sexta-feira, 31 de março de 2017

FIGURINISTA DENUNCIA JOSÉ MAYER POR ASSÉDIO SEXUAL

Reproduzo aqui o aqui o relato da figurinista Su Tonani, publicado hoje na coluna Agora é que são elas, da Folha (já foi deletado. Por quê?).
Su em foto de viagem
Como José Mayer é uma celebridade, um nome nacionalmente conhecido, a denúncia de Su vai dar muito o que falar. Ela conta que o ator, que fez fama e fortuna principalmente por interpretar garanhões (muitas vezes misóginos) nas novelas, a assediou durante meses nos camarins da Globo. Apesar de Su deixar claro que não queria nada com ele -- quase quarenta anos mais velho que ela --, ele continuou. 
Culminou quando, em fevereiro deste ano, na frente de duas outras mulheres (que acharam engraçado e não falaram nada), o ator pos a mão na vagina de Su. Aí já não é nem mais assédio, é estupro mesmo. Poucos dias depois, num set com trinta pessoas, Mayer a ameaçou de tocá-la novamente caso ela não voltasse a falar com ele. Ele a xingou de "vaca". Todo mundo viu. Essa foi a gota d'água para Su que, com muita coragem, decidisse denunciá-lo. 
Vamos ver o que a Globo vai fazer. Vai abafar o caso? Vai punir a vítima? A Globo é uma empresa como outra qualquer. Se uma funcionária denuncia assédio, isso precisa ser investigado. E a empresa precisa tomar uma atitude. De preferência, uma atitude exemplar que desestimule outros homens (porque são quase sempre homens) a agirem da mesma forma.
Notícia de 3 de março de 2017
A denúncia, na realidade, veio à tona no início de março, ainda sem identificação da vítima. Na ocasião, havia a notícia de que uma outra funcionária havia pedido demissão após ter sido agarrada à força pelo ator no camarim. A Globo se manifestou, dizendo: "O desrespeito no ambiente de trabalho não é tolerado pela emissora. A Globo não comenta assuntos internos". 
Cartaz em protesto feminista contra
cultura de estupro: Não tem a ver
com libido, tem a ver com poder
Su sabe muito bem que será acusada de oportunista e mentirosa. Se já não é nada fácil denunciar assédio e estupro cometidos por homens comuns, fica mais difícil ainda quando o algoz é um galã famoso. Afinal, na imaginação popular, ator e personagem se fundem. As pessoas acreditam que José Mayer pode ter qualquer mulher que quiser. É o que dizem sempre que uma mulher denuncia estupro de um cara famoso, bonitão (pense em Bill Cosby, cujo número de vítimas já ultrapassou 58) -- por que ele a estupraria? Todas as mulheres querem dar pra ele, ele não precisa disso. É até uma honra pra ela ser assediada por Mayer!
Esse senso comum e extremamente ignorante é o mesmo que acha que só mulher jovem e bonita é assediada e estuprada. Porque, prum monte de gente, estupro é a manifestação natural e incontrolável do instinto masculino (veja que quem diz isso não são as feministas, e sim a sociedade machista. É quem é acusada de odiar homens?), e não um desejo de poder e humilhação. 
Toda a sororidade a Su Tonani. Nós feministas vamos acompanhar essa história. 

JOSÉ MAYER ME ASSEDIOU 
Por #AgoraÉQueSãoElas 
Por Su Tonani

Eu, Susllem Meneguzzi Tonani, fui assediada por José Mayer Drumond. Tenho 28 anos, sou uma mulher branca, bonita, alta. Há cinco anos vim morar no Rio de Janeiro, em busca do meu sonho: ser figurinista.
Qual mulher nunca levou uma cantada? Qual mulher nunca foi oprimida a rotular a violência do assédio como “brincadeira”? A primeira “brincadeira” de José Mayer Drumond comigo foi há 8 meses. Ele era protagonista da primeira novela em que eu trabalhava como figurinista assistente. 
E essa história de violência se iniciou com o simples: “como você é bonita”. Trabalhando de segunda à sábado, lidar com José Mayer era rotineiro. E com ele vinham seus “elogios”. Do “como você se veste bem”, logo eu estava ouvindo: “como a sua cintura é fina”, “fico olhando a sua bundinha e imaginando seu peitinho”, “você nunca vai dar para mim?”.
José Mayer como Tião na novela
A Lei do Amor
Quantas vezes tivemos e teremos que nos sentir despidas pelo olhar de um homem, e ainda assim – ou por isso mesmo – sentir medo de gritar e parecer loucas? Quantas vezes teremos que ouvir, inclusive de outras mulheres: “ai que exagero! Foi só uma piada”. Quantas vezes vamos deixar passar, constrangidas e enojadas, essas ações machistas, elitistas, sexistas e maldosas?
Pai e filha: José Mayer e Julia Fajardo
em 2014
Foram meses envergonhada, sem graça, de sorrisos encabulados. Disse a ele, com palavras exatas e claras, que não queria, que ele não podia me tocar, que se ele me encostasse a mão eu iria ao RH. Foram meses saindo de perto. Uma vez lhe disse: “você é mais velho que o meu pai. Você tem uma filha da minha idade. Você gostaria que alguém tratasse assim a sua filha?”
A opressão é aquela que nos engana e naturaliza o absurdo. Transforma tudo em aceitável, em tolerável, em normal. A vaidade é aquela que faz o outro crer na falta de limite, no estrelato, no poder e na impunidade. Quantas vezes teremos que pedir para não sermos sexualizadas em nosso local de trabalho? Até quando teremos que ir às ruas, ao departamento de RH ou à ouvidoria pedir respeito?
Em fevereiro de 2017, dentro do camarim da empresa, na presença de outras duas mulheres, esse ator, branco, rico, de 67 anos, que fez fama como garanhão, colocou a mão esquerda na minha genitália. Sim, ele colocou a mão na minha buceta e ainda disse que esse era seu desejo antigo. Elas? Elas, que poderiam estar eu meu lugar, não ficaram constrangidas. Chegaram até a rir de sua “piada”. Eu? Eu me vi só, desprotegida, encurralada, ridicularizada, inferiorizada, invisível. Senti desespero, nojo, arrependimento de estar ali. Não havia cumplicidade, sororidade.
Mas segui na engrenagem, no mecanismo subserviente.
Nos próximos dias, fui trabalhar rezando para não encontrá-lo. Tentando driblar sua presença para poder seguir. O trabalho dos meus sonhos tinha virado um pesadelo. E para me segurar eu imaginava que, depois da mão na buceta, nada de pior poderia acontecer. Aquilo já era de longe a coisa mais distante da sanidade que eu tinha vivido.
José Mayer em A Lei do Amor
Até que nos vimos, ele e eu, num set de filmagem com 30 pessoas. Ele no centro, sob os refletores, no cenário, câmeras apontadas para si, prestes a dizer seu texto de protagonista. Neste momento, sem medo, ameaçou me tocar novamente se eu continuasse a não falar com ele. E eu não silenciei.
“VACA”, ele gritou. Para quem quisesse ouvir. Não teve medo. E por que teria, mesmo?
Chega. Acusei o santo, o milagre e a igreja. Procurei quem me colocou ali. Fui ao RH. Liguei para a ouvidoria. Fui ao departamento que cuida dos atores. Acessei todas as pessoas, todas as instâncias, contei sobre o assédio moral e sexual que há meses eu vinha sofrendo. Contei que tudo escalou e eu não conseguia encontrar mais motivos, forças para estar ali. A empresa reconheceu a gravidade do acontecimento e prometeu tomar as medidas necessárias. Me pergunto: quais serão as medidas? Que lei fará justiça e irá reger a punição? Que me protegerá e como?
Sinto no peito uma culpa imensa por não ter tomado medidas sérias e árduas antes, sinto um arrependimento violento por ter me calado, me odeio por todas às vezes em que, constrangida, lidei com o assédio com um sorriso amarelo. E, principalmente, me sinto oprimida por não ter gritado só porque estava em meu local de trabalho. Dá medo, sabia? Porque a gente acha que o ator renomado, 30 e tantos papéis, garanhão da ficção com contrato assinado, vai seguir impassível, porque assim lhe permitem, produto de ouro, prata da casa. E eu, engrenagem, mulher, paga por obra, sou quem leva a fama de oportunista. E se acharem que eu dei mole? Será que vão me contratar outra vez?
José Mayer em Presença de Anita, 2001
Tenho de repetir o mantra: a culpa não foi minha. A culpa nunca é da vítiva. E me sentiria eternamente culpada se não falasse. Precisamos falar. Precisamos mudar a engrenagem.
Não quero mais ser encurralada, não quero mais me sentir inferior, não quero me sentir mais bicho e muito menos uma “vaca”. Não quero ser invisível se não estiver atendendo aos desejos de um homem.
Su Tonani, mulher de coragem
Falo em meu nome e acuso o nome dele para que fique claro, que não haja dúvidas. Para que não seja mais fofoca. Que entendam que é abusivo, é antigo, não é brincadeira, é coronelismo, é machismo, é errado. É crime. Entendam que não irei me calar e me afastar por medo. Digo isso a ele e a todos e todas que, como ele, homem ou mulher, pensem diferente. Que entendam que não passarão. E o que o meu assédio não vai ser embrulho de peixe. Vai é embrulhar o estômago de todos vocês por muito, muito tempo.

UPDATES: A Folha disse ter removido o relato da Su porque feria o regulamento de não ouvir o outro lado. 
Agora no final da tarde José Mayer se pronunciou: negou tudo, óbvio, e disse que estava sendo denunciado pelo comportamento machista de seu personagem. Uma péssima desculpa.
A atriz Leticia Sabatella, que já trabalhou duas vezes com Mayer, se posicionou no Facebook. Colocou o texto de Su e disse que "José Mayer não se emenda", sugerindo que isso aconteceu outras vezes, com outras mulheres. 
Aqui e ali pipocam casos de mulheres que ainda não querem falar, mas minha aposta é que elas vão aparecer. A atitude de Mayer com a figurinista é típica de quem faz isso com frequência, e há tempos. 
Hoje, a partir das 20:45, durante a novela, vamos fazer um tuitaço chamado #JoseMayerAssedio. Participe! Mexeu com uma, mexeu com todas!
Pedi ao ator José de Abreu, sempre atuante e acessível no Twitter, uma declaração do que acha desse caso todo, e ele respondeu:

"Eu acredito na Su. Eu fiz umas 4 novelas com o Zé [José Mayer], adoro ele, e nunca vi nada disso. Vi, sim, ele fazer brincadeiras picantes, comuns na nossa geração careta e machista, e nunca nesse nível que ela diz. Mas o depoimento é muito contundente. Ela teria que ser muito boa ficcionista para escrever aquilo sem ter sido verdade. A defesa do Zé, sinto muito, deve ter sido ideia de advogado, é primária; a censura da Folha mais primária ainda, tocou fogo na internet. E o final, segundo a Su, foi na frente de 30 pessoas! Alguém certamente vai dizer a verdade. Eu sinto muito o acontecido, admiro muito os dois, e estou sofrendo muito com isso".
Leia mais sobre o caso: Vitória das mulheres no caso do assédio de José Mayer. E um update sobre a "reviravolta". 

quinta-feira, 30 de março de 2017

MASCU COMPARA MULHER NÃO VIRGEM A PASTEL MORDIDO

Anteontem eu vi num fórum mascu uma daquelas pérolas deles, e a reproduzi no tuíte acima. 
As respostas foram muito divertidas. Selecionei algumas pra mostrar que o humor pode ser uma arma competente no combate à ignorância.

quarta-feira, 29 de março de 2017

ALUNA REAÇA E ANTI-FEMINISTA PROCESSA PROFESSORA FEMINISTA

Assim que li a notícia sobre uma ex-aluna da Udesc que está processando uma professora por dar aulas sobre feminismo numa disciplina (o curso se chama História e Relações de Gênero, o que a aluna esperava?), desconfiei de quem se tratava. Fui pesquisar e pimba!, é ela mesma (a aluna, não a professora).
A primeira vez que ouvi falar na moça reaça foi há alguns anos, quando um leitor me enviou um link para uma postagem no Facebook dela em que ela perguntava quem era mais bonita, eu ou ela. Devo ter comentado algo no meu Twitter sobre a insensatez de uma moça se comparar comigo, que tenho o dobro da idade, como se estivéssemos disputando alguma coisa. Acho que ela deletou o post em seguida.
Um tempo depois, chegou a mim um vídeo dela no YouTube em que ela era entrevistada por algum outro reaça sobre feminismo. Não lembro muito sobre o vídeo, sinceramente (ela o retirou do ar), apenas que ela despejava incontáveis bogagens sobre um assunto que ela claramente não conhecia. O que foi inesquecível foram duas coisas: o entrevistador abrindo a entrevista dizendo que iria chamá-la de "Doutora" -- "porque pra mim você é doutora", justificou ele --, e a "doutora" afirmando que o papel da mulher era cuidar do marido e dos filhos e, que, assim que ela se casasse, iria abandonar a profissão para seguir a vocação de toda mulher.
Pois é, essa moça tinha -- tem -- profissão. Ela é professora de História em Santa Catarina. Ensina a seus alunos de oitava série o que aprendeu com o tutor Olavo de Carvalho: que o nazismo foi um movimento de esquerda. Em 2013, ela mesma postou, orgulhosa, a redação de uma aluna sua. 
Depois, vi que ela era uma das organizadoras de uma página no Facebook chamada Musas Olavettes. Na página, havia várias fotos de mulheres de direita que adoram o astrólogo, digo, o sociológo e guru da extrema direita nacional. Creio que a página não sobreviveu muito tempo. Pode ter sido por que o número de "musas olavettes" era bem restrito.
Nessa época, ouvi falar que essa moça era mestranda em História na Udesc, e que sua orientadora havia decidido que não queria mais orientá-la. Não acompanhei o que aconteceu, se a aluna encontrou outro orientador ou se saiu da Udesc. Até que me chega a notícia do processo.
Parece que não é bem assim. Não é exatamente que a aluna está processando a professora (que era também sua orientadora) por lecionar aulas de feminismo. Está processando por danos morais e materiais por perseguição ideológica, doutrinação e intimidação. A professora processada é comprometida e respeitada, e várias entidades, como o Departamento de História da Udesc, a Andes (Sindicato Nacional de Docentes do Ensino Superior), a Anpuh (Associação Nacional de História), e o Instituto de Estudos de Gênero da UFSC, e a ABHR (Associação Brasileira de História das Religiões) lançaram notas públicas em defesa da professora. Registro aqui toda a minha solidariedade a Marlene De Fáveri.
Post do idealizador do Escola
Sem Partido
Não precisa ser um gênio pra saber quem está por trás disso -- a Escola Sem Partido, conhecida por nós professores como Lei da Mordaça. Mesmo tendo o Congresso mais conservador de todos os tempos a seu dispor, o movimento reaça está enfrentando dificuldade em aprovar leis que proíbam a doutrinação da "hegemonia esquerdista" nas escolas e universidades. Até agora, estão levando uma lavada nas enquetes públicas sobre o tema. Mas continuam na ativa: pedem que alunos levem exemplos de professores doutrinadores, numa legítima caça às bruxas. 
Ano passado, falei de uma deputada cristã que pediu "providências legais" contra um professor de uma escola em Brasília. Ele havia solicitado aos seus alunos do segundo ano do ensino médio um trabalho sobre homofobia. Para a deputada, discutir homofobia equivale à doutrinação. 
Bolsonaro e seus seguidores expõem professoras há anos (é só ver o que ele fez contra Tatiana Lionço, chegando a editar uma palestra). A onda agora, cada vez mais frequente, é gravar o que professores falam em aula para expô-los, totalmente fora de qualquer contexto, a uma turba previamente programada para odiar quem e o que vão ouvir.
Lógico que a aluna processando a professora diz que está sozinha, que é um ato independente. É a narrativa que a direita adora, de uma pobre aluna desamparada lutando contra universidades e sindicatos comunistas. 
O fato é que em fevereiro ela foi chamada para contar o seu caso na Câmara dos Deputados. 
Sob os olhares atentos de Marco Feliciano, Eduardo Bolsonaro e outros reaças, a moça mente na cara dura ao dizer que alunos a denunciaram à orientadora por ela (a aluna) ter fotos na internet com sua família e alguns versículos da Bíblia. No próprio email que a aluna lê da orientadora fica claro que não foi por isso que ela foi "denunciada" (sério, alguém consegue imaginar colegas mandando email pra uma professora universitária porque uma orientanda tem fotos da família e versículos da Bíblia?), e sim por falar um monte de asneiras anti-feministas. No email que a aluna lê, a professora diz: "Você tem todo direito de ser anti-feminista ou conservadora, mas não combina com esta pesquisa [que você está fazendo]". 
Toda a fala da aluna tenta levar a crer que ela foi perseguida por ser cristã, apesar de não haver nada no que ela mostra que prove isso. Ela usa imagens tiradas do DCE da Udesc (que não tem qualquer relação com a professora) como "provas" da mentalidade anti-cristã e esquerdista. E se indigna que tenha que aceitar uma "hipótese" (o feminismo?) antes de ser comprovado. 
Ahn, o feminismo não é uma hipótese. É um movimento cultural e acadêmico de suma importância, provavelmente o maior movimento revolucionário do século 20. Tem uma vasta produção acadêmica -- internacional, interdisciplinar. Se uma aluna (ou aluno) procura uma professora (ou professor) desta linha de pesquisa para orientá-la, ela terá que se basear no amplo arcabouço teórico desta área. É assim em qualquer área. Se a pessoa vai fazer mestrado em, sei lá, genética, ela terá que ler livros e artigos sobre o tema. Seria ridículo fazer vídeos nas redes sociais sendo chamada de "doutora" para falar contra a genética. 
Eu consigo imaginar o que aconteceu. Uma aluna passa no mestrado e a professora, sem saber nada da aluna (a aluna, pelo contrário, sabe a linha de pesquisa de cada professor), aceita orientá-la. Uma semana depois, estudantes começam a enviar links pra orientadora perguntando "Você sabe o que uma de suas orientandas fala publicamente?". É o horror, porque essa aluna vai sair por aí com um diploma da Udesc chamando Simone de Beauvoir de "nazista e pedófila" e ensinando que Hitler era esquerdopata. Nenhum orientador no universo quer estar associado a alunos ignorantes, porque é o seu nome que está em jogo. E orientadores têm todo o direito de dispensar orientandos (e vice-versa: alunos também podem pedir troca de orientadores, apresentando justificativas). 
É complicado. Mas o fato da universidade ser pública não quer dizer que pode qualquer coisa. Dou um caso real. Um reaça se inscreveu num curso à distância sobre Raça e Gênero na Universidade Federal de Mato Grosso. O aluno foi tão mal educado, machista, racista e "inconveniente" (pra usar um eufemismo), que causou um grande número de evasões. As demais alunas simplesmente não queriam ficar na mesa sala (mesmo à distância) que o mascu. E a coordenadora do curso não podia expulsar o aluno. Finalmente, as professoras se aproveitaram das inúmeras queixas do aluno (porque ele ainda reclamava por não ser escutado), e "aceitaram sua saída" (aí o cara fez um blog mascu e escreveu quinhentos posts contra mim, sem exagero. Foi assim que fiquei sabendo dessa história). 
Quer um outro caso? Este aconteceu no final do ano. Um mascu tem um chan, e nesse chan ele promove ações contra várias pessoas, principalmente feministas e esquerdistas. Há inúmeros boletins de ocorrência em todo o Brasil contra o sujeito, mas, como o chan é anônimo, criptografado, hospedado na Malásia, é difícil provar que o autor é ele, embora toda a polícia saiba que é. Em novembro, uma das vítimas do chan foi um professor de uma universidade federal no Paraná. Esse professor trocou alguns tuítes comigo, e por conta disso teve seus dados pessoais expostos e recebeu várias ameaças de morte e estupro contra sua filha de doze anos. 
Pois bem, o dono do chan onde grande parte dessas ameaças foram orquestradas se inscreveu para entrar no mestrado do mesmo curso (Ciências da Computação) e universidade do professor que estava ameaçando. Participou da seleção de mestrado, e só não passou porque um outro professor (o professor que estava sendo ameaçado não estava na comissão) decidiu ver o currículo Lattes dos candidatos online (não impressos). E assim que digitou o nome do criminoso, veio toda a ficha corrida dele. Imagina que beleza se o mentecapto passa no mestrado e solicita como orientador o professor que estava ameaçando. 
Deve haver limites. A internet muitas vezes é um palco aberto e iluminado para vários tipos de fascistas malucos, mas a universidade não pode ser assim. 

UPDATE: Aluna deu entrevista ao Diário Catarinense insistindo que foi discriminada e perseguida por ser cristã. Se ela foi discriminada ou perseguida já é altamente duvidoso, mas certamente não foi por ser cristã, e sim por ser uma olavette anti-feminista que publicava altas bobagens nas suas redes sociais (como esta ao lado). Desculpe a colega se ao ler esta estupidez ela não queira fazer um trabalho com você num mestrado de História numa linha de pesquisa feminista. Ou a orientadora não quiser te orientar. "Ninguém queria ficar comigo na hora do lanche", queixa-se a aluna. Quantos doze anos você tem, moça?
UPDATE em 11/4/17: A professora Marlene de Fáveri falou com o Portal Catarinas sobre o caso. Vejam, assistam, informem-se! 

terça-feira, 28 de março de 2017

CARTAZES FABULOSOS DE MANIFESTAÇÕES COXINHAS

O cartaz acima, visto numa manifestação reaça em Belo Horizonte (pensei que no último domingo, mas parece que o protesto mais recente foi um completo fiasco -- em Brasília, tinha mais policial do que gente pra tirar selfie com eles), é um primor da blasfêmia.
E uma das notícias ressuscitadas hoje, sobre como o prefeito de São Paulo, João Dóriase valeu de transações ilícitas nas Ilhas Virgens para comprar um apartamento em Miami, me lembrou de um cartaz fascinante visto em alguma manifestação do ano passado. 
É aquela lenda de que rico é honesto porque não precisa roubar. De fato, precisar, não precisa...

segunda-feira, 27 de março de 2017

SE VOCÊ CONHECE UM CHAN, VOCÊ CONHECE TODOS

Pessoas queridas, hoje estou sem tempo para escrever um post, mas queria recomendar um longo artigo do escritor e autor de histórias em quadrinhos Dale Beran que a Folha traduziu e publicou e que um monte de gente me recomendou. É sobre a criação e a ideologia do 4chan (e dos chans de maneira geral). 
Como diz Beran: "O mundo real, acima do porão da casa de suas mães, era o lugar onde eles não davam certo -- talvez um lugar que eles não entendiam. [...] Era uma cultura que celebrava o fracasso". 
Para quem nem sabe o que é um chan (um fórum anônimo em que os arquivos são deletados com frequência), vale a pena ler para entender esse fenômeno. 
Para quem, como eu, conhece chans (ou pelo menos o chan que mais me ataca e ameaça) muito mais do que gostaria, é uma oportunidade para conhecer melhor a origem de um dos maiores chans.
Episódio da série The Good Fight
O artigo fala do primeiro protesto desses "anões" (como eles próprios se chamam, derivado de anônimos), contra a cientologia, "pelo lulz" (tudo nos chans é para "gerar risadas", principalmente ameaçar mulheres de estupro), do GamerGate, de como um loser como Milo Yannopoulos (destruído recentemente num episódio da ótima série The Good Fight, uma continuação de The Good Wife, sem Alicia) é a personificação dos chans, e da ligação deles com Trump: 
"Era como se todos esses jovens descontentes estivessem à espera de uma figura que, não tendo realizado nada na vida, fazia de conta que tinha realizado tudo; alguém que, usando as ferramentas da fantasia, podia transformar sua derrota (no jargão do 4chan, 'fail') em uma vitória ('win'). [...] O comportamento incompetente, errático e ridículo de Trump é o pilar em que se apoiam seus partidários mais jovens. [...] A natureza burlesca [de Trump, e vale também para Bolsonaro] não parece ser uma desvantagem; pelo contrário, para seus apoiadores, é um trunfo. [...] 
"Os eleitores de Trump votaram no vigarista, no labirinto sem centro, porque labirinto sem centro é como eles se sentem. Um labirinto sem centro é a descrição perfeita do porão da casa da mãe deles, com um terminal de computador a partir do qual mergulham numa sequência interminável de mundos de fantasia escapista". 
Beran descreve os channers (muitos são mascus) com exatidão: "É preciso entender esse grupo como pessoas que fracassaram no mundo real e se refugiaram no mundo virtual. São homens sem emprego, perspectivas na vida e, por extensão, sem namoradas. [...] Em consequência de seu fracasso, o conceito distante e abstrato de mulheres de carne e osso provoca neles sentimentos de humilhação e rejeição". Incrível como, se você conhece um chan, você conhece todos
É um artigo muito interessante. Diz que a única solução que a direita tem para oferecer a esses homens que moram nos porões de suas mães (e, ao mesmo tempo, chamam as mulheres de vadias, interesseiras e parasitas) é "Continuem a se isolar". Mas também diz que a esquerda não oferece nada pra eles, além de insistir que o problema deles não existe. 
Beran conclui: "A esquerda não deve ficar paralisada e em choque diante dos deploráveis. Deve enxergá-los como sintoma de um problema maior, que só ela pode resolver".