quarta-feira, 22 de março de 2017

MINHA SOLIDARIEDADE A EDUARDO GUIMARÃES

Eu não gosto do blogueiro Eduardo Guimarães. Nunca gostei, não gosto do seu estilo, vi o sujeito ser machista algumas vezes. Mesmo que nós dois sejamos de esquerda, ele também não gosta de mim (num dos Encontros de Blogueiros Progressistas, segundo me contaram, ele reclamou por eu ter sido convidada). Mas seu Blog da Cidadania, que existe há mais tempo ainda que o meu, é um blog relevante da esquerda.
Ontem a Polícia Federal, a mando do juiz Sérgio Moro, deu ordens de condução coercitiva e busca e apreensão. Às seis da manhã, bateram na porta de Eduardo, em SP, e o levaram à delegacia. Confiscaram todos os seus equipamentos eletrônicos e também o celular da esposa. Eu não preciso gostar de Eduardo para saber que isso é completamente errado.
Ano passado, Eduardo havia publicado em seu blog a informação de que Lula seria alvo do Lava Jato. A polícia quis saber quem passou essa informação. Eduardo negou-se a revelar a fonte. A sua prisão ontem -- perdão, "condução coercitiva" -- fere o direito constitucional do sigilo à fonte, garantido a todos os jornalistas, com ou sem diploma (Eduardo não tem diploma e é comerciante, além de blogueiro). 
A nota da Justiça Federal do Paraná justificando a ação da PF é impressionante. Ela nega ter violado qualquer direito constitucional do blogueiro porque, segundo o que a Justiça decidiu, o blog de Eduardo não seria um veículo jornalístico, e sim um "veículo de propaganda política". Quando li isso, não acreditei. Pensei: só porque o cara apoia partidos de esquerda, o blog dele é de "propaganda política"? Sob essa ótica, todos os noticiários da grande mídia seriam "veículos de propaganda política", já que eles também têm lado. 
Mas não. A justificativa para negar a Eduardo o rótulo de jornalista e, assim, negar-lhe direitos, é que o blogueiro foi candidato a vereador pelo PCdoB-SP em 2016. Ele ter sido candidato e ter um blog faz de seu blog "veículo de propaganda política". Não é fascinante? Eduardo tem o blog há doze anos. Porém, como ele se candidatou a um cargo eletivo numa fração dessa dúzia de anos, isso invalida qualquer trabalho jornalístico que o blog tenha realizado. 
O que aconteceu é muito sério. Põe em risco a liberdade de todos nós. Afinal, só em ditaduras que as preferências políticas de cada um são levadas em conta para decidir quem tem ou não direitos. 
Portanto, mais importante do que qualquer picuinha ou divergência, é a ameaça que paira sobre todos nós, blogueiros independentes. Minha solidariedade a Eduardo Guimarães. 

terça-feira, 21 de março de 2017

MENININHA INDOMÁVEL ENFRENTA TOURO

Ok, de cara quero dizer que este post não tem a menor importância, principalmente se consideramos que estão querendo aprovar a terceirização (você conhece algum trabalhador que defende a terceirização? Eu nunca conheci!), o fim da aposentadoria e de direitos trabalhistas. Aliás, por favor, se alguém quiser escrever guest posts sobre esses temas, é só mandar que eu publico.
Mas a história das estátuas em Wall Street é muito interessante. Quase todo mundo conhece a icônica estátua do touro na frente da bolsa de valores. É uma estátua incrível (vamos admitir), e a segunda mais visitada pelos turistas em Nova York (eu também posei ao lado do touro quando estive em NY em 2008, mas não faço a menor ideia onde o maridão arquiva as fotos). 
Só perde pra Estátua da Liberdade. Eu pensava que o touro estivesse fincado lá há muitas décadas, mas não, é relativamente recente. 
Foi um presente do escultor italiano Arturo Di Modica. Dez dias antes do Natal de 1989 (e dois anos depois de uma das piores quedas financeiras da história), ele deixou a estátua de bronze de 3 toneladas e meia lá, no meio da madrugada. 
Custou 350 mil dólares do seu próprio bolso. Os executivos da Bolsa não acharam tão bacana, e contrataram um caminhão para levar a estátua pra um outro bairro, Queens. Só depois de uma campanha é que a administração da cidade encontrou um lugar pra ela próximo à Bolsa. 
E Di Modica, que já era rico (afinal, você teria 350 mil dólares pra moldar uma estátua e dá-la de presente pra Bolsa? O italiano já tinha um estúdio em Manhattan e uma Ferrari na época), ficou mais rico ainda, reproduzindo sua criação para várias outras cidades e comercializando miniaturas.
É inacreditável o número de pessoas que posam tocando nas bolas do touro
Este ano, na véspera do Dia Internacional da Mulher, Wall Street amanheceu com outra surpresa: a estátua de uma menina corajosa encarando o touro. A estátua da "Fearless Girl" (Garota Destemida) foi automaticamente aprovada por quase todos que viram as fotos. É uma imagem realmente brilhante -- uma menina enfrenta um touro furioso, símbolo do capitalismo. 
Na verdade a imagem (sempre cheia
de turistas) deve estar mais assim
Infelizmente, a estátua da menina, esculpida por Kristen Visbal, também faz parte de uma ação capitalista. É uma campanha publicitária de uma grande empresa de investimentos sediada em Boston. A intenção, claro, é boa: chamar a atenção para a desiguldade de gênero no mundo dos negócios. Nos pés da estátua, uma plaquinha diz: "Conheça o poder das mulheres na liderança. Elas fazem a diferença". A menina tem permissão pra ficar até o dia 2 de abril. Depois disso, vai depender da vontade popular (que, pelo jeito, quer que ela se mantenha lá, firme). 
O escultor do touro não gostou. Pra ele, ter uma garota desafiando sua criação faz do touro um vilão, e não o que ele tinha pensado originalmente (prosperidade e força da América). 
Ele não é o único a não gostar da estátua da menininha. Uma colunista do site mais à esquerda Slate escreveu (minha tradução): 
"A menina supostamente está encarando destemidamente o touro, mas ninguém precisa ser um matador profissional para saber que numa competição entre um touro gigante e um ser humano minúsculo, o touro vai ganhar. (E por que ela está contra o touro, se ele representa capitalismo e sucesso?). 'Vamos só mandar essa menina lutar contra um touro e ver o que acontece' é o que as figuras de Wall Street chamam de investimento de alto risco. Encarar um touro quando você é uma menina de 38 quilos no ensino fundamental não é corajoso; representa um fracasso sistemático da sociedade. Dê a essa menina recursos para combater o touro em vez de mandá-la lá sozinha: uma capa vermelha, um time de assistentes com noções de combate a touros, autonomia corporal e uma chance de salário igual. Caso contrário, o touro vai esmagá-la todas as vezes". 
Um colunista de outro veículo disse o óbvio -- que uma estátua não é suficiente pra acabar com a desigualdade de gênero, e mesmo que todos os líderes homens fossem substituídos por líderes mulheres, a opressão capitalista não iria acabar. E completou: "A imagem de uma criança prestes a ser destruída por uma criatura gigante e descontrolada, que ninguém pode domar, é uma imagem mais verdadeira da relação de Wall Street com o resto de nós do que qualquer outra". 
Tem razão, mas eu gostei do simbolismo. E, pelo menos no meu mundo idealista, eu ainda apostaria na menininha. 

segunda-feira, 20 de março de 2017

GORDOFÓBICOS NÃO APROVAM LINHA DE ROUPAS PARA GORDAS SE EXERCITAREM

Faz pouco tempo a Nike lançou sua primeira coleção plus size. Fez o óbvio: lembrou que pessoas gordas também fazem exercícios físicos (nem todas, claro, assim como nem todas as pessoas magras se exercitam). 
De modo geral, a linha foi bem recebida. Várias pessoas gordas relataram como é difícil encontrar roupas de ginástica pra elas. Mas também teve um monte de gente que reclamou que, com essa nova coleção, a marca estaria incentivando um modelo de vida que não é saudável. Alguns até falaram em boicotar a Nike.
Não é ridículo? Fazer ginástica é considerado um hábito saudável. Praticamente todos os estudos mostram que quem leva um estilo de vida menos sedentário vive mais e com mais saúde. Portanto, todo mundo deveria ficar feliz que uma marca finalmente faça roupas para que pessoas fora do padrão possam se exercitar e ficar mais saudáveis, certo? Errado. Porque essa gente que odeia pessoas gordas não está nem aí pra saúde delas. A preocupação com a saúde é apenas uma desculpa para impor um padrão de beleza.
Em primeiro lugar, vamos deixar claro que gente que odeia pessoas gordas odeia muito mais mulheres gordas que homens gordos. Afinal, no nosso mundo homens podem se destacar pelo que fazem, não pela sua aparência. Mas, pras mulheres, a aparência física está acima de tudo, e todas nós, independente do que fazemos, das nossas conquistas, da nossa idade, seremos avaliadas de acordo com um padrão de beleza racista, gordofóbico e excludente. 
Homem gordo pode ser bonachão, simpático. Eu já li várias vezes no Twitter elogios aos gordos -- eles riem das próprias piadas! Você pode praticar bullying contra eles (pode? deve?) que eles levam numa boa! Eles são divertidos! Mas mulher gorda não tem esses privilégios não. Mulher gorda é apenas... gorda. E ela será frequentemente lembrada que é gorda (e, portanto, inadequada, errada, alguém moralmente inferior que nunca vai conseguir um homem -- como se toda mulher, de qualquer formato, quisesse um homem).
A Nike sabe que a gordofobia é muito mais pesada com as gordas, tanto que lançou a coleção pensando nas atletas mulheres plus size. Numa declaração, disse: "Nós celebramos a diversidade das atletas, da etnia ao formato do corpo". E escolheu mulheres "cheinhas" pra lançar a linha. 
Isso não é exatamente novo. Uma campanha da Sport England de 2014 chamada "This girl can" (esta garota pode)
foi feita para motivar mulheres de todos os tipos físicos a fazerem exercíos sem se preocupar em serem julgadas. Para tanto, usou, além de imagens de várias mulheres praticando vários esportes e atividades, expressões como "I jiggle, therefore I am" (eu sacolejo, logo existo), e "Sweating like a pig, feeling like a fox" (suando como um porco, me sentindo uma maravilha). 
Por que será que precisa de campanha para fazer gordas se exercitarem sem se envergonharem? Bom, se você é gorda e já frequentou uma academia, você sabe muito bem que será alvo de piadinhas. Se você é gorda e sair pra correr na rua, muito cara vai se sentir na obrigação de te dizer alguma gracinha (eles já dizem de qualquer jeito). O mundo gostaria que você fosse magra, mas de jeito nenhum que ele vai te ajudar a chegar lá. Se os caras realmente quisessem que gordas se exercitassem para emagrecerem, eles as parabenizariam, não ririam de suas caras.
Por exemplo, assim começava um texto de 2014 na Folha de São Paulo: "Não basta ser gordinha, ainda tem que ficar parecendo um queijo provolone amarrado se desmanchando". Foi isso que escreveu a colunista Mariliz Pereira Jorge se "solidarizando" com as gordas que fazem qualquer tipo de exercício físico. É uma ótima representação de body shaming. Ou seja, gordas já são erradas, mas gordas se mexendo são mais erradas ainda. Elas suam! Elas fedem, eca! (e só gordas suam e fedem).
Veja a foto ao lado. É de uma gorda sozinha numa academia, sentada numa esteira. Faz uns anos, a imagem viralizou nos EUA. Apareceu até na Oprah. O pessoal ria da gorda, que não sabia como se exercitar. Como ela ia querer emagrecer desse jeito? "Você está fazendo errado", disseram pra moça (a história real da foto, contada pela própria gorda, mostra como as imagens podem sim mentir. Ela já tinha se exercitado. Estava no final da noite, era a última na academia e, antes de pegar o ônibus pra ir embora, sentou pra descansar. Aí passou um cara, achou o cenário hilário, tirou a foto sem ela saber, e, pouco depois, o país inteiro estava sacananeando a pobre moça. Teriam tirado a foto se a moça fosse magra?).
A gordofobia faz com que as pessoas partam do princípio que gordas não fazem exercícios físicos (porque toda gorda é preguiçosa e porque, se fizessem exercícios, não seriam gordas), o que obviamente não é verdade. Tampouco é verdade que toda gorda que faz exercícios o faz para emagrecer. Talvez ela só queira ser saudável. E é possível ser gorda e saudável. Tem até pesquisa provando que idosos com excesso de peso vivem mais que idosos magros. 
As reações à nova coleção da Nike vão no mesmo sentido: a marca está promovendo obesidade! A marca está dizendo que tudo bem ser gorda! Nossa, que horror! Onde é que esse mundo vai parar?!
E nós mulheres gordas observamos esses carinhas malhando a marca por incentivar gordas a se exercitarem e pensamos: opa, nós já sabíamos! Nós já sabíamos que vocês estão se lixando pra nossa saúde. Vocês só se preocupam com a nossa aparência. E o "se preocupam" pode ser traduzido por "nós avaliamos o que é ou não bonito". 
Ah, é? E quem morreu e te nomeou deus? 
Existem pessoas de todos os tipos e formatos. E todas podem ser saudáveis. Não é porque os gordofóbicos aprenderam a detestar mulheres gordas que elas vão desaparecer. Lidem com isso. 
E, no próximo insulto, sejam sinceros. Admitam que vocês não nos xingam para nos forçar a emagrecer. Vocês querem mais é que a gente morra.
E talvez, apenas talvez, o sentimento seja recíproco. 

domingo, 19 de março de 2017

AVISOS DE UM DOMINGO

Eu no documentário da Ellen Paes, Eu, Você, Todas Nós

Alguns avisos, e domingo é um dia bom pra isso.
Pra quem ainda não viu, recomendo muito o documentário Eu, Você, Todas Nós, que foi lançado na semana do Dia Internacional da Mulher. É um lindo documentário da Ellen Paes (que já colaborou com um guest post aqui no blog) mostrando como o feminismo é plural -- tão plural que costumamos falar feminismos, porque de fato há muitos, alguns até divergentes entre si (mas insisto: devemos nos focar no que nos une, não no que nos separa). 
Fiquei muito honrada por ter participado deste importante documentário. 
Ele já passou no Canal Futura e ainda passará outras vezes. Vale a pena passar o doc na sua escola, universidade, sindicato, e organizar um debate logo em seguida. 
O Luluzinha Camp escreveu sobre o lançamento do doc e sobre algumas das personagens. 
Eu também fui entrevistada pelo Lado Bi para um programa (só áudio) sobre misoginia. 
Aproveito para divulgar o projeto feminista Divas da História. Não estou envolvida nisso, é da Amanda, mas é um projeto bacana sobre fazer bonecas de personagens reais para crianças. Está precisando de financiamento coletivo para deslanchar. 
Dia 30 de março vou participar de um belo evento da ECA - USP, mas desta vez por vídeo conferência (todo mundo anda sem verba pra custear viagens. Só pra vocês terem uma ideia, um Senac de SP me convidou para palestrar lá no dia 8 de março. Sabem quanto ofereceram pagar? 300 reais! Tipo, 300 reais pra todas as despesas com passagens aéreas, hotel, comida etc. Óbvio que eu tive que declinar. Mas quando até o Senac tá sem grana, é porque a coisa tá feia mesmo!). Bom, eu preferiria estar na USP ao vivo pra abraçar a galera, mas a Semana Emancipa Artes e Comunicações da USP parece que será ótima. Imagino que vão disponibilizar a transmissão da palestra, e aí eu aviso vocês.
Poster do último módulo
(semana que vem eu
coloco os posters que
fizemos pro novo curso)
Ah, as inscrições estão abertas para o próximo módulo do meu curso de extensão Discutindo gênero através de cinema e literatura. As aulas serão quinzenais, sempre às terças, entre 11:30 e 13:30, na UFC, CH1, Benfica. A primeira aula já está marcada pro dia 4 de abril. Modéstia à parte (até porque eu contei com inúmeras sugestões da última turma), o conteúdo está excelente. Vou ver se domingo que vem coloco o cronograma aqui (eu queria esperar até ter todos os textos que usaremos, mas vou precisar contar com a boa vontade dos alunos pra escanear alguns que não estão online, aí posso compartilhar tudo com vocês). O curso é grátis, aberto a toda comunidade (não precisa ser aluno, não precisa estudar na UFC), e rende um certificado no final de 32 horas. Ano passado o pessoal foi muito participativo e as discussões foram sensacionais. Gente de Fortaleza e região, pra se inscrever é só me enviar um email (lolaescreva@gmail.com). Por favor, se inscrevam apenas se forem fazer o curso. 
Quem quiser comprar um exemplar do Golpe 16 comigo, autografado, enviado pelo correio e tal, aviso que tenho exatamente quatro exemplares pra vender. E não vou pedir mais pra editora. Então é literalmente a última chance mesmo! (só mande um email antes pra confirmar se ainda tem). 
Não posso deixar de agradecer de coração a todas as leitoras e leitores que têm colaborado financeiramente comigo, com o blog. Obrigada mesmo, vocês são muito generosxs!

sexta-feira, 17 de março de 2017

DA VICE-PRESIDENTE DO TINDER PRA MACHISTAS: "VAZEM!"

Uma das melhores notícias que li semana passada, ou pelo menos uma das mais divertidas, foi esta sobre a vice-presidente do Tinder.
Rosette Pambakian em ação
A vice da empresa, Rosette Pambakian, publicou uma carta aberta em que não mede palavras: "O Tinder tem uma política que não tolera desrespeito. Sem discursos sexistas. Sem porcos machistas. Sem brincadeiras de mau gosto. Sem babacas incapazes de superar suas ineptidões tempo suficiente para ter uma conversa decente com outra pessoa no Tinder". 
Essas palavras deliciosas (e verdadeiras -- impressionante como tem babacas nas redes sociais que não conseguem manter uma conversa!) vem como resposta a um caso que ficou bastante conhecido. Uma usuária do Tinder publicou prints de um papo que teve com um tal de "Nick", que passou a xingar a moça de "vadia" (entre outros insultos machistas) depois que ela parou de responder suas mensagens. Com a repercussão, "Nick" foi banido da plataforma. Pambakain escreveu, no melhor estilo "Mexeu com uma, mexeu com todas":
"Ei, Nick (e todos que se comportam como ele), nós estamos varrendo vocês para longe [...]. Eu fiquei pessoalmente ofendida com o que você disse. As suas palavras para aquela mulher foram um ataque, não só contra ela, como contra todas nós. Todos os dias, nós trabalhamos para livrar nosso ecossistema de parasitas como você. Eu nunca vou entender por que alguém escolhe espalhar ódio pelo mundo, mas você não tem essa opção no Tinder. Ódio não é uma opção e nós continuaremos a enfrentá-lo onde quer que ele mostre sua cara feia.
Eu correria pra contra-
tar um machista que
separa sujeito e predi-
cado com vírgula
"Você tem muito a aprender, Nick. Vejo que você estudou negócios globais e que participou dos programas para jovens empreendedores e de gestão de tecnologia da sua universidade. Excelentes escolhas. Já que agora vai ter que procurar muito para encontrar uma empresa que contrate você [Nota da Lolinha: Nick, você já enviou seu currículo pra Alezzia?]. Não sei se soube, mas mais e mais mulheres estão se tornando empreendedoras e líderes empresariais de sucesso. Obviamente, você não andou prestando atenção. A voz feminina está ficando cada vez mais abrangente. Então deixe-me dizer isso em alto e bom som: você e o seu tipo não são bem-vindos no nosso mundo. E nós temos o poder para manter você fora dele".
Ha ha, mas que bela carta! Disse tudo e mais um pouco. Cutucou a ferida -- nada deve doer tanto a um machista como ser expulso de uma rede por uma mulher no comando. 
Assim que li a notícia, perguntei pro maridão se ele sabia o que era Tinder. Ele tinha uma vaga ideia: "É uma rede de relacionamentos, não é?" Então eu fiz a segunda pergunta capciosa: "Você está no Tinder, seu adúltero?", ao que ele respondeu que era meio difícil, já que trata-se de um aplicativo, e nós estamos entre as seis pessoas do Brasil que não têm celular (cálculo conservador).
Silvio está muito mais bem-informado sobre o Tinder do que eu! Eu nem sabia que o Tinder era um aplicativo (melhor não entrar nos detalhes sobre eu mal saber que diabos é um aplicativo). O que eu sei é que esses dias mascus estavam planejando lançar um perfil meu no Tinder. Tipo, com meu nome, minhas fotos, e, de resto, nada a ver com a minha realidade. Bom, se aparecer alguma Lola ou Silvio no Tinder, vocês já sabem que não somos nós. Não poderíamos entrar nem se quiséssemos (ou é possível entrar sem ter celular? Ok, não importa!).
Mas apesar de eu ser completamente analfa nessas novidades tecnológicas tipo app e celular, já vi muitas mulheres reclamarem do comportamento de rapazes no Tinder. O que Nick fez (xingar uma mulher que parou de responder suas mensagens de "vadia") parece ser super comum. Outra reclamação da mulherada é a rapidez estonteante com que um sujeito desconhecido manda fotos de seu pênis (sem ninguém ter pedido, óbvio). Por favor, nos comentários deste post, me recordem dos outros empecilhos.
O pior mesmo é que eu vejo em fóruns mascus que quase todos esses misóginos fracassados estão no Tinder. Claro que eles não escrevem "Sou um mascu, odeio mulheres, chamo todas de vadias, inclusive minha mãe, e estou no Tinder pra tentar perder minha virgindade". Eles usam o que chamam de "máscara social" (ou seja, disfarçam a misoginia -- até que a moça pare de se comunicar com eles) e, pelo jeito, adotam nomes e fotos falsas, de modelos, pra ver se assim conseguem atrair alguém. Pelas seus relatos, mesmo com todos esses disfarces, poucas vezes têm algum sucesso, mas imagina o nojo que deve ser transar com um mascu? (sem falar que ter prazer sexual com um cara que não sabe da existência do clitóris deve ser uma missão impossível). 
E pode ser perigoso também sair com um mascu. Nas suas narrativas (certamente ficcionais), um relata para os outros como saiu com uma mulher que conheceu no Tinder, a estuprou e depois a deixou no meio de um beco abandonado à noite (como sempre diz uma leitora, as coisas que esses mascus fazem no The Sims...).
E então, mulheres, como vocês fazem pra filtrar esses energúmenos que, mesmo que nunca tenham tido a "oportunidade" de estuprar e abandonar uma mulher, fantasiam fazer isso? 
Acho louvável a promessa da vice-presidente da Tinder de varrer os porcos machistas pra longe da plataforma, mas não deve ser nada fácil conseguir essa façanha. O que vocês teriam a propor? Me contem!