmo mascul ridículo!

MOBILIZASIRIUS disse...

Lola eu preciso ler de novo esse livro! Obrigado pelo texto. Eu, 25 anos atrás, entendi que essa misoginia (palavra e conceito desconhecidos por mim) eram apenas parte da construção do personagem anti humano. Ele tinha alguma coisa que me remetia ao ódio de um outro livro "Fome" do Knut hansun que, depois descobri, era nazi. Li os dois na adolescência.
Preciso ler "nós" do eugene zamiatin que, dizem, ser precursor de 1984. Um abraço, seu Blog continua sendo essencial sempre.

Anônimo disse...

o que é mascul?

Anônimo disse...

Lola obrigado por tirar a minha duvida sobre a liberação sexual da Julia ,já coloquei o livro na minha lista de leitura porque essas sacadas de prever um pouco o futuro da nossa sociedade é bem legal, apesar desse personagem principal ser bem antipático,como é um clássico vou ler.

Koppe disse...

(entendemos de verdade Thomas Morus se não soubermos que 1984 é uma de suas consequências)?

Utopia foi um dos poucos livros que abandonei a leitura pela metade. Sei que é um livro relevante e talvez eu devesse ter continuado, mas sempre ouvi que era a descrição de uma "sociedade perfeita" e perdi praticamente todo o interesse quando cheguei na parte que dizia que na suposta utopia ainda existiria escravidão.

Quanto a 1984, foi um dos primeiros livros que procurei na internet quando comecei a procurar ebooks pra ler, lá por 2000. Li com 15 ou 16 anos, na época recém tava começando a gostar de histórias em quadrinhos. Também não percebi misoginia no livro, pra mim pareceu só machismo do protagonista, acho que eu nem sabia a diferença.

Mas numa conversa com amigos bem depois, certa vez um amigo disse que o protagonista de 1984 era "um verme". Sei que esse amigo deve ter chegado a essa conclusão por outros motivos que não a misoginia, mas essa definição me pareceu certeira e de certa forma ainda parece, o protagonista de 1984 sob muitos aspectos parece alguém detestável. Machismo ou misoginia seria só um dos muitos defeitos, e a parte que narra pedaços da infância dele dá a entender que ele sempre foi assim, tornando difícil até amenizar a crítica dizendo que ele é assim porque as circunstâncias assim o fizeram.

A pessoa que comentou em 14:02 mencionou que em 1984 "só tem vilões". Acontece que aquele sistema descrito é tão ruim, tão horrível, que até alguém podre como o Winston parece menos ruim em comparação. Só por isso é possível enxergar ele como um "projeto de herói", na verdade ele seria apenas o "vilão menos ruim" entre as opções apresentadas.

donadio disse...

"Lola numa parte do texto vc disse que o protagonista via Julia assexuada e depois diz que ela teria tido vários encontros sexuais.Fiquei na duvida sobre se ela era liberada sexualmente ou casta."

Convinha ler o livro. Mas é tipo o seguinte: em 1984, foder é proibido. Então a princípio todo mundo é casto. Quem não é, tem que não ser às escondidas. Daí o protagonista vÊ Júlia como alguém que obedece à lei, e não sabe que ela faz exatamente o contrário.

ℭacilhας, ℒa ℬatalema disse...

Sempre achei que a misoginia de Winston fosse proposital, para compor o personagem. Nunca havia me tocado que pudesse ser um reflexo da misoginia do próprio Orwell. 🤔

Rafael Cherem disse...

Que texto bom!!!

Essa é a Lola muleque, a Lola de raiz, a Lola de várzea.

Anônimo disse...

A genial Sylvia Plath descreveu perfeitamente a imensa maioria das mulheres heterossexuais:

"Toda mulher adora um Fascista,
A bota na cara, o bruto"

Anônimo disse...

Senhora Arthur Hazlett: Vou comprar um presente de aniversário para o Urso Teddy. Esse é o meu nome de estimação para o meu marido, um objeto peludo e inanimado que eu abraço porque não há mais nada por perto para abraçar. Vou levá-lo um par de calças apertadas de foder com monograma; elas são calças toreador com uma fenda nelas. Eu faço-o usá-las quando fode, então eu não tenho que olhar para aquelas pernas grandes, peludas de macaco e aquela bunda magra. Eu quero comprá-las hoje, então ele as terá para o caso desta noite. Temos um caso todas as terças e sábados à noite de 12 a 12:02 e às vezes uma rapidinha da tarde. Tivemos uma esta tarde, mas eu tossi e perdi.

Bongi Perez: Experimente Smith Brothers.

Senhora Arthur: Se elas ficarem melhores no meu marido, eu levarei; tenho pensado em mudar um pouco. Este pedaço de foder realmente chega até você e te pega; ele fica no seu sangue. Você sabe, você chega ao ponto em que você pensa Foda. Todo o dia e a noite toda continuo sonhando com o Grande Fodedor. É uma obsessão. Eu finalmente cheguei ao ponto em que eu estava vendo fantasmas fodedores no céu. Eu estou pronta para ser uma verdadeira vadia; eu realmente quero viajar, realmente me mover.

Bongi: Mas todo o movimento estaria na sua bunda.

Sra. Arthur: Onde mais? Claro, eu gostaria de fazer algo radical e ousado – como pensar, mas você tem que fazer algumas concessões, se você quer viver em sociedade, então eu faço sexo e coleciono antiguidades; eu meio que gosto de coisas mofadas do passado.

Bongi: Você quer dizer como homens.

Sra. Arthur: Você pode dizer isso; os homens têm uma aura de natureza sobre eles; quando eles estão por perto Foda está no ar; é excessivo, avassalador, insuportável; isso te leva com ele, te atrapalha, te suga.

Bongi: Muito fodido o mundo em que vivemos. Meu único consolo é que eu sou eu - vivaz, dinâmica, solteira e uma estranha.

Sra. Arthur: Oh, você é uma dessas. Sempre quis conhecer uma dessas. O que diz de você e eu sairmos esta noite? Aposto que você seria uma amante louca.

Bongi: Na verdade, sou uma amante ruim – eu sou uma boa falante.

Sra. Arthur: Ah, vamos lá; aposto que você é um pacote estimulante de erotismo.

Bongi: Eu costumava ser, mas estou toda estimulada para fora. Eu decidi que quero viver nos meus pés, não na minha bunda. E, de qualquer forma, você não é meu tipo.

Sra. Arthur: Que pena; eu adoraria te ter sozinha.

Bongi: É por isso que você não é meu tipo; não posso ser obtida quando estou sozinha.

Sra. Arthur: Você quer dizer que gosta de fazer isso em público?

Bongi: Fazer o quê?

Sra. Arthur (exasperada): O que quer que é para ser feito.

Bongi: Alguma coisa sempre deve ser feita?

Sra. Arthur: Bem, isso coloca um pouco de energia na vida. Como diabos é que você gasta seu tempo, afinal?

Bongi: Bem, quando eu era criança, andava na rua; então fiquei mais sofisticada – eu passei a andar em bares; agora sou ainda mais sofisticada – ando na rua.

Sra. Arthur: Mas você não tem vida privada?

Bongi: Não há tal coisa.

Sra. Arthur: O que você é, uma Comunista ou algo assim?

Bongi: Eu sou muito uma pessoa das pessoas. Você sabe o que realmente me sacode e me vira? A verdade nua e crua, mulheres despudoradas, descoladas, indecentes, sórdidas, desagradáveis, orgulhosas, maliciosas, rancorosas, vingativas, o tipo que, quando ela entra numa sala, é como um flash ofuscante, anunciando sua presença ao mundo, de verdade, atrevida e pública. Se você se deparar com qualquer mulher que pareça com luzes de néon, envie-as para o meu caminho.

Sra. Arthur: Enviá-las para o seu caminho? De agora em diante eu estou no negócio para mim.

Anônimo disse...

Olha que caixa de comentário maos linda, culta, educada, cheia de opiniões e reflexões!!!

Uma jovem ace disse...

"Ele notou por que ele a odiava. Ele a odiava porque ela era jovem e bonita e ASSEXUADA, porque ele queria ir pra cama com ela e NUNCA IRIA, porque ao redor da sua doce e maleável cintura, que parecia pedir para que você a agarrasse com seu braço, havia apenas uma faixa escarlate, um odioso e agressivo símbolo de castidade"

Depois falam que acefobia não existe.

inquietar disse...

Bom, o que eu vou falar eu estou falando de memória, eu não reli o livro sobre essa perspectiva de misoginia. Mas bom, acho que vale a pena ponderar uma coisa. o que sempre me chamou atenção em 1984 é a ditadura asfixiante em que vivem os personagens. Tão asfixiante que é capaz de destruir qualquer traço de humanidade. A moral do livro é: nenhum sentimento sobrevive a nossa maquina de moer pessoas.


O auge dessa submissão do individuo pelo coletivo é a passagem final de Winston no Ministério do Amor. Mas ela não começa ali; começa nos exercícios forçados pela teletela, na inexistência de privacidade, nos rituais de violência, nos rituais de saudação ao big brother, na sexualidade moldada e regulada pelo estado. Trata-se de uma sociedade fundamentalmente fundada no ódio. Uma pessoa criada nessa sociedade asfixiante não deveria odiar?


Wiston também não tem amigos homens; ele não tem amigos. Ele não tem relacionamentos positivos com ninguém porque dentro da lógica do livro isso não existe naquela sociedade. Acho extremamente razoavel que o personagem odeie mulheres, e que faça isso tanto porque não pode te-las quanto por aquilo que elas provocam nele. Nesse contexto, qualquer vestígio de amor é uma dor profunda, é ir contra a programação que a sociedade te impôs (e ressalto, de novo, é uma sociedade extremamente invasiva e violenta).


Então, não vejo lá muito sentido nessa crítica (independente de quão machista o Orwel tenha sido em vida). Considerando o livro como um todo, as fantasias misoginas do Wiston fazem todo o sentido. Bem diferente do contro "o presidente negro" do monteiro lobato que é basicamente um amontoado de ideias racistas (tão racista, mas tão racista, que foi recusado até pelas pessoas da época).