segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

OS PERIGOS DE NÃO SE FALAR SOBRE SEXO EM CASA

Recebi este email de uma das minhas comentaristas atuais que mais gosto, a Kasturba:

Oi Lola. Descobri seu blog há 3 anos, e desde então leio quase diariamente. De vez em quando comento, e assino como Kasturba. Já refleti sobre muitos assuntos, e mudei muitos conceitos que eu tinha, graças aos seus textos. Obrigada!
Bem, estou te escrevendo pra contar um episódio triste que já passei na minha vida. O intuito não é me lamentar nem nada (já superei, e hoje em dia esse assunto já é passado), e sim, caso você ache interessante publicar, servir para reflexão de mães e pais que leiam seu blog, para evitar que o que aconteceu comigo aconteça com outras meninas.
Bem, inicialmente devo dizer que meus pais sempre foram muito dedicados, carinhosos e bons comigo. Sempre eu era prioridade pra eles, principalmente no que tange aos meus estudos. E de maneira recíproca, eu sempre fui uma ótima filha. Sempre estava entre as maiores notas da escola, era religiosa e inclusive participava das atividades jovens do meu templo religioso (visitas a hospitais e orfanatos, pedir alimentos de porta em porta, ajudava nas aulas de evangelização das crianças pequenas, etc). Além disso, eu nunca desobedecia meus pais, nunca mentia, e poucas vezes tive "discussões de adolescente" com eles. Enfim, eu era uma filha que orgulhava muito meus pais. 
Na nossa casa o diálogo sempre foi aberto, exceto sobre um tema: sexo! Quando eu tinha entre meus 6 ou 7 anos, minha mãe teve "a conversa", me explicando de onde nascem os bebês, e depois nunca mais tocamos nesse assunto. Todo o resto eu fui aprendendo na escola, na TV, ou depois de mais velha, na prática. Era como se esse tema não existisse. E agíamos sempre como se sexo fosse algo que não existisse. Eu entendia o recado, e pensava em sexo como algo promíscuo, em algo em que eu não deveria nem pensar, nem falar, e muito menos fazer.
Pois bem, aos 16 anos eu comecei a namorar o meu melhor amigo da escola. Ele também era um rapaz muito correto, da minha idade, com ótimas notas, religioso, educado, boa família... No início minha mãe achou engraçadinho, e o tratava muito bem (meu pai sempre teve "ciúmes", mas também sempre tratou meu namoradinho muito bem). Nos víamos na escola, e fim de semana sempre estudávamos juntos (estávamos nos preparando para um vestibular muito difícil), ou íamos ao cinema. 
Depois de alguns meses, meus pais começaram cada vez mais a "dificultar" nossos passeios, pois começaram a perceber que o namoro estava ficando sério, e o risco de que começássemos a pensar em sexo aumentava. Eu já não podia de maneira alguma ir na casa dele, mesmo que fosse junto a um grupo de amigos e com os pais dele presentes. 
Pra ir ao cinema, eu tinha que dizer o filme o horário, e meu pai me deixava na porta do shopping e me buscava na porta (inclusive teve uma vez que meu pai entrou na sala de cinema pra conferir se eu realmente estava lá), e já não podíamos mais estudar juntos. Apesar de não falarmos a palavra "sexo" na minha casa nunca, eu entendia muito bem que eu não poderia nunca pensar em fazer sexo. 
Mas acontece que, naturalmente, eu e meu namorado começamos a pensar no assunto, e a conversar sobre isso (como acredito ser perfeitamente natural em qualquer casal de namorados adolescentes, de qualquer orientação sexual). Ambos éramos virgens. Não sei se era algo realmente meu, ou se era culpa pelos meus pais, mas eu não me sentia preparada para fazer sexo com 16, e não queria. 
Mas meu namorado dizia que nos amávamos muito, que seria bom, e insistia bastante. Eu não tinha a menor ideia sobre consentimento, e não tinha ninguém para conversar sobre isso alem do meu namorado (sexo era tão tabu pra mim, que nem com as minhas amigas eu me sentia à vontade para conversar), que acabei cedendo. Achei que faríamos uma vez, ele ficaria satisfeito, e depois pararia de insistir. Eu não poderia estar mais enganada. 
Depois da primeira vez, ele sempre queria mais, porque agora eu já não tinha motivos pra não querer, afinal de contas, eu já não era mais virgem. 
E eu ficava sempre numa corda bamba: inventava desculpas pra não ir, mas de tempos em tempos eu tinha que "ceder". O sexo em si não era ruim, e ele era bem carinhoso comigo, mas eu me sentia tensa, com medo e muito culpada por estar mentindo para meus pais (pra fazermos sexo, eu dizia que ia ao cinema, e saíamos no início da sessão pra casa de uma tia dele que morava próximo ao shopping, e sempre viajava -- a empregada dava a chave pra ele). Além do mais, eu me sentia muito jovem pra transar.
Obviamente não usávamos nenhum método contraceptivo: primeiro, porque eu não tinha dinheiro pra comprar nada. Eu era adolescente, não trabalhava, e meu pai me dava dinheiro pro cinema, lanche da escola e só. Segundo, porque mesmo se eu arranjasse dinheiro, eu morreria de medo de guardar camisinhas ou caixa de anticoncepcional em casa (se minha mãe encontrasse, saberia que estávamos fazendo sexo, e nem sei o que aconteceria). 
Na casa dele também existiria o mesmo problema, pois nossos pais conversavam, e os dele contariam para os meus se achassem algo assim nas coisas dele. E terceiro, porque transávamos com tão pouca frequência, que eu achava que não havia chances de engravidar. 
Mas, aos 17, engravidei.
Minha menstruação sempre foi bem irregular, e eu negava para mim mesma os primeiros sinais (vômitos de manhã, etc), mas quando finalmente percebi que estava grávida, meu mundo caiu. Eu fiquei desesperada! A hora não poderia ser pior: ambos tínhamos acabado de passar no vestibular de uma faculdade do exército, dificílimo, que havíamos nos preparado tanto, mas que não aceitava jovens com filhos, ou meninas grávidas. 
O meu maior pânico não era perder a faculdade dos meus sonhos, ou "atrapalhar" a minha juventude -- meu único medo naquele momento seria como contar para os meus pais que isso havia acontecido. Eu ficava com a garganta seca só de pensar como eu contaria isso a eles. Eu sei que eles não me mandariam fazer um aborto (eles são bastante religiosos), mas eu simplesmente não conseguia imaginar a reação e o tamanho da decepção deles comigo. Eu era a "filha de ouro", como eu poderia ter traído eles dessa maneira, fazendo sexo?
Eu e meu namorado ficamos um tempo decidindo o que fazer, e as duas únicas hipóteses seriam fugir de casa para termos o bebê, ou fazermos um aborto sem o conhecimento dos nossos pais. Tentamos comprar Cytotec com aquela mesma empregada que dava a chave do apartamento da tia pra nós transarmos, mas ela nos vendeu comprimido falso. Depois de uma confusão envolvendo essa empregada, os pais dele acabaram descobrindo sobre a gravidez. 
Hoje que eu já sou adulta, não consigo acreditar na falta de decência dos pais dele: Em vez de procurarem os meus pais para contar o que estava acontecendo, eles me obrigaram a fazer o aborto! E nem tiveram a preocupação de me levar em uma clínica ou algo assim: o pai dele conseguiu os comprimidos de Cytotec e me mandou usar (engolir 2 e colocar 2 na vagina). 
No dia seguinte nada ainda tinha acontecido, e ele comprou mais e me mandou repetir a dose. E o mais grave de tudo: nesses dias meus pais já haviam viajado para o apartamento de praia, e eu havia ficado uma semana a mais na casa dos meus avós para fazer mais uma prova de vestibular. Exatamente nesse dia, eu iria viajar sozinha, de noite, para encontrar meus pais na praia. Quando eu estava no avião, senti as primeiras dores, fui ao banheiro e vi que já havia começado o sangramento, mas ainda leve. 
Cheguei na casa de praia, e no meio da noite acordei com cólicas fortes, e havia começado um sangramento intenso. Eu não tinha a menor ideia do que esperar. Me disseram que iria sair sangue, como uma menstruação normal, e depois sairia uma bolinha, que talvez eu nem visse. O que saiu foi um feto do tamanho da palma da minha mão, totalmente formado, e ficou pendurado em mim pelo cordão umbilical. 
Hoje imagino que eu deveria estar com 3 ou quase 4 meses de gestação. Eu cortei o cordão com as mãos, e depois de um tempo senti outra coisa saindo (hoje eu sei que era a placenta; naquela época eu nem sabia que isso existia). Foi uma experiência muito traumática pra mim. Felizmente não aconteceu nada além de trauma psicológico, mas hoje, pensando nisso, eu vejo o risco enorme que corri. Eu poderia ter morrido! Poderia ter uma hemorragia dentro do avião, sem ninguém conhecido junto de mim. 
Graças a Deus (ou à sorte, ao acaso ou o que quer que seja), eu sobrevivi a essa experiência. Hoje eu já consigo olhar pra isso e compreender, sentir pena e perdoar a adolescente assustada que eu era. Mas durante muitos anos esse era um assunto que me assombrava, e eu sentia muita culpa por ter "matado o meu bebê". E, não sei se tem algo a ver com esse ocorrido, mas eu estou tentando há alguns anos engravidar, e não consigo...
Eu não guardo raiva de maneira nenhuma dos meus pais, pois sei que eles me criaram da forma que achavam que era o melhor pra mim. Mas sei que se eles tivessem feito as coisas de modo diferente, eu não teria passado por isso tudo. Primeiro, se eu tivesse abertura para conversar sobre sexo com eles, eu teria mais noção sobre consentimento, e talvez tivesse decidido esperar um pouco mais, até me sentir mais madura, pra começar a transar com meu namorado. Ou talvez não, talvez decidisse transar naquela mesma época sim (mas sem ser por obrigação e sem o sentimento de culpa), mas iria ter acesso a métodos anticoncepcionais, em vez de ter medo de que "meus pais descobrissem". 
E, por fim, se mesmo assim eu ficasse grávida (por falha ou mau uso do método), eu poderia pedir o apoio dos meus pais, e teria realizado um aborto muito mais seguro (meus pais tinham condições financeiras para isso), ou então eu poderia mesmo ter optado por ter o bebê.
Essa ideia de que sexo é algo errado, pecaminoso, horroroso e inapropriado, é algo muito hipócrita. Adolescentes sentem curiosidade, e naturalmente pensam nesse assunto. É humano! É normal! É da natureza! Não é feio e nem pecado! Se os pais conversarem com seus filhos, e principalmente suas filhas, explicando tudo sobre o assunto, e dando abertura para que filhas e filhos tomem suas próprias decisões, ao invés de tratarem o assunto como algo promíscuo e proibido, ninguém mais vai precisar passar por episódios como esse que eu passei, que poderia ter tido consequências desastrosas.

32 comentários:

Sófia disse...

Ótimo texto Kasturba!Lendo o seu texto recordei que aos 17 anos conversando com a minha mãe um dia perguntei se ela fazia sexo oral, ou já tinha feito e o que achava. Ela ficou séria, me falou para não ficar falando besteira. Lembro-me que aproximadamente nessa época eu estava tendo minhas primeiras experiências sexuais com o namorado, e não conseguia conversar com ninguém, e minha mãe que sempre me pareceu tão aberta a qualquer assunto se fechou.

Acabou que comecei a ter quadros de febre, apareceram pequenas bolhas vermelhas no meu rosto e pescoço na minha boca e garganta, fiquei apavorada na época e chegando no posto de saúde o médico me perguntou se eu havia feito sexo oral sem camisinha no meu namorado, fato é que eu tinha feito, eu era nova e meu namorado usava aquele jogo do "Se usar a camisinha eu não sinto nada...", mas não tive coragem de falar.

Após alguns exames, o médico me disse que era catapora e me deu a receita de alguns medicamentos e seguindo o tratamento prescrito em pouco tempo os sintomas desapareceram. Dez anos depois, hoje, lendo esse texto e tendo essa recordação fico pensando no quanto as coisas podem se tornar mais fáceis se os pais conversarem com os filhos sobre tudo.

Falar sobre sexo é muito natural, e eu acho que devia ser mais natural ainda, os pais deviam conversar com os filhos, os casais deviam falar mais sobre sexo entre si, os professores deviam falar mais sobre sexo nas escolas, o diálogo melhora tudo, transforma as pessoas.

O acesso a informação é enorme mas mesmo assim, ainda falta muito. Falta quebrar o tabu que ainda existe em torno do sexo, das DST's, afinal, o que as pessoas temem tanto?



Guidi Vieira disse...

Ótimo texto. Penso nisso há anos (na gravidade do não falar sobre sexo com os filhos) e este texto ilustra muito bem as consequências de tratar sexo como tabu. Desejo tudo de melhor à autora.

Anônimo disse...

E os pais dela? Não sabem dessa história até hoje? Não notaram nada na casa de praia?

Viviane disse...

Obrigada, Lola, por ter publicado o relato da Kasturba. Há algum tempo, leitoras, eu inclusa, havíamos sugerido. De fato, uma discussão muito importante.

Anônimo disse...

Esse relato exemplifica tanta coisa que as pessoas devem ter o cuidado de pensar... É realmente como se fosse um exemplo perfeito e real de porquê deve-se falar de sexo, sexualidade e esses temas tabus em geral.
Espero que esteja bem hoje, Kasturba!

Kasturba disse...

Isso. Até hoje (quase 15 anos depois) meus pais não sabem sobre isso.
Eles não perceberam nada. Era de noite, eu me levantei pra ir ao banheiro, e depois voltei para o meu quarto. Eles estavam na suíte do apartamento, e não ouviram nada.
Fiquei por um mês sangrando, mais forte que minha menstruação normal. Mas eles também não perceberam (e nem teriam como perceber). Eu não costumava descer pra praia, ficava mais no apartamento mesmo, então eles não acharam nada estranho eu não ter colocado biquíni e entrado no mar nenhuma vez.
Já pensei em conversar sobre isso com a minha mãe, mas acho que é algo que só vai deixá-la triste, talvez com o sentimento de haver "falhado" como mãe, e não vai acrescentar nada de bom pra ninguém. Então acho melhor manter em segredo mesmo.

Kasturba disse...

Ah, Lola, e acrescentando algo que esqueci de mencionar no email: os pais desse meu namorado eram "pessoas de bem, religiosas, pró-vida". Mas não pestanejaram ao decidir matar o "fetinho que merece viver" que se tornaria netinh@ deles, e nem ao arriscar a minha vida para se livrarem do "problema" que seria seu filho se tornar pai-adolescente.

Anônimo disse...

Me deu um nó na garganta lendo isso...Eu sinto muitíssimo Kasturba! Não te conheço mais me doeu pensar em você tão assustada e acuada, passando por isso sozinha =,(
Nenhuma menina/mulher deveria passar por isso. Nenhuma menina/mulher deveria ter medo, se envergonha e esconder sua sexualidade.

Imaginem só o quanta desgraça seria evitada e como a vida de todos seria infinitamente mais fácil e feliz se sexo não fosse esse imenso tabu...

Jane Doe

Guidi Vieira disse...

Essa informação é muito importante. Mostra o quanto a hipocrisia passa por cima de tudo, e o quanto esses cidadãos de bem (normopatas) têm medo de falar sobre a vida e as consequências de se viver. Triste.

João Paulo Ferreira de Assis disse...

Prezados comentaristas

Eu li o texto do post, em que a Kasturba se abriu. E dou a ela toda a razão. Os pais precisam, sim, conversar com os filhos sobre sexo. Meus pais de criação também não conversavam comigo, e um dia meu pai me disse para respeitar as barbas brancas dele, mas ele não deixava de frequentar a zona. Incoerência, não?

Vou aqui narrar um caso de 31 anos atrás, ocorrido em 1986, e que me foi narrado a mim e a outros professores por uma professora que nesse tempo era aluna da 8ª série. Três alunas regressavam para sua casa. Uma delas contou às suas colegas, que havia ''perdido'' a virgindade, por ter dado um beijo na boca de um dos colegas. Ela estava apavorada, cheia de culpa, e instando para que suas colegas não a delatassem para sua mãe. Outra colega então disse: Minha mãe fala que quando a moça perde a virgindade ela passa a ter incontinência urinária. A narradora nos revelou que ao ouvir o comentário da outra colega, teve um frouxo de riso, riu tanto, que sentiu a calcinha molhada.

A mim me parece que as mães deveriam ter dito a verdade às suas filhas, que assim evitariam o sentimento de culpa da mocinha que osculou o colega.

Kasturba receba minha solidariedade.

João Paulo Ferreira de Assis.

Anônimo disse...

(...)os pais desse meu namorado eram "pessoas de bem, religiosas, pró-vida".

Cada vez mais eu me convenço de uma coisa: os mais ferrenhos defensores das pobres criancinhas são os primeiros a recorrerem imediatamente ao "abominável assassinato de mórulas" quando a mórula vai parar no útero de suas esposas/filhas/noras.

E os mais ferrenhos defensores do aborto seguro são aqueles que provavelmente nunca precisarão ou nunca fariam um.

Jane Doe

Anônimo disse...

Kasturba, sinta se abraçada por mim, ja passei por uma situaçao de aborto e sei como è doloroso e marcate em nossas vidas. Bom, eu as duas vezes em minha vida que eu perguntai sobre sexo com a minha mae, ela me mandou calar a boca . Me lembro de um episodio em que (tinha uns 17 anos) falando ao telefone com uma amiga surgiu aquela piada, ( nossa, fez 18 anos pode ir no motel), nossa! Nossa!!! Depois que eu desliguei o telefone.... Hoje com 33 anos e uma filhotinha, as experiencias ruins que tive e a falta de conselhos dela sao coisas para se reflitir...... Nao quero que se repita com a minha filha. Se minha mae tivesse me dito tantas coisas la no passado (suspiros)......

bjossssss,
Rama :)

Anônimo disse...

Os pais do rapaz foram bem feministas, mas erraram ao não comunicar nada aos pais da moça.

Andressa Resende disse...

anônimo das 19:20 não os pais d moça não foram nada feministas, eles OBRIGARAM uma menor de idade assustada com medo e que estava desesperda a abortar por por que eles não queriam um neto e achavam que isso ia estragar a vida do filho deles . Uma atitude de pais feministas e humanos seria conversar com ela, tirar dúvidas,dar informações, oferecer apoio, mostrar opções, fazê-la pensar em que opção ela escolheria, no quê ela realmente quer (não o que quewr fazer por estar desesperada com medo dos pais) e a apoiado na decisão fosse fazer um aborto ou ter um filho e poderiam a ter ajudado a conversar com os pais. E outra um aborto ilegal vc corre risco de vida, vc sangra e pode ter que ir pro hospital pessoas com o mínimo de humanidade e preucupação com o outro (no caso ela) não a deixariam sozinha depois de ter tomado um cytotec ainda mais viajando

Kasturba disse...

Eles não foram feministas. Eles agiram exatamente como a maioria dos "pró-vida" agem: Pregar uma coisa e fazer outra.
Foram covardes e colocaram a minha vida em risco para "se livrar de um problema".
Eles não conversaram comigo e com o filho deles explicando as consequências e riscos de cada uma das opções pra nos ajudar a tomar uma decisão: Eles simplesmente disseram que eu tinha que fazer um aborto e me mandaram usar os comprimidos. E o pior, ambos eram da área de saúde (dentistas), então nem poderiam alegar "desconhecimento dos riscos envolvidos". Eles sabiam que eu poderia morrer ao usar cytotec,ainda mais estando sozinha, mas não estavam nem aí pra isso. Sabiam que se houvesse alguma complicação durante a viagem, eu não teria nem como pedir ajuda. Mas a única preocupação deles era se livrar da gravidez, não interessando o que aconteceria comigo.

A única atitude decente seria informar meus pais (eu era menor de idade), e aí sim conversarem (juntos de mim e o meu namorado) sobre o que fazer. Se a melhor opção fosse o aborto, me garantir um aborto seguro, com um médico (meus pais e os pais do meu namorado tinham condições financeiras pra isso).
Acho que o medo deles era meus pais descobrirem e acabarmos decidindo ter o bebê. Porque eu estava cogitando o aborto somente por medo de meus pais descobrirem que eu não era mais virgem. Se eles já soubessem, minha maior motivação para abortar acabaria, e seria possível que eu decidisse manter a gestação e ter um filho (eu era bem religiosa nessa época tb, assim como meus pais).
Eles usaram meu medo pra me manipular e resolver o problema deles.

Anônimo disse...

Pois é Kasturba. Por isso que sou a favor do aborto em qualquer caso até o terceiro mês de gestação. Por isso crítico tanto os moralistas religiosos que são contra o aborto. Eles são contra o aborto quando lhes convém. Vale lembrar a pesquisa já colocada aqui no blog que mostrou o perfil das mulheres que abortam: casadas e católicas. Pra quem pensava que as grandes abortistas do mundo eram as feministas. Esse povo só quer controlar é a vida dos outros. Grupos religiosos pró-desgraça feminina.

Anônimo disse...

Concordo, Jane Joe. Sou uma ferrenha defensora do aborto seguro em qualquer caso, mas eu só o faria em caso de estupro e risco de vida para mim. O que defendo é o direito da mulher que carrega o feto em seu útero decidir se quer levar a gravidez adiante. É diferente desses malditos grupos pró-desgraça feminina que nunca defenderam a escolha mas sim a imposição autoritária de levar a gravidez até o fim. Essa gente só tem o desejo perverso de acabar com a vida da mulher, de julgar o comportamento sexual da mesma. Uma pesquisa recente mostrou que muitas pessoas acham que quem faz aborto deve ser denunciado a polícia. Isso quando é alguém de quem não é próximo. Quando é alguém com quem tem proximidade grande parte não denunciaria. Ou seja, pau só no rabo dos outros!

Luise Mior disse...

Kasturba, parabéns pela coragem de tratar desse assunto. Realmente, pais precisam conversar com os filhos e filhas sobre sexo e cuidados. A hipocrisia reinante é um dos nossos principais problemas tupiniquins. Por isso que digo sem pestanejar: Lola, teu blog deveria ser leitura obrigatória para todas e todos evoluírem. Nunca poderei agradecer o suficiente por todas as aberturas que me proporcionaste. Desejo tudo de melhor para ti e para Kasturba. Cuidem-se e continuem arrasando! Até breve ;)

titia disse...

Minha solidariedade, Kasturba, e minha admiração imensa pela sua força e coragem. Concordo com a Jane Doe, muitas mortes, estupros, abusos, gravidezes indesejadas e violência contra crianças seriam evitadas se sexo não fosse tabu - e só porque eu gosto de esfregar sal nas feridas, vou lembrar à reaçada presente que a culpa de sexo ser esse tabu todo é da religião cristã (católica ou evangélica, não interessa, as duas tem culpa). Infelizmente esse maldito obscurantismo machista só vai sumir quando os brasileiros deixarem de ser criancinhas preguiçosas e passaram tanto a pensar com a própria cabeça quando a assumir responsabilidade pelo que faz.

Eu recomendo esse post especialmente pra todos os hipócritas que protestam contra educação sexual nas escolas dizendo que os pais é quem tem que ensinar. E aí, macacada machista, o que a gente faz quando os pais não educam? Mutirão de castração coletiva?

Anônimo disse...

Os pais do rapaz não foram feministas, babaca. Feministas não bancam religiosos pró-desgraça alheia. Feministas são pró-escolha da mulher que carrega o feto. Mas também são a favor que as mulheres sejam informadas sobre sexo, sobre anticoncepcionais e sobre aborto seguro. Infelizmente para as mulheres pobres não existe aborto seguro. Elas continuam abortando com grande risco para suas vidas. E elas não vão parar.
Os pais do rapaz talvez sejam bem parecidos contigo!

Anônimo disse...

É bem triste essa realidade! Aqui no Brasil ainda temos muito preconceito e machismo para falar sobre sexo sobretudo com as meninas! Minha mãe quando descobriu que eu estava beijando ( veja bem apenas beijando ) meninos apenas ficou muito brava e disse que eu ia me tornar uma putinha e que os caras não iam mais me querer, que ia ficar rodada. Graças a Deus no outro ano passei em um vestibular fora da minha cidade e pude desenvolver minha sexualidade longe dos olhares da minha família, infelizmente para mim.

Anônimo disse...

Que bom que você teve lucidez para lidar com isso e obrigada alertar, a partir de uma história tão dolorida, o quanto é importante manter o debate aberto e sem preconceitos sobre sexo, sexualidade e gênero nas famílias, mas também na escola.
Muito se fala sobre a apropriação da escola de valores que "seriam" familiares. Mas isso me lembra muito a história do pai que foi repreendido pelo filho que disse "não se grita dessa forma com uma criança, você tem que me explicar". Penso que uma educação sexual competente na escola (assim como no caso que exemplifiquei, fez o pai refletir sobre sua violência) pode influenciar positivamente as famílias e evitar que histórias como essas se repitam.
Fabi.

Alessa disse...

É triste como as histórias se repetem.
Minha engravidou e teve meu irmão aos 17 anos. Teve uma gravidez indesejada e passou a vida se culpando por ter "atrapalhado os planos de Deus para a vida dela." Quando eu tinha 9 anos me mostrou um livro que falava sobre sexo para crianças e nunca mais tocou no assunto. Éramos de uma família evangélica extremamente conservadora, mas que se achava muito distinta e do bem. Eu era proibida de namorar. Meu irmão podia sair com quem quisesse e quando quisesse. Por causa de uma educação machista e misógina, tornou-se um adulto irresponsável e egoísta que até hoje, aos 42 anos, depende da minha mãe pra bancar o aluguel e despesas de casa. É mentiroso, trapaceiro e covarde, mas ainda assim conta com o apoio de muita gente. Eu fui proibida de namorar até os 19 anos, sendo que com 17 já estava na faculdade. Eu morria de medo do que Deus faria comigo se eu desobedecesse, já que sofria tortura psicológica para nunca pensar em sair da igreja e contestar o que os irmãos da igreja e meus pais diziam. Me tornei uma pessoa insegura, depressiva, amedrontada. Sofri abuso sexual de um pastor evangélico, e quando resolvi buscar ajuda e abri meus olhos para a violência e hipocrisia que praticavam nas igrejas, a maioria me condenou. Minha vida melhorou muito depois de conhecer o feminismo, mas as feridas continuam por aqui. Até hoje sofro com a pressão e loucura da minha mãe, que não conhece uma vida fora da igreja e das atrocidades que aprendem por lá.

Anônimo disse...

Que bom que vc saiu desse meio. Mas cada um, inclusive tua mãe são responsáveis por suas próprias vidas. Se eles acham que lá está bom então que fiquem lá e sofram as consequências de viver a religião de modo tão fanático. O que importa é que vc não tem mais que sofrer por causa deles.

Anônimo disse...

Calma, eu disse que são feministas pq eles apoiaram o aborto, só isso!

Claro, para ser feminista de verdade, os pais deveriam ter chamado os pais da moça para debaterem qual decisão tomariam, essa questão deve ser problematizada e não uma decisão unilateral - isso sim seria feminismo.

Kasturba disse...

Anônimo, você está fazendo confusão. Fazer ou participar indiretamente de um aborto, não torna ninguém mais ou menos feminista. Se fosse assim, grande parte dos "pró-vida" seriam feministas, porque geralmente eles são os primeiros a sugerirem (ou imporem) um aborto às suas amantes.
Feminismo é você acreditar que A DECISÃO É DA MULHER QUE CARREGA O FETO. Feministas dão suporte à mulher, respeitam sua decisão e, caso a decisão seja o aborto, buscam formas de que essa pratica aconteça da forma mais segura possível.
Nesse caso, os pais do meu namorado não respeitaram minha decisão. Na verdade, eu não tomei decisão nenhuma, porque eu estava com muito medo, e tudo que eu queria era não precisar contar para os meus pais sobre a gravidez. Eles não me perguntaram nada, não me explicaram nada, não tentaram me acalmar. Simplesmente compraram os comprimidos abortivos e me disseram pra usar. E não tiveram um pingo de preocupação se isso iria fazer mal para mim. Eles só queria se livrar do feto. Se eu morresse, tanto faz. Isso não é, nem de longe, uma atitude feminista.

Anônimo disse...

Se você pensar um pouco é fácil concluir que grande parte desses direitosos que andam com a bíblia debaixo do braço ou já pagaram um aborto para a namorada (vagabunda) do filho, ou para a própria amante (interesseira). Isso não faz deles feministas.

Anônimo disse...

Kasturba, obrigada pelo relato. Precisamos não fazer do sexo um tabu, e precisamos não apenas para que não deixemos de morrer e sofrer, mas também para ter uma vida sexual sadia e feliz.

Espero que você fique bem, e que seja dentro de muito em breve uma mãe maravilhosa.

Marcia.

Paola disse...

Sinta meu abraço... Gostei de ver o seu psicológico super bom, forte....
Mas o q aconteceu depois? Vc e esse namorado continuaram?

Anônimo disse...

Que história horrível.

Kasturba disse...

Logo depois nos mudamos de cidade, pra essa faculdade que estávamos estudando. Ele, que era "ciumento", ficou descontrolado. Me proibia de falar com qualquer homem, controlava minhas roupas, me agredia verbalmente. Ficamos namorando por mais um ano depois que nos mudamos (ao todos foram 3 anos de namoro), e finalmente consegui terminar o namoro, quando as atitudes dele estavam beirando a me agredir fisicamente...

Kasturba disse...

Sofia, Guidi Vieira, Jane Doe, Joao Paulo, Rama, Luise, titia, Marcia, Paola e Anônimos: Obrigada pela solidariedade, abraço, etc...
Estou bem sim! Esse episódio já foi superado! :)

Na realidade, durante muitos anos eu me senti uma pessoa horrível por ter feito um aborto. Me sentia como uma mulher desprezível, por não ter amado esse feto desde quando soube de sua existência, e por não ter feito o que estava ao meu alcance pra impedir o aborto (no caso, ir contra os pais do meu namorado). Sentia muita vergonha, e não falava sobre esse assunto de forma alguma.
Foi aqui, com os textos da Lola e os comentários de todas, que fui vendo que, não, não é porque eu nasci mulher que eu necessariamente tenho que achar uma bênção uma gestação em qualquer fase da minha vida. Não é porque eu sou mulher que eu tenho que colocar a maternidade como prioridade, à frente de todos meus outros desejos e planos. Não é porque eu sou mulher que eu tenho que sentir vergonha de não desejar um filho, e querer interromper uma gestação.

No meu caso em particular, eu nem tive o poder da escolha - ele foi retirado de mim pelos pais do meu namorado. Mas mesmo que a escolha tivesse sido minha, e eu tivesse optado por fazer o aborto, eu estaria no meu direito (ou deveria estar - infelizmente a reaçada do Brasil tomou esse direito natural das mulheres) e não deveria, de forma alguma, me sentir mal ou envergonhada por ter colocado a minha própria vida como minha prioridade (e não a vida de um filho ainda inexistente).

Graças ao feminismo, eu consigo olhar para esse episódio e para mim mesma com outros olhos. Como não canso de agradecer, obrigada mais uma vez, Lola! <3